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York, a histórica cidade inglesa fundada pelos Vikings

Nestes tempos de Brexit eu fui dar umas voltas na Inglaterra. Não por curiosidade, nem por perversão, mas a trabalho. (Sim, eu trabalho, e não é com turismo nem viagens.)

O evento onde eu me faria presente foi em York, no norte da Inglaterra, uma das cidades mais tradicionais do país. Fundada pelos romanos em 71 d.C., ela ganhou proeminência quando os Vikings a invadiram e renomearam como Jórvík em 866.

Esse era um tempo de tormentos e de guerra constante numa Inglaterra ainda não unificada. Como quem assistiu ao seriado Vikings viu, aqui havia uma meia dúzia de reinos distintos (Mércia, Ânglia do Leste, Nortúmbria, entre outros) que lutavam entre si e que a partir de 793 d.C. começaram a lidar também com invasões nórdicas. A visão dominante que herdamos dos nórdicos como esses “Vikings” destruidores é, sem dúvidas, uma herança inglesa, popularizada mais tarde Europa e Estados Unidos afora. Adotamos a perspectiva daqueles invadidos.

As invasões, no entanto, não foram só invasões e pilhagem (embora houvesse muito disso também, como nas invasões de qualquer um a qualquer lugar durante a Idade Média). Os escandinavos aqui fundariam muitas cidades e rotas comerciais. Jórvík se tornaria “York” no falar dos ingleses, e em 1066 os Vikings foram expulsos. Um “Reino da Inglaterra” surgira pela primeira vez na história em 927 d.C. e finalmente conseguia liberar-se do jugo nórdico.

Seus libertadores liderados por Guilherme “o Conquistador”, no entanto, eram normandos, do norte da França, que eram eles próprios mistura de sangue franco com sangue de invasores nórdicos. O francês passou a ser por alguns séculos a língua da nobreza na Inglaterra, e é por isso que o inglês adotou tantas palavras oriundas do francês, como “oignon” que virou “onion” para cebola, e outras estimadas 80 mil palavras inglesas que vêm do francês. (E você percebe como, no fundo, somos todos misturados e as noções de “pureza étnica” são fantasiosas.)

York, já inglesa, viveria um período de esplendor, marcado entre outros pela construção de sua magnífica catedral de pedra — ainda hoje a maior catedral gótica de todo o norte da Europa.

A imensa catedral gótica de York, mais conhecida como York Minster. (Esse “minster”, designação comum das catedrais inglesas, tem a mesma etimologia de “monastério” como de “ministério” eclesial também.)
York Minster vista de outro ângulo. Foi nesse início de primavera do hemisfério norte quando eu visitei a cidade, as folhas ainda por brotar.

Tivemos um início de primavera do hemisfério norte algo frio na Europa. (A mudança climática global bagunça o clima de muitas maneiras, embora a temperatura média da Terra esteja comprovadamente subindo.)

Embora já fosse fim de março, as folhas ainda não haviam voltado a brotar e as árvores continuavam secas. O vento que batia à noite era frio e chuvoso quando meu avião pousou em Manchester, no norte inglês. Uns 7 graus, e a chuva habitual que dizem quase sempre cair na cidade (aquela chuva quase horizontal devido ao vento, diga-se a verdade). Daqui eu ainda teria que tomar um trem até York, a qual não possui aeroporto.

Eu confesso que só sabia de duas coisas sobre Manchester, afora a existência dos seus times de futebol. Uma foi sua importância como local de grandes fábricas de tecidos durante a Revolução Industrial inglesa, usando algodão plantado na colonizada Índia ou pelas mãos de escravos negros no sul dos Estados Unidos. A segunda é que Manchester foi a cidade-natal do Oasis, a banda de rock nascida nos anos 90. E qual foi a minha surpresa quando esbarrei em refrescos com esse nome nas bodegas do aeroporto naquela noite. Eu tive que rir.

Refrescos em Manchester, não sei se pegando carona na fama da banda de outrora ou não.

Após a jornada de trem, cheguei mais tarde à noite no The Principal York, hotel numa magnífica mansão vitoriana ao lado da estação. Obra da época do apogeu do imperialismo britânico, de quando reinava a Rainha Victoria (1819-1901).

Onde cheguei naquela noite.

Arquitetura pomposa de mansão, lustres, escadarias e, é claro, um mordomo vestido a caráter. O hotel perspirava tudo que imaginamos da Inglaterra tradicional. 

Welcome, doct’a Bastos“, apelou-me por título e sobrenome o mordomo idoso em suas roupagens de época e sotaque inglês carregado. Eu aconteço de ter doutorado, e a Inglaterra vitoriana se casa bem com certas formalidades. Confesso que há algo de profundamente saboroso em ter um velho inglês o chamando assim. Parece que entrei na máquina do tempo.

Instalei-me naquele lugar algo modernizado sem perder o charme de outrora. Seus banheiros amplos me lembravam os dos grandes colégios internos britânicos (um certo aroma de Hogwarts), enquanto as escadarias pontuadas por quadros davam um ar de notória nobreza ao lugar.

Escadaria no interior do The Principal, em York.

Na manhã seguinte eu daria início aos trabalhos, a terem seguimento pelos próximos dias. (Neste link eu falo um pouco do que faço da vida, caso você tenha ficado curioso.) Aproveitei também, é claro, para ver algo da cidade.

York é um tesouro medieval-gótico, uma cidade inglesa que ainda conta com suas antigas muralhas sobre as quais se pode caminhar. Como era início de primavera, muitas flores amarelas e em outras cores já se contrastavam com aquelas rochas cinzentas antigas.

Flores e a muralha antiga no centro de York.
York é hoje uma cidade de 200 mil habitantes, mas sua muralha ainda circunda o centro.
Vista da muralha, com as torres da catedral ao longe.
Vista da muralha para o Rio Ouse, que corta a cidade.
Ponte com algumas estruturas seculares.
O Rio Ouse ao anoitecer.
Centro de York.
Como se dá com muitas cidades britânicas, são centros históricos amplamente comercializados. Porém, como a Inglaterra recebe relativamente poucos turistas, é em geral comércio para os próprios ingleses, como pubs, restaurantes ou casas de cosméticos. Não espere muitas lojas de souvenirs como em Roma ou Praga.

A parte mais antiga do centro de York — e possivelmente a mais pitoresca — é uma rua conhecida como The Shambles (que se traduziria, literalmente, como “a bagunça”). Coisas da urbanização precária da Idade Média. As casas, algumas antigas como o século XIV, se amontoavam como era próprio da época. Hoje, ela é uma simpática ruela com ar de Beco Diagonal ou algum outro cenário de filme. 

The Shambles, em York.
Hoje ela é uma simpática ruela comercial, mas imagine a pestilência que isso devia ser nas condições de higiene do século XV.
Naturalmente, uma loja (“Aquela que não deve ser nomeada“) de varinhas e outros produtos de Harry Potter achou seu lugar aqui. Há um breve ar de “coisa que já passou”, já que a febre passou do auge, mas segue interessante.
Loja “Caldeirão de Poções”, também inspirada pela série Harry Potter. Em The Shambles, em York.

Nem tudo de outrora todavia é romântico, devo alertar aos nostálgicos. Perto dali se vê, por exemplo, a Torre de Clifford. Naquele lugar, em 1190, cruzados ingleses empolgados a sair na Terceira Cruzada rumo à Terra Santa começaram a derramar sangue “infiel” já perto de casa. Normalmente, sobrava para os judeus.

Muitos judeus haviam chegado — dizem que pela primeira vez na história — à Inglaterra com a invasão normanda que expulsou os Vikings em 1066. Centenas que viviam aqui em York foram emboscados na torre, famílias inteiras executadas em nome de Jesus.

Ruínas da Torre de Clifford, em York.

À época, a Inglaterra era governada por Ricardo I, mais conhecido como “Ricardo Coração de Leão” (1157-1199), um dos raros reis ingleses a serem conhecidos pelo epíteto (o apelido, caso queira).

É curioso, porque ele era ao mesmo tempo Rei da Inglaterra e Duque da Aquitânia (região do oeste da atual França onde fica Bordeaux). Hoje, costumamos entender os países como entidades distintas, totalmente separadas, mas antes não era assim: era habitual que nobres tivessem títulos e coroas tanto numa terra quanto na outra. França e Inglaterra não eram ainda as nações que viriam a se tornar.

E como foram normandos vindos da França que tomaram o lugar dos Vikings na Inglaterra, por séculos houve monarcas que governavam pedaços tanto de uma quanto da outra. Isso até pelo menos a Guerra dos Cem Anos no século XIV, que acabou com uma família ficando dominante de um lado (os Plantageneta na Inglaterra) e outra do outro (os Valois na França).

Foi ao longo desses séculos que se fez a imensa Catedral de York (York Minster), uma obra-prima gótica cuja semelhança à Notre-Dame francesa se dá exatamente por essa história compartilhada entre Inglaterra e França. E tal como se passou com Notre-Dame 2019, a catedral de York também sofreu um incêndio (em 1984) e foi restaurada.

Eu fui vê-la.

York Minster, a catedral gótica de York. Sua construção teve início em 1220, e foi completada em 1406.
O interior gótico da catedral de York.
Imagens dos antigos reis da Inglaterra, começando por Guilherme o Conquistador (William the Conqueror), que liderou a invasão normanda que expulsou os Vikings da Inglaterra na Batalha de Hastings em 1066.
Igreja anglicana de St. Michael le Belfrey, de 1534, também em estilo gótico.

Como vocês podem perceber, York é um prato cheio para os fãs da arquitetura gótica dos tempos medievais.

As belezas góticas em York nunca terminam.

Numa outra igreja próxima à catedral, quando eu estava sentado admirando, uma velha senhora se aproximou. 

Eu encontrei uma sacola grande e pesada debaixo de um banco“, disse-me ela com a voz assustada. Procurava por alguém da igreja a quem pudesse comunicar o achado. Como quem vem à Inglaterra nestes tempos percebe já na primeira hora — em transportes públicos, nos trens, nos aeroportos —, há uma atenção redobrada com riscos de terrorismo. Alguns diriam até que beira a paranoia.

É raro achar lixeiras nas estações de trem da Inglaterra, por exemplo, por medo que joguem bombas ou outros dispositivos. E a toda hora nos trens você ouve como um mantra as mensagens de “Se você vir algo, diga-nos, e nós resolveremos.” (If you see something, say it, and we’ll sort it. See it, say it, sorted.) Tensos estes tempos no país da rainha.

A igreja onde a velhinha me abordou foi a St. Wilfrid, de 1864, e também muito bonita.

A Igreja de St Wilfrid aqui à esquerda, com a York Minster lá atrás.
O altar em St. Wilfrid, igreja de 1864.

Muito tempo se passou desde aquela era gótica. Com a revolução industrial que viria depois, York passou a ser um importante centro fabril e comercial. Ela é até hoje melhor conectada por vias férreas que seu pequeno tamanho sugeriria. Foi o que levaria à construção do meu singelo hotel The Principal em 1878 ao lado da estação.

Você pode encontrar, desse tempo, ainda a Mansion House, casa de 1732 onde até hoje vivem os prefeitos de York durante seus mandatos.

The Mansion House, a casa onde vivem os prefeitos de York. De 1732.

Muito mais tarde viria a universidade que eu visitei, a University of York com seu amplo campus. Eu ainda iria a outros lugares na Inglaterra.

O gótico se fazendo presente até no campus da University of York.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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