Suécia

Celebrando Midsommar: A festa junina do solstício de verão na Suécia

Quando o verão se aproxima, a Suécia entra em polvorosa, mas de modo diferente da maioria da Europa. Não se trata somente da chegada da estação mais calorosa depois de meses de tempo frio. Na Suécia, como em alguns outros países da Europa nórdica e báltica, se trata do maior evento do ano: Midsommar, a celebração do dia mais longo do ano, uma tradição milenar por aqui.

Como estamos em elevada latitude, a duração dos dias varia bastante a depender da estação. É algo que pouco se vê nos trópicos, mas que faz toda a diferença aqui nas zonas temperadas do planeta. No inverno, chega a anoitecer às 4 da tarde na Suécia. Já no verão, amanhece às 3:30 da manhã em Estocolmo e o sol só se põe perto da meia-noite. É uma época de grande ânimo e festa. 

Nesta época do ano, estes enfeitinhos mui típicos estão à venda por toda parte na Suécia. É o correspondente da árvore de Natal.

Eu agora moro na Suécia, e não há como viver na Suécia sem se dar conta dessa festa tão popular entre os suecos. Esqueça Carnaval, esqueça o Natal. O Midsommar (midsummer em inglês), sem uma tradução que se preste em português (“meio-verão”), é o festejo número 1 aqui. Apesar do nome, ele não é exatamente o meio do verão, mas o início dele, seu primeiro dia tomando o lugar da primavera. 

Como ocorreu com o Natal, se trata de uma festa antiga pré-cristã que acabou forçosamente associada às celebrações da Igreja, que quis sempre se aproveitar de tradições populares já existentes. De onde você acha que surgiram as festas juninas e o Dia de São João?

Como o Evangelho de Lucas sugere que aquele santo fazia aniversário 6 meses antes de Jesus (embora a Bíblia nada diga sobre quando no ano era um nem o outro), nenhuma escolha melhor portanto que João Batista, já que a data escolhida para se celebrar o nascimento do Cristo já havia sido o solstício de inverno (24/25 de dezembro). Assim, se colavam celebrações cristãs por cima de dois dos festejos pagãos mais importantes.

O Dia de São João Batista foi instituído no século IV em 24 de junho, por cima das festas que as pessoas já realizavam para celebrar o dia mais longo do ano no hemisfério norte. Nada mais pagão que se celebrar acendendo uma fogueira ao ar livre, com muitas comidas e danças. Isso é tradicionalmente em todo o mundo cristão — ninguém pense que festa junina é algo excepcionalmente brasileiro.

Na Suécia, se celebrou o Midsommar na véspera de São João (como se faz ainda no Brasil) até 1953. A data exata do solstício astronômico varia a cada ano, entre os dias 21-23 de junho, mas na Suécia se celebra sempre na sexta-feira mais próxima. (Os suecos enchem a cara e precisam do fim de semana para se recuperar.) O curioso aqui nos países nórdicos e bálticos é ver como atualmente as pessoas “descascaram” as camadas cristãs tardiamente impostas sobre essas festas e voltaram a fazer uma celebração bastante “natureza”.

E o que se faz, afinal? Foi o que eu fiz com alguns amigos suecos em Estocolmo. Canções, danças ao ar livre ao redor do mastro (já mostro), muitas comidas típicas (bem diferentes das do Brasil) e enfeites curiosos, como guirlandas de folhas ou flores na cabeça. 

Eu caracterizado.

Feriado. Mesmo as lojas que normalmente abrem aos domingos se fecham neste dia. Véspera de midsommar é coisa séria aqui na Suécia.

Pelas ruas de Estocolmo ou Gotemburgo, suas principais cidades, quase não se vê ninguém. Um ermo. Quem se vê passar, passa quase sempre carregado de sacolas levando bebidas ou comidas a alguma reunião de amigos. Não é forçosamente uma festa intra-familiar como o Natal, mas algo muito mais comunal e coletivo, onde quanto mais amigos e vizinhos juntos celebrando, melhor.

Foi assim que acabei me juntando a alguns amigos.

A festa hoje tem duas partes, que se você estiver no interior se tornam uma só: dançar ao redor do mastro ao ar livre, e fazer uma refeição de respeito com vários pratos típicos e bebidas fortes. Na zona rural ainda é como nos velhos tempos, um grande festim a céu aberto (com pessoas depois caídas pela grama).

As ruas da capital sueca, Estocolmo, na véspera do Midsommar. É quando a celebração se dá, como no caso do Natal. Elas permanecerão assim semi-vazias até o reinício do ano letivo no final de agosto. Na Suécia há um maravilhoso Estado de Bem-Estar Social, e as pessoas em geral tiram quase dois meses de férias remuneradas por ano.
No Parque Skansen, em Estocolmo, eles encenam o ano todo como era a Suécia tradicional de séculos atrás. É um bom lugar onde experimentar a celebração do Midsommar se você estiver pela capital.
Celebrações tradicionais na Europa quase sempre significam boa comida e receitas caseiras saborosas (muito superiores às porcarias industriais que nos habituamos a consumir no dia-dia).
Todo mundo dançando ao redor do mastro e dando voltas. No Parque Skansen. Assim se dá Suécia afora, na zona rural como em parques nas cidades.

