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Visitando Auschwitz-Birkenau, o mais famoso campo de concentração nazista

Eu acho novembro um mês lúgubre na Polônia. Nada das belas folhas secas de outono dos bosques do Canadá, ou dos parques de Paris. Na verdade, elas existem na Polônia, mas aqui — a depender de onde você esteja — elas parecem soterradas sob memórias muito mais pesadas que elas.

Dias curtos, temperaturas já baixas, e um vento frio anunciando o vindouro inverno.

Era assim que estávamos quando saí de Cracóvia, no sul polonês, para visitar as reminiscências do maior campo de concentração e extermínio da Segunda Guerra Mundial: Auschwitz-Birkenau. Embora alemão, ele foi feito em território ocupado dos poloneses, e hoje se encontra na Polônia. É uma visita para lá de sóbria, nada alegre, mas digna — digna do respeito que se deve à História humana.

Se você planeja conhecê-lo, venha. A atmosfera de Auschwitz continua bem preservada. Tire um dia, tome o ônibus a Oświęcim (a vila polonesa que deu origem ao nome germanizado do campo de concentração), a 50Km de Cracóvia, e prepare o espírito.

A entrada do campo de concentração de Auschwitz continua preservada, com seu dizer Arbeit macht frei (em alemão, “o trabalho o liberta”).

Para quem precisa de uma contextualização, Auschwitz foi construído com a Segunda Guerra Mundial já em andamento, em 1940 para presos políticos da Polônia ocupada desde 1939. Ele inicialmente não era um campo de extermínio — isso viria depois.

Aqui os nazistas concentraram mais de 150 mil poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil soviéticos prisioneiros de guerra, 400 Testemunhas de Jeová, e um número desconhecido de homossexuais. A ideia era removê-los da sociedade e dar-lhes uma utilidade do ponto de vista nazista: trabalho escravo forçado em minas, construções, plantações dos nazistas, etc. Uma bebida quente pela manhã para o trabalho que se iniciava às 4:30h, uma sopa de almoço, e um pão seco à noite. Não havia sequer latrinas até 1943. Desnecessário dizer que muitos morriam de tifo e outras doenças contagiosas, quando não de exaustão e de desnutrição.

Placa ainda preservada em Auschwitz.

Os judeus apareceriam em massa depois, não só do gueto de Cracóvia, mas de toda a Europa. Quando em 1941 a Alemanha Nazista deflagrou a Operação Barbarossa de invasão à União Soviética, a Segunda Guerra deixou de ser mera conquista de territórios e passou a uma fase muito mais destrutiva. Com isso, em 1942 os nazistas iniciaram a ação de Esquadrões da Morte, que decretavam áreas como “livres de judeus” no leste europeu. Dali foi um passo até industrializarem o processo e transformar a morte em linha de produção.

Essa política de genocídio foi apelidada de Solução Final pelos nazistas, que pensavam o que fazer com todos aqueles judeus e outras minorias que desprezavam. Esses todos passariam agora a ser trazidos em massa para serem executados em câmaras de gás — muito mais eficiente que matar um a um. Os campos de concentração, como Auschwitz, passariam a ser também campos de extermínio.

Seis milhões de judeus seriam exterminados dessa forma, em câmaras de gás. Poucos sobreviveriam, como o químico italiano Primo Levi, o escritor Viktor Frankl, e o pai da jovem escritora Anne Frank, Otto Frank. (Visitem a casa dos Frank, hoje museu, em Amsterdam quando visitarem a capital holandesa. Foi lá que os nazistas os capturaram. Anne morreria aos 15 anos, em 1945, após contrair tifo em Auschwitz. Suas anotações, publicadas por seu pai em 1947 como o livro “Diário de Uma Jovem Garota” comoveriam o mundo.)

Tudo era administrado pela SS, a Schutzstaffel (“esquadrão de proteção”), a divisão paramilitar do Partido nazista, aqui sob o comando de Rudolf Höss. 

Os vários pavilhões e galpões que compõem o que era Auschwitz-Birkenau, sob o sol frio de novembro na Polônia.

Os tours guiados estão recomendadíssimos a quem quiser conhecer Auschwitz-Birkenau. Eles vão lhe dar todos os detalhes macabros e históricos que você talvez desconheça. O site oficial do museu, que é hoje um Patrimônio Mundial da Humanidade tombado pela UNESCO, tem as informações sobre as reservas, que são essenciais se você vier em meses mais quentes e turísticos. Há tours em várias línguas, incluso espanhol (português não há).

O sítio, na verdade, contém duas partes: Auschwitz, o campo de concentração original, e Auschwitz II (Birkenau), a área extra construída quando ele passou a ter também a função de extermínio. Um transporte o leva de uma parte a outra, mas é tudo amplo. Então os tours são longos, duram 3h e meia, afora os vídeos e aquilo que você pode ver por conta própria. Portanto prepare-se para passar o dia.

