You are here
Home > México > Curiosidades da gastronomia e belezas da cultura de Oaxaca, México

Curiosidades da gastronomia e belezas da cultura de Oaxaca, México

Coloridos, coloridos vários. Não há México sem cores, muito menos Oaxaca. Seja na comida ou nas artesanias, o colorido vivo está aqui por toda parte. Nas comidas propriamente ditas, como também nos pratos propriamente ditos. Nessas tapeçarias de fio de agave, como nas pequenitas esculturas em madeira que fazem de monstros e criaturas fantásticas brinquedos infantis.

Este post é uma modesta amostra da cultura oaxaqueña de que me embebi por uns dias, algumas das comidas que experimentei e das coisas que vi. De molhos preparados com gafanhoto a lindos têxteis de coloração natural.

Moles são molhos com múltiplas especiarias típicos aqui do México. Cada região faz o seu, e eu cheguei a mostrar anteriormente o de Puebla, o mole poblano com chocolate. Os de Oaxaca são magníficos. É difícil rastrear a lista inteira de ingredientes, desde ervas até — em alguns casos — gafanhotos (chapulines). Não faça essa cara, pois sem saber o que tem dentro você experimenta e acha uma delícia.
Vai uns gafanhotinhos como tira-gosto, ou prefere com o macarrão?

Estou fazendo essa anarquia com os gafanhotos porque são algo exótico, e os mexicanos daqui não têm mesmo pudores em usá-los na alimentação, mas a gastronomia local vai muito além disso. Provei de todos aqueles moles de várias cores, e era cada um mais saboroso que o outro. Sabe-se lá o que tinha dentro.

Este aqui foi no café da manhã: molotes de plátano con mole. Bolinhos de banana com queijo branco por cima e um molho mole, no sentido mexicano, com suas especiarias.

Explicar gosto é uma tarefa sempre difícil, mas como sei que há dentre vocês quem esteja a se perguntar, eu posso tentar. Os moles são molhos um tanto ralos, apesar da aparência. Na culinária mexicana não se usa leite de côco, nem vi ninguém usar leite ou creme para espessar. Então a textura é a de molhos à base de água com especiarias, mas com aquele sabor bem pungente, pois a concentração é alta, e sempre vai um pouco de pimentas moídas. Alguns ardem mais, outros parecem coentro com salsinha batidos, já outros são ligeiramente doces, com sabores puxados para a canela ou para o chocolate amargo. É uma festa. Você come isso com carnes e arroz, em geral. 

Uma série de entradas oaxaqueñas. Aqui à esquerda temos tortilhas de milho, para serem comidas com feijão em pasta e queijo branco moído. Na mesa outros quitutes variados.
Mesa de doces. Bolo de cenoura, arroz-doce, entre outros que se assemelham a alguns doces do Brasil.

O dono desse restaurante parecia o próprio Pancho Villa, de camisão branco e bigode. O figurão, pra quem não sabe, foi um dos líderes da Revolução Mexicana dos anos 1910, ao lado do célebre Emiliano Zapata e outros.

José Doroteo Arango Arámbula (1878-1923), mais conhecido pelo nome de guerra de Pancho Villa, nascido no estado de Durango, era praticamente um Lampião mexicano. Só que teve sucesso. A Revolução Mexicana derrubou os quase 40 anos da ditadura que havia no país.

Mas quem me chamou mais a atenção uma das funcionárias, daquela beleza serena indígena. Chega me dava uma coisa. Quase derrubo um prato quando de repente seu olhar se cruzou com o meu. Acho que era filha do homem. 

Pra namorar uma moça aqui no México você tem que ser muito macho. O que inclui a habilidade de comer frutas recobertas de pimenta moída. Eles adoram.

Foi numa dessas que eu encontrei uma barraquinha de coco verde, delicioso, que avistei a mexicana de tez morena devorar regado num molho vermelho como se o pobre coco estivesse a sangrar. Claro que fui até ela pedir para experimentar.

Si! Claro!“, respondeu-me naquele espanhol sociável e costumeiramente simpático dos mexicanos. 

Moça a me ofertar coco-verde apimentados. Aqui é assim que eles comem frutas.
Olha que maravilha.
A cara de entusiasmo. Comi por curiosidade. Embora eu seja baiano e goste de pimenta, no coco não rola.