Esse mastro, chamado de “mastro de maio” nas línguas germânicas (maypole em inglês, majstång em sueco), é parte essencial destes festejos. Suponho que a origem do nome se dê pela época em que ele é erguido, em preparação a estas celebrações em junho.

Sua significação é disputada. Hoje em dia, as pessoas sempre fazem leituras românticas e mistificadas de todos os costumes de antigamente, e frequentemente se diz que o mastro simbolizava a fertilização da terra pelo órgão masculino. Já uma amiga sueca historiadora diz que isso é imaginação hoje das pessoas, e que mais provavelmente o mastro nada mais era que uma sinalização — que se podia ver se longe — para todos na vila saberem onde era o ponto de encontro da festa.

O mastro enfeitado está para o Midsommar assim como o pinheiro está para o midwinter. Digo, assim como a árvore de Natal está para o Natal. Inclusive, alguns de nossos festejos juninos continuam a mantê-lo, como em partes de Portugal ou na Festa do Divino em Pirenópolis (GO), onde há o levantamento do mastro.  

Na Suécia, praticamente não há conotações cristãs no festejo. As pessoas dançam em grupo ao som daquelas músicas de vilarejo medieval, seja ao redor do mastro, seja depois em pares ou grupelhos. Como no vídeo abaixo.

Eis, evidentemente, a origem das quadrilhas juninas, que surgem dessas danças da Europa campestre de antigamente.

Essas vestimentas, afora o vigário ali no seu típico traje preto, são típicas dos séculos XVII e XVIII na Suécia. Já não são propriamente medievais. Notem, no entanto, como as mulheres estão sempre com lenços e seus cabelos cobertos. Isso não é necessariamente conservadorismo imposto pelo cristianismo, é tradição milenar em parte porque faz certo frio mesmo nesta época do ano. (Este ano fez 13 graus à noite, por exemplo.) Minha amiga historiadora pira com aqueles seriados tipo Vikings que mostra as mulheres loiraças com seus cabelos solto ao vento.

Na Europa toda, tipo da Itália pro norte, todas as mulheres adultas usavam lenço ou gorro na cabeça. Isso de cabelo solto é viagem dos produtores de filme.

As pessoas em trajes tradicionais no Parque Skansen, em Estocolmo. As vestimentas variam para ilustrar a diversidade de várias regiões da Suécia.
Danças de vilarejo.
Algumas têm uma evolução maravilhosa. Parece até Photoshop, mas não é.
As crianças participando da folia. (PS: Elas adoram.)
Eu com alguns dos dançarinos, bem brasileirão agarrando todo mundo.

Se você estiver no interiorzão, aqui se dança, aqui se come e aqui se bebe — como antigamente quando a maioria vivia na zona rural. Já hoje em dia nas cidades, as pessoas vão a algum mastro próximo onde o bairro se junta para dançar (ou vão a algum parque), e em seguida reúnem-se para comer e beber em casa com família e amigos.

Como são as comidas? Não tem nada a ver com as comidas típicas juninas do Brasil, como você há de imaginar. (Acho que a única semelhança é o álcool.)

Aqui na Suécia nesta época tradicionalmente se come sill, um peixe em conserva, às vezes um tanto fermentado. Em geral, se trata arenque — ou herring em inglês, como os peixinhos-símbolo daquela famosa marca de roupas. É um peixe comum pelo Atlântico Norte. As batatas também há séculos se tornaram comuns, como no restante do norte e leste da Europa.

Agregue a isso certas gordices, pois festejos aqui são sempre época de guloseimas, como pães com creme e muitos morangos. E, além disso, álcool. Os suecos bebem no Midsommar como em nenhuma outra época do ano. Há um tom muito mais hedonista no Midsommar do que se vê, por exemplo, no Natal.

Hoje se bebe vinho, cerveja e o que se quiser, mas o tradicional é o destilado de batata, o goró a 40 graus alcoólicos tomado em copinhos, todo mundo junto ao som de cantigas populares. Não é permitido tomar casualmente cada um a seu próprio ritmo como se fosse outra bebida qualquer.

Não. Para beber você precisa propor um brinde e cantar uma canção tradicional. Algumas remontam ao século XVIII, com letras quase sempre sobre as coisas da vida, sobre mulheres, ou sobre o próprio álcool. Termina-se com um skol!, o equivalente nórdico ao nosso “saúde!”, mas sem tocar os copos, só levantando todos juntos antes de virar. (A marca de cerveja Skol pertence à dinamarquesa Carlsberg, daí o nome.)

