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Visitando o glaciar Perito Moreno em El Calafate (Argentina)

Tal como o Coronel Aureliano Buendía em Cem Anos de Solidão, eu jamais vou me esquecer do dia quando pela primeira vez na vida vi o gelo. Claro que aqui não me refiro a um gelo qualquer, mas a um glaciar

Glaciares como o Perito Moreno são lugares especiais no mundo. Trata-se de um gelo mais denso que o normal, um gelo gerado através de séculos (ou milênios) de acúmulo de neve sobre ele comprimindo-o. Com a pressão, as bolhas de ar presentes na água ou no gelo comum escapam. E assim o gelo glacial aparece azul, da mesma forma que grandes quantidades de água líquida também nos parecem azuis — vide o mar. (O fato de ser o azul a cor refletida se deve às características físico-químicas das moléculas de H2O).

Claro que no gelo isso nos parece muito mais extraordinário. E é: só ocorre em montanhas como os Andes ou nas regiões polares do mundo. 

O “mar” de gelo azul no glaciar Perito Moreno, com as pessoítas ali pequenininhas na parte de baixo da foto. Esse glaciar (ou geleira) se localiza na parte Argentina da Patagônia.

Essa não era a minha primeira vez na Argentina, mas a primeira que relato aqui. (As outras fazem tempo, de antes de eu escrevê-las.) Eu, que estava em Punta Arenas e Puerto Natales vendo Torres del Paine e os tesouros naturais no lado chileno da Patagônia, inicialmente quis pernoitar aqui, na cidade de El Calafate, mas acabei descobrindo um tour bate-e-volta saído direto de Puerto Natales que me pareceu mais prático.

Algo exaustivo, mas mais prático. Sai-se de Puerto Natales às 6:30h da manhã para cerca de 6h na estrada, 4h no parque natural argentino, e outras 6h de viagem de volta para estar 22:30h de retorno na cidade chilena. É pesado, mas vale a pena, e mata a vontade de conhecer o glaciar a olhos nus mesmo para quem goza de pouco tempo. (Em vez de dormir em El Calafate, a cidade argentina mais próxima, eu optei por fazer um tour extra no lado chileno, que relatarei a seguir.)

Nosso motorista, conosco ainda algo sonolentos, fez questão de nos explicar no início da viagem a loucura que estávamos fazendo.

Senhor dos seus 50 anos ficando calvo, ele tinha aquele ar tranquilo de motoristas experientes que estão acostumados a viver na estrada. Tinha um quê de humor sardônico, aquele riso cínico de quem faz como quem está entendendo algo que você não entende.

São 6h de rodovia, para 4h no glaciar, e depois 6h de retorno. Estaremos 12 horas na estrada hoje“, iniciou ele fazendo aqui uma pausa cínica para absorvermos a realidade. “Cruzaremos a fronteira, então certifiquem-se de que estão com seus documentos de viagem“, anunciou ele em tom de alerta, regando-nos a seguir com histórias mil de passageiros que se deram conta de que estavam sem documento só após chegar à imigração.

Nada disso nos preparou para o pneu furado.

Nós na rodovia patagônica com o pneu do ônibus furado.

A paisagem patagônica, como você há de perceber, é algo desolada. A indústria do turismo tem uma teimosia em querer mostrar apenas aquilo que é mais bonito e que atende aos interesses comerciais. Pois saiba que a maioria da Patagônia é isso: as chamadas estepes patagônicas, essa paisagem inglamurosa, de fato algo semelhante com a estepe centro-asiática da Mongólia, com sua vegetação rasteira e planícies até onde a vista alcança.

A vegetação da estepe patagônica é a mais comum do extremo sul da América do Sul. A maior parte da viagem se deu nesse ambiente; uma rodovia solitária cortando o descampado infinito.

O vento batia forte e corria sem obstáculos (a não ser nós mesmos e o ônibus) naqueles bons 30 minutos que permanecemos ali. Cheguei a pensar que poderia demorar mais.

Selfie com o cabelo sendo levado e a cara letárgica ainda de sono, na infinita paisagem patagônica atrás. Pela roupa vocês hão de notar que a temperatura não estava alta, embora fosse verão aqui.
Pastor patagônico que avistei com seu cão. Hoje, essas terras são grande parte pastos para ovelhas.

