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Subindo ao mosteiro do Ninho do Tigre (Tiger’s Nest) nas montanhas: A principal atração do Butão

O Ninho do Tigre (Tiger’s Nest) ou, talvez sendo mais fiel à razão do nome, Ninho da Tigresa, é um mosteiro budista localizado no alto das colinas no Butão, à beira de um precipício. É a atração sine qua non a quem visita o país. A menos que sua condição física realmente não permita, eu diria que esta é uma atração obrigatória a quem vem aqui. É cansativa para quem não é trilheiro experiente, mas é também gostoso como um batismo de fogo.

O Guru Padme Sambhaya em sua face furiosa, voando na tigresa rumo a esta colina.

Diz a lenda que o Guru Padme Sambhaya, sábio budista do século VIII que trouxe o budismo tântrico das terras do Punjabe (no atual Paquistão) até esta região dos Himalaias, passava por aqui quando soube que demônios na colina aterrorizavam a população local. Ele então, que podia assumir diversas personas, em sua face mais combativa montou numa tigresa e veio voando até o alto dessa colina para derrotar o demônio.

Portanto, não é que tigres de verdade habitem este lugar. Há tigres no Butão, mas só no sul, os tigres-de-bengala (cujo nome advém da região da Baía de Bengala aqui no Sul da Ásia, e não diretamente do objeto de andar, o qual também recebe esse nome por causa da sua proveniência histórica antigamente).

O guru derrotou o demônio, pacificou a região, e ali a tigresa fez um ninho. O guru meditaria naquele lugar por três anos, três meses, três semanas, três dias e três horas. (Faça isso em casa.) Muitos séculos depois, em 1692, monges budistas butaneses finalmente decidiram construir um templo com mosteiro naquela colina. Ele veio a sofrer um incêndio em 1998, mas foi restaurado. A menos que você saiba do ocorrido, não perceberá.

A marcha até o Mosteiro Taktsang, do Ninho do Tigre (que em butanês é uma palavra de gênero neutro), é algo pesada, mas vale a pena. Nos círculos de trilheiros, ela é considerada simplesmente moderada, mas para quem não está habituado, prepare as pernas. Ela não é tão longa — sequer pode ser considerada realmente uma trilha — mas é bastante íngreme. Basicamente, você sobe por 2-3h. 

Sua localização isolada, pitorescamente no alto da montanha, faz pensar que é um lugar remoto. Não é. Não ache que sua caminhada será tipo Brad Pitt em Sete Anos no Tibete, você sozinho com os Himalaias. Na verdade, você será acompanhado por dezenas de outros visitantes — muitos indianos, vários chineses, e alguns europeus e australianos. A bilheteria só está aberta até as 13h, e como o sol esquenta, todo mundo sobe praticamente no mesmo horário das 8-9h da manhã. O templo em si só fica aberto até as 16h no inverno, 16:30h no verão. 

Ele é quase sempre inserido no final do roteiro, para você poder descansar no caminho de volta para casa, e também porque o mosteiro fica no distrito da cidade de Paro, onde está o único aeroporto internacional do país. Portanto, ele fica perto da porta de saída. E do ponto de vista do visitante, o mosteiro funciona como um espetacular gran finale para a sua viagem ao Butão. Foi assim comigo.

O mosteiro lá ao longe, no alto, no centro da foto. Era dia de ir até lá a pé.
À entrada, um pequeno “corredor polonês” de vendedores de souvenirs antes da bilheteria. Mas eles aqui não assediam os turistas; é só mesmo se você se interessar por algo.
Há cavalos para quem quiser subir montado, mas eles só vão até metade do caminho — dali em diante é proibido, e só se vai a pé mesmo. (Ir a cavalo tem um custo adicional por sua conta, que nunca está incluso no preço do tour. O restante todo aqui, como entradas, água, almoço etc., de praxe está — como quase tudo o mais no Butão — incluso no preço do seu pacote.)
A vista para o mosteiro lá ao longe, no alto da colina um pouco à direita.

Num bom passo, você leva duas horas para chegar até o mosteiro. Não se deixe enganar pela trilha plana do começo: quase tudo na ida é subindo. Comigo, os primeiros 90 minutos foram subindo, subindo, e subindo por trilhas de chão, acompanhado de várias famílias e casais de indianos, alguns chineses, e uns coroas ocidentais.

