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Leicester e as Midlands britânicas: Na antiga Mércia, coração da Inglaterra

Leicester (pronunciada Léster) não é exatamente a cidade mais famosa da Inglaterra. Ao menos não fora das suas fronteiras. Já dentro, ela é conhecida como a histórica cidade onde está enterrado o último rei inglês a morrer em batalha (Ricardo III em 1485), assim como hoje pelos seus ótimos curries indianos. 

Estamos nas chamadas Midlands, estas “terras médias” do miolo da Inglaterra. Aqui ficava o Reino da Mércia, constituído em 527 d.C. Teria sido nessa época e nessa região que vivera o lendário Rei Arthur, personagem de contos populares (verídicos ou não) que o clérigo Geoffrey de Monmouth em 1138 compilou no seu Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Britânia).

Uma verdadeira “literatura arthuriana” se desenvolveu na Idade Média a partir dali, inspirando ingleses e outros europeus. Por exemplo, a primeira versão escrita já trazia a espada Excalibur, o mago Merlin, Avalon e outros elementos das lendas da Távola Redonda, mas foi o francês Chrétien de Troyes que décadas depois adicionou Lancelot e o Santo Graal à história. A expansão continua até hoje em dia, como no (relativamente) recente As Brumas de Avalon, romance de 1983 ambientado ali.

Enquanto isso, a realidade se desenrolou nas Midlands inglesas com a invasão dos Vikings no século VIII, como cheguei a comentar no meu post anterior em York (cidade fundada por eles como Jórvík). A Mércia se dissolveu em 918, e o que teríamos em seguida com a expulsão dos Vikings em 1066 já se chamaria de “Reino da Inglaterra”, abrangendo vários dos antigos reinos menores.

A Catedral de Leicester tem um pequeno cemitério diante de si. Uma igreja aqui é registrada desde 1086, com ampliações em estilo gótico ao longo dos séculos seguintes.
Frente da entrada da igreja. Muitos desses detalhes foram elaborados já como neo-góticos, no período vitoriano inglês no século XIX.

Entre os próximos séculos a Idade Média inglesa seria marcada sobretudo pela Guerra dos Cem Anos (1337-1453) contra a França. Como realcei no post anterior, não imaginem isso como a guerra de duas nações, numa leitura moderna, mas entre famílias nobres. (A noção de nação, de um povo “irmanado” entre si, não existia.)

Os reis ingleses daquele tempo eram também Duques da Aquitânia, no oeste da atual França. Não vou entrar aqui no imbróglio todo daquela guerra — deixo isso para quando eu visitar Orleans, terra de Joana d’Arc, a grande personagem dessa época —, mas vale a pena dizer que foi só depois disso que Inglaterra e França começaram a se perceber como países distintos e mais homogêneos. 

Vitrais góticos típicos do medievo norte-europeu na Catedral de Leicester. Caldo cultural compartilhado por Inglaterra e França.

Ricardo III (1452-1485), último rei inglês a morrer em batalha [pois dali em diante a realeza ficaria mais almofadinha…], está enterrado nessa catedral. Sua morte foi uma hecatombe para a Inglaterra, e William Shakespeare (1564-1616) chegou até a fazer uma peça em com seu nome (Richard III). Ele foi o último da dinastia dos Plantageneta, que havia lutado a Guerra dos Cem Anos. Seriam substituídos pelos Tudor, do fanfarrão Henrique VIII com suas seis mulheres e sua filha (com Ana Bolena), a venturosa Elizabeth I.

Antes de eu pôr os pés em Leicester, só gostaria de destacar uma curiosidade. A casa atual dos monarcas britânicos é a de Hanover, originalmente uma família alemã cujo reinado na Grã-Bretanha iniciou-se com George I em 1714. Devido à Primeira Guerra Mundial contra a Alemanha, o nome foi mudado para algo que soasse menos alemão, chegando ao atual Windsor em 1917. Meo deos, sim, a rainha da Inglaterra é de origem germânica. (Para ilustrar o que eu disse sobre famílias reais nada terem a ver com nação, e vocês verem como somos realmente misturados.)

Leicester hoje. Calçadão central com sua torre do relógio neo-gótica.

Apesar do seu pedigree histórico, Leicester hoje não é uma cidade que conserva muito daquela época. A maioria do que se vê remonta à história mais recente da Grã-Bretanha, sua atividade mercante, sua arquitetura vitoriana, sua colonização da Índia que hoje traz muitos imigrantes pra cá, e a plena modernidade atual com a sua mistura de lojas de bugigangas baratas e pobres na rua.

