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Mitad del Mundo, latitude zero: Visitando o marco da linha do equador no Equador

Era dia de visitar o marco da razão pela qual o Equador tem esse nome. A imaginária linha do equador, que separa o planeta em duas metades, significa exatamente isso: o circulus aequator (em latim), o círculo que faz duas partes iguais.

Desnecessário dizer que a linha passa no país Equador. A partir de missões geodésicas francesas nos anos 1700, quando estas ainda eram colônias espanholas, é que se começou a identificar tais marcos da Terra e a chamar estes de territórios do equador. Em 1822 há a independência da Espanha e formação de um país grande chamado Gran Colombia, com as hoje Colômbia, Venezuela, Panamá e Equador. Já em 1830, este território se separa, abraçando pra si a nomenclatura lhe dada pela missão geodésica. Temos assim o Equador país.

A linha imaginária hoje passa por 13 país: Equador, Colômbia, Brasil (em Macapá, Amapá), São Tomé e Príncipe, Gabão, República do Congo, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia, Somália, Ilhas Maldivas, Indonésia, e Kiribati. No Equador, há um marco chamado Mitad del Mundo, uma área com um marco de pedra e repleta de lojas, pequeninos museus e outras atrações turísticas. Eu vim visitar, e acho que vale a pena.

Na latitude zero.

A primeira coisa que você irá notar, uma curiosidade, é que o marco maior parece não estar exatamente na latitude zero. Claro que aqui estamos próximos o bastante; na dimensão planetária, estar 50m para cá ou para lá fazem mínima diferença. No entanto, há vários pequenos lugares clamando ser a verdadeira latitude zero. “A nossa foi calculada com GPS militar“, disse-me uma funcionária orgulhosa, buscando legitimidade. É engraçado.

Cheguei com minhas anfitriãs equatorianas Sandra e Mishelle, e mais alguns amigos do albergue. Um ônibus simples (embora um tanto demorado, de 1h) te traz de Quito até cá. Encontrará mais pessoas se vier no fim de semana, já que muitos quiteños vêm se distrair aqui com a família. É um pouco aquela atmosfera de “domingo no parque”, já que há várias atrações culturais simples, como danças folclóricas e música na rua.

No humilde ônibus de Quito para a Mitad del Mundo, com a passageira ali sem cerimônia em cima do motor. É praticamente como no Brasil, a única grande diferença é mesmo que nós falamos um tipo diferente de latim.
Apresentações culturais folclóricas neste domingo (o mais movimentado dia da semana aqui) na Mitad del Mundo. Aqui à frente, uma senhora com suas feições indígenas e o chapéu-côco inglês que se tornou típico entre as mulheres andinas a partir do século XIX.

Meus amigos e eu começamos, na verdade, por um lugar que nada tem a ver com a linha do equador, mas que gostei de ver: um pequenino museu cultural sobre os indígenas equatorianos da sua região amazônica, diferentes dos indígenas andinos, aqui do alto das montanhas.

Vimos umas bizarrices inesquecíveis (mas que faziam parte da vida cotidiana daquelas pessoas), como homens terem que amarrar o pinto pra cima, com uma cordinha presa na cintura ao cruzar um rio, para evitar contaminação pelo miúdo peixe amazônico candiru, que dizem entrar pela uretra e alojar-se dentro de você. (Deu uma agonia danada imaginar.)

Ou a tradição macabra dos povos amazônicos Jivaros de decapitar os inimigos e encolher as suas cabeças para usá-las como amuletos em volta do pescoço. Fazia-se uma cisão para remover o crânio e manter a pele, conservada com ervas e depois recosturada em volta de um pedaço de madeira. Com isso a cabeça morta ficava pequena — e, na crença Jivaros de outrora, prevenia que a alma do morto buscasse vingança. (Quem quiser ver como fica, é só ver nesta página da Wikipedia.)

Como eu disse: coisas que a gente não esquece. Mas vamos ao(s) marco(s) da linha do equador.

Este é o marco maior; se está exato, eu não sei. Há toda uma área turística em volta, com lojas de souvenirs e lugares onde comer. (Se você comer fora desta área, no entanto, sai mais barato.)
Apresentações folclóricas indígenas animando o domingo.
Diante do marco.

A alguns metros dali, um outro marco que diziam ter sido calculado com GPS militar, supostamente mais preciso, e onde faziam você caminhar na linha pra ver como era difícil equilibrar-se. Eu confesso que efeito placebo aí se misturava à sua sensação de desequilíbrio. Seja como for, é divertido.

Você pode também tentar equilibrar um ovo. Dizem ser mais difícil fazê-lo na linha do equador, por o ovo pender para um lado ou o outro. Ficou a impressão de que é verdade, mas se é mesmo, confesso que não sei.
Dividido entre o norte e o sul do mundo.

Se você vier até aqui, dê uma caminhadinha para conferir a paisagem de Pululahua, uma reserva geobotânica habitada feita sobre a cratera de um vulcão ativo (uma loucura). São 12km de diâmetro, a cratera. Mais parecem montanhas separadas, mas embaixo é geologicamente um vulcão. 

Eu comprei uns pedaços de cana para chupar e apenas vi a paisagem ao longe, mas é possível descer e fazer trilhas.

A vista sobre Pululahua, uma cratera de vulcão habitada no Equador.
Hoje se trata de uma reserva geobotânica.

Por fim, dê uma espiada de longe no Prédio da UNASUL (União de Nações Sul-americanas, composta por todos os países do continente). O seu secretariado fica aqui no Equador, na Mitad del Mundo. A sua arquitetura é um tanto pós-moderna (parece feita de Lego), mas como eu valorizo a instituição, gostei de ver pessoalmente. A UNASUL anda um tanto esquecida hoje em dia mas, como o mundo atual é feito de blocos econômicos (e políticos), eu acho bom se lembrarem dela logo novamente.

Sede da UNASUL, União de Nações Sul-Americanas, no Equador, lugar apropriado.

A visita estava boa, mas era hora de ir embora, pois hoje seria aniversário de uma inglesa lá no albergue e ia ter bolo. Vejo vocês de volta em Quito.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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