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No Reino do Butão, país budista nos Himalaias

Localização do Butão, uma área equivalente ao Estado do Rio de Janeiro, ali no centro em vermelho. Aquela região da China que lhe faz fronteira é o Tibete.

Bem vindos ao Reino do Butão, este país budista nos Himalaias. Uma das viagens mais memoráveis que já fiz.

O Butão é o bucolismo rural e natural cada vez mais difíceis de encontrar na Ásia, saturada que está pela superpopulação e pela urbanização desordenada. No Butão, temos menos de um milhão de pessoas, que sequer estão concentradas na capital. Essa, Thimpu, possui apenas 1/7 da população do país, algo mais de 100.000 habitantes. 

Os rios continuam limpos. Ver corredeiras ainda quase transparentes, da água gélida que desce dos Himalaias e aqui ganha breves tons esverdeados enquanto margeia as pedras, encheu-me de alegria. Contrasta com os rios imundos e sufocados de lixo que você encontra na vizinha Índia e também no Nepal. As florestas aqui continuam de pé, e ainda se falam em ursos do Himalaia, leopardos, e tigres-de-bengala que habitam as partes menos povoadas do país. O Butão me encantou, acho que já ficou claro, e acho que vai encantar vocês também ao final destas postagens.

Quando se viaja muito, torna-se difícil se impressionar com facilidade. Mas o Butão conseguiu. Vale cada centavo da bagatela que custa vir aqui.

O turismo aqui segue uma filosofia que eles chamam de “alto valor & baixo volume”. À exceção de cidadãos de alguns outros países do Sul da Ásia, como a Índia, todos os turistas precisam acertar um pacote de viagem com alguma agência butanesa antes de vir. Só assim o visto é liberado. É um sistema controlado, para evitar que massas de turistas venham e descaracterizem o país — como acontece em tantas outras partes do mundo. Sobre os custos específicos e o os detalhes do procedimento eu falarei no final da série, junto com as dicas a quem pensar em vir conhecer.

Vamos comigo?

Somente duas aerolinhas, Druk Air e Buddha Air, voam para o Butão. Há voos diretos de um número restrito de cidades asiáticas (entre elas Délhi, Katmandu, e Singapura). Druk Air é a companhia nacional butanesa. Buddha Air é uma empresa butanesa privada. Seus preços são semelhantes, e a segurança também — não se assuste pelas hélices no lugar de turbinas.
Saindo de Katmandu (Nepal) para Paro, o único aeroporto internacional butanês, peça uma assento no lado esquerdo da aeronave. Você assistirá ao espetáculo do reino de algodão lá no céu, com picos dos Himalaias perfurando as nuvens a mais de 8.000m de altitude. É o teto do mundo.
Ali está nada menos que o Monte Everest, o mais alto do mundo, com 8.848m. (O piloto avisa na hora.)
Aproximando-nos do pouso no Butão.
As encantadoras plantações de arroz, com seus 50 tons de verde.

O Aeroporto Internacional de Paro, no Butão, é um brinco. À sua maneira, é dos mais bonitos que eu já vi. Parece um palácio ou um museu, todo em arquitetura tradicional butanesa, com os funcionários usando trajes típicos. Uma tranquilidade sem nome — parecia haver mais funcionários que passageiros.

Não levei sequer 10 minutos na imigração. Entreguei o meu passaporte ao oficial que me deu bom dia e sorriu, ao contrário das caras inexpressivas de 90% dos oficiais de imigração na Ásia e em boa parte do mundo. Ofereci mostrar-lhe a minha confirmação do visto recebida online, já que o visto em si (o adesivo) você obtém aqui com ele. “Não, não precisa, não. Com o seu passaporte eu pego aqui no sistema.”

E assim foi. Logo estaria ali perto a minha bagagem e, do saguão com as esteiras, a porta saindo pela alfândega quieta já dava para a rua. Do lado de fora, guias — todos trajados à moda butanesa tradicional, como manda o figurino — aguardando pacientemente seus clientes com nomes em folhas de papel. Nada daquele burburinho nem daquela agonia de taxistas que caracteriza os aeroportos de Terceiro Mundo.