Noutra situação aqui em Oaxaca, havia uma sorveteria. Vendia as “exquisitas nieves oaxaqueñas“. “Exquisito” em espanhol é um falso cognato; quer dizer algo especial, diferenciado. Mas nesses sorvetes o que havia eram alguns sabores bem esquisitos — aqui no sentido bem luso da palavra — como “pétalas de rosa”. O molho de pimenta para pôr por cima até do sorvete era absurdamente surreal.

Vai achando que é calda de morango…
Ricas piñas locas! Eles aqui fazem de tudo, até abacaxi com tequila. O México não é para amadores.
E certas coisas eu simplesmente não experimentei, como esse mingau arenoso sendo aparado ali no copo plástico pelos dedos lambuzados da tia. Nham.

Os passeios em Oaxaca, como em todo lugar, incluem sempre aquelas paradas estratégicas em lojas onde você assiste a alguma demonstração e depois pode comprar. Fiz várias delas nos tours aqui, e não vou negar que enriqueceram o passeio.

A artesania principal nesta parte do México são os produtos têxteis, tanto de algodão nativo quanto de fios de agave. Sim, aquela mesma planta suculenta da qual se faz tequila também serve para produzir carpetes e tapetes. O sisal brasileiro, pra quem não sabe, é uma das muitas espécies de agave originalmente nativas aqui do México e da América Central.

Os métodos de coloração são todos naturais, o que às vezes quer dizer durabilidade maior.

Os tecidos com suas colorações oriundas de extratos naturais usados aqui em Oaxaca.
Tapeçaria feita fibras do agave.
Carpetes e tapetes com coloração natural em Oaxaca.
Olha que maravilha.

A riqueza de cores é típica de muitas culturas indígenas das Américas. Você há de notar também seus padrões geométricos, distintos dos padrões florais que predominam nos carpetes oriundos de culturas islâmicas (e que muito da indústria ocidental, sem se dar conta, simplesmente adotou). São uma boa lembrança pra levar pra casa.

Nós ainda veríamos ceramistas locais e também escultores artesanais em madeira, que fazem pequenas figuras pintadas que seriam monstros se fossem grandes, mas que acabam com cara divertida de brinquedo nas mãos desses artistas.

Figuras esculpidas em madeira e pintadas à mão. São artesanias aqui de Oaxaca, no México.
Algumas figuras são até meio psicodélicas. Acho fascinante, e representativo da diversidade cultural, como esses padrões fogem da estética habitual europeia.
Señor Simón, nosso guia que lhes apresentei na visita a Monte Albán no post anterior, segurando um simpático gafanhoto de madeira.

Encerro com os trabalhos em cerâmica negra que fomos conhecer na Alfarería Doña Rosa. A produção de utensílios de cerâmica é histórica e secular nesta parte do México, mas com o desuso de tais objetos no dia-dia em tempos modernos, eles passaram a ter funções ornamentais. Neste lugar dos descendentes de Dona Rosa, segue-se com uma técnica de cozinhar e depois polir os objetos de barro negro.

Objetos de cerâmica negra polida. Ficam uma beleza.
Fotos de família, com um quadro da lendária Dona Rosa ali a moldar a argila.

Moldar a argila às vezes me lembra Ghost, “do outro lado da vida” (1990), o clássico filme com Patrick Swayze e Demi Moore que tantos de nós já vimos várias vezes na TV.

Não sei se os diretores vieram aqui a Oaxaca antes de gravar, mas tivemos uma demonstração de argila rapidamente moldada na hora por um neto de Dona Rosa que me fez ponderar se a própria Dona Rosa não tinha baixado ali. Brincadeiras à parte, o cara pareceu entrar num transe, não nos dirigiu o olhar nem nenhuma palavra, e em questão de instantes moldou o jarro que vocês veem na foto. Foi impressionante.

Coisas das culturas de Oaxaca. Salvem os caboclos zapotecas.

São alguns breves exemplos das vivas, mui vivas, tradições culturais que permanecem pulsantes aqui em Oaxaca, neste que é um dos recantos mais culturalmente bonitos do rico México. A gente segue.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

Deixe uma resposta

Top