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Conhecendo Thimpu, a capital do Butão

Bem vindos a Thimpu. Se naquele jogo de saber os nomes das capitais dos países alguém o desafiar com o Butão, agora você já sabe sua capital qual é. 

Thimpu, de apenas 115 mil habitantes, é uma cidade curiosa. Há prédios como em outras capitais do mundo, mas aqui eles todos seguem (por lei) a estética tradicional butanesa, com seus coloridos. Se culturas do mundo todo passaram a dar lugar à por vezes insípida arquitetura contemporânea de edifícios reluzentes sem personalidade cultural, essa personalidade no Butão se guardou. Não é igual aos outros lugares.

Prédios em Thimpu, no Butão, visto da minha janela do hotel. Vejam como combinam algo de modernidade mais arquitetura tradicional.

É uma cidade também em construção. Apesar da arquitetura distinta, as ruas de Thimpu lembram algo do interior do Brasil, mas sem a insegurança. Não é exatamente uma cidade pitoresca. O hotel tinha aspecto de obra recém-terminada, sem grande charme. (Eles aqui parecem fazer muito isso.)

Chegaríamos ao hotel de Thimpu apenas à noite — antes disso vimos vários lugares da cidade após a estrada desde Punakha. A primeira parada foi no Memorial Chorten, uma estupa comemorativa erigida por ordem da rainha mãe em 1974, e que é uma graça.

Memorial Chorten, estupa budista que funciona como um templo e é um dos principais monumentos de Thimpu.

Bela, e ponto de encontro da terceira idade, que às vezes trazem os netos, mas em geral ficam conversando e orando. Devotam a vida à espiritualidade, e melhor aqui proseando que em casa.

São como os idosos cristãos que no Brasil passam a ser assíduos em todas as atividades da igreja, em parte como terapia ocupacional. Aqui, eles vem pra a estupa circumambular, orar, rodar as roletas de oração, cantar mantras juntos, ou simplesmente ficar sentados conversando. É bonitinho vê-los entretidos uns com os outros. Como aqui no Butão as mulheres também trabalham, os idosos ficariam sozinhos em casa. Então melhor vir para cá.

Idosos butaneses orando e cantando juntos aqui no Memorial Chorten.
É como se houvesse procissão todo dia. Eles ficam circumambulando a estupa, sempre em sentido horário.
Voltas ao redor da estupa no Memorial Chorten. Na tradição budista desta parte do mundo, é mais comum ver essas manifestações no fim do dia, antes do anoitecer.
Eles praticamente acampam no perímetro do templo. Sentam-se nessas esteiras, às vezes trazem comida, ficam de papo, você vê algumas crianças pequenas ali, e ficam girando essas roletas religiosas com mantras escritos nelas. (É quase uma farofagem religiosa um piquenique da terceira idade.)
Senhorinha a caminhar diante da estupa com sua roletinha religiosa. Eles ficam girando isso pra o mantra escrito ir circulando. É uma forma de oração neste budismo de matriz tibetana.

Se você quiser ouvir os velhinhos cantando mantra, é só clicar no pequeno vídeo abaixo que eu fiz.

Achei ótimo sinal de saúde social. Melhor que socializar-se via WhatsApp no grupo da família.

Nós daqui fomos à Central dos Correios (Central post office) butanês, que fiel à tradição deste país em ter particularidades, lhe permite produzir seus próprios selos com sua foto. Não cheguei a fazê-lo, pois naturalmente tem um custo e eu não tenho o hábito de enviar postais (estaria pobre se o fizesse de todos os lugares aonde viajo), mas achei interessante.

Butanesa em trajes tradicionais saindo da Central dos Correios em Thimpu, Butão. É comum ver pessoas nesses trajes nas ruas, mesmo na capital.
Há um pequenino museu anexo com vários selos. Este aqui mostra um instrumento tradicional butanês. [“Trombeta grande: normalmente feita de prata e cobre, e decorada com ouro. Esses instrumentos devem sempre ser tocados em pares.”]  
Foto do casal real no recinto.

