Alemanha

Munique (Baviera), a capital secreta da Alemanha

Estamos na Baviera (ou Bavária, ou Bayern em alemão), o maior e mais rico estado da Federação Alemã. Sim, a Alemanha é uma federação. Consulte um alemão e ele fará uma cara de que é impensável que não o fosse. Aquela Unificação Alemã que estudamos na escola, dada no fim do século XIX, nunca foi tão longe assim. Regionalismos continuam sendo a alma alemã, tanto quanto na Itália.

Munique, a capital da Baviera, é chamada secretamente de a capital secreta da Alemanha, embora não o seja. Isso se diz talvez pelo tanto de cultura tradicional que há aqui — o Oktoberfest, as cervejarias, os castelos épicos —, ou talvez mais pelo poderio econômico bávaro que tanto influencia a política nacional. Afinal, a poderosa BMW é daqui, assim como a Audi, a Siemens e tantas outras indústrias. A Baviera em 2018 resolveu fazer até seu próprio controle de fronteira com a Áustria, assustada com os refugiados. 

Mapa da Alemanha com a Baviera em destaque. Ela é o maior dos 16 estados alemães.

Munique, de fato, é uma cidade portentosa, com suas grandes construções não-demolidas pela guerra (ao contrário de Berlim) e seus parques, palácios nos arredores. Eu sugiro passar dois dias aqui para ver o principal.

Já vim três vezes, a mais recente delas no começo deste ano, ainda inverno, após visitar as cidades da Transilvânia na Romênia. Embora vasta e com 1.5 milhão de habitantes, o que mais interessa ao visitante em Munique está relativamente bem concentrado em alguns poucos lugares. 

Os lugares mais interessantes (a meu ver e nesta ordem) são os arredores da Marienplatz, no centro histórico; o palácio Nymphenburg; e, de abril a novembro, o parque Englischer Garten (jardim inglês). Se você gozar de tempo e gostar de arte pode visitar também a Alte Pinakothek (velha pinacoteca, não alta). 

Você aqui na Baviera também encontra muitas coisas que talvez creia típicas alemãs em geral, como certas roupas e comidas.

Verão em Munique. Esse chapeuzinhos característicos, às vezes acompanhados por vestimentas (até calças!) de couro, são típicos especificamente aqui da Baviera.
O Jardim Inglês (Englischer Garten) é um vasto parque de Munique, aonde as pessoas se concentram no verão. O nome se deve ao estilo, dominantemente inglês na época, quando em 1789 foi feito para o então monarca da Baviera. 
As pessoas aqui no verão se soltam. O lugar, em verdade, é bastante agradável.
Os lugares onde comer ficam plenos de gente no Jardim Inglês. Nada mais característico bávaro que essas mesas ao lado de fora, com toalhas quadriculadas, e as pessoas a tomar e comer.

O que as pessoas aqui tomam é cerveja (de preferência naqueles canecões de 1 litro), isso você já sabe. Agora a comida — Jesus meu pai — é uma combinação campesina de carne brava, com batatas e chucrute (repolho azedado em conserva).

Eu digo que adoro as comidas na Alemanha até o meio-dia. Seus pães, bolos, geleias caseiras e outros materiais de café da manhã são fantásticos. Já a partir do almoço, é só pra quem gosta daquela culinária alemã, que aqui na Baviera me parece ser duplamente característica. (Eu acabo quase sempre optando por almoçar em algum restaurante asiático ou italiano quando venho à Alemanha.)  

Fotografada na surdina, uma mesa mui bávara ao nosso lado. Olha a carne, a batata fervida, o pão pretzel (com sal grosso por cima), e a tigela de chucrute (sauerkraut). Saravá, meu pai.
O que acabamos comendo no almoço: Kaiserschmarrn, uma massa frita com açúcar por cima e morangos. É um doce mais austríaco que alemão, mas eles aqui na Baviera têm muito em comum com a Áustria.

No século XIX, Otto von Bismarck, o famoso chanceler prussiano que liderou a Unificação Alemã, dizia que “O bávaro é o elo perdido entre o austríaco e o ser humano”. Hoje em dia não se podem dizer mais essas coisas, mas naquele tempo as animosidades e desafetos entre a Prússia, que liderou a Unificação Alemã, e a Áustria eram grandes. A Baviera, por séculos reino independente, acabou unindo-se politicamente à Alemanha, mas culturalmente continua mesmo sendo um elo.

Eu nessa ocasião do prato de morangos estava com uma amiga alemã (doutras partes), que se contentou com aquele almoço doce. Eu tive que dali a algumas horas parar num chinês self-service “coma à vontade”.