O aeroporto de Paro, no Butão.
Ali, em destaque, a família real: o Rei Jingme Wangchuck, a Rainha Jetsun Pema, e o pequeno príncipe herdeiro.
Saguão do aeroporto. É uma tranquilidade sem nome.
Perceba como tudo é feito na arquitetura e decoração tradicionais butanesas.
Do lado de fora, na saída, guias aguardando seus turistas.

Oi, eu sou Thinley” [lê-se TÍN-ley, e não “Tinlêi” como nome de brasileiro filho de pais criativos], declarou ele quando eu me identifiquei. Era o agente de viagem com quem eu vinha me correspondendo por e-mail. Ao seu lado estava também o motorista, ambos de óculos, um par de jovens de seus 30 anos. Seriam minhas companhias diárias pelos dias seguintes.

Ei-me agora no Butão. O xale branco foi de presente. Esse xale (kabney em butanês) faz parte da indumentária tradicional daqui, e sua cor revela o status social. Amarelo, o mais alto, é só para a realeza e para o abade-chefe dos monges. Laranja para ministros do governo, azul para parlamentares, verde para juízes, vermelho para outros oficiais, e branco para o povão.

“Nossa, como é hierárquico!”, você pode talvez imaginar. Sim, há o rei e os outros dignatários, mas afora isso a sensação é de todo mundo no mesmo barco. Você não sente no ambiente aquela coisa classista que é tão visível na vizinha Índia, ou mesmo no Nepal, entre as pessoas com mais dinheiro e aquelas com menos. (Ou como muitas vezes ocorre no Brasil e América Latina afora, *cof cof*.) Todo mundo aqui fala com todo mundo e parece se tratar em relativo pé de igualdade. Meu guia, que é formado em ciência da computação, fala com a senhora analfabeta vendedora de maçã da mesma forma que me trata.

Homens e mulheres também se misturam muito mais, como no Nepal, mas diferentemente do que ocorre na Índia, onde os gêneros se segregam quase que por força das partículas. Aqui as equipes nos hoteis e restaurantes têm homens e mulheres que conversam naturalmente entre si — como no Brasil, mas algo pouco comum de se ver na Ásia.

O país é quase todo budista, e o Estado aqui também é oficialmente budista. Há uns 20% que são hindus, mas segundo Thinley hoje todos se dão bem. Este é, contudo, o Budismo tântrico, de que falarei melhor mais adiante.

Eles aqui criaram há algum tempo atrás, da cabeça de um dos reis anteriores, o famoso índice de Felicidade Nacional Bruta, em substituição ao Produto Nacional Bruto (PNB) e ao Produto Interno Bruto (PIB). Como já dizia Robert Kennedy (irmão do presidente americano assassinado) nos anos 1960:

O Produto Nacional Bruto não permite [computar] a saúde das nossas crianças, a qualidade da sua educação ou sua alegria ao brincar. Ele não inclui a beleza da nossa poesia ou a força dos nossos casamentos, a inteligência do nosso debate público ou a integridade dos funcionários públicos. Ele não mede nem nossa astúcia nem nossa coragem, nem a nossa sabedoria nem os nossos aprendizados, nem nossa compaixão nem nossa devoção ao nosso país. Ele, em resumo, mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena.” – Robert Kennedy, 18 de março de 1968.

Os butaneses, portanto, cunharam a Felicidade Nacional Bruta (Gross National Happiness, GNH em inglês), que mede conservação ambiental, desenvolvimento socio-econômico equitável e sustentável, preservação cultural, e boa governança. Parece coisa das Nações Unidas, mas encabeçado por este pequenino país aqui dos Himalaias. A ONU encampou a ideia e agora se publica todos os anos um Relatório Mundial da Felicidade, cuja edição de 2018 é encabeçada por Finlândia, Noruega e Dinamarca.

Olha que país maluco esse Butão?

Logo saindo do aeroporto em Paro, tomamos o nosso moderno veículo 4×4 pela estrada. Era uma bela manhã de sol, frescor de outubro no ar, e nos detivemos a visitar uma ponte do século XV por sobre um rio verde que mostra muito do que falei no início sobre o conservado ambiente butanês.

