Suécia

Na Suécia, entendendo o significado original do Natal

É noite aqui na Suécia. Aliás, nesta época do ano, parece quase toda hora ser noite aqui na Suécia. A época do Natal, solstício de inverno aqui no hemisfério norte do planeta, tem as noites mais longas do ano. 

Na cidade de Gotemburgo, onde moro (sim, eu viajo muito mas moro em algum lugar), o sol estes dias tem nascido perto das 9h da manhã e se posto antes das 15:30. Entre um momento e outro, não imagine que há sol: no geral têm sido dias nublados, de um céu de chumbo, ventosos e de temperaturas por volta de 0 grau.

Muito se fala sobre o Natal — que celebra o nascimento de Jesus, que se tornou muito comercial, que as reuniões de família são assim ou assado, que originalmente foi uma festa pagã, etc. Não vou entrar aqui nos méritos natalinos; estas são discussões corriqueiras. Que Jesus não nasceu dia 25 de dezembro e que a Igreja aproveitou-se de festejos pré-cristãos para misturar as coisas, também já é amplamente sabido. O que eu quero é relatar o significado original do Natal.

25 de dezembro é quando, em todo o hemisfério norte, os dias finalmente começam a ficar mais longos, após meses de escuridão cada vez maior. Setembro inicia o outono, e outubro já requer casacos, substituindo o sol por chuvas frias. Depois vem um quase sempre depressivo novembro, e à altura de dezembro as pessoas já sofrem de um humor abalado  — e carência de vitamina D. A partir de 21 de dezembro vêm as mais longas noites, frequentemente também frias, e convidando ao aconchego dos ambientes internos.

Numa escura noite de dezembro em Gotemburgo, Suécia. (Acho que eram umas 17h.)

Para quem vive nos trópicos, essa é uma realidade distante, talvez até desconhecida. Mas nas zonas temperadas do globo a variabilidade na duração dos dias faz parte da vida tanto quanto a mudança de temperatura entre o verão e o inverno.

Todas as associações religiosas historicamente feitas ao fenômeno astronômico — com o antigo deus Mithra na Pérsia, com o Festival de Poseidon na Grécia Antiga, ou com o nascimento de Jesus — são sobreposições a esse significado original da celebração do sol, feita desde a pré-história por várias sociedades agrárias em todo o hemisfério norte.

Para essas primeiras sociedades, para quem uma boa colheita podia representar vida ou morte, o fluir das estações era fundamental. Com o tempo e as crenças, mitologias mil foram construídas ao redor do fenômeno. Viraram as roupagens religiosas dos últimos séculos.

Representação de uma casa medieval nórdica, em Gotemburgo. (Não era uma estátua de cera, mas uma mulher de verdade aí.)

Na Suécia, o Natal se chama Jul [lê-se Yul] desde o tempo dos Vikings. O nome advém da antiga religião nórdica, mas manteve-se mesmo após a cristianização. Todos os reinos escandinavos com o tempo viraram católicos, depois protestantes (luteranos), e a partir do século XX cada vez mais secularizados e agnósticos. É curioso notar como, hoje, a celebração aqui parece estar voltando às origens.

A maior parte dos meus natais foram passados no Brasil com a família, mas já cheguei a estar na Europa antes nesta época. Só que nos países latinos como Portugal e Itália, vê-se grande ênfase no presépio; na Alemanha e outros países da Europa Central, em corais religiosos e celebração das semanas do advento. Em quase todos os lugares, você fica entre a celebração cristã ou a consumista. A Suécia foi o primeiro lugar onde eu entendi a celebração natural do mero aconchego diante da escuridão fria.

Você acorda com tudo ainda escuro; vê 7 ou 8h no relógio com um breu do lado de fora, e não crê. Sai pra trabalhar por ruas de árvores secas, onde um vento frio por debaixo de um céu cinzento lhe diz que se acolha, que repouse, que se omita da vida por um tempo como fazem as plantas. É quase um chamado à introversão; não é à toa que os nórdicos são tão quietos. 

