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As ruínas zapotecas de Mitla e a árvore milenar em Tule, Oaxaca

Sigo eu pelo interior de Oaxaca, sul do México, a descobrir tesouros arqueológicos das civilizações indígenas e também algo ainda mais antigo. Não é todo dia que se esbarra num ser vivo que já estava vivo quando o profeta Maomé, o imperador Justiniano e outros ainda caminhavam pela Terra, e os Vikings não haviam nem começado ainda a navegar. Nós neste post passearemos entre o antigo, o muito antigo, e o antiquíssimo.

Tem um pouco de loucura também, porque no México — como é característico do melhor da América Latina — você sempre esbarra numas pessoas que parecem saídas da ficção. Neste caso, o nosso guia de hoje.

Após visitar o maior sítio arqueológico de Oaxaca, a antiga cidade de Monte Albán, era hora de conhecer também Mitla, onde os zapotecas continuaram vivendo quando Monte Albán foi abandonada e depois apropriada pelos mixtecas. (Veja o capítulo anterior desta história naquele post.)

Era uma bela manhã de sol, com algumas poucas nuvens brancas no céu, quando o guia Eloy veio nos apanhar para o tour em nossa aconchegante pousada em Oaxaca de Juárez, formosa cidade. Nosso passeio se iniciaria exatamente pelo mais antigo. A nossa primeira parada seria para ver a milenar (e imensa) árvore de Tule, vilarejo aqui próximo. Estima-se que ela aqui esteja em pé há 1.600-1.800 anos. Portanto, mais antiga mesmo que as construções seculares de pedra dos indígenas.

Ei-la. Note como as pessoas ali fora da grade são pequenininhas.
Este é o tronco. (O tronco.)
A árvore é linda. É da espécie Taxodium mucronatum, popularmente conhecida como cipreste de Montezuma. (O que é um nome tardio, já que ela é quase mil anos mais velha que o próprio imperador asteca Montezuma.) Segundo os zapotecas aqui da região, suas histórias contam que ela foi plantada pelo sacerdota Pecocha por volta do ano 600 d.C. do nosso calendário.

Caso você esteja a se perguntar, ela não é a árvore mais velha do mundo. Há outras de até 5.000 anos por aí, quase todas em clima temperado, onde o número de pragas e doenças é menor. Ainda assim, acho que essa é a mais antiga que eu já vi com meus próprios olhos.

A cidade de Tule é, d’outro modo, um lugarejo pacato com cara de cidadezinha do interior, onde camponesas de ar indígena vêm vender têxteis e artesanato em palha aos turistas. 

Vendedoras de artesanato em Tule, na simpática pracinha central.
A igrejinha da cidade, com o jardim bem arrumado.

Daqui é que fomos ao ateliê de artesanias têxteis que preferi mostrar no post anterior, sobre a cultura de Oaxaca. O nosso guia Eloy, uma figura sui generis, era um homem moreno de seus 40 e tantos anos e cabelos já cinzentos. Olhar um tanto elétrico, e ares de quem fazia você se perguntar se ele bebeu de manhã antes do tour ou se era doido mesmo.

Eloy no ateliê de artesanias têxteis que lhes apresentei no post anterior.
Passamos também numa casa de fabrico de mezcal, essa bebida típica aqui de Oaxaca feita a partir do agave. Mas sobre ele eu farei um post especial a seguir.
Nosso épico Eloy, com sua roupa de técnico da EMBRAPA, a transitar em meio aos índios, as vendedoras a observá-lo. Em verdade, ele próprio — claro — era de sangue indígena, e arrancava-nos uns sorrisos quando com naturalidade iniciava frases com “Nós, os zapotecas, somos…”. Está certo ele. Acho muito boa essa propriedade com que os mexicanos assumem suas raízes civilizacionais de antes dos espanhóis.
Eloy a nos explicar coisas quando chegamos próximo às ruínas de Mitla. (Jack Sparrow, o personagem de Piratas do Caribe, era sóbrio em comparação.)

Mitla foi uma cidade erigida pelos zapotecas já nos primeiros séculos da Era Cristã. Não se tem uma data exata da sua fundação. Ela já era um centro político e religioso importante quando Monte Albán, maior, era a principal cidade dos zapotecas durante o primeiro milênio d.C.