Vistas naquela minha primeira manhã no Butão, com o Rio Paro a correr.
Rios puros, que me lembram o Canadá. As bandeirolas coloridas, como mostrei antes, são típicas do budismo tibetano e comuns também aqui no Butão. Elas têm orações budistas, e suas cinco cores representam os cinco elementos da natureza nessa cosmologia dos Himalaias: fogo, terra, água, vento e céu.
Diante da ponte do século XV, com suas torres de guarda. Ela foi construída por um santo viajante que veio do Tibet atravessando os Himalaias e chegou até aqui.
Hoje, usa-se essa ponte pênsil mais nova, repleta de bandeirolas budistas. (A ponte original está fechada para conservação.)
Torre da histórica ponte.
Um templo de época do outro lado.
Essas roletas de oração (prayer wheels) são típicas do budismo de matriz tibetana, como mostrei também nas viagens ao Nepal e à Mongólia (dois países também influenciados pelo budismo tibetano). Elas têm mantras escritos; você as gira no sentido horário e é como se estivesse rezando o mantra.

Tomamos rumo. Na beira da estrada víamos muitas pessoas simples, visivelmente da zona rural, vendendo maçãs e pimentas, rubras e verdes. A pimenta malagueta, eu aprenderia, é um elemento essencial na culinária butanesa. Você as avista, vermelhinhas, a secar por cima dos telhados de alumínio das casas. Há também as verdes e as brancas, que nada mais são que as verdes que eles deixam na água por um tempo até elas perderem a cor.

Pimentas secando num telhado no Butão.

Estamos meio que numa crise aqui no momento”, comentou Thinley rindo enquanto falávamos de pimenta. O principal produto de exportação é eletricidade, gerada através de represas e vendida à Índia — de onde o Butão compra arroz e pimenta extras. Um problema no momento, pois as pimentas indianas estão encharcadas de agrotóxicos, além do permitido, e o Butão suspendeu a importação. 

Só para constar, a segunda fonte de renda do país é o turismo. Cada turista estrangeiro paga 65 dólares por noite em imposto que vai para financiar a educação e saúde públicas, universais e gratuitas no Butão. Diz Thinley que é em grande parte por isso que eles são felizes. (Por exemplo, aqui todo mundo estuda em inglês, o idioma butanês é dado como uma matéria específica, e muita gente nas cidades é bilíngue.) 

Como ainda faltava muito até o ponto onde almoçaríamos, Thinley me perguntou se eu não gostaria de experimentar uma maçã. Perguntei logo se seria uma maçã orgânica butanesa ou indiana carregada de pesticidas, mas era butanesa. O Butão exporta maçãs, laranjas e cardamomo.

Claro“, respondi. Mas eu havia visto do carro uns intrigantes cubos pendurados no cordão, que eu não fazia ideia do que era. Seria o meu primeiro contato com as curiosas comidas aqui do Butão. Thinley me explicou que, como os mongóis, os butaneses fazem um queijo seco (bem seco) para guardar e comer sobretudo no inverno. Ele não estraga (porque nem as bactérias querem). Resolvi experimentar.

Thinley comprando algumas maçãs na beira da pista. Ali no cesto algumas pimentas. (Os butaneses comem muita pimenta.)
Senhora butanesa vendendo maçãs. Lembrem que, devido à altitude, estamos num clima temperado.
“Queijo” à venda.

Não se iluda achando que isso é “de mascar” ou macio e saboroso. Nada estaria mais longe da verdade. Esse queijo figuraria perfeitamente na famosa escala de dureza de Mohs usada na geologia. Você o põe na boca como um caramelo; não tem gosto de absolutamente nada; e é como se você estivesse com uma pedra na língua. (Não seja atrevido demais na sua tentativa de morder, ou pode acabar deixando alguns dentes aqui no Butão.) 

Queijo butanês. Eu soube que há um mais mole, mas não quero mais conta com isso.

Você ainda não terminou? Eu já acabei“, perguntou-me Thinley divertido. Mais de uma hora depois, acho que o queijo ainda continuava do mesmo jeito na minha boca. Cuspi. Valeu a experiência.

Detivemos-nos para almoçar no Dochula Pass, um elevado mirante a mais de 3.100m, mas que estava nublado. Era etéreo, como se eu estivesse nas nuvens, com quietos templos ali perto. Até pequenas grutas para meditação havia, com imagens do Buda e lugar onde se assentar — como se fossem mesas de piquenique num parque.

