You are here
Home > Romênia > Réveillon em Sibiu, Saxões na Romênia e a Transilvânia barroca

Réveillon em Sibiu, Saxões na Romênia e a Transilvânia barroca

Sibiu é possivelmente a cidade mais bonita que eu ainda não conhecia. Fundada no século XII como um entreposto comercial por imigrantes alemães — saxões, para ser mais exato —, Sibiu é um dos grandes centros da Transilvânia e talvez a mais bela cidade na Romênia. O que Sighisoara mostra da Transilvânia medieval dos tempos do Drácula, Sibiu revela da Transilvânia barroca, mais moderna, dos últimos séculos já sob domínio austríaco. Foi também onde eu escolhi passar este último réveillon.

Era noite quando eu cheguei aqui, vindo de Cluj.

Torre do relógio na praça central de Sibiu.
O casario barroco da cidade belamente iluminado.
A Praça Grande (Piata Mare em romeno) com sua feirinha natalina ainda posta e o casario iluminado atrás.
A feirinha de Natal em Sibiu tende a ir até os primeiros dias de janeiro. Vendem-se artesanias, vinho quente com especiarias, e comidas típicas (muitas salsichas, pães doces com frutas, canela, etc.).
O circo estava armado.
Esta iluminada é a famosa Ponte dos Mentirosos de Sibiu. Há muitas lendas para explicar a origem do nome. Dizem que vendedores mentirosos eram desmascarados publicamente aqui; dizem que era ponto de encontro de jovens casais, com suas palavrinhas que não poucas vezes carregam em si mentiras; e há quem diga que a ponte também tem poderes mágicos, de ranger quando alguém nela conta uma mentira. Experimente.
O casario colorido de Sibiu naquela noite.

Aquela, porém, ainda não era a noite do réveillon. Eu havia me dado a chance de visitar direito a cidade no dia 31 antes da virada. Depois, partiria no trem das 3h da manhã ainda no calor da festa.

Calor, diga-se de passagem, não havia muito. Estávamos na casa dos zero grau com alguns ameaços de neve, o céu pesado e cinzento do inverno romeno sobre nossas cabeças. Eram, porém, horas tranquilas. Há poucos turistas na cidade nesta época do ano.

O calçadão principal de Sibiu no inverno.
O casario barroco enfeitado que caracteriza as ruas e praças principais de Sibiu data principalmente do século XIX e começo do XX. Até 1918, a Transilvânia era domínio austro-húngaro.

Como você já percebeu se leu meus posts anteriores (Brasov, Sighisoara e Cluj), a Transilvânia é um caldo de culturas romena, húngara, e germânica. Neste caso de Sibiu, é o elemento germânico que se sobressai. Ao longo dos séculos, a cidade foi o maior centro urbano dos saxões que migraram pra cá a convite do rei húngaro, que à época governava estas terras.

Esses germânicos, ao contrário dos húngaros, não chamaram estas terras de Transilvania (em latim) nem Erdély (o mesmo significado, “para além da floresta”, em húngaro), mas de Siebenbürgen: “sete cidades”. 

A esta, fundada por um tal Hermann de Nurembergue, deram o nome de Hermannstadt em alemão. Os húngaros a conhecem como Nágyszeben. Já os romenos adaptaram o nome em latim, Cibinium, como os homens letrados na Idade Média a chamavam, e deram o nome de Sibiu.

Embora a maioria dos germânicos tenha ido embora à Alemanha Ocidental após o cair da “cortina de ferro” comunista sobre a Romênia durante a Guerra Fria, há moradores remanescentes, e você ainda encontra muita coisas em alemão sobretudo nas igrejas — além de toda a arquitetura com jeito de Europa Central.

