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Chegando a Puerto Natales, extremo sul do Chile

Puerto Natales está para a Patagônia chilena como San Pedro, no outro extremo do país, está para para a região do Atacama. Quase. São regiões diferentes, cidades (bem) diferentes, mas ambas funcionam como centro de onde partem tours.

A cidade fica naquele extremo sul do Chile onde braços de mar (fiordes) adentram pelo continente, na província de Última Esperanza. (Nome adequado.) O fiorde diante da cidade tem esse mesmo nome.

Cheguei vindo de ônibus desde Punta Arenas, cidade maior. A primeira vez que ouvira falar de Puerto Natales foi a partir de um hippie, Juan, um quarentão doidão conversador que achei de encontrar num trem na Mongólia. (Eu sei, parece surreal.) Era Natales pra lá, Natales pra cá, conspirações envolvendo Leonardo DiCaprio e como a cidade era refúgio de férias de celebridades internacionais.

Chegar finalmente à tal Natales foi um frisson pra mim.

Localização. Puerto Natales algo ao norte de Punta Arenas, rodeado de fiordes.
A paisagem da Patagônia hoje é assim, caso alguém esteja a se perguntar. Há os Andes no lugar deles, mas a maior parte da região são planícies com ovelhas.
A avenida principal de Puerto Natales, com a vista para o fiorde e as montanhas mais adiante.

Eu confesso que imaginava uma cidade mais compacta, mais movimentada. Não. Puerto Natales é espraiada, ventosa, e quase vazia de gente.

Encontrei logo, próximo à rodoviária, o albergue que reservara. Lotado de europeus que vieram até aqui fazer trilha e ver as montanhas da América do Sul. (Você fala em “Patagônia” na Europa e as pessoas o olham com um fascínio, como se você tivesse dito que foi a Marte e voltou.)

Lá encontrei Samuel, o segundo desta minha estadia no fim chileno. Este era ex-capitão de navio que resolveu abrir um albergue, um desses homens ainda-não-coroas mas que parecem já começar a querer descansar na vida. Passou um tempo sentado comigo conversando no seu espanhol chileno sobre barcos e passeios na Patagônia, sobre o mar e o vento fazendo gestos com as mãos para representar as embarcações.

Fui dar umas voltas para ver, afinal, o que Puerto Natales continha — e para reservar uns tours.

Vista de longe na avenida principal.

Puerto Natales é uma cidade bastante panorâmica quanto vista do alto, mas por dentro são quase todas ruas pacatas, residenciais sem muito zumzumzum.

Vista de um entardecer em Puerto Natales por sobre as casas. (O tempo muda com frequência, com chuvas repentinas que o assaltam na rua e vão embora dali a poucos minutos. Fica esse misto de chuva e sol no céu.)
O típico das ruas aqui.
Quase toda a cidade é residencial, onde nada muito acontece. Não espere grande badalação.
Puerto Natales, em verdade, me lembrou muito as cidades norte-americanas, com aqueles subúrbios residenciais onde você vê muitas casas, gramas, jardins, e quase ninguém nas ruas. Há também uns espaços abertos assim nesta espalhada cidade.

Fiz uma longa caminhada de talvez um par de horas, e se vi 20 pessoas foi muito. Até chegar ao centrinho, onde Puerto Natales se torna um pouco mais sul-americana, com sua pracinha com a igreja. E ali, sim, um pouquinho mais de movimento, alguns restaurantes, e duas ou três ruas com um par de casas de câmbio e algumas agências de turismo vendendo passeios.

Ruas mais próximas do centro, com algumas bodegas. Até os mercadinhos aqui são bem simples.
Um dos cruzamentos principais.
Igrejinha na praça principal.
Seu interior simples, porém arrumadinho.
Como comer é preciso, assentei-me na recomendadíssima pizzaria Mesita Grande, aqui na praça principal, e tomei um calafate sour. Quem veio ao Chile ou foi ao Peru já conhece o pisco sour, famoso coquetel de limão com clara de ovo batida. Este aqui é feito com calafate em vez de limão, frutinhas vermelhas nativas daqui da Patagônia. Recomendo experimentar.
Na rua, talvez o mais bonito que vi foi esse mural com pinturas indígenas, dos nativos patagônicos e seu ambiente original. A obra se chama Herança Cultural das Etnias Aoniken e Kaweskar.
O mural é bastante grande, mostrando aspectos diversos da vida desses indígenas que foram quase que extintos (algumas etnias o foram) pelos invasores europeus.

Os primeiros europeus de que se têm registro chegaram aqui em 1557 numa expedição para encontrar a entrada para o Estreito de Magalhães. Queriam passar do Oceano Pacífico ao Atlântico sem precisar ir contornar o finzinho da América do Sul, no tormentoso Cabo Horn.

O capitão Juan Ladrilleros ficou perdido pelos muitos fiordes patagônicos daqui, e assim nomeou este Última Esperanza, quando já estava cansado de procurar. De fato, a passagem para o Estreito de Magalhães está aqui perto.

Mas só em 1911 é que Puerto Natales seria realmente fundada como cidade, seguindo à onda de colonização europeia destas terras que se daria mais a partir da segunda metade do século XIX — após descoberta de ouro em partes da Patagônia e início da tomada de terra dos índios para fazer pastos de ovelhas controlados pelos recém-chegados europeus.

Os tesouros reais da Patagônia — sua natureza, suas vistas, suas paisagens —, assim como algo do seu ambiente “original”, eu veria a seguir nos tours que faria a partir daqui nos dias seguintes. O primeiro seria ao Parque Nacional das Torres del Paine, talvez o lugar mais famoso de toda a região. Vejo vocês lá.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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