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Entre campos de arroz, arquitetura butanesa e budismo tântrico em Punakha, Butão

De que o Butão é um país pitoresco, acho que já os convenci no post anterior. É algo que continuará em todas estas postagens. Mas o Butão também é rico de particularidades, curiosidades, seja o curioso Budismo tântrico, seja a sua arquitetura tradicional tão particular.

Eu dormira em Punakha, um dos distritos mais visitados do país, e acordei no dia seguinte para uma manhã nublada. Eu, ambicioso, aproveitei-me de estar viajando sozinho — e, portanto, na minha própria velocidade — para fazer um programa intenso, com tudo o que fosse possível ver ou fazer. Nesta manhã, faria uma caminhada pelos arrozais até um templo budista na colina, onde aprenderia mais sobre esta sua corrente tântrica. Depois, me esperava a fotogênica (e impressionante) Fortaleza de Punakha, butanesa ao extremo.

Comecemos pelas minhas vistas matutinas, com os arrozais ainda úmidos do orvalho e alguns agricultores a me olhar.

Manhã de caminhada pelos arrozais com os seus muitos tons de verde.
Casal de turistas indianos tirando uma selfie. Uma vantagem do Butão é que há relativamente poucos outros turistas, então na maioria dos espaços você fica muito à vontade (há exceções, que vou mostrar depois).
Uma ponte no meio do caminho, essas pontes pênseis típicas aqui no Butão, encantadas pelas bandeirolas budistas repletas de mantras.
A vista para a paisagem conforme subíamos.
Comprando umas goiabas desse senhor butanês sentado numa pedra. (Essas frutas tropicais vêm do sul do Butão, que tem menos altitude.)
Conforme subíamos a colina, a vegetação de pinheiros começava a dominar.
Lá no alto, o templo Khamsum Yulley Namgyal Choeten, um dos mais pitorescos que visitei no Butão. A caminhada até aqui leva em torno de 45min, a depender do seu ritmo.
Parece que você está num reino budista nos céus, não na terra.

Foi aqui que eu aprenderia mais sobre o budismo tântrico. “Tântrico” no Ocidente ganhou conotações de putaria, mas não é esse bem o caso. (A pessoa vê “massagem tântrica” e já acha que é o distrito da luz vermelha.)

Primeiro, isso de “sexo tântrico” e “massagem tântrica” são produtos comerciais cunhados por ocidentais ou gurus indianos que gostam de fama. Eles podem ter sido inspirados em preceitos da filosofia budista tântrica, mas não são coisas que você verá por aqui. Essa coisa de associar tântrico a êxtase de prazer foi a percepção dos pudicos britânicos vitorianos do século XIX quando colonizaram as Índias (embora nunca tenham colonizado o Butão), e uma visão que se perpetuou no Ocidente mas não corresponde à realidade.

O budismo tântrico, especificamente o da corrente Vajrayana (a dominante aqui e religião de estado do Butão), refere-se aos ensinamentos de gurus da Índia medieval do século VIII. Foi quando eles vieram ao Butão, ao Nepal e ao Tibete, e suas religiões animistas tradicionais — como as que existem até hoje no Japão — foram suplantadas pelo budismo. Aqui veio o Guru Padme Sambhaya, segunda figura mais venerada no budismo butanês.

Mandala. São infinitos tipos e cores de acordo com o artista, mas todas costumam apresentar quatro entradas rumo à iluminação no centro, significando que ela é acessível às diferentes gentes dos quatro cantos do mundo, não importa se rico, pobre, branco, negro, ou quem for. São muito usadas como foco de meditação no budismo Vajrayana.

Esse é um budismo muito visual — daí os templos budistas butaneses serem sempre repletos de ilustrações e mandalas, diferentemente dos templos budistas japoneses, por exemplo. Se a corrente zen exalta a introspecção, o tântrico é mais ritualístico e esotérico. Daí os rituais da fertilidade, como mostrado no post anterior. Os butaneses também creem que seu aprendizado só é válido se for através de um mestre, um guru.

Além disso, eles têm uma abordagem diante das “tentações” que eu diria semelhante à do judô nas artes marciais. Em vez de tentar evitar por completo o desejo, como orientam outras correntes budistas, a Vajrayana diz que você deve se utilizar daquelas forças para o seu próprio fim de iluminação. Assim, coisas como o sexo e as coisas da carne deixam de ser um desvio de caminho e passam a ser vistos como algo a ser utilizado — se bem feito — para sua própria elevação espiritual. Daí os butaneses pregarem que o sexo, visto como junção do “conhecimento masculino” e da “sabedoria feminina”, faz parte da vida religiosa. Por isso você às vezes vê posturas sexuais nos templos budistas daqui. (Pena que não seja permitido fotografar os interiores.) 

Dito isso, continua a haver um foco muito grande no aperfeiçoamento do caráter, como nas demais escolas budistas. Por exemplo, os seguidores do Vajrayana realçam que todas as más ações partem de três vícios fundamentais: ganância, ignorância ou raiva, ainda que a pessoa não tenha consciência disso.

