You are here
Home > Nepal > Vales e terraços de arroz nos Himalaias: Uma caminhada nos arredores rurais de Katmandu, Nepal

Vales e terraços de arroz nos Himalaias: Uma caminhada nos arredores rurais de Katmandu, Nepal

As pessoas imaginam os Himalaias sempre como aquelas montanhas altíssimas, de mais de 8.000m de altura e picos nevados. No entanto, esquecem que antes de chegarmos àquelas elevações há grandes áreas de vales verdes, cultivados com terraços de arroz ou chá, onde as pessoas vivem. Foi algo que eu quis conferir aqui no Nepal, nos arredores de Katmandu, para ver algo da vida diária e das suas paisagens.

A quem procura fazer uma caminhada ou trilha de um dia, por não ter tempo, disposição ou físico para as longas trilhas de uma semana ou mais até a base do Everest, Annapurna ou outras montanhas daqui, esta é também uma opção viável. O trajeto que fiz foi de Nagarkot a Dhulikhel, um dos mais bonitos e recomendados. São 5-6h de caminhada por entre bosques de pinheiros, zonas rurais, e — se a visibilidade permitir — lindas vistas para as montanhas.

Terraços de cultivo de arroz nos vales e colinas dos arredores de Katmandu. A variedade de tons de verde é impressionante.

Qualquer agência no bairro de Thamel, em Katmandu, arranja um passeio assim para você. Consiste em ir de carro até Nakargot (umas 2h); ter ou não um guia a depender da sua preferência, embora eu recomende; fazer a caminhada; e depois ser apanhado novamente de carro desde Dhulikhel ou outro ponto à sua escolha. Dá um ótimo passeio de um dia.

No meu caso, todos os acertos foram feitos com o Sr. Thapa. (Eu tenho sangue doce para esses tipos sul-asiáticos treteiros e de nome curioso, como quando me hospedei com Mr. Bhalla na Índia.) Só que desta vez, em vez de um coroa, se tratava de um jovem rapaz baixinho de 1,50m, de calças compridas e chinelo, como é habitual nesta parte do mundo, além da pose astuta de sabidório.

Depois de muito negocia lá e cá, combinamos o preço do que seria um dia longo a partir da manhã seguinte. Eu seria apanhado pelo motorista Hari e pelo guia Dev no hotel para a nossa jornada.

É quase um par de horas de Katmandu a Nagarkot, a depender do tráfego na cidade. Tem partes poeirentas que parecem que você está no rally dos sertões. 

No Brasil algumas partes são assim”, comentei eu no carro. “Aqui todas as partes são assim”, respondeu Dev. Na verdade, dali a pouco entraríamos por uma estrada vagabundíssima, mas de asfalto, ainda que um asfalto velho e quebrado nas bordas. “Agora é a Rota da Seda”, disse ele elogiando. Dali a uns 90 min chegaríamos a Nagarkot.

Antes de prosseguir, uma nota sobre a visibilidade: Sites de viagem abundam com fotos límpidas de Nagarkot para os picos dos Himalaias, em vistas estonteantes. Tenha em mente que — embora os guias e vendedores não abordem o fato — você dificilmente as terá. Eu vim agora em outubro, após o fim da estação de chuvas, mês tido como ideal, e ainda assim não vi mais que algumas centenas de metros. As nuvens e neblina formadas pela umidade bloqueiam o resto. A vista para os picos quilômetros ao longe fica mais fácil conforme novembro se aproxima, mas mesmo assim não há garantia. Tenha isso em mente, sobretudo se quiserem lhe vender passeios para vir aqui ver o nascer do sol, que você na maior probabilidade não verá.

Minha vista do mirante de Nagarkot naquela manhã. (Não se preocupem, o cachorro está vivo.)

Conformado em não ter a ansiada vista para as montanhas, detive-me para tomar um chá numa das bodegas locais.

Tomando um chazinho antes de iniciar a caminhada, em Nagarkot.

Foi engraçado quando daqui tomamos rumo, pois Dev era obviamente um guia muito mais histórico e cultural que de trilhas. Quarenta e dois anos, barriguinha mais proeminente que a minha, e pai de família, Dev suava e se cansava mais rápido que eu, mas — o que tornava a coisa engraçada — tentando não demonstrar. “Está cansado, quer parar um pouco?“, perguntava ele arfando enquanto sustentava um falso ar de vigor. “Não, estou bem“, respondia eu tentando segurar o sorriso. Ele tinha pavor de sanguessugas, que abundam aqui na findada estação de chuvas, e a cada momento reparava nas calças para ver se nenhum lhe subia pelas pernas.

Daqui caminharíamos por uns 12Km na direção de Dhulikhel. É uma caminhada que dá um toque de natureza ao que de outro modo é o pandemônio urbano de Katmandu. Porém, que fique claro que não se tratam de vistas montanhosas — estas requerem dias e dias de pura caminhada só para chegar. Aqui é muito mais um bucolismo rural, que também apreciei conhecer.

