Romênia

Brasov (Transilvânia) no inverno e no Natal

Basta mostrar um castelo e falar “Transilvânia”, e os ocidentais imediatamente pensam todos no Drácula. Calma, a Transilvânia tem bem mais que isso, nem é esse lugar macabro que muitos imaginam. Há, sim, uma atmosfera algo soturna, nebulosa, ajudada tanto pela natureza ainda preservada de matas e colinas verdes (ou algo brancas, no caso deste inverno) quanto pelas estruturas medievais pitorescas bem conservadas. Longe de malévolo, o ambiente é bem bonito, bucólico e até romântico. 

Por exemplo, celebra-se muito bem o Natal aqui na Transilvânia. Pra quem não sabe, estamos no miolo da Romênia. O país é entrecortado pelos Cárpatos, montanhas que cortam o país na forma de uma lua crescente, e a Transilvânia é o que está no centro. 

Localização da Romênia na Europa, com os Cárpatos a cortar-lhe no centro.
Mais detalhes. Brasov, aonde me dirigia hoje, fica logo no início da Transilvânia para quem chega de Bucareste. Minha meta era percorrer várias dessas cidades nesta viagem.

Na estação de trens Bucareste, Gara de Nord, nomeada à semelhança da parisiense Gare du Nord, duas ciganas circulavam com dois cordeiros brancos enfeitados com guirlandas natalinas vermelhas, como se fugidas de alguma manjedoura de encenação.

Minha mãe olhou pra elas, e prontamente vieram pedir esmola. Acredito que estavam oferecendo fotos com os cordeiros em troca de um trocado. O pobre de um cordeiro mancava, parecendo assustado de estar ali na estação cheia.

No trem, alguns homens de ar pobre transitavam pelo corredor vendendo revistas e desejando boa tarde antes de partirmos. Os trens na Romênia são razoavelmente confortáveis, se suas expectativas não forem muito altas. Num post posterior eu falarei mais deles e de como reservá-los.

Os campos, agora nevados, da paisagem romena desta região da Valáquia logo dariam lugar às montanhas brancas e verdes dos Cárpatos, que delimitam a mal-afamada Transilvânia — um lugar lindo. Ainda a adentrávamos quando, juro, senti odor de alho dentro do trem. Me perguntei se alguém seriamente tinha medo de vampiros, ou se eu é quem estava imaginando. Até confirmei com a pessoa ao meu lado, que garantiu haver mesmo cheiro de alho no ar.

Num trem romeno. É relativamente confortável, embora viaje devagar.
Na região da Valáquia, sul da Romênia, onde fica a capital Bucareste, as paisagens são planas assim.
Ao adentrarmos a região da Transilvânia, elas se transformam. Árvores, colinas e montanhas ao fundo tomam o lugar das planícies.
Com o perdão pelo reflexo das luzes do trem na janela, mas aqui escurece cedo no inverno. A vista lá fora.

Chegaríamos a Brasov à tardinha. Lê-se “Brashov”, já que esse S tem cedilha e, portanto, som de “sh” em romeno. Uma das cidades mais pitorescas da Transilvânia, que eu havia visitado há anos, no verão de 2011, e que agora parece estar mais desenvolvida. Um longo calçadão com lojas de marca, bancos, cafés e restaurantes serve de artéria que corta o centro histórico da cidade até a famosa Basílica Negra (Black Church, ou Biserica Neagra em romeno), uma catedral gótica cujas pedras escureceram-se após um incêndio.

A estação, todavia, fica algo afastada do centro histórico. Um táxi por cerca de 15 lei (apr. R$ 15) o leva até lá *se não houver malandragem do taxista*. Ou você pode tomar o ônibus 51, que passa várias vezes por hora. Como noutras partes da Romênia, é preciso comprar um ticket antes, num quiosque, e validá-lo numa das maquinetas dentro do ônibus. O motorista não tomará conhecimento, mas há fiscais que podem entrar e checar os passageiros, e multá-lo se você não tiver um ticket validado. Os tickets aqui em Brasov custam 4 lei, e servem para dois usos — que podem ser para duas pessoas numa mesma ida.

Octavian, funcionário da pousada que reservei, me ligou quando eu ainda estava no ônibus. Logo, na parada da Biserica Neagra, veio aquele altão simpático com hálito de fumante me apanhar. Caía uma neve fina naquela noite precoce de fim de dezembro, muitas pessoas na rua — em sua grande maioria romenos — ainda a curtir os ares natalinos que permaneciam com a feirinha de Natal e suas decorações ainda na cidade.

A estação de trens de Brasov. Modesta, porém funcional.
A estação vista de fora. Ela fica a uns 3Km do centro, e o ônibus 51 o leva lá. Um ticket com direito a duas passagens, que você compra ali no quiosque, custa 4 lei (o equivalente a uns R$4). Ou você pode ir de táxi, que custa uns 15 lei se não houver malandragem do taxista.
O centro de informação turística de Brasov sob a neve que caía naquele fim de tarde já escura.
As pessoas no centro da cidade, ainda decorada pelo Natal.
A famosa Basílica Negra (Biserica Neagra) de Brasov. Vale conhecer.

Como quem já veio sem dúvida sabe, a Transilvânia tem uma cultura bastante diferente do restante da Romênia. De fato, o país “Romênia” com as fronteiras atuais só existe há 100 anos, desde 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial. A Transilvânia foi por muitos séculos na Idade Média uma região húngara, depois caindo em mãos turcas e depois austríacas. Como resultado, ela se parece mais com a Europa Central — com fortes influências húngaras e germânicas — que com o restante da Romênia. 

Cores em tons pastéis no casario típico da Europa Central, em Brasov.
Colégio.
Casas de Brasov sob a neve.
As colinas que rodeiam Brasov. Lá no alto você pode ver o nome da cidade, estilo o “Hollywood” nos EUA. Durante os anos 50 e 60, a cidade mudou seu nome para Stálin, e lá ficava (em vez de Brasov) o nome do ditador soviético.
Árvores e pontas das igrejas típicas daqui.

Brasov emergiu como cidade em 1211, por ordem do rei húngaro André II, que convidou cavaleiros teutônicos (germânicos) a povoar a região e ajudá-lo na defesa das fronteiras de suas terras. Os teutônicos chamaram a cidade de Kronstadt, “cidade da coroa”, e seria uma de muitas cidades da Transilvânia que hoje carregam influências tanto germânicas quanto húngaras — e, muitas vezes, um nome em romeno, outro totalmente diferente em alemão, e um terceiro em húngaro.

Arquitetura típica dos castelos e fortificações germânicas, em Brasov.
Ruas com letreiro gótico, na Brasov já escura.
E falando em gótico e em escuro, eis a Basílica Negra vista de frente. Ela foi construída pela comunidade germânica daqui no final do século XIV. Seu nome popular deriva de um incêndio, que não se sabe bem quando ocorreu, mas que escureceu parte das suas paredes, como você pode ver na base da foto.

Continuaremos a ver mais e mais das heranças húngaras e germânicas aqui na Transilvânia. Mas como hoje isso tudo é Romênia, juntei-me a celebrar com os romenos os 100 anos de formação da sua república. 

Copinhos de papel festejando o centenário eram dados com o vin fiert, como o quentão de vinho é chamado em romeno. Bandeiras da Romênia estavam hasteadas por toda parte; em parte por celebração, em parte por nacionalismo querendo ser imposto aos descendentes de alemães e húngaros que ainda vivem aqui na Transilvânia em grande quantidade e que preservam a vida em seus idiomas próprios. (Estimam-se, por exemplo, mais de 1 milhão de pessoas que têm o húngaro e não o romeno como primeira língua na Transilvânia.)

100 anos da República da Romênia, fundada em 1918. Num copo de quentão.
Vin fiert, como chamam em romeno o quentão de vinho com especiarias, popular por quase toda a Europa na época do Natal. Sou fã incondicional.
Barraquinhas vendendo castanhas-portuguesas assadas, entre outras guloseimas e muitos artesanatos (alguns, da China passando por artesanato, como em todo lugar). Se você gosta de feirinhas de Natal, vale informar-se no Google naquele ano sobre as datas exatas das feirinhas de Natal em cada cidade. Lá por outubro ou novembro já começam a sair os calendários. Na maioria das cidades romenas, ao contrário do que ocorre na Alemanha (onde elas acabam na véspera do Natal), elas se estendem até o Ano Novo ou Dia de Reis, no começo de janeiro.
Fonte de luzes, árvore iluminada, e a prefeitura da cidade. Brasov ainda decorada pelo Natal no fim de dezembro.
Entradas e passagens no centro histórico de Brasov.
O calçadão principal.

Mas Brasov não era minha parada final na Transilvânia; era só o começo. Eu rumaria daqui a Sighisoara, a cidade onde nasceu o nobre que inspirou o Drácula e uma das cidades mais pitorescas desta região.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Brasov (Transilvânia) no inverno e no Natal

  1. Nossa que fofura de cidade. Parece casa de boneca, Lindas ruelas, belo casario, gostosas praças, deliciosas barraquinhas de Natal, com o saboroso quentão, fazem o Natal muito especial. Fofa cidadezinha. A decoração e as luzes coloridas são um espetáculo à parte. Belas construções, lindas igrejas e uma arquitetura muito charmosa. Tudo lindo. O inverno, o frio e a neve emolduram essa linda festa e criam uma atmosfera de sonhos. Bela região. Linda cidadezinha. Parece um presépio. Certamente um feliz tempo de Natal.

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