Este foi o meu copo este ano. Destilado de batata, servido gelado. É como uma vodka, às vezes saborizada de leve com anis, laranja, essas coisas. Na prática é um álcool forte tipo a grappa italiana. Cada hora um na mesa propõe um brinde e canta uma música diferente — cada vez mais animadamente conforme as pessoas vão ficando mais “alegres”.
Prato de refeição minha no Midsommar. Ali o peixe em conserva acompanhado de creme, legumes, batata e torta de queijo. Esse peixe conservado não é a coisa mais maravilhosa do mundo, tem uma textura de enguia, mas junto do restante, se come.
Gordice maravilhosa do Midsommar: pão fofo com creme, recheado de morangos e açúcar fino por cima.

Os sóbrios suecos em geral bebem no Midsommar até não se lembrarem mais de que estação é. Usam o fim de semana pra se recuperar. Na segunda-feira, todos aparecem com cara de normalidade no trabalho, se já não tiraram férias. (Alguns ainda estão com a cara meio amassada e os olhos pregados de beber e dormir, sobretudo os que esticaram a celebração até o domingo.)

Há a tradição de se virar a meia-noite ou, às vezes, esperar o sol nascer às três ou quatro da manhã do dia seguinte, esta que é a noite mais curta do ano. As noites aqui do verão são essa coisa azul, não preta, quase nunca em breu mas num marinho que lhe dá a impressão de que é apenas uma breve pausa. De que o sol foi ali, e vem já. 

Noite de Midsommar antes do cair do sol, minha amiga sueca caracterizada. Em Estocolmo.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 Replies to “Celebrando Midsommar: A festa junina do solstício de verão na Suécia

  1. UUUuuuuuuuuuu que coisa interessante e surpreendente…Que beleza de festa. Nossa!… surprise for me hahaha. Nem suspeitava dessa festa nessa época e tao parecida com as nossas cá do NE!…Pois estamos fazendo o Sao Joao aqui. So achei diferente porque aqui há muitos fogos. As crianças soltam traques e bombinhas, tocam chuvinhas etc. divertem-se.
    Outra diferença é que aqui é o inicio do Solstício de inverno então temos quase sempre frio e chuva, mas isso não impede a festa. Ainda outra diferença é que aqui no Brasil esta associada ao Catolicismo e suas festas populares.
    Adorei as manifestações e a simbologia. Tem mesmo muitas semelhanças com as rodinhas portuguesas trazidas para o Brasil e com os festejos juninos também trazidos por eles.
    Que gostosas nuances, cores, evoluções, guarda-roupas, musicas, instrumentos e danças. Parece que você entra na maquina do tempo e esquece que está no seculo XXI. ou pensa que esta em um Sao Joao diferente, aqui no NE do Brasil hahaha Que curioso…
    Amei essas associações e raízes das nossas festas aqui, em particular no nosso maravilhoso e rico NE brasileiro. As nossas quadrilhas juninas se parecem muito com essas danças, tanto no ritmo quanto nas vestimentas quanto nas evoluções.
    Surpresa ver que na Suécia elas estão preservadas, estimuladas e tao associadas às nossas ou vice-versa ja que as de la são mais antigas. Que mundo pequeno.!… Que descoberta maravilhosa meu jovem amigo viajante. Ponto para Grifinória. hahaha
    E o senhor esta todo prosa caracterizado com coroa de louros e Cia ltda. Muito bem. Integrado.
    E que interessante isso de quase não escurecer. Os livros falam disso mas apreciar o fato em si e in loco, tem outro sabor.
    Muito bonita a tradição e muito oportuna a postagem ja que no Brasil todo o mes de junho tem festas populares como Santo Antoni dia 13 e ontem e hoje sao os dias dedicados à Sao Joao com fogueiras festas,danças parecidas com essas ai, muita musica com sanfonas, arrasta pés, adivinhações, namoros, acertos de casamentos, casamentos em si, nas roças, bebedeiras, comidas tipicas como amendoim, laranjas, milho etc e tal todos bem caracterizados como essas ai. Uma beleza. Tanto as daqui quanto as daí. E ainda tem Sao Pedro e Sao Paulo dia 29 de junho. O mes é todo de festas.
    Desculpe-me mas que horror essa comilança de peixe conservado, com aspecto de cru. Nao repare, meu amigo, mas sua amiga não curte hahaha isso ai. Aceitaria os outros complementos inclusive a sobremesa hahaha embora engorrrrrde haha.
    Valeu, amigo viajante. Está convidado a visitar o NE em uma festa junina e fazer uma postagem hahah. Amei.

  2. Esqueci de comentar que essa bebida ai com esse teor alcoólico é uma bomba para o pobre organismo. Aqui temos uma bebida licorosa feita com frutas da região como Jenipapo e maracujá que são mais fracos, mais ou menos adocicados e feitos de aguardente de cana de açúcar. Deliciosos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *