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Monges, paisagens e natureza numa estadia em pousada de família em Paro, Butão

Hoje era um dia de vistas, natureza, e de pela primeira vez nesta viagem dormir em homestay, acomodação em casa de família, não em hotel. Eu estava curioso para saber como seria o ambiente familiar butanês. Claro, em se tratando de Butão, há sempre também mais um dzong (fortaleza) com monges a visitar.

Era dia de rumarmos de volta a Paro, distrito onde esta viagem no Butão começou, mas também onde experiências inusitadas ainda me aguardavam.

Acordei na capital Thimpu para terminarmos de ver o que havia na cidade antes de zarpar a Paro. Fomos naquela manhã à alta estátua de Buda, que já mostrei, erigida por patrocinadores budistas singapurenses e de Hong Kong. Ainda está sendo terminado, o complexo. Eu ainda naqueles trajes típicos, que depois ficaram muito quentes, iria com o guia ainda a ver o takin, animal nacional, no Takin Reservation Centre em Thimpu. Trata-se de um bovídeo ligeiramente peludo e de chifres tortos, nativo daqui e que habita as montanhas até 4.500m de altitude nestes Himalaias.

A Reserva Real do Takin. Como os butaneses gostam de dar um panorama geral sobre seu país, essa reserva é uma parada comum nos tours pelo Butão. Nos arredores de Thimpu.
Esta é uma foto da internet para vocês verem o animal nativo aqui dos Himalaias. Há pelagem de diversas cores. (Foto de J. Patrick Fischer.)
A tchurma. Aqui na reserva só dá pra vê-los assim de longe, a menos que eles se aproximem da cerca.

É uma visita meio boba, meio que pra dizer que foi, embora o animal em si seja bonito.

De lá fomos ao Museu Popular (Folk Museum) ver instrumentos, utensílios, casas e materiais típicos do interior do Butão. Foi onde tomei uma pinga de cereais e tive um almoço maravilhoso, com chá amanteigado e muita pimenta com queijo, o prato nacional butanês, como mostrei no post anterior. Não é permitido fotografar o interior do museu, mas digo que é uma visita interessante pra quem gosta de vida popular ou antropologia. Você vê os detalhes das casas típicas butanesas, feitas em madeira, sem cama ou geladeira, onde as pessoas comem e dormem no chão dos cômodos. É uma coisa bem rural, como você pode imaginar.

Butanesa tecendo um cachecol em padrão de listras típico aqui.

À tarde foi que viemos para Paro, e detivemos-nos para ver o belo encontro de rios Paro Chu com Wang Chu. Embora de tamanho modesto, incomparável com os rios do Brasil, o lugar é mágico como poucos que eu vi, devido ao encanto de suas cores verdes.

O encontro das águas dos rios no Butão.
O rio verde no estreito cânion.
Olhando pra baixo na ponte, a revolução das águas verdes que rugiam por entre as pedras do caminho.

Se você fosse um poeta, teria feito um poema aí“, brincou comigo Thinley, o meu guia, vendo-me hipnotizado diante da corredeira. (Tenho um fraco pra isso.)

Perguntei a ele se não haveria um pouco onde pudesse entrar nessa água, ainda que estivesse fria, como eu já havia feito no gélido Lago Baikal na Sibéria. Tivemos a chance logo ali depois em 20 minutos, mas foi após o almoço, o que era pouco propício para um banho gélido. Fiquei na admiração. Quis pelo menos tocar aquela água.

Logo estaríamos nós três ali — eu, o guia e o motorista —, feito três garotos de escola a lançar pedras no rio para ver quem as fazia rebater mais vezes na superfície da água. O lugar era idílico.

Namguê, o motorista.
Thinely, o guia.
E eu me sentindo o barão da fumaça.

Era engraçado, porque eles vestem essas roupas tradicionais por obrigação às regras de turismo no país. Mas à noite após o “expediente”, já terminados os roteiros diários, eles que tinham seus quartos nas mesmas acomodações que eu apareciam à paisana, de chinelo e camiseta. Era como ver os bastidores da peça. Logo seria esse o caso novamente, ao chegarmos à tardinha à pousada de família em Paro.

A entrada na cidade de Paro propriamente dita já mostrava o quanto aquele lugar seria pitoresco, tanto seu entorno natural quanto a cidadezinha em si. 

Entorno de Paro, com campos de arroz e as montanhas ao longe em meio às nuvens.
A paisagem de Paro no vale. Parecia coisa de cinema.
O nossa vista lá de cima.
No alto.

