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Tour a Monte Albán: Ruínas zapotecas e mixtecas em Oaxaca (México)

Lá está Monte Albán contra a paisagem da Sierra Madre no sul do México. Pode não ter a imensidade de Teotihuacán, ou a extensão das ruínas mayas em Yucatán, mas é o principal sítio de ruínas zapotecas e mixtecas, mostrando a diversidade cultural e histórica do país. Não são apenas legados astecas e mayas como se costuma imaginar, mas de uma variedade de nações indígenas distintas que aqui floresceram ao longo do tempo.

Monte Albán, apesar do nome mui espanhol, foi uma cidade zapoteca fundada nos idos de 500 a.C. e que viria a dominar esta parte da Mesoamérica pelos séculos seguintes. Os zapotecas escreviam em hieróglifos como os antigos egípcios e mayas, e tiveram seu apogeu entre 200-700 d.C. Não se sabe ao certo como veio a ser chamada de “Monte Albán” pelos espanhóis.

Curiosamente, a alcunha de “zapotecas” é um exônimo, um nome dado por gente de fora. (Como “Pérsia”, um nome dado pelos antigos gregos, enquanto que os próprios persas chamavam e chamam a sua terra de Irã, como oficialmente é hoje. A China também não se chama de China, mas de Zhongguo, o “Reino do Meio”. E por aí vai.)

Zapoteca é uma corruptela de tzapotecatl, que na língua náhuatl dos astecas quer dizer “habitantes do lugar dos sapotis”. Sim, os sapotis que foram parar no Brasil são frutas originárias daqui, da terra desse povo. Os zapotecas (agora que você sabe o significado, nunca mais vai perceber esse nome da mesma forma) eles próprios se chamam de Be’ena’a Za’a, “o povo das nuvens”. Ainda há cerca de 1 milhão deles, a maioria aqui no estado mexicano de Oaxaca.

Sobre os mixtecas eu falo daqui a pouco. Vamos a Monte Albán.

Ruínas de Monte Albán em Oaxaca, México.
Há todo um extenso complexo, próximo da cidade de Oaxaca de Juárez, de onde todos os dias há tours para cá.

O tour guiado em pequenos grupos para Monte Albán toma um dia inteiro, mas inclui bastante coisa. Dos outros lugares onde paramos eu falarei a seguir. Não é preciso nenhuma reserva antecipada; basta arranjar com seu hotel ou pousada no dia anterior e a van vem buscá-lo.

Tomei um café da manhã de nobre da aristocracia indígena mexicana antes de sair, na agradável pousada onde me instalei em Oaxaca. Era tão bonito acordar todos os dias para aquele jacarandá florido no pátio, flores roxas por toda parte no chão.

Por toda esta parte do México, na estação seca após o inverno a terra e as plantas todas adquirem uns tons ocres, que se mesclam com o das pedras acinzentadas. Contra esse pano de fundo é que as flores hiper-coloridas do México fazem um Carnaval. É uma beleza pitoresca diferente daquela dos trópicos. Veríamos mais disso em Monte Albán.

Nosso guia seria um senhor moreno escuro de cabelos brancos, señor Simón, que lembrava um pouco o meu conterrâneo Bira do sexteto do Jô. Era uma versão mexicana.

Señor Simón a nos explicar sobre os OVNIs… não, brincadeira, era sobre o desenho das ruínas.
Com seu guarda-chuva e o pirulito a nos explicar sobre o sítio de Monte Albán. (O que eu mais adoro na América Latina é a quantidade de gente “figura” que há.)
Estamos bem no alto. O lugar não foi apelidado de Monte Albán à toa. Sendo março no hemisfério norte, fazia ainda um friozinho de inverno.
Eu com a cara de bobo em Monte Albán.

Monte Albán é coisa para algumas horas de visita. Ela no centro conta com uma Gran Plaza, que é um espaço aberto que servia de praça principal no meio dos prédios, circundada por pequenas edificações circulares de madeira. Vale perceber que, como noutras partes da América pré-colombina, somente a nobreza tinha casas feitas de rocha: o povão vivia nos arredores em casas feitas de material vegetal, das quais nada ou quase nada sobrou.

A Gran Plaza, a praça principal do que era a cidade de Monte Albán. Aqui aconteciam cerimônias, etc.
Grupo escolar em excursão, a conhecer as edificações seculares no sítio.
Prédios onde viviam governantes. Na sociedade dos zapotecas, não havia separação entre chefia religiosa e política.
Os indígenas do sul do México eram — e são — bem baixinhos.
Campo para o “jogo de bola”.

