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Oslo (Noruega) no inverno e o Centro do Prêmio Nobel da Paz

Janeiro na Noruega. Sua capital, Oslo, de meros 600 mil num país de 5 milhões de habitantes, está congelada pelo inverno. A neve cai, as árvores estão secas, e os dias estão ainda curtos. De um amanhecer às 8:30, a luz do sol — frequentemente entre um céu encoberto de nuvens cinzentas — só dura até as quatro e pouca da tarde.

Oslo, no entanto, é a capital daquele que na real é o país mais rico da Europa. Apenas Luxemburgo é superior em PIB per capita, mas isso é por aquele principado ser um paraíso fiscal e ter índices econômicos que não refletem sua realidade. Na Noruega, a riqueza fica, e este país que hoje exporta bacalhau até para Portugal tem o maior fundo soberano do planeta, alimentado por sua estatal petroleira (Statoil) e que supera US$ 1 trilhão, que eles investem aqui e ali para fazer render. Até eu já fui financiado por dinheiro norueguês.

Olhando para Oslo, contudo, você não diria. Eu diria que — disputando com Helsinque na Finlândia — ela é séria candidata ao título de capital menos atraente da Europa. Não é que seja feia (embora algumas partes sejam), mas é que na Europa o páreo é duro e Oslo é modesta, uma cidade com ares normais num país podre de rico.

Alguns dizem que isso é muito por a riqueza norueguesa ser um fenômeno recente. Volte 100 anos e eles eram pobres de marré-deci, vivendo em casas de madeira sem aquecimento nem banheiro. Assim como dizem que eles hoje se recusam a entrar na União Europeia para não compartilhar os lucros e direitos sobre seus recursos pesqueiros e petrolíferos.

Ruas do centro de Oslo no inverno.
O Teatro Nacional, um dos ícones do centro da cidade.

Estou contente que alguns de vocês achem que Oslo tem sua beleza. Isso é porque eu estou mostrando o lado aprazível; se você tomar a rua errada saindo da estação de trem, irá parar na crackolândia daqui, com mendigos e sujeitos suspeitos a oferecer drogas à luz do dia — ou “à sombra do dia”, no caso do inverno aqui em Oslo. Seja criterioso na hora de escolher onde se hospedar. 

Porém, há, sim, lugares a conhecer na capital norueguesa. O mais famoso dele é sem dúvida o Centro Nobel da Paz, acervo sobre os prêmios Nobel da paz concedidos ao longo dos anos. É muito interessante. Ao contrário dos outros prêmios Nobel (literatura, física, química, medicina), concedidos em Estocolmo por entidades suecas (pois Alfred Nobel foi um industrial sueco), o da paz é excepcionalmente entregue em Oslo.

Isso é pela simples razão de que a Noruega pertencia à Suécia quando os prêmios foram criados em 1901. Eu já falei que a Noruega era pobre? Ela era uma colônia sueca até 1905. Como o Nobel da Paz é o prêmio mais político de todos, os organizadores acharam prudente fazer esse fora da capital, lá na colônia, longe do centro de poder escandinavo que era Estocolmo. A Noruega, após se tornar soberana num referendo que muitos suecos hoje se arrependem de ter-lhe permitido, ser ocupada por Hitler em 1940, e começar a enriquecer com petróleo a partir dos anos 1970, mantém a tradição de entregar o prêmio Nobel da paz em Oslo.

Diante do Centro Nobel da Paz, com uma amiga holandesa que mora por aqui.
No interior, além de exibições especiais, há uma “floresta” iluminada com informações sobre todos os vencedores do Prêmio Nobel da Paz desde 1901. Se você tem uma veia globalista ou é interessado em assuntos mundiais, vai achar fascinante conhecer mais sobre as vidas dessas pessoas.

Caso alguém esteja curioso, os prêmios Nobel, afora o reconhecimento mundial que conferem, consistem em 9 milhões de coroas suecas (quase 1 milhão de euros), um diploma, e uma medalha de ouro estilizada. O Nobel de economia é um filho bastardo, criado pelo Banco Central da Suécia só em 1969 “em memória” de Alfred Nobel, mas não é da mesma estirpe dos outros.