Foi aqui que eu me recordo de ter parado olhando e comentado com Thinley, o meu guia: “Essa rainha de vocês é bonitona, hein?“.

Eu não sabia como isso ia ser recebido nos ouvidos tradicionais aqui do Butão, se como muita folga da minha parte ou o que, mas eu não resisto em me expressar e fazer esses comentários. Ele parou me olhando por um ou dois segundos antes de dizer qualquer coisa, até complementar: “Ela é tão gostosa.

Ela, nascida em 1990, é a rainha mais jovem do mundo atualmente. Rainha Jetsun Pema é casada desde 2011 com o Rei Jingme Wangchuck, o quinto monarca de sua dinastia, esse honroso moço 10 anos mais velho que ela e que em algo nos recorda o penteado de Elvis.

Desde 2008 o país é uma monarquia constitucional, o que significa que há leis, parlamento, primeiro-ministro e eleições livres, ainda que o rei permaneça como chefe de estado. Um abade-chefe rege junto com o rei, e os monges ficam lado a lado com a administração pública, mas são proibidos por lei de se envolver diretamente nela e são, inclusive, proibidos de votar para não enviesarem em massa a política com suas predileções religiosas.

Uma curiosidade é que poligamia é permitido — e não só para o homem. Tanto poliginia quanto poliandria são legalizadas, e ocorre sobretudo nas populações semi-nômades do interior. Acontece de, por exemplo, dois irmãos terem a mesma esposa. O quarto rei, pai do atual e agora rei “emérito”, tem por exemplo quatro esposas — que são todas irmãs umas das outras, quatro irmãs.

Aí um dia ele acordou e resolveu “trollar” o filho, e definiu por mudança constitucional que, a partir do seu filho (o rei atual), já não seria mais permitido ao rei ter mais de uma esposa. A “trollagem” é brincadeira minha, mas a mudança de regra é verdadeira. Foi também aquele rei quem trocou a monarquia absolutista que aqui imperava por uma monarquia constitucional, dando de-cima-pra-baixo a democracia ao povo butanês.

Estando na capital, era hora de eu finalmente visitar o palácio de governo, a fortaleza Tashichoe Dzong. Em verdade, não há propriamente o conceito de “palácio” aqui; o que há são as fortalezas (dzong), que combinam antigas estruturas de defesa e albergam escritórios administrativos, salões reais, e também seções monásticas.

Mas já que a fortaleza é como se fosse o Palácio do Planalto, você só pode visitá-la após o fim do expediente. Cheguei às 16:55 para assistir à descida da bandeira do mastro, mas pelo visto os caras estavam com o relógio adiantado, e só vi os guardas já indo embora. Às 17:30 eles abrem à visitação turística. São um belo jardim externo e um lindo interior, os da fortaleza de Thimpu. Após o escurecer, luzes se acendem em branco e vermelho.

Tashichoe Dzong, a fortaleza onde funciona o governo do país.
Rosas em destaque no jardim externo.
Na hora da visita. É dos poucos lugares do Butão onde você encontrará muitos outros turistas, em parte pelo horário restrito de visitação.
A entrada fica após esse trajeto lateral.
Eu visitando a Tashichoe Dzong.

Para entrar, como se trata de um prédio real e de governo, é preciso passar por um detector de metais. Sugiro deixar sacolas e mochilas no carro ou no hotel.

Após algumas escadas na entrada você chega ao amplo pátio interno, que estava repleto de monges em seus robes vermelhos. Eles permanecem metade do ano aqui, metade do ano em Punakha, a depender da estação. O verão é aqui em Thimpu, que é mais elevada e mais fresca. O inverno eles passam em Punakha, que fica num vale e é menos fria. Como estávamos aqui em outubro, ainda eram as últimas semanas do semestre quente. (A temperatura, porém, aqui já se encontrava na casa dos 15 graus, devido ao outono.)

