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Pelo interior da Armênia: Paisagens, mosteiros, e igrejas de pedra

A Armênia é um destino para quem se interessa por História, cultura, e religião — tudo isso envelopado nas paisagens áridas e elevadas aqui do Cáucaso. Poucas vezes eu encontrei no mundo um país tão rugoso, cheio de altos e baixos. Não vi uma gota de chuva que umedecesse estas terras secas, embora sem dúvida chova algo em outras épocas. E vi um povo orgulhoso da sua identidade e muito ciente do seu lugar na História.

Não há como falar de Armênia sem falar em Cristianismo — os próprios armênios não deixam. Seria quase como falar de judeus sem falar em judaísmo. Para uma nação que nem sempre teve o seu próprio país e viveu boa parte da História sob júdice de outros povos (persas, turcos, romanos), identidade linguística e religiosa são fundamentais. Nada orgulha mais os armênios que destacar como foram os primeiros a abraçar o Cristianismo como religião oficial, em 301 d.C.

Depois de conhecer sua capital, Erevan, chegou a hora de percorrer alguns sítios de destaque pelo interior do país: o Templo de Garni, do tempo dos romanos; o impressionante mosteiro de pedra de Geghard; e a catedral mais antiga do mundo, sede da Igreja Apostólica da Armênia, Etchmiadzin. Independente da sua posição teológica, estes são lugares lindos de visitar. De quebra, eu conheceria ainda outras pitadas neste passeio com o patriarca da família que me albergou.

Sol na cara, camisa branca pra reduzir o calor, e a paisagem de constantes relevos do interior da Armênia lá atrás.

A manhã começou ensolarada, com aquele ar fresquinho que você sabe que não vai durar muito, aquela pinta de que vai fazer calor. Acordei com o barulho do ventilador no meu quarto-dormitório, no quarto andar do prédio.

A vista da janela, para este lado menos glamuroso e mais ordinário de Erevan, não era nada especial. Mas o café da manhã, incluso no preço, era famoso. Como parte do pacote no seu jeitão de “gente do interior” (inclusas aí a sociabilidade e a inabilidade em formar filas), os armênios também têm o gosto por comer fartamente, e quitutes gostosos.

Eu havia conhecido Lília, a simpática esposa de Aram (dono do albergue), e ela subia toda manhã para nos trazer guloseimas. Num apartamento no terceiro andar viviam ela, o esposo, os pais deste, e pelo menos um par de crianças que avistei da porta. Fui lá na noite anterior para acertar o passeio de hoje, e o pai de Aram (um senhor disposto de seus 60 anos e que acertava algo de inglês) me disse com determinação que ele é quem iria comigo fazer o passeio de carro.

O café da manhã incluía sempre uns quitutes salgados (variava a cada manhã) e, o mais importante, geléias caseiras de frutas típicas aqui na Armênia, como abricós (damascos) e ameixas frescas. Isso além de ovos, café, e alguns pães doces.

A vista da minha janela naquela manhã em Erevan.
Quitutes de massa no café da manhã, com queixo, tomates e azeitonas pretas. Muito semelhante ao que você encontra na Turquia — uma delícia.
As épicas geleias caseiras de frutas diversas. Dava vontade de comer tudo direto do pote com a colher.

Eu não entendo por que é que esses europeus gostam de comer sobremesa como café da manhã“, soltou-me a garota filipina que também estava no albergue. Achei aquela observação cultural fascinante. Confesso que eu também sou a favor de menos açúcar e de algo mais substancioso pela manhã, embora as geleias estivessem saborosíssimas.

E nas Filipinas o que vocês normalmente comem no café da manhã?“, tive a iniciativa de lhe perguntar.

Arroz com carne de porco“, respondeu-me ela com a naturalidade de quem diz que mamou quando era bebê.