A antiga muralha de Sibiu. Não se sabe ao certo quando a cidade foi fundada, mas seu primeiro menção escrita data de 1191.
Embora os ornamentados edifícios do século XIX captem mais a nossa atenção, em ruelas você ainda encontra um modesto casario com ar de mais antigo.
Uma das mais antigas edificações da cidade é a Torre do Conselho, onde os dirigentes da cidade na Idade Média se reuniam. A torre, claro, foi sendo reformada ao longo dos séculos. Há um relógio desde 1474, quando encomendaram um dos suíços (sim, os suíços são mestres relojoeiros desde esse tempo).
Se você se dispõe a subir estreitas escadas medievais em espiral, é possível pagar um trocado para entrar na torre e subir ao alto. Do topo há uma bela vista do centro de Sibiu.
Vista para o centro histórico de Sibiu do alto da Torre do Conselho.
Mapa de como era a cidade no ano 1650.

Nas postagens anteriores eu comentei como por muito tempo a Transilvânia foi uma região de fronteira de guerra entre húngaros e invasores não-cristãos vindos do oriente. Destes, os principais foram os turcos otomanos, cujo sultão reclamava para si o título de califa — líder supremo do Islã. Pois bem, não terminei de contar a história.

Uma das principais embates se deu bem aqui, a Batalha de Hermannstadt (1442), quando o rei húngaro João Corvino, o Cavaleiro Branco, deu uma surra nos turcos e rechaçou por um bom tempo as suas tentativas de invasão. Seu filho, Matthias Corvinus (1443-1490), era rei destas terras quando a Transilvânia viu a figura de Vlad, o empalador (1431-1476), o qual inspirou o personagem do Drácula.

A resistência dos monarcas cristãos, porém, seria vencida. Em 1453, os turcos sob Mehmet II conquistariam Constantinopla (atual Istambul), último bastião do Império Bizantino. Décadas depois com Suleiman, o Magnífico, derrotariam os húngaros na fatal Batalha de Mohács (1526). A Transilvânia cairia por mais de um século sob suserania turca, assim como todo o reino da Hungria. (A presença de muitos banhos públicos e termas ainda hoje em Budapeste se deve a essa tradição implantada pelos turcos. Os cristãos daquele tempo, sinto lhes dizer, não prezavam muito pela higiene.)

Em 1520, havia acabado de ser terminada a Catedral Luterana da cidade, que ainda pode ser visitada. Lembrem-se de que estávamos nos tempos da Reforma Protestante, e ela se fez presente também aqui.

Os turcos chegaram a sitiar Viena em 1529, logo depois, mas sem conseguir conquistá-la. Fariam-no novamente em 1683, depois de 150 anos de domínio consolidado sobre a Hungria (inclusa aí a Transilvânia). Porém, nessa a maré começou a virar. Na chamada Segunda Batalha de Mohács (1687), no mesmo lugar onde haviam vencido os húngaros, foram derrotados pelas forças do Sacro-Império Romano Germânico.

Sibiu voltava à Cristandade, junto com o restante da Transilvânia, mas agora sob a suserania austríaca dos Habsburgo. Esse domínio ela teria pelos séculos seguintes até as revoluções nacionalistas de 1848, quando os húngaros voltaram a reclamar soberania e o que era Império Austríaco virou Austro-Húngaro, a famosa “monarquia dupla”, com a Transilvânia ficando novamente sob a coroa húngara.

Isso explica muito do barroco que que se vê bastante em Sibiu, tanto nas frontes ornamentadas de prédios — ao bom estilo imperial centro-europeu — quanto dentro das igrejas. A Catedral Católica Romana à Santíssima Trindade, finalizada em 1738 aqui pelos austríacos, é um belo exemplo. Ela fica na praça principal de Sibiu.

Na praça principal de Sibiu, onde as pessoas já se preparavam para a virada do ano, a catedral católica romana da cidade, fundada em 1738 após os austríacos conquistarem a Transilvânia das mãos dos turcos otomanos.
O interior barroco da catedral, com afrescos e colunas em mármore rosa.

