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Coyoacán, o bairro mais simpático da Cidade do México

Ali estou eu em meio aos coiotes que dão nome a Coyoacán. No tempo dos astecas, aqui ficava um vilarejo dos vizinhos Tepanecas notável por aqueles animais — Coyoacán significa “lugar de coiotes” na língua náhuatl dos astecas. A “Cidade do México” que cresceu aqui por sobre a capital asteca expandiu-se até englobar aquele vilarejo como parte sua, e hoje Coyoacán provavelmente é o bairro mais bonitinho e simpático de toda a megalópole mexicana. Muita coisa aconteceu de lá para cá.

A Igreja de San Juan Bautista, construída pelos espanhóis entre 1520 e 1552 aqui no bairro de Coyoacán, Cidade do México.

Coyoacán permaneceu um vilarejo colonial independente pela maior parte de sua história. Aqui é que os espanhóis celebraram sua primeira missa na região, e onde estabeleceram sua primeira capital de “Nova Espanha” — como chamaram o vice-reinado com seus domínios coloniais nas Américas do Norte e Central.

Depois de quatro séculos, as urbes se expandiram e Coyoacán se tornou refúgio peri-urbano de intelectuais e artistas, um pouco como Monmartre foi para Paris. No início do século XX, aqui viveram notáveis como Diego Rivera, Frida Kahlo, e onde estes acolheram seu amigo Leon Trotsky, quando o revolucionário russo refugiou-se da perseguição stalinista na União Soviética. Suas moradas hoje são museus que eu visitei e mostrei numa vinda anterior.

Foi apenas em 1928 que Coyoacán se integrou à Cidade do México como bairro. Hoje, se toma o metrô até aqui. (A estação de chama “Coyoacán”.) Continua, contudo, com cara de cidadezinha do interior. As praças do México, em cidades do interior como aqui em Coyoacán, fizeram minha mãe se lembrar de como eram as praças brasileiras nos anos 1950-1960.

Pórtico no Jardin Centenario, a praça principal e coração de Coyoacán. Fala-se muito da insegurança no México, e ela é em grande medida real, mas não impede o país de ter adoráveis praças por toda parte, onde famílias ainda passeiam nos fins de tarde, circundadas por vendedores de algodão-doce em frente à catedral. São sensações de um Brasil que, se existiu, eu hoje já não vejo. (No Brasil, as praças foram transformadas em pontos de ônibus.)
Fonte com os coiotes no meio do Jardin Centenario num fim de tarde de domingo em Coyoacán.
As pessoas a passear naquele centrinho histórico do bairro.

Quando desembarquei no metrô de Coyoacán naquela tarde de domingo, eu vinha de uma manhã no santuário a Nossa Senhora de Guadalupe, noutra parte da Cidade do México. A cidade é tão extensa que, no Brasil, só se pode compará-la a São Paulo, com a mesma sensação de que você faz uma longa viagem para ir de um lado a outro da mesma cidade.

O ar era fresquinho de um fim de fevereiro, inverno no México. Os invernos na Cidade do México esfriam um cadinho pela altitude de 2.250m, mas geralmente ficam na casa dos 10-20 graus — uma temperatura amena. É uma época agradável para se visitar à capital.

Você caminha uns 20 minutos para ir da estação de metrô, na parte mais modernizada de Coyoacán, até o seu centro histórico. (É, realmente, como se você estivesse a visitar outra cidade no México, com seu centro próprio e suas características.)

Tudo tem uma aura residencial antes de você chegar ao centro. Afora alguns bares (desses de bairro, como há no Brasil), você só verá grandes movimentos de gente quando aproximar-se da “Casa Azul“, a antiga residência da artista mexicana Frida Kahlo, hoje um museu. Vale a pena se você quiser conhecer mais sobre a vida da pintora e sua relação com o também pintor Diego Rivera. (A vida deles foi um pouco mostrada no filme Frida, de 2002, com a atriz Salma Hayek no seu papel. Ganhou o Oscar de melhor trilha sonora original, com lindas canções de Chavela Vargas, Caetano Veloso e outros nomes.)

Tive que tirar a foto de lado, pois havia um ônibus na frente do museu. Eis a “Casa Azul”, museu onde continua preservada a casa do jeito que era quando Frida Kahlo e Diego Rivera viveram juntos na primeira metade do século XX.
E eis aqui o que eu poderia chamar de a “Casa Vermelha”, o museu da casa onde viveu o pensador russo Leon Trotsky, exilado da União Soviética. Ele aqui morou em 1939 após um tempo na Casa Azul com Diego e Frida. Trotsky seria assassinado em 1940 a mando de Stálin. A casa permanece conservada como um museu em Coyoacán. (Eu cheguei a visitá-la e a mostrar um pouco da visita na minha vinda anterior.)
A paróquia de São João Batista, em Coyoacán. É como a catedral de uma cidade pequena. A igreja foi erigida inicialmente entre 1520 e 1552, mas depois experimentou reformas e restauros.

Simplesmente estar em Coyoacán já é gostoso. Não é preciso fazer muito, basta aproveitar ali o clima da praça, ver o movimento de famílias passeando (quase todos mexicanos, afora alguns turistas), e arrumar algo saboroso para comer — não falta. Mas vale a pena conferir também alguns interiores, como o dessa Igreja de São João Batista, seu jardim adjacente, e p mercado artesanal mexicano do outro lado da praça.

Interior da igreja de São João Batista em Coyoacán.
Claustro adjacente. Não deixe de visitar.

Depois de umas voltas, fomos pelas simpáticas calçadas de Coyoacán atrás de umas quesadillas. (Se você não sabe o que é, eu já mostro). Achamos. Como sempre, acompanhadas do par de molhos de pimenta vermelha e verde, além da já habitual agüita, que são refrescos ralos comuns entre os mexicanos, e servidos em volumosas quantias. Uma mesa mexicana dificilmente se completa sem esses elementos.

Simpáticas ruas estreitas com calçadas em Coyoacán. Não faltam lugares onde comer ou tomar algo.
Assentos simpáticos nas calçadas, naquele domingo à tarde.
Quesadillas são essas tortilhas de massa com queijo dentro e recheios variados. As pimentas com as cores da bandeira do México são, claro, de lei.
A aguita que quase sempre acompanha. Não são necessariamente artificiais, mas são sempre ralos.

Assim passou-se uma tranquila tarde de domingo.

Coyoacán é quase como um bairro boêmio. Não tem aquela vibe nem a atitude — às vezes pretensiosa — dos bairros boêmios modernos, arrotando estilo, mas aquele boêmio de tardes tranquilas de antigamente, do sentar-se à mesa olhando a rua e ver as crianças brincando. Uma boemia familiar e mais “de raiz”, por assim dizer.

E em mantendo o nosso interesse em conhecer melhor e de perto as tradições mexicanas, nós daqui retornaríamos ao centro da Cidade do México (uma jornada de uns 40 minutos) para assistir ao espetáculo do Ballet Folclórico Mexicano, no Palácio de Belas Artes, teatro principal do país. Conto sobre ele no post seguinte. Até lá.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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