O começo é assim. Depois você se embrenha pelos pinheiros. O ar vai ficando tranquilo, tranquilo, apesar do burburinho de pessoas que sobem.
Subir, subir. (Essa moça loira, suíça, era provavelmente a única pessoa ocidental com menos de 40 anos que encontrei. Devido aos custos altos da viagem, poucos jovens vêm aqui. Mais sobre os custos no post de dicas.)
No alto, um grupo galhofeiro de chineses. A vista vai ficando cada vez mais linda conforme você sobe.
A vista lá do alto.
Marchando por entre as árvores.

Depois de mais de 1h subindo, você chega a um checkpoint, um ponto com muitas bandeirolas e uma roleta de oração budista, daquelas que já mostrei antes. Os cavalos só vêm até aqui. De agora em diante, todos precisam ir a pé. Para quem já vinha a pé, o caminho adiante fica melhor, mais tranquilo e menos poeirento, pois você já não precisa dividi-lo com os cavalos.

O cansaço, claro, já batia depois de 1h de caminho íngreme, mas subir mais era preciso.

Bandeirolas budistas enfeitando o caminho em algumas partes.
Roleta budista de orações (prayer wheel). Os cavalos só vêm até aqui.
Ainda havia chão pela frente. O mosteiro, como vocês podem vê-lo lá atrás na foto, ainda estava um tanto longe.
Os chineses posando com um dos vários cachorros fofos que há pelo Butão. (Não, nem todo chinês come cachorro. Em verdade, é uma minoria bem pequena, apesar da má fama que o país todo carrega.)
O caminho colina acima naquela manhã de outubro.

Depois de só subir por em torno de 90 minutos, há finalmente um alívio em ter um caminho plano por algo em torno de 10 minutos. Até que você aí finalmente avista o mosteiro mais de perto.  

O Mosteiro do Ninho do Tigre mais de perto, logo ali.

Você pode notar pela foto que eu estou mesmo um pouco acima do mosteiro. São coisas do caminho. Era preciso agora descer 15 minutos de escadarias (má notícia para a volta) e depois subir degraus por outros 5 minutos até, finalmente, chegar às portas do mosteiro. Lá você se desfaz de todos os seus pertences — guarda-os num armário trancado —, pois é proibido fotografar ou usar o celular a partir dali.

Suado e cansado, porém feliz.
Escadarias, aí vamos nós.
A vista daqui.
O mosteiro ali no alto.
Passa-se ao lado de uma alta e estreita cachoeira.
Até que finalmente chegamos à entrada do mosteiro. Há uma rotatividade entre os monges, que passam uma temporada aqui e depois trocam de mosteiro com outros. Vocês os verá muitos aqui, em seus hábitos vermelhos. Essas escadarias ali à esquerda são a entrada, mas antes é preciso pegar um bilhete na entrada (em geral providenciado pelo seu guia e já incluso no custo do seu pacote) e tratar com o guarda.
O guarda em seu momento platônico, apontando para o céu como o filósofo grego na Escola de Atenas. Aqui ele proseava com os outros butaneses. (Em outras interpretações, ele estava pedindo um menorzinho, ou ainda um dedo de pinga.)

Como fotografar no interior não é permitido, vocês terão que se contentar com a minha descrição. Quase tudo é em rocha, aquele chão frio onde é preciso pisar só de meias, devido à exigência de retirar os sapatos no interior. São muitos os templos, uns seis a oito, cada qual repleto de imagens douradas, coloridas, diante das quais os butaneses — monges ou não — se prostram repetidas vezes em respeito quando entram. 

Você verá figuras do Buda, mas também do Guru Padme Sambhaya (o que voou até aqui na tigresa), veneradíssimo aqui no Butão, e muitas pinturas com fábulas budistas nas paredes — como nos outros templos do país. O que realmente causa um suspeito extra aqui são as vistas das janelas, para o nada, para o distante, para a vista longínqua das paisagens, como se você estivesse num cenário de O Tigre e o Dragão

Você se põe a imaginar cada uma das estações neste lugar: o sol e as manhãs frescas de verão, com a brisa da montanha a entrada pela janela. As chuvas, como devem ser sentidas neste local tão remoto, isolado da civilização. A neve, que cai no inverno acompanhada de um vento gélido dos Himalaias, como deve dar um ar ainda mais pesado de “retiro” a este lugar e aos monges que estão ali.