Quando eu retornei a Munique neste inverno, o samba já era bem outro. Nada de pessoas espóticas nas ruas a se banhar e comer. A cidade fica toda reservada sob o frio ou a neve, embora continue recebendo turistas. 

A mui portentosa prefeitura de Munique.
Arquitetura.
A cidade sob a aura do inverno, mas as pessoas continuam a se movimentar.
Munique sob um céu azul de inverno.
Essa branca é a Igreja de São Miguel, numa das vias principais do centro da cidade.
A prefeitura de Munique vista por outro ângulo, com as duas torres da Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora) lá adiante.
Pracetas.
Movimento no centro histórico da cidade, que culmina na praça central Marienplatz, da prefeitura.
Após comer umas castanhas portuguesas assadas neste inverno.

Como você talvez perceba pela frequência de nomes como Frauenkirche e Marienplatz, os bávaros são tradicionalmente católicos romanos, como os austríacos, mas diferentes da maioria protestante da Alemanha. (Lembre que Martinho Lutero era alemão.)

Se você gosta de visitar igrejas, não deixe de ver, além da própria Frauenkirche e da Igreja de São Miguel, a encantadora Igreja de São João Nepomuceno, decorada de uma maneira toda especial.

Já se quiser conhecer mais da Baviera secular, com sua História como reino independente, aí sugiro visitar o Nymphenburg, o “Palácio das Ninfas”, com sua sala de retratos das “36 mais belas mulheres da sociedade” pintados a mando do rei. 

O interior da Igreja de São Miguel Arcanjo, no centro de Munique.
O altar.
A Igreja de Nossa Senhora (Frauenkirche) é quase impossível de fotografar de perto. Catedral, ela é a maior igreja da cidade. Suas torres têm 98m de altura. Ela foi consagrada em 1494, após ser construída por cima de uma igreja mais antiga que aqui havia em estilo romanesco.
O interior da catedral é simples, como característico nas igrejas góticas, mas bem elevado para dar a sensação de verticalidade.
Já esta é a Igreja de São João Nepomuceno (um santo tcheco do século XIV, a quem estiver a se perguntar). Ela é apelidada de Igreja de Asam (Asamkirche), pelo sobrenome dos dois irmãos que a elaboraram entre 1733 e 1746 toda em estilo rococó. Ela é um espetáculo artístico.
O interior rococó da Asamkirche. Ela foi feita no século XVIII pelos irmãos Egídio Quirino Asam e Cosme Damião Asam. (Pelos nomes, você julgaria que eles foram nascidos em Quixeramobim ou algum pio outro lugar do interior brasileiro, mas eles eram aqui da Baviera mesmo. Como eu disse, é um lugar tradicionalmente católico.)

Passando agora do pio ao mundano, se você quer conhecer mais da História da Baviera — ou simplesmente está curioso para ver o “salão das ninfas” do finado rei Ludwig I —, vale visitar o Palácio Nymphenburg. Fica nos arredores da cidade.

Aliás, eu preciso dizer que a Baviera tem tantos palácios (como o famoso Neuschwanstein, que inspirou o castelo da Cinderela na Disney) porque Ludwig I e seu neto, Ludwig II, eram uns extravagantes que não sabiam o que fazer com dinheiro. No meio houve Maximiliano I, que era mais centrado, mas avô e neto foram uns gastões bon vivant que acabaram por arruinar os cofres do reino e contribuíram para a Baviera não dar mais conta de se gerir por conta própria e acabar aceitando a Unificação Alemã. Veja você como são as coisas.

O Palácio Nymphenburg, terminado em 1675 para a família real bávara.
Seu interior, que é mais tardio, e como sempre é inspirado em Versalhes, na França.

Hoje estamos acostumados a reconhecer na Alemanha o verdadeiro poderio europeu. É assim desde a unificação, mas pela maior parte do tempo, até meados do século XIX, quem metia medo na Europa era a França. Foi após Napoleão sair derrubando monarcas e conquistando territórios (até perder para o inverno russo) que os principados e reinos germânicos se perceberam frágeis e uma união veio à pauta.

Já desde o século VI a Baviera era um ducado com certa autonomia, embora inicialmente sob a batuta dos reis francos. Ela passaria no século XVII a ser chamada de “Eleitorado da Baviera”, por seu monarca ter direito a voto dentro do Sacro-Império Romano Germânico — para escolher o imperador. Quando esse império é desmontado por Napoleão em 1805-1808, a Baviera assume a qualidade formal de reino, e seus monarcas o título de rei.

