Escócia

Conhecendo Glasgow, a maior cidade da Escócia

Bem vindos a Glasgow, a maior urbe da Escócia. Não é a capital escocesa (esta seria Edimburgo), mas é sua maior cidade. Por um tempo, foi de todas a segunda maior cidade do Reino Unido, atrás apenas de Londres. Eram tempos áureos (ou talvez eu devesse dizer cinzentos) da revolução industrial por toda a Grã-Bretanha.

Para que ninguém se perca nas designações geográficas: Grã-Bretanha é toda a ilha principal, compreendendo Inglaterra, Escócia, e País de Gales. O Reino Unido, que é de fato o país enquanto Estado (com governo, instituições etc.), inclui aqueles três mais a Irlanda da Norte. (O nome completo do país é hoje Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Costumava ser Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda até 1922, quando a maior parte da ilha irlandesa se tornou independente no que é desde então a República da Irlanda. Da vontade de muitos escoceses, breve se tornará Reino Unido da Inglaterra e País de Gales, com a Escócia voltando a ser totalmente soberana como foi até 1707.)

A Escócia é um lugar fascinante, que me fascina pelo seu sotaque curioso, pela preservação da identidade cultural embora há 300 anos já não tenha mais soberania, assim como pela beleza histórica de algumas de suas cidades. Glasgow pode carecer do charme de Edimburgo, mas não deixa de ser uma experiência interessante. Eu vim a trabalho mas com tempo suficiente para dar uns bordejos e conhecer algo — rever o espírito escocês.

Pedaços da Universidade de Glasgow (com suas edificações góticas) e do Parque Kelvingrove. Sabe aquela escala de temperatura kelvin? Foi dada em homenagem ao Lord Kelvin, pesquisador aqui da Universidade de Glasgow no século XIX, e que quando foi promovido a lorde pela Rainha Vitória escolheu como nome nobiliárquico o nome do rio que passa debaixo dessa ponte: Kelvin. Foi o rio que deu o nome a ele, não o contrário. Seu nome original era William Thomson.

Eu preciso admitir que tenho uma simpatia muito grande pelo Reino Unido pré-industrial, aquela Grã-Bretanha bucólica medieval dos tempos de Robin Hood. Tenho algum apreço pela estética vitoriana, ainda que crítico do imperialismo britânico. Mas acho a estética do Reino Unido industrial e pós-industrial uma decadência. Glasgow vos apresenta de mãos cheias algo de tudo isso.

Como noutras partes da Escócia, a natureza aqui nunca está muito longe. Às vezes você sente nas situações campestres de algum conto antigo ou filme de fantasia, o riacho a correr por entre as árvores e as ocasionais construções de pedra. Achei um silêncio quieto e ligeiramente remoto aqui em Glasgow que nem sempre encontro nas regiões mais urbanizadas da Europa ou do mundo.

No Parque Kelvingrove, sob o típico céu acinzentado das ilhas britânicas.
O Rio Kelvin em meio às árvores, no parque. (Grove em inglês quer dizer arvoredo, então o nome Kelvingrove você já entende o que é.)
E aí, nessa construção de pedra, parece que vive alguém saído de algum conto do passado.

São ruas do que hoje é o bairro residencial de West End, próximo à universidade. A Universidade de Glasgow (fundada em 1451), em verdade, é dos lugares mais belos que há na cidade para quem quer visitar sua herança tradicional e ver arquitetura gótica. É também fonte reconhecida de inspiração da escritora britânica J.K. Rowling para criar a escola de magia de Hogwarts, na série Harry Potter.

Aliás, a universidade não é a única inspiração. Ela, que morou um tempo na Escócia, disse ter se inspirado numa pitoresca rua daqui, a Ashton Lane, para criar o mítico Beco Diagonal na sua obra.

Campus da Universidade de Glasgow.
O ambiente é pitoresco até não poder mais. Típico das mais antigas universidades britânicas.
Espaço coberto com arcos góticos.
Torre numa das entradas.
A Ashton Lane em Glasgow, que teria inspirado o Beco Diagonal da série Harry Potter.

Como estamos no mundo real, em vez de coisas de Hogwarts você encontrará referências aos grandes pensadores e cientistas escoceses que passaram por aqui, como Adam Smith, Lord Kelvin e outros. Foi nesta ocasião, num destes saguões, que tive o prazer e a honra de conhecer pessoalmente pela primeira vez o professor português Boaventura de Sousa de Santos, uma sumidade (e uma simpatia). Esteve aqui para dar uma palestra e aproveitei para assistir.

Se você quer ver mais da Escócia tradicional, pode visitar também a Catedral de Glasgow e o Kelvingrove Art Gallery e Museum (entrada franca, como na maioria dos museus públicos britânicos). Nesse museu você aprende mais sobre a História escocesa — para além de Coração Valente (1995) — e compreende também o porquê de tantos escoceses terem emigrado, e como o país mudou nos últimos 300 anos.