O motorista, de volta à sua tranquilidade nata, estava agora acompanhado de um passageiro uruguaio da mesma faixa etária que foi sentar-se à frente para conversar e ter com quem compartir seu chimarrão. Representante típico de sua parte do continente, veio munido de erva-mate e água quente.

Mais adiante, pararíamos numa loja de conveniências à beira da estrada para as pessoas irem ao banheiro; eu tomei um café; e a viagem seguiu. Tirei uns cochilos e só acordei mesmo quando ouvi o motorista perguntar ao uruguaio se o Uruguai fazia fronteira com a Venezuela, sobre a qual estavam conversando. Quase engasguei.

Já nos aproximando do Parque Nacional Perito Moreno, eu já bem desperto, entrou no ônibus a guia argentina — uma moça com fenótipo atraente de professora de ginástica —, que pôs-se a nos explicar sobre a formação do gelo, etc. Eu estava distraído, confesso. Tudo é interessante, mas na prática a sensação mesmo seria a de estar diante do gelo. Não é a tanto a geologia e sim a estética da paisagem o que realmente impressiona.

São muitas as passarelas por onde caminhar para ver o glaciar de vários ângulos, alturas e distâncias. Não subestime a rapidez com que o tempo aqui passa. 

Ao ver aquele paredão de gelo azul, senti-me como deve se sentir alguém que já adulto vê o mar pela primeira vez.

A água azul-clara oriunda dos glaciares já aparecendo no nosso horizonte. Passamos batidos pela cidade de El Calafate aqui ao lado e viemos direto ao que interessa.
Parece paisagem de cinema, coisa de ficção.
Esticando-me para uma selfie com o Perito Moreno lá atrás.
As vistas. São muitas as passarelas.
Que tal?

Se você quiser chegar ainda mais perto do gelo, a forma é tomando um passeio de barco que se aproxima. Há um custo adicional, mas vale a pena pela ocasião.

Uma nota sobre custos: com a inflação galopante destes anos recentes na Argentina, é difícil falar em preços e aquilo não estar desatualizado no mês seguinte. O preço da entrada aqui no parque subiu em pouco tempo de 300, para 500, depois 700 pesos argentinos. Guarde em mente que será sempre próximo de USD 18, não importando o equivalente numérico disso na moeda argentina. Já o passeio de barco custa cerca da metade. Confira quando você for se ainda está em 350 pesos.

Para os mais aventurescos, há também a possibilidade de caminhar no gelo com aquelas botas com grampos, mas aí é para quem goza de mais tempo aqui.

Nós no barco, em direção ao glaciar.
Gelo. Notem a aura azul ao redor (é real).
O barco não chega peeeerto da muralha, digo, do glaciar, pois volta e meia despenca um pedaço. Ainda mais rapidamente hoje em dia com a mudança climática global.
A visão.
Eu mais risonho que o Coringa naquele mundo azul.

Essa água não é salgada, mas do Lago Argentino (o nome é esse). Estamos na região dos Andes que divide a Argentina do Chile. 

E quanto ao nome do parque, ele foi dado em homenagem ao naturalista e explorador argentino Francisco Moreno (1852-1919), mais conhecido como Perito Moreno. Ele foi dos primeiros argentinos brancos a buscar conhecer melhor estas terras patagônicas. Não sei dizer se os indígenas desta região tinham algum nome específico mais antigo para o glaciar. Provavelmente, sim.

Meu almoço foi completamente corrido, pois tínhamos horário marcado para retomar a estrada e eu preferi gastar o tempo admirando o glaciar. Ao ir embora pelas passarelas, você fica a todo momento olhando para trás para tentar eternizar aquela olhada final e nunca mais tirá-lo da memória. É inesquecível.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando o glaciar Perito Moreno em El Calafate (Argentina)

  1. UUUaaaaaaaaauuuuuu. Arremariaaaaa. Que coisa maravilhosa…que lindo mundo azul!……Parece que o Ceu chegou até à terra, uauu. Lindo lindo lindo. Incrivel. Nem sabia que existia tamanha beleza nesse mundão de Deus. Fantástica natureza, Belíssima. Eita lelê, que esse viajante descobre minas naturais de rara beleza, verdadeiros tesouros naturais. Valeu, viajante. Magnificat.

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