Ludwig I (1786-1868) foi quem levou mais a sério o apelido do palácio de Nymphenburg, com seu salão de mulheres. Ele era colecionador ávido de objetos artísticos e também de casos extra-conjugais. Apreciador da beleza, ordenou ao pintor da corte Joseph Stieler que pintasse retratos das 36 mais belas mulheres da sociedade, de quaisquer classes. Esses retratos estão hoje na Galeria das Belezas, salão mais notório do palácio.

Embora haja gente da plebe, são quase todas patrícias da nobreza germânica ou europeia. A mais famosa das retratadas é Lola Montez, amante do rei.

Helene Sedlmayr, filha de um sapateiro. Na Galeria das Belezas, Palácio Nymphenburg, em Munique.
Auguste Strobl.
Lola Montez, a mais famosa amante do rei Ludwig I (não foi a única). Apesar do nome, essa alcunha espanhola era seu nome artístico por fazer dança daquele país. Maria Dolores Eliza Rosanna Gilbert, condessa de Landsfeld, era na verdade irlandesa.

O rei Ludwig abdicou em 1848 na esteira das revoltas liberais na Europa, inspiradas na Revolução Francesa e que demandavam o fim das monarquias absolutistas. De quebra, muitos estavam ultrajados com a tentativa do rei de naturalizar Lola, sua amante estrangeira. Ele ainda viveria outros 20 anos, mas deixou o trono com seu filho Maximiliano.

Maximiliano era firme e refutou as pressões por uma união com os prussianos, mas seu filho Ludwig II era um gastão excêntrico pouco afeito às questões de Estado. Seria o último rei da Baviera independente. O chanceler Bismarck faria uma mutreta fraudando um telegrama do rei Guilherme da Prússia, levando Napoleão III na França a declarar guerra. Era 1870, estourou a Guerra Franco-Prussiana e, com temores das agressões francesas, a Baviera se uniria ao que viria a ser o Império Alemão. Com a vitória sobre os franceses em Paris, se consolida uma Alemanha unificada a partir de 1871.

A Baviera se tornaria uma região ainda com certa autonomia, mas já não mais soberana. Ainda hoje, todavia, eu escuto pessoas aqui dizerem que se orgulham e identificam mais em ser bávaros que alemães. Essas identidades nacionais levam gerações pra se alterar. E hoje, em tempos de União Europeia, há quem prefira identificar-se sobretudo como bávaro e europeu, acontecendo de ser também alemão.

Munique no entanto é a capital secreta da Alemanha.

O arco símbolo que marca onde ficavam as muralhas da cidade.
O centro de Munique à noite.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Munique (Baviera), a capital secreta da Alemanha

  1. Que linda, Munique!…seja no inverno seja no verão, uma bela região.
    Encantadoras as suas igrejas, construções centenárias, praças e largas avenidas. Belos arcos.
    Belíssimos estilos arquitetônico, maravilhoso esse museu. Deslumbrante essa catedral e demais templos. Esse estilo rococó é soberbo. Impar. Lindíssimo pelos detalhes efeitos e jogos de tons e cores. A delicadeza dos contornos é de encantar. A luminosidade completa a beleza. Um esplendor. A catedral de duas torres altas e de cúpulas verdes é esplendorosa.
    Impressionante essa prefeitura, Portentosa; Deslumbrante. Um espetáculo.
    E que parque lindo, verde, bucólico, agradável para o verão europeu que esta sendo bastante intenso com essa mudança climática.
    Esse palácio é magnifico. Rico em detalhes, bom gosto e luminosidade. Lindos lustres. Interessante como se tentava copiar a França hahah. Espetacular esse exterior gramado e ajardinado. Que maravilha. Curiosa essa galeria de belas mulheres. Lindas mesmo. A que mais gostei foi a filha do sapateiro. Tem um ar angelical.
    Linda cidade. Merece mesmo ser a capital secreta. Berlin tem seus encantos mas ao meu ver hoje se tornou muito comercial e agitada e perdeu muito do seu passado ja que sofreu com a guerra. Linda Munique. Gostei. Da cidade e da postagem. Muito bem. Vamos que vamos,

  2. Esqueci de comentar esses hábitos alimentares esdrúxulos. Lembro que vi uma criança pequena em uma das viagens que fiz à Alemanha, comendo embutidos fritos ou assados que me deixaram assustada. Isso seria impensável aqui no Brasil. Pelo menos aqui no NE.
    Lamentável essa comilança adocicada para a metade do dia. solidarizo-me com o senhor meu jovem. Prefiro o estilo de comilanças asiáticas hahah

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