Muito das estruturas originais seguem de pé: os trilhos de trens e vagões onde os judeus e outros chegavam; os arames farpados das cercas; os dormitórios; as câmaras de gás, ainda assustadoramente realistas; os crematórios onde os cadáveres eram incinerados; e a parte mais sinistra, que não se permite fotografar: os pertences, inclusive de crianças, e os restos dos cabelos que eram cortados das vítimas e que se preservam até hoje.

O paredão de fuzilamento em Auschwitz, para os que descumprissem as regras.
Birkenau.
Por esses trilhos chegavam vagões carregados de judeus e outras minorias, trazidos das várias partes da Europa para serem exterminados aqui.
Eles não sabiam que estavam vindo para a morte. Corriam rumores, mas os membros da SS lhes diziam apenas que estavam sendo transportados para outro lugar. Que breve seriam servidos uma sopa quente. Que se despissem, tirassem seus pertences, e que primeiro tomariam todos um banho para limpar-se. Só que em vez de água, o que saía dos tubos no teto das câmaras era o gás Zyklon B, um pesticida inventado pelos alemães nos anos 20.

A nossa guia, uma simpática polonesa jovem que falava espanhol, nos contava como a sua avó, que vivia nas proximidades, dava de comer clandestinamente a muitos presos. São muitas as histórias de Auschwitz, que chegou a matar mais de 1 milhão de pessoas antes que o Exército Vermelho derrotasse os alemães e libertasse o campo no dia 27 de janeiro de 1945.

Eu só gostaria de aproveitar para pontuar que não houve originalidade de Hitler nos campos de concentração ou extermínio da Segunda Guerra. Eles apenas foram o “aperfeiçoamento” do que os alemães já haviam feito nos idos de 1900-1910 na atual Namíbia, então colônia sua na África, em parte sob o comando de Heinrich Göring, pai de Herman Göring, um dos principais homens de Hitler. Mais sobre isso quando eu visitar a Namíbia, mas fica a informação.


EPÍLOGO

O sol se põe muito cedo na Polônia em novembro. Às 3 da tarde, quando a bilheteria do museu fecha, já parece que vai anoitecer. Isso é não apenas pelo outono de dias curtos, mas também por a Polônia estar no mesmo fuso horário que a maioria da Europa e até Espanha; o que significa que o dia começa cedo e termina estranhamente cedo demais aqui na Polônia.

Só haviam mais dois ônibus para retornar de Birkenau à cidade. O sítio, se já tenso durante o dia, fica ainda mais sinistro com o anoitecer. Eu, ingenuamente, cri que as pessoas estariam todas humanamente sensibilizadas após tal visita, tais episódios escusos da História da humanidade. Que nada; o desespero para entrar nos ônibus finais parecia um “pega pra capar”.

Sugiro que você, quando vier de ônibus desde Cracóvia, já compre com o motorista ida e volta. Isso facilitará sua vida no retorno. Foi o que eu fiz, e que me salvou. 

Tem uma fila que começa aqui“, declarou insipidamente um norte-americano com sua família, com aquela pose de chefe de polícia no meio do burburinho, que parecia tudo menos uma fila quando o ônibus (que só passa de hora em hora) resolveu se aproximar. [There’s a queue that starts here]

Queue un cazzo!“, bradou um italiano da careca branca que vinha acompanhado de um amigo. [Seria o equivalente do nosso “Fila é o caral**!“]

Uma mulher polonesa, aparentemente guia particular, queria convencer a turba a permitir que ela e todos do seu grupo de 15 pessoas entrassem primeiro no ônibus. Não deu; nem era justo. Parecia a Noite dos Mortos-Vivos. O motorista ficava tentando controlar a situação das pessoas que queriam subir, para que todos pagassem. Eu fui um dos primeiros, munidos que estava já da passagem de volta. 

No quase breu das quatro horas da tarde, tirei ainda da janela uma foto com vários do lado de fora.

Vibrações de Auschwitz. Bom de tomar um banho de sal grosso depois. Mas vale a visita. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando Auschwitz-Birkenau, o mais famoso campo de concentração nazista

  1. Nossa!,… tenebrosa!… Que horror esse lugar. Respira e transpira sofrimento e morte. Horrível.. Acho que deu nervos das pessoas. Pelo visto deveria ter uma atmosfera pesada e soturna. Creio que todos queriam escapar ao mesmo tempo daquele lugar. Causa uma estranha sensação de que os que foram continuam ali a pedir socorro e contas do sofrimento que passaram. Imagine o que o tal Hoss não encontrou ao partir ali mesmo, e esperando por ele. Boi de piranha.
    Triste página da História dramática dos descaminhos da humanidade; e pelo visto nada disso serviu de lição pois hoje os ódios e atitudes semelhantes e estremas ainda são cultivadas. Pobres e loucos seres humanos!.. Quando aprenderão a viver em paz?

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