Sibiu é possivelmente a cidade mais bonita que eu ainda não conhecia. Fundada no século XII como um entreposto comercial por imigrantes alemães — saxões, para ser mais exato —, Sibiu é um dos grandes centros da Transilvânia e talvez a mais bela cidade na Romênia. O que Sighisoara mostra da Transilvânia medieval dos tempos do Drácula, Sibiu revela da Transilvânia barroca, mais moderna, dos últimos séculos já sob domínio austríaco. Foi também onde eu escolhi passar este último réveillon.
Era noite quando eu cheguei aqui, vindo de Cluj.







Aquela, porém, ainda não era a noite do réveillon. Eu havia me dado a chance de visitar direito a cidade no dia 31 antes da virada. Depois, partiria no trem das 3h da manhã ainda no calor da festa.
Calor, diga-se de passagem, não havia muito. Estávamos na casa dos zero grau com alguns ameaços de neve, o céu pesado e cinzento do inverno romeno sobre nossas cabeças. Eram, porém, horas tranquilas. Há poucos turistas na cidade nesta época do ano.


Como você já percebeu se leu meus posts anteriores (Brasov, Sighisoara e Cluj), a Transilvânia é um caldo de culturas romena, húngara, e germânica. Neste caso de Sibiu, é o elemento germânico que se sobressai. Ao longo dos séculos, a cidade foi o maior centro urbano dos saxões que migraram pra cá a convite do rei húngaro, que à época governava estas terras.
Esses germânicos, ao contrário dos húngaros, não chamaram estas terras de Transilvania (em latim) nem Erdély (o mesmo significado, “para além da floresta”, em húngaro), mas de Siebenbürgen: “sete cidades”.
A esta, fundada por um tal Hermann de Nurembergue, deram o nome de Hermannstadt em alemão. Os húngaros a conhecem como Nágyszeben. Já os romenos adaptaram o nome em latim, Cibinium, como os homens letrados na Idade Média a chamavam, e deram o nome de Sibiu.
Embora a maioria dos germânicos tenha ido embora à Alemanha Ocidental após o cair da “cortina de ferro” comunista sobre a Romênia durante a Guerra Fria, há moradores remanescentes, e você ainda encontra muita coisas em alemão sobretudo nas igrejas — além de toda a arquitetura com jeito de Europa Central.






Nas postagens anteriores eu comentei como por muito tempo a Transilvânia foi uma região de fronteira de guerra entre húngaros e invasores não-cristãos vindos do oriente. Destes, os principais foram os turcos otomanos, cujo sultão reclamava para si o título de califa — líder supremo do Islã. Pois bem, não terminei de contar a história.
Uma das principais embates se deu bem aqui, a Batalha de Hermannstadt (1442), quando o rei húngaro João Corvino, o Cavaleiro Branco, deu uma surra nos turcos e rechaçou por um bom tempo as suas tentativas de invasão. Seu filho, Matthias Corvinus (1443-1490), era rei destas terras quando a Transilvânia viu a figura de Vlad, o empalador (1431-1476), o qual inspirou o personagem do Drácula.
A resistência dos monarcas cristãos, porém, seria vencida. Em 1453, os turcos sob Mehmet II conquistariam Constantinopla (atual Istambul), último bastião do Império Bizantino. Décadas depois com Suleiman, o Magnífico, derrotariam os húngaros na fatal Batalha de Mohács (1526). A Transilvânia cairia por mais de um século sob suserania turca, assim como todo o reino da Hungria. (A presença de muitos banhos públicos e termas ainda hoje em Budapeste se deve a essa tradição implantada pelos turcos. Os cristãos daquele tempo, sinto lhes dizer, não prezavam muito pela higiene.)