Dev mostrando o caminho na trilha, e olhando se não havia sanguessugas entre as plantas. Como Nagarkot fica numa elevação maior, quase todo o trajeto é descendo. Então é uma trilha fácil. Só a evite na estação das chuvas (jun-set) se não quiser caminhar num lamaçal.
As vistas para os vales verdes, rurais, entre Katmandu e os picos que fazem a fronteira entre o Nepal e o Tibet (este hoje parte da China).

Vi muitos agricultores, trabalhadores braçais carregando lavouras e materiais de construção no lombo das costas (sem a tecnologia do carrinho de mão), e gentes a aplicar pesticidas sem a proteção devida. Cachorros pra lá e pra cá, bodes & cabras, poucas vacas, e pessoas de trajes coloridos destacando-se no meio do invariável verde dos campos.

Nossos caminhos pelas habitadas colinas rurais desta região dos Himalaias.
Milho.
Toda a paisagem aqui é assim. Lá adiante são terraços escalonados onde plantam arroz. A ideia é que a água vai descendo e irrigando os vários degraus plantados até embaixo.
Cabras diante de um casebre.
O ambiente aqui é assim.

Eu faço questão de mostrar para que não se fique só naquela imagem “National Geographic” dos Himalaias, como se fossem só os altos picos desabitados. Há toda uma realidade humana aqui nesses quilômetros de colinas e vales onde vivem. São as gentes do Himalaia (ao menos aqui neste lado nepalês), que sobrevivem nas águas que derretem das geleiras formando riachos, e das chuvas periódicas (as monções) de nuvens que “batem” nos picos e aqui se condensam, fazendo chover pesado todos os anos entre junho e setembro.

Já eram umas 14h quando finalmente nos detivemos para almoçar. Como a visão estava turvada pelas nuvens lá no horizonte mais longínquo, resolvemos virar no caminho e, em vez de terminar em Dhulikhel (onde as nuvens não nos deixariam ver os picos mesmo), fomos parar em Sanga. Aqui há a mais alta estátua de Shiva do mundo, de 43m de altura. Shiva é um dos mais importantes deuses do hinduísmo, que representa a destruição para renovação.

Meu almoço veio antes da visita a Shiva. Aqui temos um típico prato (thali) nepalês, com legumes temperados e apimentados, sopa de lentilhas na tacinha, um iogurte natural levemente doce para ajudar a rebater a pimenta, e o sagrado arroz no meio. (Ao contrário do norte da Índia aqui vizinho, eles aqui no Nepal são mais chegados em arroz que naqueles pães achatados indianos, como chapati/roti e naan.)
Lord Shiva.
A imagem de 43,5m é feita de cobre e outros metais. Ela foi inaugurada em 2011. Enquanto Brahma é o deus criador e Vishnu é o deus que preserva e cuida, Shiva é o deus que transforma. É considerado no hinduísmo como o destruidor do mal.
Em Sanga.

O nosso dia, a partir daqui, começaria a ficar mais histórico-cultural. Almoçados, era hora de rumar para conhecer Bhaktapur e Patan, antigas capitais monárquicas no Nepal, e Changu Narayan, o mais antigo templo do país, do século XIII. Vem coisa aí.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Vales e terraços de arroz nos Himalaias: Uma caminhada nos arredores rurais de Katmandu, Nepal

  1. Ahhhhhh que colírio para os olhos e bálsamo para a alma!… que delicia ver este verde maravilhoso e suas nuances, diante de uma belo céu azul e circundado de montanhas. Parece um pedacinho do céu, diria a mamma. Que paz e harmonia transpira a natureza, nessa região. Que diferença do burburinho das cidades. Uma maravilha. Amo esse ambiente onde se pode apreciar a natureza e beber essa energia gostosa que dela emana. Linda natureza, belas colinas.
    Famosos terraços de arroz. Muito bonitos . Amo arroz, particularmente esse tipo asiático, saboroso, mas que não encontramos no Brasil.
    Lindos monumentos, maravilhosos nas linhas, estilos, coloridos e significação. Grandes manifestações culturais e religiosas.
    É admirável o como o senhor parece fazer parte desse contexto, meu jovem amigo. Até as nuances do verde da camisa e o azul das calcas. Perfect. Parece que sempre esteve ai, como em outras fotos em outras belas regiões. Como que sua alma se identifica com os diversos ambientes nessas viagens. Parabéns pela integração e vivência . É parte da paisagem . Incrível.
    Apreciei a comilança. Adoro comida asiática. O prato está lindo. Abre até o apetite só de ver hahaha
    Apesar de conhecida pelo menos aqui no NE do Brasil, essa realidade rural simples pobre, limitada em recursos, é sempre impressionante, sobretudo em relação ao ser das pessoas sempre disponíveis, simples, acolhedoras e tranquilas, como que resignadas à situação que não conseguem mudar. Dói o coração de quem percebe. Quem sabe um dia os governantes se tornam menos egoístas e avarentos e se lembram deles? Na caixa de Pandora restou a Esperança. Que Brahma, Vishnu e Shiva nos proteja a todos. Linda região, bela postagem. valeu viajante brasileiro.

Deixe uma resposta

Top