Estamos em 1949, sul da Polônia. A Segunda Guerra acabou. Apesar da destruição, já não há mais gueto judio em Cracóvia, segunda maior cidade do país, e as atividades aterradoras dos invasores alemães no campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, aqui ao lado, tiveram fim.
Um novo tempo estava para ter início na Polônia. Para começar, seu território mudou. O terço leste foi ocupado pela União Soviética durante a guerra e nunca devolvido — hoje fazem parte da Lituânia, da Ucrânia, e da Bielorrússia. Do outro lado, um terço do que é hoje a Polônia era território da Alemanha até 1945, tomado ao fim da guerra. Aquelas eram terras centro-europeias onde os povos germânicos e eslavos viviam misturados, e que mudaram diversas vezes de mãos ao longo da História, mas que os poloneses também reclamavam para si e obtiveram. Foi como se o país tivesse se movido para oeste após 1945.

A segunda grande mudança foi o estabelecimento de um governo comunista na Polônia. O domínio soviético ali era claro no pós-guerra, e em 1947 se fizeram eleições arranjadas onde os aliados poloneses de Moscou consolidaram-se no poder. Expandia-se o que o ex-primeiro ministro inglês Winston Churchill já em 1946 havia chamado de Cortina de Ferro.
Eu sempre entendi (erradamente) “Cortina de Ferro” como aquela fileira de países comunistas que estavam no caminho de qualquer tentativa de invasão à ex-União Soviética durante a Guerra Fria. Mas o significado da expressão “Cortina de Ferro” não é no sentido de uma barreira protetora, mas de um peso posto por sobre aquelas civilizações seculares do leste europeu — Hungria, Chéquia, Polônia — e que agora os suprimia política, social, e culturalmente. Estariam todos por meio século sob a égide do comunismo moscovita.
“De Stettin no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro caiu por sobre o continente. Atrás daquela linha encontram-se todas as capitais dos estados antigos da Europa Central e do Leste. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas essas famosas cidades e as populações em torno delas encontram-se no que eu devo chamar de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética, mas também a uma medida muito alta, e em muitos casos crescente, de controle por parte de Moscou.”
— Winston Churchill, 5 de março de 1946.
Nowa Huta [lê-se “Nova Ruta”] foi um dos produtos dessas mudanças. A meta do novo governo era construir uma “cidade sem Deus”, uma nova cidade-modelo alinhada com o ideário comunista e que viria a substituir o jeito de ser das coisas aqui nestas terras de tradicionalíssimos e mui católicos poloneses. Nowa Huta hoje ainda é um construto interessante, e que você pode visitar no que atualmente é a periferia de Cracóvia.

Bulevares amplos, prédios grandes e longos para abrigar muitas famílias trabalhadoras (em lugar de requintadas mansões “burguesas”), e muitos espaços públicos de uso coletivo. Assim se desenhava Nowa Huta, que em polonês significa “Nova Siderúrgica”, referindo-se à nova indústria instalada aqui perto onde esses moradores trabalhariam. Notadamente, não havia quaisquer igrejas em vistas nesta nova cidade feita nos arredores de Cracóvia.

Tal “cidade sem Deus” deveria servir de modelo a todo o mundo comunista, mas isso não caiu bem com a mui católica população polonesa.
Não é que o comunismo com suas preocupações sociais fosse totalmente imposto de fora sobre os poloneses — ele na verdade gozava de certo apoio e interesse da população em melhores condições de vida. No entanto, a maioria dos poloneses não necessariamente concordava com tudo, muito menos com essa ideia de terem que abandonar sua religião tradicional.
Já em 1959, um jovem bispo chamado Karol Wojtyla (o futuro Papa João Paulo II) começou a realizar missas de véspera de Natal em Nowa Huta. Isso tornou-se uma tradição anual em dezembro fizesse chuva, sol ou neve. Em 1960, os moradores solicitaram das autoridades uma permissão pública para construir uma igreja, mas essa foi negada repetidas vezes.
As pessoas então erigiram uma cruz de madeira mesmo sem permissão, o que levou a constantes confrontos nas ruas de Nowa Huta e a confiscos frequentes da tal cruz — que era logo substituída por outra e mais outra.

Somente em 1967 a autorização para erigir uma igreja em Nowa Huta foi concedida — acho que por cansaço das autoridades e para apaziguar os ânimos da população. Completada em 1977, a igreja foi consagrada pelo próprio Karol Woytjla, então cardeal de Cracóvia. Ele se tornaria papa no ano seguinte, muito devido a essas suas desafiadoras lutas sociais na Polônia.


Eu, quando vim a Nowa Huta, hospedei-me na casa de Karolína, uma das milhões de moças nascidas nos anos 80 e batizadas com esse nome por causa do papa. (O “Karol” do papa, a quem não sabe, é a versão polonesa de “Carlos”.) Acho que metade das garotas polonesas que eu conheço nascidas nessa época se chamam Karolina. A menina que dividia casa com ela estava viajando, e eu tomei posse do seu quarto decoradíssimo até o teto só com pôsteres da banda alemã Tokio Hotel. Era uma coisa bizarra de adolescente emo.
De repente, o cinzento onipresente dos prédios no lado exterior dava muito mais tranquilidade que o interior do meu quarto. Tranquilidade e monotonia, claro, já que quase tudo é igual. Não canso de dizer como me mata a falta de criatividade e diversidade na arquitetura soviética, ainda que eu ame seus largos bulevares arborizados e amplas calçadas. Estes geralmente são muito melhores ao pedestre que as cidades do Brasil ou que muitas metrópoles “carrocêntricas” mundo afora. Tudo tem um lado bom e um ruim.


A maior parte das minhas voltas com Karolina foram no centro histórico Cracóvia, que já mostrei num post anterior, mas também demos uns bordejos por aqui. Contou-me um pouco da História do lugar e fomos comer no mais tradicional restaurante do bairro, o Stylowa. É um restaurante em contínuo funcionamento desde os tempos da Guerra Fria, e que mantém o seu estilo (hoje) retrô. Vale a pena uma visita para sentir uma atmosfera autêntica — e, é claro, comer pratos tradicionais poloneses, como pierogui.

Agora era hora de finalmente conhecer a capital polonesa. Rumo a Varsóvia.
Interessante a cidade. Tambem gosto dessas áreas com calçadões e bem arborizadas. Mas concordo com o senhor. meu jovem, em relação ao mesmismo e à monotonia/falta de criatividade da horrível arquitetura soviética e dos seus soturnos 50 tons de cinza. Deprimentes.
Coitada da Polônia e dos Poloneses que passaram da tragédia do extermínio alemão à bota pesada dos soviéticos. Sua amiga aqui, ainda criança ouvia assustada pelo radio essas noticias e a minha nonna (avó em italiano) pedia que rezássemos pelas crianças da Russia, da Polônia, da Checoslováquia e de outros lugares submetidos ao “comunismo”. Este, até hoje é considerado por muitos ( mesmo os que não sabem do que se trata) um fantasma que ronda as nações.