Tampouco faltam aqui as parábolas budistas ilustradas, como a dos quatro amigos harmoniosos

Ilustração dos Quatro Amigos Harmoniosos numa varanda da Fortaleza de Punakha. A ave defecou a semente que gerou a árvore, o coelho a irrigou, o macaco a fertilizou, e o elefante a protege, enquanto que os frutos da árvore alimentam a todos. Além da harmonia, a fábula exalta o respeito aos que vieram antes — não é o elefante (o mais forte) quem está no topo, mas a ave, que foi quem veio primeiro.

A Fortaleza de Punakha foi aonde fomos após a caminhada de volta, ainda naquela manhã. Todos os prédios de governo no Butão continuam a seguir seu estilo tradicional, dos tempos quando proteger-se de inimigos era fundamental. 

No século XVI, de quando muitas dessas fortalezas butanesas originalmente datam, veio fugido pra cá um guru tibetano que diziam ser a reencarnação de um certo abade. É comum nessa tradição Vajrayana, por seu apego à necessidade de um guru, que templos e seus monges mantenham-se alinhados a um mestre específico cujas reencarnações vão sendo supostamente identificadas no passar dos anos, e àquela pessoa são passados os bens e o controle daquele mosteiro.

Só que, como tudo na vida, reencarnação budista também dá treta. Dizem que o rei daquela região tibetana de onde ele vinha, na época, contestou que não, que a real reencarnação do tal abade era um primo seu, e mandou prender o “falso”. O detalhe é que ele veio fugido, mas não de mãos vazias: trouxe consigo as relíquias do templo. Não deu outra que não guerra entre o Tibete e o Butão, com a construção de várias dessas fortalezas butanesas que encontramos ainda hoje — conhecidas aqui como dzong

Foi nessa época que veio o primeiro europeu de que se tem notícia ao Butão, o jesuíta português Estêvão Cacella. Vejam que confluência de coisas.

O missionário descrevia o budismo como “seita dos lamas“, em referência a esses líderes religiosos cujas reencarnações são observadas. (Dalai significa “oceano”, e Dalai Lama é um título para o lama dos lamas no budismo tibetano. Aqui no Butão ele é respeitado, mas não tem autoridade religiosa, que aqui pertence ao abade-chefe butanês.)

O português passou 8 meses aqui no Butão, que ainda era uma colcha de retalhos de pequenos potentados, e foi o primeiro europeu a cruzar os Himalaias no inverno. (Morreria em breve.) Padre Estêvão foi quem inventou as histórias de um mítico Reino de Shambala, a partir do que ouviu do povo local, e que conquistaria o imaginário ocidental e levaria também o romancista inglês James Hilton, na sua obra Horizonte Perdido (1933), a inventar tal mítico reino budista nas montanhas sob o nome de Shangri-La. Não é legal quando a gente descobre como as coisas se conectam?

A Fortaleza de Punakha.

O português já havia morrido, no Tibete em 1630, mas foi em 1634 a decisiva Batalha dos Cinco Lamas, quando invasores tibetanos ao lado de lamas butaneses aliados contra o fugitivo o cercaram e todos perderam. Já havia pólvora, e os grandes exércitos acabaram derrotados na explosão acidental de um armazém do pó.

Seria a primeira vez em que o Butão seria unido como um único país, agora sobre um sistema de governo duplo: um rei temporal ao lado de um abade-chefe, o líder religioso. De um modo ou de outro, esse sistema perdura até hoje, e os dzong se tornaram moradas divididas, da administração pública numa seção do prédio, e da parte-mosteiro numa outra. Punakha, neste caso, é a residência de inverno do rei e do abade-chefe (por ser mais quente), enquanto que a capital Thimpu serve de residência de verão, por estar numa altitude maior e ser mais fria.

Eu na entrada da fortaleza (dzong) de Punakha. Exemplo maestral da arquitetura butanesa.

Tanto o entorno quanto o interior da fortaleza são primorosos. Uma charmosa ponte de madeira por sobre o rio o leva até a entrada.

Vista para a Fortaleza de Punakha com sua ponte.
O portal de entrada para a ponte.
Vista para a fortaleza à beira do rio, a partir da ponte.
Eu ali.

A partir deste ponto, é exigido vestir-se de modo algo mais formal. No caso dos butaneses, precisam pôr seus xales. No meu caso, precisei jogar uma jaqueta por cima para ficar menos informal.

Nas escadarias que levam ao interior, plantas e flores nas adjacências. Guardas a observar quem entrava e saía (já que é um prédio de governo), e o ar algo morno daquela manhã úmida. No interior, ainda mais plantas — uma gigante árvore no pátio, ao lado de torres ainda maiores.

A fachada da entrada da fortaleza.
Imponente.
Pátio interno.
Torre central. Na arquitetura tradicional butanesa, as bases são mais largas que o topo, o que segundo eles torna os prédios mais resistentes aos terremotos ocasionais daqui.
São muitos os templos e outros cômodos. Nem tudo é acessível ou fotografável, mas você pode circular bastante.
Arquitetura butanesa em evidência.
Os detalhes, em madeira pintada.
Monges turistando.

E assim encerrava-se a minha manhã. Era hora de retornar ao nebuloso Dochula Pass, por onde vim no dia anterior; deixar para trás esse distrito lindo de Punakha e rumar agora à capital do país, Thimpu. Vejo-os lá. 

No Dochula Pass, a 3.100m de altitude, as estradas e neblinas encantadas aqui do Butão, com suas bandeirolas budistas.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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