Estátua do senhor Adam Smith (1723-1790), num dos interiores da Universidade de Glasgow. (A quem perdeu aquela aula de geografia ou filosofia, ele é um dos pais da economia moderna e do liberalismo de mercado. No entanto, quase sempre é caricaturado. Embora tenha cunhado o conceito da “mão invisível” do mercado que se auto-regula, Smith defendia a importância também do Estado. Além de A Riqueza das Nações, escreveu um outro livro — menos conhecido — chamado Teoria dos Sentimentos Morais, em que exalta o caráter humano baseado na empatia pelo outro, não simplesmente no interesse próprio.)
Olha a chiqueza desse interior.
A Catedral de Glasgow num nada inusual dia de chuva.
O belo interior da Catedral de Glasgow, ou High Kirk como eles dizem aqui. Você notará que algumas palavras inglesas na Escócia são diferentes, como kirk em vez de church (igreja) e loch em vez de lake (lago). Isso é sobretudo para nomes de lugares.
Vitrais. A catedral original data de 1136, mas aqui se deram muitas reformas. Iniciada como catedral católica romana, a igreja foi transferida ao Estado após a Reforma Protestante.
Altar. Hoje, esta catedral pertence à Igreja da Escócia, instituição eclesiástica nacional, habitual nos países de maioria protestante na Europa, que administrativamente têm cada um a sua própria Igreja (a Igreja da Inglaterra, ou Anglicana; a Igreja da Suécia; a Igreja da Noruega, etc.).
Este belo prédio é o Kelvingrove Art Gallery and Museum, talvez a atração n.1 em Glasgow.
Esse museu foi aberto em 1901 e é um dos grandes símbolos da cidade. De entrada franca, como manda a boa tradição dos museus públicos britânicos, ele tem coleções internacionais e muita coisa sobre a Escócia. Bom pra quem quer aprender mais sobre o país. Dedique pelo menos umas 2h.
Hall principal do museu Kelvingrove. Se parece com o saguão de uma estação de trem, é pela época comum, do início do século XX.
Armamentos e armaduras de época.
Dentre as obras estrangeiras, talvez a mais impressionante seja este quadro original de Salvador Dalí, o Cristo de São João da Cruz (1951). O pintor espanhol disse ter tido essa visão num sonho. O nome se deve a ele ter se inspirado também num desenho do século XVI, de um frade chamado São João da Cruz.

O que eu mais gostei nesse museu foi aprender um pouco mais sobre a História da Escócia, em especial o período aqui chamado de Highland Clearances (numa tradução um pouco forçada, algo como a “limpeza das terras altas”).

Todo mundo que assistiu a Coração Valente (1995) ou à série Highlander sabe tradição de clãs aqui na Escócia, os MacLeod, MacLaren, MacKenzie, MacKintosh e inúmeros outros que não começam com “mac”. A palavra clann origina-se da língua gaélica, que falavam os celtas aqui na Antiguidade e Idade Média, e significa “filhos”, no sentido de descendência. Eram as unidades sociais que iam além da família.

Nos idos de 1700, nos princípios do capitalismo agrário ainda antes da industrialização, lordes escoceses, como os ingleses mais ao sul, começaram um processo de cercamento para criar ovelhas no que eram terras públicas e comunitárias. De repente, os clãs foram expulsos (daí o termo “limpeza”) das suas terras ou contratados como trabalhadores remunerados. Foi uma violência social imensa, que se deu sobretudo nas terras altas (highlands) do interior escocês.

Não foi à toa que as cidades começaram a inchar — leiam as obras de Charles Dickens sobre a Londres industrial já pestilentamente inchada nos idos de 1800 —, e que tantos emigraram à América do Norte e outros destinos como reação àquela sujeição, ou como forma de sobreviver. 

De quebra, foi também um grande arraso ambiental, com as colinas sendo “peladas” de suas árvores para dar lenha às máquinas. Em grande medida, as terras altas permanecem desmatadas até hoje. 

Vista das Terras Altas (Highlands) na obra já de 1896 (ou seja, depois de mais de um século de devastação) pelo pintor Joseph Denovan Adam. Balmoral, Outono (1896). É o nome da localidade, onde a então Rainha Vitória adquiriu um palácio. Ela era fã das vistas.
O Último do Clã (1865), de Thomas Faed. Aqui, mostram-se família, amigos e quem mais ficou para trás após despedirem-se daqueles que partiam a terras longínquas para nunca mais serem revistos. Foi o fim da vida rural tradicional na Escócia, como diz o Kelvingrove Museum.

Muita gente leu ou assistiu a O Senhor dos Anéis e não sabe que o Professor Tolkien (1892-1973), o inglês criador da obra, era um crítico feroz dessa industrialização desmedida. Por que você acha que, na obra, no meio daquela história de bem e mal, de heróis e elfos contra orcs, o autor de repente inseriu a derrubada desenfreada de árvores e a industrialização metalúrgica do ambicioso mago Saruman? “O mundo antigo irá queimar no fogo da indústria“, proclama ele quase que fora de contexto, se você não souber do contexto do autor da obra.