Glup. Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Falando em terra, despedi-me dela e fui ao andar de baixo buscar o coroa para vermos estas terras. Ele já estava pronto, com a chave do carro em mãos, gritou da porta algumas coisas em armênio para a mulher dentro do apartamento, e fomos. A nossa primeira parada seria o Templo de Garni, do tempo dos romanos.

O Templo de Garni, originalmente construído no século I d.C. Acredita-se ter sido ao deus Mihr, do tempo pré-cristão na Armênia. A Armênia gozava de certa autonomia mas era um estado vassalo do Império Romano, alternando-se entre este e o Império Persa, aqui vizinho. Esta sempre foi uma região de fronteira.
O Templo de Garni hoje com a paisagem rugosa lá atrás. O templo original, na verdade, caiu após terremoto em 1679 e só em 1975 terminou de ser reconstruído.
A vista para os arredores naquela manhã.
O Cáucaso mais ao norte se torna montanhas altas, com picos nevados e tudo. Aqui não é esse o caso, mas já se percebe um terreno de muitos altos e baixos. Não é à toa que aqui, em geral ao longo da História, ficava o fim dos territórios dos impérios.
Esta região nos idos do ano 500 d.C. A Armênia dominava um território bem maior que hoje, com parte do que está atualmente na Turquia e no Irã.
O mapa atual com a Armênia ali pequenininha, do tamanho do Estado de Alagoas, em laranja claro no interior do Cáucaso, entre os mares Negro e Cáspio. Até 1991 aqueles países coloridos ali eram todos parte da União Soviética.

Quando passamos na estrada, o pai de Aram me disse que num dia limpo teria sido possível avistar ao longe o Monte Ararat, montanha “nacional” dos armênios. Nem me dei conta na hora de que o monte hoje em dia se encontra em território turco.

Tudo o que eu via era a grama seca; não verde, mas amarela.

(Com a mudança climática global, essas áreas já secas são as que mais vão sofrer.)

Vistas a partir da estrada no interior da Armênia.

Dali a pouco chegamos ao Mosteiro de Geghard, um dos lugares mais impressionantes que já vi, com suas capelas talhadas na pedra e água (considerada benta) corrente por dentro da igreja.

Entrada para o Mosteiro de Geghard, no interior da Armênia.

O lugar foi estabelecido no século IV d.C. por São Gregório, o Iluminador, considerado santo patrono da Igreja Apostólica da Armênia. Foi ele o responsável pela conversão dos armênios ao cristianismo em 301 d.C. (Não confundir com outros vários Gregórios da hagiografia cristã, nem com o Papa Gregório que estabeleceu o calendário gregoriano em 1582.)

A capela principal, por onde flui um córrego de fonte considerada sagrada, foi erigida em 1215.

Tudo tem uma atmosfera que remonta ao cristianismo antigo, com muita simplicidade em vez de pompas. Algo soturno, sim, evocando as primeiras comunidades cristãs refugiadas nas cavernas, mas algo muito original e autêntico.

A capela principal em Geghard.
De perto.
Diante de uma das entradas.
Símbolos cristãos talhados na rocha.
Escritos em armênio, sob a luz do sol que entrava. (O alfabeto armênio foi criado no século V d.C.)
O interior.
Os vãos são escuros, e me lembram as cavernas e catacumbas onde as primeiras comunidades cristãs precisavam ser esconder de perseguição.
Um dos altares.
A água brota da rocha e corre ali pelo interior. Os armênios a têm como sagrada.
Mosteiro de Geghard.

Ali do lado de fora, com em outros lugares de visitação na Armênia, sempre há uma trupe de senhoras vendendo doces e frutas. Em Garni já haviam me oferecido experimentar dos lendários abricós (damascos) da Armênia. De fato, são deliciosos. Muito superiores àqueles que você encontra pelos supermercados da Europa. (No Brasil eu nunca vi ele fresco, só seco, a peso de ouro na época do Natal.)