Os turcos chegaram a sitiar Viena em 1529, logo depois, mas sem conseguir conquistá-la. Fariam-no novamente em 1683, depois de 150 anos de domínio consolidado sobre a Hungria (inclusa aí a Transilvânia). Porém, nessa a maré começou a virar. Na chamada Segunda Batalha de Mohács (1687), no mesmo lugar onde haviam vencido os húngaros, foram derrotados pelas forças do Sacro-Império Romano Germânico.
Sibiu voltava à Cristandade, junto com o restante da Transilvânia, mas agora sob a suserania austríaca dos Habsburgo. Esse domínio ela teria pelos séculos seguintes até as revoluções nacionalistas de 1848, quando os húngaros voltaram a reclamar soberania e o que era Império Austríaco virou Austro-Húngaro, a famosa “monarquia dupla”, com a Transilvânia ficando novamente sob a coroa húngara.
Isso explica muito do barroco que que se vê bastante em Sibiu, tanto nas frontes ornamentadas de prédios — ao bom estilo imperial centro-europeu — quanto dentro das igrejas. A Catedral Católica Romana à Santíssima Trindade, finalizada em 1738 aqui pelos austríacos, é um belo exemplo. Ela fica na praça principal de Sibiu.


Não muito longe dali fica a terceira catedral da cidade, a ortodoxa grega — também dedicada à Santíssima Trindade. Ela foi erigida em 1904 por solicitação da comunidade romena ao seu então suserano, o imperador Francisco José da Áustria, em Viena. De estilo neo-bizantino, visando imitar a Hagia Sophia de Constantinopla/Istambul, ela também é um esplendor.



Diante da derrota dos austro-húngaros na Primeira Guerra Mundial, em 1918 a Transilvânia foi anexada pela nascente República da Romênia. E assim estamos desde então.
Um século depois, eu estava ali pisando naquelas terras e naquela cidade, caçando réveillon. O mundo havia mudado bastante. Tomávamos todos vinho quente, vendo bandeiras da Romênia no seu azul, vermelho e amarelo hasteadas aqui e ali como um lembrete.
Às 22h, começou a música ao vivo na rua. Fiz um pequeno vídeo abaixo para mostrar-lhes um pouco. (A música parecia um rock romeno algo retrô, um negócio meio Biquini Cavadão, ao que alguns coroas romenos ao meu redor se balançavam.)
A Torre do Conselho, que já havia visto tanto sangue, visto Vlad o empalador, visto os turcos atenderem ao chamado para as cinco preces diárias dos muçulmanos e visto Francisco José da Áustria, agora via-nos em multidão diante da música, juntos perante o frio. Muitos com champanhes preparadas a estourar junto com os fogos de artifício.
Eu, que teria um trem às 3h da manhã pra tomar, não estava planejando virar a noite encharcado de bebida doce até o dia seguinte. (Perdoem-me por manter o juízo mesmo nessas horas.) Reposicionar-se foi preciso, e dali da nova posição vi a fumaça dos fogos finalmente tomar o lugar das fumaças de cigarro dos inveterados romenos.
Após uma chuva de estrelas no céu, a fumaça cobriria a antiga torre por completo. Feliz Ano Novo.
Feliz Ano Novo… Feliz 2019.. Adoro Réveillon.. Adorei ver esses fogos. Lindíssimos. E que clima gostoso de Natal, de final de Ano de começo de outro Ano, com cheiro de inverno, meu jovem, que maravilha, Lindo.
É em verdade uma cidadezinha fofa, de casario tao bonito, de belos tons e de telhadinhos vermelhos, são um encanto. Uma graça de cidade.
Linda a vista da cidade la de cima. Pelo visto o senhor tem razão, meu jovem. A mais bonita até então e olhe que pelas postagens todas são muito bonitas.
Lindo essa casario, e iluminado então, ficou muito mais bonito ainda, Fantástico. Praça bem arrumada e lindamente iluminada. Bela forma de circo. O jogo de luzes no casario deu um belo tom à festa.
Gostei da animação do povo, do som e do balanço geral. Pelo visto deu muita gente.
Precavido, o senhor, meu jovem.
Interessante essa ponte da mentira hahaha
Belíssimas igrejas, com lindos e trabalhados interiores. Essa catedral ortodoxa é de uma beleza sem par. Riquíssima em detalhes, luzes e cores. Muito bonita. E também elegante e charmosa por fora, com esses tons semelhantes a tijolinhos bege e coral.
Também lindíssima a Catedral Romana. Belíssimo interior.
A pracinha com suas barraquinhas de telhadinho vermelho dão um toque todo especial a essa festa e a essa cidadezinha fofa. Uma gracinha, Amei essa postagem com esse gostoso Réveillon.
Interessante a habilidade do senhor em descobrir locais lindos e quase sempre desconhecidos. Valeu viajante, Que venham mais belezas