Não muito longe dali fica a terceira catedral da cidade, a ortodoxa grega — também dedicada à Santíssima Trindade. Ela foi erigida em 1904 por solicitação da comunidade romena ao seu então suserano, o imperador Francisco José da Áustria, em Viena. De estilo neo-bizantino, visando imitar a Hagia Sophia de Constantinopla/Istambul, ela também é um esplendor.

A Catedral Ortodoxa à Santíssima Trindade, em Sibiu. Completada em 1904 em estilo neo-bizantino.
O interior da catedral ortodoxa de Sibiu, com o vão central sob a cúpula, típico de muitas igrejas ortodoxas.
Pinturas sacras no teto da catedral ortodoxa.

Diante da derrota dos austro-húngaros na Primeira Guerra Mundial, em 1918 a Transilvânia foi anexada pela nascente República da Romênia. E assim estamos desde então.

Um século depois, eu estava ali pisando naquelas terras e naquela cidade, caçando réveillon. O mundo havia mudado bastante. Tomávamos todos vinho quente, vendo bandeiras da Romênia no seu azul, vermelho e amarelo hasteadas aqui e ali como um lembrete.

Às 22h, começou a música ao vivo na rua. Fiz um pequeno vídeo abaixo para mostrar-lhes um pouco. (A música parecia um rock romeno algo retrô, um negócio meio Biquini Cavadão, ao que alguns coroas romenos ao meu redor se balançavam.)

A Torre do Conselho, que já havia visto tanto sangue, visto Vlad o empalador, visto os turcos atenderem ao chamado para as cinco preces diárias dos muçulmanos e visto Francisco José da Áustria, agora via-nos em multidão diante da música, juntos perante o frio. Muitos com champanhes preparadas a estourar junto com os fogos de artifício.

Eu, que teria um trem às 3h da manhã pra tomar, não estava planejando virar a noite encharcado de bebida doce até o dia seguinte. (Perdoem-me por manter o juízo mesmo nessas horas.) Reposicionar-se foi preciso, e dali da nova posição vi a fumaça dos fogos finalmente tomar o lugar das fumaças de cigarro dos inveterados romenos.

Após uma chuva de estrelas no céu, a fumaça cobriria a antiga torre por completo. Feliz Ano Novo.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Réveillon em Sibiu, Saxões na Romênia e a Transilvânia barroca

  1. Feliz Ano Novo… Feliz 2019.. Adoro Réveillon.. Adorei ver esses fogos. Lindíssimos. E que clima gostoso de Natal, de final de Ano de começo de outro Ano, com cheiro de inverno, meu jovem, que maravilha, Lindo.
    É em verdade uma cidadezinha fofa, de casario tao bonito, de belos tons e de telhadinhos vermelhos, são um encanto. Uma graça de cidade.
    Linda a vista da cidade la de cima. Pelo visto o senhor tem razão, meu jovem. A mais bonita até então e olhe que pelas postagens todas são muito bonitas.
    Lindo essa casario, e iluminado então, ficou muito mais bonito ainda, Fantástico. Praça bem arrumada e lindamente iluminada. Bela forma de circo. O jogo de luzes no casario deu um belo tom à festa.
    Gostei da animação do povo, do som e do balanço geral. Pelo visto deu muita gente.
    Precavido, o senhor, meu jovem.
    Interessante essa ponte da mentira hahaha
    Belíssimas igrejas, com lindos e trabalhados interiores. Essa catedral ortodoxa é de uma beleza sem par. Riquíssima em detalhes, luzes e cores. Muito bonita. E também elegante e charmosa por fora, com esses tons semelhantes a tijolinhos bege e coral.
    Também lindíssima a Catedral Romana. Belíssimo interior.
    A pracinha com suas barraquinhas de telhadinho vermelho dão um toque todo especial a essa festa e a essa cidadezinha fofa. Uma gracinha, Amei essa postagem com esse gostoso Réveillon.
    Interessante a habilidade do senhor em descobrir locais lindos e quase sempre desconhecidos. Valeu viajante, Que venham mais belezas

Deixe uma resposta

Top