O jogo de bola (juego de pelota) era uma competição entre dois times usando uma bola de borracha. Era das cerimônias mais notáveis e comuns entre as civilizações da Mesoamérica, encontrada também entre os mayas e outros. Não vou chamar de “esporte”, porque não era essa a tônica. O jogo era sério e funcionava como forma de resolver disputas (por terra etc.).

Segundo dizem aqui em Monte Albán, essas “arquibancadas” laterais não eram para espectadores, mas eram cobertas com limo para que a bola escorregasse de volta ao “campo” caso caísse lá. Havia numa das paredes um aro por onde a bola precisava passar para se marcar ponto.

Imagine uma espécie de jogo de basquete com uma cesta só, que se acredita que ficava onde está aquele “umbigo” no meio do campo. Só que não se arremessava a bola com as mãos, mas se batia nela com os cotovelos e joelhos.

Noutras partes do México há evidências de que esse jogo às vezes resultava em sacrifícios humanos, a depender de quem ganhasse, mas não há sinais disso aqui em Monte Albán.

Não quer dizer que não houvesse sacrifícios humanos aqui. Era prática comum na maioria das culturas antigas do atual México. A morte sempre tinha um papel religioso importante, como oferenda aos deuses. Isso fica visível na Galeria dos Dançarinos, uma série de pedras milenares com gravuras em baixo-relevo mostrando o que se acredita serem prisioneiros de guerra, capturados de cidades vizinhas e sacrificados em cerimônias aqui em Monte Albán. Elas estão datadas de 500-100 a.C. 

As pedras milenares da chamada Galeria dos Dançarinos, de 500-100 a.C. em Monte Albán.
Essas pedras têm desenhos em baixo-relevo de figuras que se acredita serem nobres capturados de cidades vizinhas e sacrificados aqui. Suas feições de lábios grossos lembram os Olmecas, povo mais antigo e que vivia mais ao norte. Mostrei algo deles no meu post no Museu Nacional de Antropologia na Cidade do México.
Tumbas em Monte Albán. Foi daqui que saíram alguns dos tesouros que mostrei no post anterior, no Museo de las Culturas de Oaxaca. Os indígenas nobres aqui eram enterrados junto com pertences valiosos.

Os nobres zapotecas criam que eram originários das nuvens, e que às nuvens suas almas voltariam quando morressem. Daí o nome original dessa civilização de “Povo das Nuvens”.

Eles, no entanto, sofreram um declínio e assistiram à dominância dos mixtecas nos idos do ano 1000 d.C. Por volta de 800 d.C. Monte Albán estava praticamente abandonada, quando os mixtecas ganharam poder e dominaram esta região. O mais famoso líder mixteca era conhecido como Garra de Jaguar, cujas histórias de vida no século XI foram registradas num códice preservado até hoje. 

Curiosamente, Pata de Jaguar foi o nome escolhido para o protagonista do filme Apocalypto (2006), dirigido por Mel Gibson, embora ali os personagens e a língua do filme sejam mayas.

São dos mixtecas as tumbas de nobres que hoje se veem em Monte Albán, de quando esse povo ocupou e se apossou da cidade que fora dos zapotecas. Os mixtecas aqui ficariam até 1458, quando foram subjugados pelo império asteca que se expandia. Claro, tudo mudaria bastante depois da chegada dos espanhóis aqui ao interior do México nos idos de 1519.

Tumbas de nobres mixtecas em Monte Albán. Elas são assim ornamentadas como as do Egito Antigo, mas no geral não estão abertas ao público, são objeto de estudo arqueológico. Esta foto é do site latinamericanstudies.org
Peitoral com figura em ouro, encontrado numa das tumbas aqui de Monte Albán por arqueólogos mexicanos nos anos 1930. (Esta foto é da Universidade de Calgary, no Canadá, onde há trabalhos de arqueologia no tema.)
O jacarandá em flor, que vi crescendo naquele meio. Monte Albán estava florida.

É um passeio para algumas poucas horas, como cheguei a dizer. Vale a pena ver de perto e conhecer mais deste passado dos mixtecas e zapotecas. Ainda que seus Estados tenham acabado enquanto unidades políticas independentes, muito da cultura permanece vivo até os dias atuais entre as pessoas — seus descendentes. É o que eu agora iria conhecer melhor pelo interior de Oaxaca.

Árvore frondosa nesta paisagem árida.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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