Uma pequena cozinha faz barulho, com os monges lá dentro, mas não é permitido entrar. Ao contrário dos mosteiros cristãos, aqui você não verá aquela bonança culinária com mesas compridas e cozinhas amplas, que marcam a vida monástica europeia. Não, aqui os budistas nada têm daquela imagem do monge cristão barrigudo e apreciador de vinho. Eles aqui comem o mínimo, e tudo o que você visita é mesmo o interior dos templos, com seus tablados de madeira no chão e os interiores ligeiramente escuros, só mesmo com a luminosidade das janelas.

Levei cerca de 1h visitando os interiores e contemplando o lugar. As vistas, claro, são impressionantes. Depois do calor do exercício de subir até aqui, após aquietar-se, bate até o frio pela altura e pelo outono que já se instalava. 

Era preciso iniciar o caminho de retorno, o mesmo da vinda, mas agora mais cansado. Aqueles 15 minutos que levei descendo escadas, agora se transformariam numa subida lenta, sem pressa, e com abundantes pausas para fotos.

A vista e o caminho.
O mosteiro, visto já sendo deixado pra trás. É tão pitoresco que vira um grude para os olhos; dá vontade de ficar mirando-o constantemente.
Pausa para o fôlego e para as fotos.
De boa no Butão.
Meditação e o Ninho do Tigre.

Se alguém pensou em almoço, era só no que eu pensava àquela altura — ainda mais depois de gastar energia. Dali do mosteiro, é mais 1h de caminhada até o único restaurante que há por aqui, na metade do caminho. (Os butaneses o chamam de “cafeteria”, mas é um restaurante que serve almoço.) Lá também há banheiros — a quem se lembrou disso — gratuitos aos clientes e bem mais limpos que os banheiros pagos no mosteiro.

Da cafeteria, era possível ainda mirar o mosteiro no alto, emoldurado pelo jardim de dálias do canteiro que havia.

Retornando. O caminho de volta é o mesmo.
Cuidado para não escorregar na descida, e prepare os joelhos.
A cafeteria ou restaurante onde a maior parte dos visitantes almoçam. Há quem se detenha aqui na subida, também, para uma xícara de café. É uma opção, embora eu não o tenha feito. Preferi chegar logo ao topo e relaxar depois.
Dálias brancas no jardim do restaurante, e o mosteiro deixado pra trás lá em cima.

Ao todo, se você quer ter uma noção precisa, eu iniciei a subida às 8:30h da manhã, levei duas horas até o mosteiro (90 min subindo, 10 min no plano, 15 descendo escadarias, depois 5 min subindo escadarias), depois uma hora visitando o mosteiro, de lá uma hora descendo até o restaurante, e do restaurante mais 45 minutos pra retornar até o carro. Integre aí o tempo gasto comendo e relaxando na pausa de almoço. Você termina o passeio no começo da tarde, quando o movimento aqui também diminui. (Quase ninguém vem de tarde; todo mundo parece ter a mesma ideia de vir iniciar a subida entre 8-10 da manhã.)

Foi mágico e cansativo. Eu agradeci ter a tarde livre pra tomar um banho e relaxar um pouco no hotel, um hotel pomposo que me arrumaram numa parte alta nos arredores de Paro. Dali eu via até o aeroporto, onde na manhã seguinte me esperava um voo que encerraria esta viagem. 

Casal real, em foto no saguão do meu hotel este dia.

EPÍLOGO

Foram 5 dias apenas, mas tão densos e cheios que eles pareceram ter a riqueza de uma viagem muito mais longa. Aqui no Butão, como os custos são altos, é indicado que seja assim (a menos que o seu bolso seja muito fundo). Mas disso e das dicas de como arranjar uma viagem até aqui eu falarei no post seguinte, com o balanço geral. 

Por ora, era a vez de eu me despedir dos meus acompanhantes diários: o guia e o motorista neste roteiro que foi praticamente uma experiência VIP.

Despedindo-me de Thinley, o guia, e Namguê, o motorista. Eram mais divertidos do que parecem pela foto. É o costume do Sul da Ásia de as pessoas ficarem sérias para o retrato, como fazia o povo antigo no Brasil.
De volta ao aeroporto, era hora de eu singrar outros ares.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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