Tolkien quis ilustrar (e criticar) aquilo que ele viu acontecer ao próprio mundo real ao seu redor, conforme industrialistas ambiciosos arrasavam com o ambiente natural que ele valorizava — tudo para “a ascensão de um novo mundo”, como anuncia o mago Saruman em As Duas Torres

(A quem acha que é preciso escolher entre progresso ou conservação ambiental, apresento-vos o já balzaquiano conceito de desenvolvimento sustentável. Conservar a natureza enquanto se desenvolve a sociedade é questão de escolhas sociais, políticas, e econômicas.)

Como recordar é viver, e cultura tradicional é o que dá sabor à vida por vezes insossa e desencantada da modernidade, encontrei duas garotas a tocar música instrumental escocesa à saída do museu no domingo. Lembra algo da música irlandesa, são da mesma família, mas aqui não há tanto sapateado ou saltos quanto lá.

(Se ficar com fome, atravesse a rua e vá a um dos restaurantes Mother India. Pura maravilha.)

Glasgow se tornou a cidade industrial cujo cheiro ainda exala. Hoje, é pós-industrial, pois aqueles setores pesados migraram quase todos para a Ásia. Não vou lhes dizer que, afora esses marcos que mostrei acima, seja uma cidade lá muito bonita. 

Centro de Glasgow, com sua combinação de prédios cinzentos molhados e lojas coloridas.
Essa estátua é famosíssima aqui na cidade. Não me dei conta de quem é, mas está sempre com o cone de trânsito na cabeça. A polícia já cansou de tirar, e as pessoas põem de novo. Acabou ficando.
O metrô de Glasgow é pequeno e curiosinho. Ele me parece saído de algum livro de Júlio Verne ou de H.G. Wells, tipo Viagem ao Centro da Terra ou A Máquina do Tempo.
Algumas vistas são até elegantes, mas você percebe por toda parte aquelas edificações dos tempos das fábricas.
Sob típica chuva no centro molhado de Glasgow.
O hospital mais tradicional da cidade.
No centro. Ali adiante, o lema da cidade de que “As pessoas fazem Glasgow”. É a ideia de que o maior atrativo da cidade é o seu povo.

De fato, os escoceses são uma onda. Após a semana que passei aqui, digo que me afeiçoei mais aos escoceses que ao ambiente da cidade. Com seu sotaque cantado e seus Rs vibrados (aquele R de “laranja”), um escocês fala “my rrrights” da maneira como um italiano fala rrragazza. World se torna “Woruld”. É engraçado, e eles são em geral espirituosos. 

Essa moça (escocesa) aí abaixo tem um vídeo bem legal mostrando o sotaque deles. Eles realmente falam assim; não é zoeira. Já participei de eventos acadêmicos com gente fazendo apresentações sérias nesse sotaque escocês, e eu fico tão encantado que mal me concentro no que a pessoa está dizendo.

Quando lhe falarem novamente sobre “sotaque britânico”, lembre ao seu interlocutor que nem todo mundo aqui na Grã-Bretanha fala igual à BBC.

Valeu, Glasgow. Sucesso com o Brexit, e até a próxima. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Conhecendo Glasgow, a maior cidade da Escócia

  1. Uauu, que linda essa cidade, diferente, parece que você entrou na maquina do tempo e saiu no Medievo. Nos filmes de Harry Potter ou do Senhor dos Anéis.
    Que belas e imponentes construções. Lindas pelas linhas e aspecto antigo que guardam. E que bucólicas e românticas áreas verdes convidando à meditação e à prece. Lindas, com riachos e belas e cristalinas águas a correr. Fiquei encantada.
    Parece mesmo as terras medias…Adorei o beco diagonal que me fez lembrar Harry Potter. haha. A Universidade tem mesmo algo de Hogwarts… hahah…. lindissima. Um charme com esses tons medievais envelhecidos pelo tempo , Dão um toque maravilhoso. Até o Hospital é um monumento. Belíssimo tudo.
    Lindas praças e que bela cúpula. So a parte que lembra o tempo das fabricas é monótona.
    Belíssima a Catedral da cidade. Amo esse estilo!… .Belas linhas e vitrais. Adoro esses arcos.
    Meu jovem, que museu maravilhoso! …Este quadro de S João da Cruz é impressionante e famoso.
    E que resgate histórico !… dramática essa ocupação..É para não se pensar que só hoje as usurpações acontecem… As pessoas não mudam muito com a geografia nem a cronologia. Ontem e hoje são parecidas. Aqui ali ou acolá.
    O metrô parece de brinquedo hahaha
    Nessa região ai só não me agradam o tempo e a chuva hahah
    E que chic esse lugar, meu jovem!… uauu. very good hahah Adorei a região e a postagem.

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