Quando Monte Albán cai em decadência nos idos de 750-800 d.C., Mitla se torna o principal centro urbano dos zapotecas. Mesmo quando os mixtecas aparecem com força no ano 1000 d.C., ocupam Monte Albán e controlam toda esta região, Mitla continua a ser habitada principalmente por zapotecas. Ambas as línguas — mixteca e zapoteca — seguem sendo faladas hoje, e há milhões de pessoas dessas etnias.

Embora não sejam um sítio muito vasto, as ruínas de Mitla são fenomenais por seus detalhes arquitetônicos.

Os detalhes da obra milenar zapoteca, hoje restaurada, com sua decoração nas paredes.
Os espanhóis arrasaram a maior parte do lugar, dizendo até que seu nome (Mitla) significava “”inferno”. Trataram logo, já no século XVI, de construir uma igreja, a Igreja de São Paulo. Ela não apenas foi erigida com pedras retiradas de Mitla, como também por sobre um templo zapoteca aos deuses dos mortos que havia ali.
A principal parte do sítio é este, o chamado Palacio, onde viviam governantes zapotecas e o sumo-sacerdote (Uija-tào na língua deles).
Entradas.
Os detalhes ornamentais nas paredes, que em espanhol eles apelidaram de “grecas” pela semelhança com as chamadas “barras gregas” dos templos da Grécia Antiga. Note que os zapotecas construíam sem argamassa, usando o encaixe preciso das pedras.
Eloy sentado ali a nos explicar sobre os zapotecas. Note a altura dos degraus.

Ele era performático como Nero quando se punha a explicar as coisas. Gesticulava, esbugalhava os olhos e esticava os braços.

Por que carajo las hacian tan altas?“, perguntou em alto e bom tom sobre os degraus. Fitou-nos por uns segundos deixando a pergunta no ar, até que ele próprio respondeu.

Eran chiquitos“, fez ele com a mão indicando como os zapotecas da época eram baixinhos, e por isso tinham mais facilidade em subir esses degraus elevados. (Dica: Se você não for baixinho assim, fica mais fácil subir na diagonal.)
Não são tantas as escadas, mas se quiser subir, prepare os músculos das pernas.

No estacionamento no exterior do complexo, um carro de som parado anunciava — naquele mesmo tom típico popular pseudo-científico comum América Latina afora — “Cápsulas de colágeno. Segundo os estudos mais recentes, beneficiam o seu fígado, rins, e a digestão.” E continuava. Ah, América Latina…

Eu deixo vocês com as fotos de um lugar antigo, mas menos antigo, que visitei. O Convento de Culiapán foi iniciado no século XVI e jamais terminado. Remonta até hoje à arquitetura da época e aquele primeiro século de contato entre espanhóis católicos e os povos nativos que eles forçosamente tentavam converter.

Eu ainda retorno com Eloy a seguir. 

O interminado Convento de Cuilapan teve sua construção iniciada pelos espanhóis já nos idos de 1550. Os católicos estavam horrorizados pelas religiões nativas, em especial seus sacrifícios humanos, e embarcaram rapidamente na missão de converter a todos. Note-se que esse elemento missionário foi crucial no colonialismo dos espanhóis e portugueses, acabados de sair de séculos de rivalidade com os mouros, e imbuídos ainda do espírito das Cruzadas. Não foi o caso do colonialismo inglês, francês ou holandês — que também mataram os indígenas mas pouco se misturaram com eles.
O Convento de Cuilapan era para ser um mosteiro dominicano dedicado a São Tiago apóstolo. O nome advém do povoado de Cuilapan aqui próximo.
Não chegaram nem a pôr teto. Este era para ser um projeto modesto, mas acabou se tornando esta suntuosa basílica. O México colonial funcionava no sistema de encomiendas, com um senhor dono de terras encomendero, um pouco como nossas capitanias e seus capitães donatários no Brasil. Não se sabe ao certo se o dinheiro não deu ou se houve brigas entre a Ordem Dominicana, a Coroa, e o encomendero daqui.
Quem levantava as pedras e realizava o trabalho braçal, é claro, eram os índios. Sua população, no entanto, decaiu vertiginosamente com epidemias de doenças europeias, e à altura de 1600 já era uma fração do que havia sido em 1500. Há quem diga que a obra parou por escassez de mão-de-obra.
Aspecto suntuoso da obra. Parece que estamos na Babilônia ou em Constantinopla.
Símbolos mixtecas na parede.
A vista naquela tarde por entre o que sobrou.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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