Cheguei para a minha segunda vez na Inglaterra neste mesmo início da primavera, após breve visita a York na semana anterior. Novamente a trabalho. Dei graças a Deus (ou à União Europeia?) que a data do Brexit foi postergada, senão já veria a situação talvez caótica da Inglaterra ajustando-se à nova realidade política. Ficou para depois.

Pousei em Birmingham, cidade maior a 1h de trem de Leicester. Chegando nesta, impressionou-me mesmo a quantidade de imigrantes, sobretudo do Sul da Ásia (Índia e vizinhos), embora também africanos.

Impressionou-me também o ar pitoresco, quase bucólico, das ruazinhas de bairro da Inglaterra. Diferentes dos prédios de poucos andares que são muito mais comuns pela Europa continental.

Bairro residencial por onde passei em Leicester, no interior da Inglaterra.
Tranquila rua de casas inglesas em Leicester, com um florescer primaveril ali.

Desde a época da finada primeira-ministra Margaret Thatcher nos anos 1980, muitos serviços outrora públicos foram privatizados, incluso os coletivos urbanos, então me deparei com a situação inusitada de saber que algumas linhas de ônibus aqui aceitam pagamento com cartão, outras não. As pessoas não sabiam me dizer se na minha eu precisaria sacar libras esterlinas em espécie para pagar a passagem ou não.

Acabei não precisando. Por sorte, a minha linha era das mais modernas, ônibus bonitos daqueles de dois andares que me davam uma vista privilegiada sobre as casinholas inglesas.

Instalei-me no simpático College Court, um centro de conferências com hotel, onde permanecei alguns dias. Foi apenas no final que consegui tempo livre pra dar umas voltas, mas foi o bastante pois Leicester não tem muuuuito o que ver. O que você não pode hoje é sair daqui sem experimentar uma comida indiana.

O centro de Leicester mistura várias camadas do que têm sido os últimos séculos ingleses. Da época medieval de Ricardo III, passando pela gloriosa época mercantil até chegar às decadências de hoje. (Perdoem-me a crueza, mas às vezes é melhor ser sincero e dar os nomes aos bois.)

A prefeitura de Leicester, um dos primeiros monumentos que vi na cidade, é um verdadeiro espetáculo de arquitetura vitoriana, que remonta à época de glória inglesa do século XIX.

Prefeitura de Leicester, em arquitetura vitoriana. Foi concluído em 1876.
A prefeitura de Leicester vista de frente.

Ocorriam fotos de casamento entre noivos e uma trupe de bem-vestidos quando passei por aqui. Idosos circulavam devagar, crianças a brincar aqui e ali na praça, e um certo “ar família” de tranquilidade que às vezes contrasta com o número de bêbados, pedintes e indigentes que se veem pelas demais ruas do centro.

Num calçadão ali próximo, onde mendigos brancos enrolavam-se em cobertores sujos diante de lojas de 1 libra, um senhor idoso que me lembrava o humorista Costinha aguardava numa cabine azul oferecendo chocolate gratuito a quem adquirisse um Leicester Mercury, jornal fundado em 1874 e que hoje ninguém mais compra. É preciso oferecer chocolate grátis.

Diante de uma vitrine meio Bob Esponja, outro inglês pregava palavras evangélicas ao microfone, anunciando como a Bíblia continha respostas pra tudo.

O Grand Hotel, inaugurado em 1898, é o mais tradicional da cidade, remontando à glória opulente de outros tempos.
Calçadão na Grã-Bretanha hoje, no centro de Leicester. Mendigo deitado diante de loja de “tudo por 1 libra”.
Cabine oferecendo “free chocolate” a quem adquirisse uma cópia do vetusto Leicester Mercury, jornal da cidade estabelecido em 1874.
Pregador ao microfone diante da colorida vitrine.

Encontra-se um pouco de tudo no caminho da catedral.

Algumas belas casas comerciais pomposas de época continuavam bonitas acima do térreo, onde hoje dominam fachadas algo destoantes. 

Calçadão no centro de Leicester, onde o casario tradicional hoje conta com lojas no térreo (com fachadas que nem sempre combinam com o resto).
Primavera, com as árvores voltando a brotar em meio ao casario de época, quase todo originalmente do fim do século XIX ou começo do XX, ainda época de glórias coloniais inglesas.

A praça da catedral estava especialmente florida, com tulipas plantadas nos canteiros do cemitério e em meio às árvores que voltavam a brotar. (Terra fértil!)

A praça da catedral de Leicester, com um cemitério e seus jardins no meio da cidade. Flores em meio às tumbas.
A figura do Rei Ricardo III (1452-1485) em frente à Catedral de Leicester.
A beleza primaveril, com algumas tulipas rosas no chão.
O interior da catedral gótica. Esta igreja foi pela primeira vez registrada em 1086, mas sua construção se deu ao longo de séculos.

Foi somente em 1707 que a Inglaterra se juntou à Escócia para formar o atual “Reino Unido”, como Reino Unido da Grã-Bretanha. (Em 1801, ela anexaria a Irlanda e o nome mudaria para Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Atualmente, o nome é Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, já que o grosso da Irlanda se tornou independente numa república em 1922.)

Era uma época de vacas gordas, em que os britânicos tinham o chamado império onde o sol nunca se punha. (As más línguas falam que é porque nem Deus confiava nos britânicos no escuro.)

Nós brasileiros temos uma tendência a perceber apenas Estados Unidos e outras colônias brancas como fruto do imperialismo inglês, mas o polpudo mesmo estava na Ásia e na África. A “maior jóia da coroa do império”, no dizer dos premiês britânicos (ou a maior vítima do imperialismo inglês, se você perguntar aos historiadores ou aos subjugados), foi a Índia.

As estimativas são de que em 1700, antes da dominação inglesa, a Índia correspondia a 27% da economia mundial, uma terra de palácios, tesouros e fábulas — cujos legados você ainda pode visitar. Já quando os britânicos foram expulsos por Mahatma Gandhi e outros em 1947, a Índia independente correspondia a meros 4% da economia mundial.

A pequena corte desaparece — o comércio se amealha — a capital decai — as pessoas se empobrecem — o homem inglês floresce, e age como uma esponja, sugando riqueza das margens do Ganges, e despejando-as sobre as margens do Tâmisa“, escreveu na década de 1840 o inglês John Sullivan, oficial da Companhia das Índias Orientais britânica.

Mulher inglesa sendo carregada por serviçais indianos, fotografia de 1895.

Não me cabe fazer um retrospecto inteiro do colonialismo britânico aqui (aos interessados nos detalhes, eu recomendo o excelente livro Inglorious Empire: What the British did to India.) Basta dizer que a sua primazia mundial foi às custas dos outros.

Hoje em dia, os indianos estão em massa aqui na Inglaterra cobrando karma em busca de oportunidades. Há tantos restaurantes indianos que a cidade ostenta um Leicester Curry Awards todos os anos para eleger os melhores.

Eu, sabendo da tradição, não perdi a oportunidade de almoçar num restaurante indiano da cidade. Recomendo o Kayal, especialmente sua filial vegetariana (em frente ao principal), com pratos deliciosos do sul da Índia e ótima ambientação. 

É claro que nem todos os ingleses estão contentes com essa multiculturalidade, afinal a xenofobia foi um dos principais motivos do Brexit. Como me disse certa vez uma senhora inglesa, “Eu só não quero todos aqueles estrangeiros no país“. Alguém pode, é claro, questionar quem foi à terra do outro primeiro, mas abafa o caso.

De barriga cheia após ver os legados tanto de Ricardo III na Idade Média quanto do que o colonialismo britânico na Índia trouxe hoje à Inglaterra, tomei meu trem de volta a Birmingham.

A estação de trens de Leicester, rodeada por um canteiro de obras (e com duas abandonadas cabines telefônicas vermelhas típicas inglesas), mas ainda exibindo o seu requinte vitoriano da decoração de 1894.

EPÍLOGO

Não é todo dia que eu entro num avião para não voar. Após 1h de trem até Birmingham, outros 15 min da estação central desta até o aeroporto, passei por todos os trâmites para entrar no avião de volta. Era um fim de tarde, voo para Amsterdã, onde holandeses retornariam pra casa e ingleses entrariam nos embalos de sábado à noite.

Exceto que faltava um assento, e ninguém disse à tripulação. Ainda não se permite a nenhum passageiro voar em pé, apesar dos flertes de algumas aerolinhas de baixo custo.