Mas é também um chamado ao recolhimento entre os seus. Se nas temperaturas altas todo mundo está por aí a fazer algo, neste tempo escuro e frio dá vontade de ficar só na afeição, no aconchego, e festejar com regozijo e alívio quando os dias finalmente começam a se alongar novamente, com a promessa de primavera por vir.

Respeito todas as celebrações, mas digo que gostei de sentir na pele e finalmente entender esse sentido original do Natal. 

Famílias nas ruas às vésperas de Natal em Gotemburgo, Suécia.
Em Liseberg, Gotemburgo.
É escuro, é frio, mas dá um aconchego gostoso — mais que nos nossos natais de veraneio do hemisfério sul. Aqui dá uma vontade de se encolher dentro em algum lugar nessas longas noites, com algo quente para tomar, uma meia luz, e gente querida por perto.
Numa feirinha de Natal na Suécia.
É uma escuridão quase mágica, de fábula.
E, falando em fábula, aqui não há exatamente a fábula do Papai Noel, mas a do tomte, ou dos tomte, criaturas pequenas, que vivem na floresta, como duendes barbudos e de chapéu em forma de cone, que nesta época do ano entregam presentes às crianças. Essa placa indica a direção de sua casa.
Sua morada é na floresta.
A ideia original é que há muitos tomte, que são como espíritos da natureza. O do Natal, hoje fundido à figura global do Papai Noel, é quem entrega os presentes — não em segredo pra quando as crianças acordarem no dia seguinte, mas pessoalmente entrando pela porta na véspera de Natal, o que sempre dá mais trabalho aos pais, que têm que pedir ao vizinho que se disfarce de duende ou algo assim.
O tomte e uma criança no habitual ritual do “O que você quer de presente?”. O tomte, no entanto, não é gordo nem tem as vestes vermelhas da Coca-Cola.
Vendinhas de produtos típicos natalinos na Suécia. Dentre eles, não pode faltar glögg, a versão escandinava do vinho quente com especiarias: cravo, canela, casca de laranja, entre outras. Pra quem já conhece o gluhwein alemão ou suas variantes pela Europa Central, o glögg escandinavo é mais doce e leva também amêndoas moídas e uva passa dentro. (Quem disse que os brasileiros eram os únicos a servir uva passa no Natal?)

Nozes e frutas secas são típicos produtos de inverno na Europa, daí nós brasileiros termos até hoje esse hábito herdado — mesmo celebrando o Natal no verão.

Ao lado delas, especiarias como cravo, canela e açúcar foram por muitos séculos o que havia de mais caro e que as pessoas guardavam para ocasiões especiais. Daí o vinho temperado, os muitos biscoitos de canela, e diversas guloseimas típicas com especiarias nesta época aqui. No caso sueco, glögg acompanha um pepparkakor, literalmente um “biscoito de pimenta” (do reino), mas hoje aqui na prática um biscoito de especiarias com gosto de canela, cravo e cardamomo.

Com ou sem pepparkakor, com ou sem conotação religiosa no seu Natal, acho que ele é sempre ocasião pra aconchego. Que assim seja a todos vocês. Um Feliz Natal a todos. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Na Suécia, entendendo o significado original do Natal

  1. Nosssaa, parece um conto de fadas hahaha…Que lindo esse Natal ai na Suécia, Que delicia de clima natalino. Maravilha. E que bela e significativa postagem, meu jovem amigo viajante. Deu quase para sentir o sabor do clima natalino do Norte ai. Belas histórias, lindas figuras, colorido, luzes, gente para la e para cá, ´sítios finamente decorados, tudo transpira essa magia do período natalino. Adoro essa Natal frio por fora e acolhedor por dentro. Uma gostosura. Parece um mundo magico de sonhos, cores, luzes e fantasias. Amei a postagem, ea festa e o lugar hahah. Parabéns. Deve ser agradável morar ai pela Suécia. Gosto do frio mas penso que ela seja um pouco fria demais para o cotidiano.

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