Com um abricó (damasco) fresco na Armênia.
Belas frutas em generosas quantidades na Armênia.
Senhora vendendo doces na entrada do Mosteiro de Geghard. Aqueles compridos mais à direita são bem azedos, de frutas. No meio, também compridos, são cevizli sucuk [lê-se djê-VÍzli sudjúk], ou “salsicha de nozes”, com nozes dentro rodeadas de um a goma doce feita com extrato de uva. É o mesmo que você também encontra na Turquia, e os armênios utilizam o nome turco. Amo de paixão.
Já esse pão enorme, que as senhoras só vendiam inteiro (e eu lhes perguntava o que é que eu ia fazer com um desse todo sozinho), é com recheio doce de marzipã (que, se você não sabe, consiste duma massa açucarada feita de amêndoas).

Quando saí de Geghard, o pai de Aram me esperava, e ao me ver me chamou com a mão. Descobrira uma ameixeira no bosque ao lado do mosteiro, e me entregou uma sacola plástica convidando-me a pegar tantas quanto pudesse. Me vi tirando frutas do pé com o tio de cabelos brancos. Visitar a Armênia é tipo uma estadia na roça, com tudo que isso implica.

Nos arredores de Geghard, as pessoas faziam simpatias amarrando pedaços de pano e até sacolas plásticas nas árvores.
Umas ameixinhas brancas que coletamos.

Essas não são boas“, disse-me o pai de Aram já no carro. “Estão azedas. Na minha casa tem umas bem mais doces.

Ele tinha um jeito sério e pausado de conversar, como que puxando as palavras que sabia de inglês e sem desviar a vista da estrada.

Eu aproveitei para perguntar-lhe onde em Erevan eu poderia comprar (mais) daquelas salsichas de nozes, que adoro.

Não sei“, respondeu ele inabalado.

Uai, como assim esse tio vive aqui a vida inteira e não sabe onde comprar o negócio. Ele deve ter lido a minha cara (mesmo sem olhar), porque logo sentiu a necessidade de completar, de um jeito que eu achei engraçado — e revelador de o quanto a Armênia é tradicional.

Não é meu papel. Talvez Lília [mulher de Aram] saiba.

OK, meu tio, vou perguntar à mulher onde comprar doce.

Dali seguiu-se um breve silêncio, que ele viria a cortar com um tom inquisitivo em seu jeito sério.

Você tem medo de cachorro?

Não“, respondi querendo saber aonde ele queria chegar com aquilo.

Bom.” Foi tudo que ele me respondeu, mas logo eu saberia aonde iríamos: à casa dele provar das famosas ameixas doces que tinha por lá.

No caminho, o carro quebrou.

Estávamos ali naquele começo de tarde quente, das que há no Brasil. Aquela quietude do interior, um silêncio rural. Aquela atmosfera simples e rústica dos lugares pequenos.

Quando vi a fumaça subir pelo capô, imaginei oh-oh, aí vem coisa, mas não demorou demais ao pai de Aram solucionar o problema com a mesma tranquilidade costumeira. (Perdoem-me chamá-lo sempre de “pai de Aram” em vez de com o próprio nome, mas é que ele chegou a me dizer duas vezes e eu não entendi que nome era aquele, aí deixei pra lá. Até hoje não sei que nome ele tinha.)

A cara do interior da Armênia. Parece que você volta no tempo.

A propriedade do pai de Aram ficava nos arredores de Erevan, numa cidadezinha chamada Abovyan. Antes de irmos provar das ameixas, ele quis me mostrar uma das igrejas armênias mais recentes, uma linda e imponente edificação cor-de-telha também feita em pedra e no estilo arquitetônico que, você notará, é típico daqui.

É a Igreja de de Surp Hovhannes, como eles chamam São João (Batista). Ela foi patrocinada por um magnata armênio e inaugurada em 2013.