Errr, nós temos um problema, senhoras e senhores“, disse-nos ao microfone o chefe de cabine da KLM (aerolinha nacional holandesa). Contou-nos do imbróglio do assento, pediu desculpas, informou-nos que não foram informados, e concluiu com um convite para que um voluntário se retirasse da aeronave.

Eu estava lendo o meu livro, e lendo o meu livro fiquei, indiferente que se fica aos trâmites da cabine quando se voa demais.

Ninguém se mexeu. As ofertas de noite paga num hotel na excitante cidade de Birmingham não eram capazes de demover ninguém que havia se preparado para passar o sábado à noite em Amsterdã. Tampouco as promessas de compensação financeira.

Ninguém? É realmente uma vergonha…”, seguiu o jovem chefe de cabine da KLM com a falta-de-filtro e nudez de pensamento típica dos holandeses.

Levantei a mão, decidido a roubar a cena. Afinal, eu após uma conexão em Amsterdã chegaria bem tarde em casa, onde me esperavam apenas a minha retraída colega de apartamento e uma geladeira vazia. Neste sábado haveria males que vêm pra bem.

Eu fico“, disse eu para o bem de todos, mas me furtando de falar em felicidade geral da nação (sabe-se de lá de que nação seria).

Não esperei a salva de aplausos que recebi no avião, nem os vários agradecimentos de um e outro que me dirigiam “Thank you!” enquanto eu retornava o corredor com as minhas coisas. Ganhei um pacote de stroopwafels holandeses, amendoins e uma pequena garrafa de espumante.

Embora ainda houvesse alternativas de voos ainda mais tarde naquele mesmo dia, o funcionário inglês de volta no guichê concordou em me deixar para o dia seguinte com uma noite de hotel e uma compensação financeira. “Não estou nem aí, não é do bolso que o dinheiro vai sair mesmo.” (Acho engraçado quando se acha que todos os ingleses são lordes.)

Cheers. Saúde pra nós todos.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Leicester e as Midlands britânicas: Na antiga Mércia, coração da Inglaterra

  1. Hahahahahah. Adorei o” sabor” da postagem, meu amigo viajante haha. O ”clima” interessante dos comentários acerca do passado/presente do imponente Reino Unido, e o fecho inesperado , surpreendente e engraçado da falta de um assento, quase over book, haha da prestigiosa companhia holandesa, com direito ao ” polido” esperneio do comissario holandês hahah. Uma comédia, que o senhor, meu caro, protagonizou com sua decisão salvadora. hahah. Engraçadíssimo, haha, Adorei. E ri muito.

  2. Ao lado da comedia, vale ressaltar, ao meu ver, como o senhor o fez, mesmo ”en passant,” a importância do presente Inglês como reflexo das ações passadas, graças à sua historia de imperialismo e colonização. O passado costuma cobrar no presente as ações em forma do que se chama consequências.
    Muito interessante constatar essa realidade. Certamente a senhora que não gostava dos estrangeiros por la não fez a associação do presente com o passado, ou não disseram a ela.
    Recordando não ter sido só o UK que assim se comportou. Logo, por conseguinte, se pode esperar algo semelhante em outras plagas.

  3. Vale comentar também a beleza da cidade com sua linda arquitetura, seus monumentos suas imponentes e históricas construções, linda decoração, belíssimo estilo, demostrando o poderio Inglês e sua bela e mesclada arte .Lindos e elegantes tons e linhas, belíssimos vitrais, revelando um gosto refinado. O interior da catedral é uma graça de rara beleza. Adorei os tons e os estilos. Os arcos ogivais estão divinos. E a luz interna muito me agradou. Não aprecio lugares soturnos.
    A prefeitura, o grande hotel, a estação e a catedral roubam a cena na charmosa cidadezinha.
    As flores e os jardins tao um toque de sonho e de mergulho no tempo ao lugar. Uma fofura. Amei. Linda a cidadezinha.
    Destaque também para a briosa figura de Ricardo III, o lendário rei. .
    Notei que a forma das casas das ruas mais antigas se parecem com as de Amsterdam.
    Chamou-me a atenção também a fofura do bairro com as casinhas inglesas, uma gracinha. Lindas.
    Outra curiosidade, presente em outras cidades dessa Europa do Norte, e creio que de outras regiões, foi o cemitério perto da área da Igreja e feito jardim, dentro da cidade.
    Adorei conhecer a região. Linda e charmosa.

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