Nunca um brasileiro ganhou prêmio Nobel, embora outros sul-americanos o tenham feito. Foram cinco argentinos, dois chilenos (os poetas Pablo Neruda e Gabriela Mistral), dois colombianos (incluso aí o do escritor Gabriel García Márquez), um venezuelano, e um peruano, este o romancista Mario Vargas Llosa. Três foram da Paz, os dos argentinos Carlos Saavedra Lamas (1936) e Adolfo Pérez Esquivel (1980), e mais recentemente o do ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos (2016).

Mohandas K. Gandhi, apelidado de Mahatma (“a grande alma” em sânscrito), viveu entre 1869 e 1948. Liderou a independência e formação da Índia em 1947, liberando-a do jugo inglês.

Quando eu vim, havia uma exposição temporária sobre Gandhi, que nunca recebeu um prêmio Nobel — ainda que tenha sido provavelmente o maior ícone da paz no século XX. Os organizadores tiveram, hoje, a transparência de mostrar como a Inglaterra mexeu os pauzinhos à época para impedir que o líder da independência indiana não fosse congratulado. Como a Fundação Nobel tem por política não conceder prêmios póstumos, a gente já falecida, e Gandhi logo viria a ser assassinado (por um extremista indiano), nunca recebeu o prêmio.

Isso revela, é claro, as mumunhas por detrás de muitos prêmios. Não são escolhas neutras, mas muitas vezes políticas. O Nobel da Paz ter sido concedido a Obama em 2009, por exemplo, enquanto ele conduzia guerras no Oriente Médio e fomentava programas de assassinatos por drones na África gerou muitas críticas. Há, naturalmente, uma tendência a laurear europeus e norte-americanos, embora nos últimos anos tenha crescido o número de pessoas de outros continentes contempladas. (Se alguém se interessar, aqui há a lista completa dos vencedores.)

Voltemos a Oslo. Embora alguns museus abertos e certas paragens fiquem mais atraentes no verão, o inverno lhe dá uma experiência totalmente diversa. Eu andava por aquelas praças, sentia a neve cair, via as fachadas dos palácios e outros prédios, e fui ao famoso parque de estátuas da cidade, o que dá uma hora divertida com as obras do finado escultor norueguês Gustav Vigeland. (Por ele, a área ficou conhecida como Vigeland Park).

Palácio em Oslo. A Noruega, como a Dinamarca, a Suécia, a Holanda e o Reino Unido, é uma monarquia parlamentarista onde ainda há uma família real com funções simbólicas.
Pelo centro de Oslo.
Muitos a passear na neve.
No Frogner Park, apelidado em inglês de Vigeland Park, são mais de 200 esculturas curiosas do finado escultor norueguês.
Não me perguntem porque o escultor tinha essa predileção por obras um tanto excêntricas. Coisa de artista.
A mais famosa das esculturas do parque é o menino nervoso.
Como em outros países do mundo nórdico, há um moderna casa de ópera à beira-mar em Oslo.

Embora a Noruega esteja fora da União Europeia, ela faz parte do acordo de fronteiras abertas, da Zona Schengen. Portanto, vir aqui é relativamente tranquilo e sequer requer passar por imigração. Quer você venha de trem pela Suécia ou de avião, certamente chegará pela estação central de trens de Oslo. (Há transporte do aeroporto pra cá.) Dali, caminhe em frente e depois passeie pelo que há adiante e à sua esquerda. Se for para a direita, ao norte da cidade, verá as ruas da crackolândia a que me referi.

Pelas ruas de Oslo, você verá BEM mais imigrantes do que talvez imagine. Há toda uma cultura urbana e serviços aqui voltado a esse público, como muitas casas de transferência de dinheiro para países na África ou na Ásia. Ali estou eu com o lindão do Khaled e seu invencível sorriso.

Ah! Um aviso final. Oslo, como a Noruega em geral, é brutalmente cara. Até os europeus se espantam. Um copo de café sai facilmente a 3 euros (R$13), e um almoço individual pode tranquilamente custar na casa de 30 euros (R$130). Coma sanduíches se quiser ficar na casa dos 10-20 euros (em termos equivalentes, pois a Noruega tem sua moeda própria). Cartão funciona em todo lugar, e você pode passar dias aqui sem sequer ver a cor do dinheiro norueguês. 

Numa das praças no centro de Oslo.
Sanduíche com limão (com casca e tudo!), salmão e ovo — além de umas folhinhas. Há coisas saborosas, mas é preciso ser cuidado para não acabar com o orçamento rápido demais aqui.
A catedral de Oslo no inverno.

Seria só o começo. Eu ainda daria umas voltas pela Noruega. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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