O amplo pátio interno.
Frente de um dos templos principais no interior.
Muitos monges em seus robes vermelhos por ali. (Cada escola de budismo, em cada país, usa robes de cores diferentes. Laranja na Tailândia, cinza na Coreia, vermelho aqui, e por aí vai.)
Monges na fortaleza, que mistura mosteiro e prédio de governo.
Posando com alguns monges butaneses.

Às 18h, um garoto monge bateu com a vara no que parecia um tampão de esgoto no chão, chamando todos para a oração coletiva. Entraram no templo, tomaram seus assentos em fileiras de homens em trajes vermelhos, de várias idades, e puseram-se a cantar seus mantras.

Era engraçado que os monges pequenos, de seus 7-11 anos, comportavam-se exatamente como meninos dessa idade em outras partes do mundo. Lembraram-me da escola. Um monge supervisor passava olhando todos, se estavam cantando, e encaravam os que estavam enrolando. Nas filas de trás, perto de onde eu estava, três meninos ficavam conversando e trocando provocações, igualzinho em sala de aula. Ao que o monge supervisor viu e trocou um menino de lugar, mandou ele sair dali e vir sentar-se cá na frente. Achei tão engraçado. Algumas coisas de nós humanos parecem ser universais.

Nós turistas nos sentávamos perto das paredes, no chão como os monges, pois não há cadeiras nem outros assentos que não as almofadas dos monges no interior. Tampouco é permitido fotografar ou filmar, mas foi um belo mantra. Logo passou um monge adulto distribuindo caramelos abençoados, dos doados por alguém e que ficam como oferenda ali no templo. Perguntei a Thinley se era uma oferta comum, e segundo ele, não — supôs que devia ser aniversário do monge. 

O pátio iluminado à noite, depois da meia hora de mantras e do escurecer.
Tudo ganha tons de vermelho e branco.
A saída, já à noite.
A fortaleza iluminada com os jardins.
O Tashichoe Dzong de mais longe à noite.

Eu nesse dia iria jantar com Thinley — ele me havia prometido finalmente me levar a um restaurante típico butanês, que não fosse comida de hotel para turista, e sugiro que você faça o mesmo para conhecer melhor o Butão se vier aqui. (Mas prepare-se! A comida eu quero mostrar mais detalhadamente no post seguinte.)

Por ora, demos umas voltas nas ruas centrais de Thimpu à noite antes de dormir. Alguns de vocês talvez tenham achado estranho, quando eu no início do post disse que esta capital — com sua arquitetura tão peculiar — lembra algo das cidades do interior do Brasil. Isso à noite fica ainda mais evidente, pois a semelhança não está tanto nos prédios, mas nas ruas. Entre a loucura hiperpopulosa das cidades asiáticas e as pitorescas cidades europeias, as ruas de Thimpu se parecem mais com as do Brasil.

Nas ruas de Thimpu naquela noite.
Lembra mais alguma rua comercial de Brasília que de Paris ou Nova Délhi. A “vibe” também tem semelhanças, com algumas lojas aqui e ali, e jovens a passear.
A praça do relógio, eu admito, é pitoresca.

Eu quero fechar este post sobre Thimpu com o que ainda vi na cidade na manhã seguinte. Foi também usando eu me dispus a vestir o traje tradicional butanês — um negócio que faz um calor hediondo quando não está frio o bastante do lado de fora. Durou pouca horas comigo, mas valeu pela experiência.

Deixo vocês com as fotos da nossa ida matinal à grande estátua de Buda na colina, naquela manhã de sol em Thimpu. Volto a seguir com as nossas voltas pelo mercado na cidade e a parte gastronômica deste curioso país.

A entrada.
O Buda sentado em meditação, diante de criaturas celestes ao seu redor.
Figuras celestiais na colina de esplendorosas vistas.
No recinto.
Devidamente a caráter (butanês) em Thimpu.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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