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As lagoas coloridas do Altiplano boliviano: Primeiro dia rumo ao Salar de Uyuni

Um dos programas mais populares para quem está no Deserto de Atacama é ir além do Deserto de Atacama — além do Chile, para além das fronteiras. Afinal, os Andes são uma nação cultural, um bioma, e as fronteiras nada mais são que abstrações humanas. Nessa “ida além”, o passeio mais popular é adentrar a vizinha Bolívia rumo ao famoso Salar de Uyuni, muito mais acessível desde aqui que a partir das grandes cidades bolivianas como La Paz ou Santa Cruz.

O tour para o Salar de Uyuni, aquela imensidão branca de sal que talvez alguns já tenham visto por foto, não inclui somente o Salar de Uyuni. Ele inclui toda uma riqueza de belezas naturais que eu sequer sabia existirem neste território boliviano.

Neste post inicial eu mostro exatamente essas outras belezas, que inclusive vêm primeiro cronologicamente. O tour padrão saindo de San Pedro de Atacama dura 4 dias/3 noites, e é apenas no terceiro dia que se chega ao Salar de Uyuni. Nos primeiros, você é tomado por outras belezas que eu aqui vou mostrar. São lagoas coloridas em tons talvez inimagináveis por muitos, além de montanhas à vista e muitas lhamas e cânions neste altiplano boliviano. Vamos lá.

(As dicas de como organizar sua viagem e escolher um tour pra cá virão ao final, junto com as dicas sobre a parte chilena no Atacama propriamente dito.) 

Estou no céu?
Vicunhas no céu sob uma revolução de nuvens. Digo, nos Andes.
A Laguna Blanca, na Bolívia.

O tour rumo ao Salar de Uyuni saindo de San Pedro de Atacama começa com a travessia da fronteira. Chile e Bolívia não têm lá as melhores relações, devido à guerra que tiveram no fim do século XIX na qual o Chile abocanhou a região de Antofagasta e tirou o acesso da Bolívia ao mar. (Até hoje a Bolívia mantém uma marinha, quase que simbólica e apenas por honra, no Lago Titicaca. As disputas diplomáticas entre as partes retornam a cada par de anos na Corte Internacional de Justiça em Haia.)

Apesar dos pesares, a travessia para os turistas se dá sem transtornos — só não é muito rápida. Os tours com seus passageiros acumulam-se nas filas, praticamente todos no mesmo horário, e é preciso aguardar a sua vez para carimbo do passaporte tanto no lado chileno quanto no lado boliviano. Brasileiros podem usar a carteira de identidade (RG) se esta tiver menos de 10 anos (ver site do Itamaraty). 

Fila no lado chileno para cruzar a fronteira.
Lado boliviano. (A desigualdade é gritante, e não para por aí.)

Nós éramos seis no meu tour, mas tivemos uma baixa. (Calma, ninguém morreu.) Além de mim, havia um casal cinquentão de alemães divertidos e um trio de jovens chineses. Dois destes eram namorados, um chinês que atendia pelo nome de Diego (e trabalhava com o tio num negócio de caça-níqueis em Valparaíso) e sua namorada Mili, também chinesa (naturalmente), que cuidava do caixa da loja da mãe. Pessoas normais, habituados que estamos a vê-los exclusivamente naqueles papéis comerciais, como se não tivessem uma vida completa fora disso. Ambos nos seus 20 e poucos anos. Quem ficou para trás foi a “vela”, o primo menor de idade de um deles, que não pôde cruzar a fronteira sem autorização escrita dos pais. 

Houve todo um drama de que, já que um não iria, todos os três ficariam para trás. Mili chorou diante de nós por ter que cancelar o passeio, o motorista levou todos de volta ao hotel, e dali a 20 minutos foi buscá-los de novo, pois decidiram abandonar o primo à própria solidão. 

O nosso motorista era um daqueles senhores, já passados dos 50, com opiniões formadas e que gostam de educar os outros — nem sempre sem razão. “Como é que venderam o tour ao menino sem antes saber se ele tinha autorização? Isso era pra ter sido visto já na agência“, confidenciou-me na fila com aquele olhar por cima dos óculos, em voz baixa.

Vocês vão ver que as estradas na Bolívia são ruins“, continuou dali a alguns minutos num tom de alerta comigo e os alemães. “São muito ruins. Na verdade, são mais que muito ruins“, enfatizava ele detido apenas pelos limites da semântica.

De fato, o asfalto acaba por completo na fronteira. É uma coisa drástica. Se no lado chileno você tem aquelas carreteras limpas, no lado boliviano mais parece o rally dos sertões — o que não é necessariamente mau, do ponto de vista do turista aventureiro.

Assim é a fronteira, com muitos veículos 4×4 a esperar seus turistas, e este é o lado boliviano.
Aqui tivemos um breve café da manhã de chá, café, pão, geleia, queijo e guacamole (abacate amassado com sal e limão). Meus amigos chineses ali escondiam-se do sol como o diabo foge da cruz.
Tomando um cafezinho antes de começar.
De longe, uma vicunha nos olhava. Vê-las passeando livres pela amplidão do altiplano era uma alegria libertária.

Agora éramos cinco mais o novo motorista, Gustavo, um quarentão boliviano de um sorriso cheio de dentes que ele nem sempre dava. Um tanto taciturno, no mundo dele, só se abria quando era para falar de mulher ou palavras novas em português. Ensinei-lhe “toró” e um bocado de gírias baianas, mas a sonoridade de que ele mais gostava, por alguma razão que nunca compreendi, e com a quais sempre quebrava o silêncio para iniciar conversa era “Collor de Mello”. Pronunciava com gosto, como normalmente fazem os estrangeiros aprendendo uma palavra nova. “Collor de Mellllllo“.