Estávamos no alto porque fomos visitar o dzong (fortaleza) de Paro antes de entrar na cidade e visitar um museu sobre coisas do Butão, incluso História Natural, ao lado da antiga torre de guarda.

A antiga torre de guarda, hoje um museu.
No pátio interno da fortaleza.
Thinley e um monge sob uma das arcadas da fortaleza de Paro.
A decoração amarela das estruturas da fortaleza, em contraste com o hábito vermelho dos monges no Butão.
Monginhos jogando bola. (Parecem cenas do já clássico O Rapto do Menino Dourado, filme de 1986 com Eddie Murphy. Partes foram de fato filmadas aqui no Butão. 
A torre central vista de frente.
O pátio quieto sob aquele sol poente. Parece cenário de gravação de filme ou seriado medieval, mas são ambientes corriqueiros onde os funcionários trabalham, no Butão.
O ambiente externo à Fortaleza de Paro é este.
Diante da fortaleza e sua ponte.

Após essas voltas é que fizemos o check-in na pousada. Tratava-se de uma real casa de família, como muitas que são oferecidas em pacotes turísticos aqui no Butão. O nível de conforto é algo menor que nos hotéis, o preço pouco ou nada muda no custo do seu pacote, mas a comida é geralmente mais autêntica e dá a você a oportunidade de ver um pouco, por dentro, como é um lar butanês. 

Notei como as mulheres butanesas parecem mais empoderadas que as indianas e muitas outras asiáticas. Trabalham fora, falam com homens sem problema, abrem lojas, trabalham nos campos de arroz, pode o marido vir morar com ela (em vez a mulher sempre ir pra a casa do marido — ou até dos sogros —, como é muito comum na Ásia), e no geral parecem-me melhor resolvidas. A sociedade aqui me parece menos patriarcal que a média no oriente. Eu aqui sequer vi o homem da casa; fui recebido apenas pela dona da casa e sua irmã, duas moças de seus 35 e 30 anos.

Note, porém, que esses homestay daqui são mais parecidas com as pousadas de família no Brasil que com um hostel ou couchsurfing em que os donos do lugar fazem uma social com você e sentam pra ficar de prosa. Aqui não há quase social nenhuma. Não espere grande bate-papo. Embora possa ocorrer, não é da cultura. Vai ser muito mais mesmo como uma pousada no Brasil. 

A nossa humilde residência por uma noite.
Interior simples da casa.
O quarto. Não espere wi-fi, nem ar condicionado, mas costuma haver calefação (no inverno) e banheiro privativo, embora este seja relativamente básico e sem luxos.
A comida, como eu falei, achei mais autêntica que nos hotéis. Você pode experimentar do tradicional arroz vermelho butanês e os vários pratos com pimentas inteiras e queijo. (Mostrei os detalhes da culinária butanesa no post anterior.)

Paro se revelaria muito mais pitoresca que a capital Thimpu. Ainda que claramente asiática, ela me recordou cidadezinhas de montanha da Nova Zelândia ou da Suíça, com a paisagem montanhosa ao redor, ruelinhas de casario típico, etc. Há basicamente uma rua central em Paro, com muitas lojas e até cafés orientados para turistas, mas se você quiser preços menores recomendo olhar nas ruas transversais — às vezes há dos mesmos produtos, mas com preços melhores.

Na rua central em Paro.
Casario típico na rua, aqui sempre enfeitado com pimentas vermelhas a secar.
Cafés para turistas. Ambientes simpáticos.
Muita coisa interessante nas lojas. Brincadeira, mas para quem procura coisas de medicina natural, chás, mel, incensos, essas coisas, dá pra encontrar bastante coisa de boa qualidade e baixo preço. Há vendedores que quebram algo de inglês, mas se você for com seu guia pode conseguir mais coisas. (Não me pergunte o que é isso nesse frasco.)
O cair da noitinha, naquele friozinho de outono querendo se instalar em Paro, no Butão.
Jovens circulavam pelas praças e calçadas, num ambiente cuja tranquilidade social me encantou. Moças ali vendiam mingau de arroz, que experimentei e era uma delícia. Quentinho, ajudava a superar o frio. Como estava gostosa aquela noitinha em Paro.

Ainda fui ao mirante ver a Fortaleza de Paro iluminada à noite, e era noite de descansar bastante, pois no dia seguinte — meu dia final no Butão — seria a vez de finalmente subir até o Ninho do Tigre, o mosteiro nas montanhas que é a atração turística mais famosa do país. Até lá. 

A Fortaleza de Paro iluminada à noite.

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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