Um monge.
No Passe Dochula (Dochula Pass), no sentido de ser ponto de travessia entre as montanhas, há 108 estupas budistas construídas por ordem da rainha mãe. (A quem não sabe, no budismo o número 4 e seus múltiplos são considerados sagrados. O 108 é particularmente especial, e é o número de contas que há num rosário budista. O terço cristão, embora tenha um número diferentes de contas, foi inspirado nele.)
A arquitetura butanesa em evidência.
Num dia claro, é possível mirar as altas montanhas dos Himalaias a partir daqui. No entanto, com essa névoa, mais parecia que eu estava n’alguma fábula oriental.
Em meio às estupas, onde paramos para almoçar.

Falarei mais da comida no Butão aos poucos, mas vale dizer por hora que ela combina algo dos dois gigantes vizinhos: a Índia e a China. Há algo dos pães chatos (chapati), do arroz branco, e das sopas de lentilha da Índia, mas somados aos macarrões, legumes, e pedaços de frango fritos da China. É isso que você encontrará nos restaurantes turísticos. Apesar da devoção deles por pimenta malagueta, até aqui eu não havia comido nada muito apimentado. Nesses lugares, o molho vem separado para você próprio se servir, como na Bahia.

À tarde, após uma bela pestana no carro que descia para o outro lado das colinas — 1000m abaixo dos 3.100m do Dochula Pass —, cheguei a um curiosíssimo vilarejo no Distrito de Punakha. O Butão não tem estados nem províncias, mas é dividido em 20 distritos.

A vila herda a tradição de um certo monge tibetano algo pervertido que cruzou os Himalaias a pé e veio parar aqui no século XV. Ele ficou conhecido como “o Doido Divino”, que pregou “a salvação através do sexo”. 

As casas do vilarejo são todas decoradas com desenhos de pênis e escrotos. (Não vi vaginas.) O templo, budista, tem particular atenção à fertilidade e contém perto do altar um grande pênis de madeira (de mais ou menos meio metro e gordinho) que as mulheres com dificuldade de fertilidade podem vir e circumambular o templo com ele três vezes, antes de tomar a bênção do monge. Presenciei uma turista asiática fazendo isso. Andava com o pênis sagrado de madeira enfeitado com uma fita e dava voltas no templo.

Se você achou que já tinha visto de tudo nesta vida, saiba que não.

Nesta vila no Butão.
Todas as casas aqui são ricamente decoradas.
Casas butanesas decoradas, incluso com o pinto místico ali.
Eu in loco. (Não, não comi nesse restaurante.)
A turista asiática que estava circumambulando o templo com o pênis sagrado de madeira, que ela ali ainda conservava no colo, diante do monge que a abençoaria. Esse templo é conhecido como o Templo da Fertilidade.

A bênção do monge a todos depois, com o arco original do santo do século XV, foi acompanhada também de um outro pênis de madeira. Se aumenta a virilidade ou não, ainda não sei.

Dentro do templo, uma equipe de aprendizes de seus 5-10 anos tocavam instrumentos musicais. Batiam uns biombos de forma cadenciada, enquanto outros sopravam uma ornamentada flauta feita em madeira e metal, e enquanto um monge adulto lia um mantra naquela voz de jaculatória dos monges budistas rezando. O incenso (de boa qualidade) queimava, encantando o lugar.

Dali voltamos caminhando por entre os arrozais, tomando o vento gostoso do fim de tarde fresco. Na primeira noite, dormi num quarto bucólico com estrutura de madeira e vista da janela para um terraço escalonado de plantação de arroz. Um templo lá no alto, as altas colinas no horizonte, o sol a se pôr em algum lugar por detrás que eu não via, sua luz de entardecer realçando o verdinho claro do arrozal.

Deixo vocês por ora com algumas fotos. Este era só o meu primeiro dia no Butão.

Os campos de arroz por onde caminhamos em pequenas trilhas para chegar até o templo da vila.
Arrozal no sol da tarde.
Crianças butanesas brincando e conversando conosco.
A vista lá do alto para o vale.
Agricultores.
E a minha vista da janela do quarto, naquele fim de dia.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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