Gustavo faria as vezes também de guia e supostamente falava inglês, só que não, para a frustração dos alemães. Eu acabei tendo que trabalhar de intérprete. Já Diego, acostumado ao negócio de caça-níqueis de Valparaíso, falava espanhol melhor do que inglês e não teve problema.

O tour iniciava-se com as lagoas coloridas do altiplano boliviano. Logo próximo à fronteira está a pequenita laguna verde, seguida pela (bem maior) laguna blanca. Mais adiante, algum tempo de viagem depois, veríamos a magnífica laguna colorada, vermelha. São de impressionar.

A Laguna Verde, com sua praia de sal.
A Laguna Blanca, às vezes também chamada de Laguna Celeste. (Note a miudeza das pessoas e dos carros.)
A lagoa branca e sua praia de sal.
Diante da espetacular Laguna Celeste com a sua água diáfana.
Vista panorâmica.

No trajeto até a lagoa vermelha, que fica mais adiante, passamos por campos de areias douradas e por uma pequena piscina termal onde é possível se banhar. Nenhum de nós se animou a entrar, mas a vista é bela.

Também pausamos para inspecionar de perto um gêiser fétido. Como a Islândia, a Bolívia também tem expandido sua produção de energia geotérmica a partir dessas formações. (O nome “gêiser”, pra quem não sabe, origina-se do verbo jorrar na língua islandesa.)

Uma piscininha de Ramos no cenário selvagem. (Esse pântano lembra um pouco aquele por onde Frodo caminha com o Gollum rumo a Mordor, em O Senhor dos Anéis. Se houvesse um vulcão em erupção lá ao fundo, acho que dava até pra filmar aqui.)
Pequenitos vulcões de uma lama cinzenta, fruto de atividade geotérmica.
E bem vindos à Laguna Colorada, a imensa lagoa vermelha.

A esta altura você já deve estar se perguntando se estamos mesmo ainda no planeta Terra. Eu fiquei fascinado de conhecer mais de perto essa diversidade do nosso ambiente. (Fique aí só entre a casa e o trabalho e ache que viu o mundo. Vai passar batido.)

A tonalidade da água se dá pela presença de algas adaptadas à alta salinidade e que liberam substâncias vermelhas. Trata-se de uma lagoa salgada, com ilhotas de sal de boro (tetraborato de sódio, pra quem quer o nome químico oficial).

A nossa surreal paisagem.

Venta como no inferno (como se eu conhecesse), e conforme você caminha nesse descampado lunar rochoso, até tirar uma foto sem balançar é difícil.

A nossa pedregosa trilha no Tártaro.
Nosso horizonte.
Meus colegas, pequeninos, diante da Lagoa Vermelha.

Eu poderia dizer que não há sinais de vida aqui, mas não seria verdade. Mesmo neste ambiente aparentemente inóspito, há — além das algas — flamingos muito à vontade nestas condições. Há também lhamas e vicunhas muito tranquilas nas margens da lagoa.

Flamingos circulando.
Há uma faixa às margens da lagoa onde alguma vegetação cresce.
Lhamas “de boa” por ali.
Lhama pastando.
Uma vicunha, com lhamas e a paisagem ao fundo.

Ficamos aqui um tempo neste recanto exótico da natureza, e seguimos viagem Bolívia adentro. 

No trajeto.
Este era o nosso caminho.

Assim terminava o primeiro dia do nosso tour, com uma breve pausa para almoçar e mais algumas horas de estrada até pararmos num vilarejo para dormir. A expedição rumo ao Salar de Uyuni seguia em frente.

Continua em Paisagens andinas, lhamas e hotel de sal: Segundo dia do tour ao Salar de Uyuni

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “As lagoas coloridas do Altiplano boliviano: Primeiro dia rumo ao Salar de Uyuni

  1. UUUUuuuuuuUUUU,que é que é isso, meus amigos… surrealll… parece stars war e suas paisagens extra terrestres… uuuuu… maravilha… que magnifica paisagem!…Incrível !….. e o pior, nenhum livro de colégio trata dessa magnifica região. Um pecado!… Um verdadeiro furto de conhecimento. Nada se sabe dessas belezas, e tao perto de nós. Que horror!…Á vantagem é que não sabendo o bicho homem explorará menos.
    Meu jovem, dificil descrever tamanhas belezas. Que maravilha de região. Nunca vi tantas salinas ou salares de tamanha beleza e de tantas e variadas cores e tons. As palavras dizem pouco dessas maravilhas naturais. Que natureza prodigiosa. Parece mesmo que estamos em outro planeta. Belíssima região, deslumbrante a Natureza. Que paraíso este, quase intocado e inóspito. Feliz de ver, tanta natureza maravilhosa, com seus animais tranquilos sem a presença do bicho humano.
    Que lindas e elegantes as vicunhas, uma fofura, e que belos e impávidos os flamingos,… lindinhos. Parece um paraíso. A lhaminha está uma graça cheia de pelos haha.
    Esses tons são maravilhosos…. voces parece que estao no céu… de visita haha….lindos lindos.
    Nao se sabe qual a mais bela das salinas . Amei todas mas achei as celestes, incrivelmente belas e suaves. As avermelhadas também com suas tonalidades varias, são um verdadeiro espetáááááculo.
    Lindo passeio, arrojados, vocês. Maravilhosa postagem. Olhos saturados de tanta natureza bela e coração leve pela pujança da região e pouca frequência humana, exceto nesses tours hahah
    Congratulations por nos passar tantas belezas. Valeu, meu jovem. Que venham amais…

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