A Igreja de São João Batista em Abovyan, Armênia.
O interior, com suas arcadas arredondadas que caracteriza a arquitetura armênia desde o tempo dos romanos. A igreja deles é institucionalmente independente, mas teologicamente semelhante às igrejas ortodoxas grega e russa.
A cúpula vista por dentro.
A vista do exterior, por sob os arcos, para as típicas torres cônicas e, mais atrás, prédios do tempo em que aqui ainda era União Soviética (até 1991).

Essa foi uma parada rápida antes de almoçarmos. O pai de Aram pediu que eu não me demorasse na visita, pois já estávamos entrando pela tarde e o principal ainda estava por ser visto. Bebi uma água num dos abençoados bebedouros públicos que há pela Armênia para aplacar o calor, e seguimos de carro rumo à sua terra de ameixeiras doces.

Não é que as danadas são dulcíssimas mesmo? Fartei-me de ameixas frescas brancas e pretas tiradas do pé enquanto o pai de Aram foi buscar uns queijos e salsichas no lado de dentro. A casa era daquelas dignas do interior, com um quintal lateral de árvores frutíferas e um cachorro a nos saudar. Perguntei-me — e depois a ele — por que é que ele vivia num apartamento e não aqui. Ele me disse que vinha aqui de vez em quando, sempre que dava vontade, e que os netos em especial adoravam.

Ameixinhas brancas no pé. Pequenas, mas deliciosas.

Foi engraçado que eu peguei umas 10 pra lavar, ao que ele me lançou um olhar de desfeita, como se dissesse “Só isso?“. Insistiu para que eu pegasse tantas quanto pudesse, e não recusei. 

Ameixas pretas no pé. São tão lindas quanto gostosas.
Eis o banheiro, sem encanamento do lado de fora. Como eu disse, o interior da Armênia é uma experiência bem zona rural. (Comecei a entender por que o pai de Aram mora no apartamento.)

(O banheiro é nível interior da Sibéria, casinha de madeira com uma cortina de plástico preto — aquele de saco de lixo — com o lugarzinho onde acocorar-se e, em vez de um buraco, um saco plástico ali acomodado, que eu suponho que você remove depois. Isso a 6km do centro glamuroso de Erevan. Estão precisando de uns Minha Casa, Minha Vida aqui.)

Daqui rumamos finalmente à Catedral de Etchmiadzin, sede da Igreja Apostólica Armênia e uma das mais antigas do mundo. Segundo a tradição, foi estabelecida em 301 d.C. por São Gregório, o Iluminador.   Uma visita à este país não está completa sem vir a esse lugar tão caro aos armênios — e, verdade seja dita, tão belo.

Os portais de entrada em arquitetura modernista.
Ilustração talhada do que me parecem ser o São Gregório e o então rei da Armênia, quando o cristianismo foi abraçado como religião oficial em 301 d.C.
Debaixo do calor.
Torre lateral.
Área administrativa deste que é o Vaticano da Igreja Armênia.
A catedral em si, originalmente construída no século IV d.C. e por diversas vezes reformada. Agora mais uma vez.
Seu interior.
O teto. Você seria perdoado por achar que estamos numa mesquita e não numa igreja. As semelhanças estéticas são notáveis. Por mais que os armênios sempre quisessem se insular como cristãos numa região do mundo dominantemente muçulmana, os estilos artísticos sempre se influenciam.
Outros detalhes do decorado teto.
O altar, com o que me parecem ser as imagens dos apóstolos aqui embaixo.

É um interior esplendoroso. Os jardins ao lado de fora também são uma caminhada agradável, ainda que o calor torne a tarefa algo dura no verão.

Retornaríamos a Erevan. Foi neste finzinho de tarde que eu visitei o Matenadaran, que cheguei a mostrar no post anterior sobre a capital. Retornei ao albergue ainda com muitas ameixas, para no dia seguinte rumar num tour ao sul da Armênia — já sem o meu caro colega pai de Aram, mas eu conheceria outras pessoas. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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