Austria

Salzburgo, Áustria: Conhecendo a cidade natal de Mozart

Bem vindos à Áustria! Eis a sua quarta maior cidade (depois de Viena, Linz e Graz), mas provavelmente a sua segunda mais famosa, por ter sido o nascedouro de Mozart. Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), compositor clássico, criou mais de 600 obras musicais e morreu jovem como tantos outros gênios artísticos da humanidade, aos 35 anos.

Fiquem à vontade para ler o post escutando a música. Vamos agora conhecer Salzburgo.

Eu vim a Salzburgo duas vezes na vida; curiosamente, ambas elas vindo de Munique, na Alemanha. Uma no verão, há 10 anos, e outra neste mais recente inverno. Já conto como foram essas viagens e, de quebra, lhes revelo como Mozart não era austríaco.

Salzburgo é uma cidade de médio porte que você visita num dia ou dois. Seu centro, marcado por casas e igrejas barrocas (inclusas aí a casa onde Mozart nasceu, a casa onde Mozart morou, a casa onde Mozart…), é todo reconhecido Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. O Rio Salzach, que dá nome à cidade (Salzach-burg), divide a parte histórica da área mais moderna da cidade. No alto, de longe, você verá a Fortaleza de Hohensalzburg, à qual você pode aceder num teleférico.

A vista para o centro histórico de Salzburgo numa tarde de verão.
Numa manhã desse último inverno, quase do mesmo ângulo da foto anterior tirada anos antes.

Quase tudo que você acima data do século XVII para cá. A exceção principal é a Fortaleza Hohensalzburg, originalmente levantada em 1077 para ser a residência do arcebispo. (Aqueles eram tempos brutos, a residência precisava ser fortificada.) Salzburgo não era parte da Áustria, mas um arcebispado semi-autônomo com vínculos à Baviera aqui ao lado e parte do Sacro-Império Romano Germânico.

É por isso que Mozart é germânico, mas nem austríaco nem propriamente alemão (pois não existia “Alemanha” naquele tempo). Salzburgo só seria anexada à Coroa da Áustria em 1805 durante as Guerras Napoleônicas. Ainda assim, trocaria frequentemente de suserano entre os austríacos e os bávaros aqui ao lado, em Munique. (Curiosa a nossa mania de olhar o mapa hoje e achar que sempre foi assim, né?)

Mozart morou, no entanto, em Viena e foi lá que compôs a maioria das suas obras mais conhecidas, como a Sinfonia No. 40. Ele teve uma vida muito pouco estável; perambulou por muitas das grandes cidades da Europa, como também Paris e Estrasburgo, e teve arranca-rabos com o pai por deixar o emprego em busca de liberdade. (Essa juventude de hoje…)

Nessa grande casa amarela nasceu Mozart, no centro histórico de Salzburgo.
Na plaqueta indicando a casa onde nasceu Mozart em 27 de janeiro de 1756. Hoje é um museu, que mostra basicamente os interiores de época.

São basicamente duas longas ruas que compõem o centro histórico de Salzburgo, acompanhadas de transversais várias e praças com igrejas. Esse é o miolo. Por ali, faça sol ou faça neve, você sempre verá grandes quantidades de turistas também. O que irrita, no entanto, são os carros, chegando constantemente para abastecer as lojas. Fica meio fora-de-lugar. 

Uma das longas ruelas do centro histórico de Salzburgo, numa noite de inverno.
Eu nessas mesmas ruas num verão há 10 anos atrás. (No túnel do tempo.)

O verão na Europa sempre tem aquele ar de descontração, de “vamos viver a vida”, mas há quem diga que no inverno os lugares ficam mais charmosos.

Rio Salzach com sua ponte cheia de cadeados amorosos, como em outras partes da Europa.
As ruas de Salzburgo no inverno.
Elegante senhora de casaco pesado nas ruas geladas.
Nas partes mais estreitas. A vontade no inverno é sempre de aconchegar-se.
Pelas ruelas do centro histórico de Salzburgo.

Se você estiver a se perguntar, afora a casa onde nasceu Mozart, vale a pena visitar a catedral da cidade e dar uma conferida no Palácio Mirabell. Nada diretamente a ver com o biscoito de um tempo atrás, mas com o nome italiano Mira bella, de bela vista.

A Catedral de Salzburgo que você encontra hoje é barroca do século XVII, completada em 1628 por sobre a fundação de uma mais antiga, de 774. Ela é dedicada a São Rupert e São Virgílio de Salzburgo.
Vista de outro ângulo naquele inverno.
Seu interior barroco.
Detalhes no teto, com imagens do que me parecem ser os quatro evangelistas.
O altar.

Tudo na Áustria em geral, e em Salzburgo em particular, respira aqueles idos do século XVII em que os austríacos mandavam sem muitos questionamentos pela Europa Central. Foi sua época de ouro, da Imperatriz Maria Theresa e do apogeu da dinastia dos Habsburgo.

Ainda hoje, eu acho talvez a Áustria o país mais conservador da Europa. Não é nem conservador por querer voltar a 50 ou 100 anos atrás, mas conservador de gostar de como as coisas eram antes da Revolução Francesa (1789). Tem umas coisas que a gente só encontra por aqui.

Nessa igreja onde eu entrei, o aviso de que a liturgia se daria em latim de acordo com o rito antigo, com os fieis recebendo a comunhão de joelhos.

Êêê nostalgia! Naquele tempo de Mozart, a Áustria era fidelíssima a Roma e a Imperatriz Maria Theresa não queria saber nem de protestantes nem de judeus. Foram expulsos diversas vezes do reino. Isso era uma certa rotina; em 1731 o arcebispo-príncipe de Salzburgo (ainda não anexada à Coroa da Áustria) também decretou um Édito de Expulsão determinando que todos os protestantes renunciassem às suas “crenças não-católicas”. 21.475 foram expulsos, muito acabando por ser acolhidos por Guilherme da Prússia mais ao norte, onde fica Berlim. 

Como você deduz pelo próprio título “arcebispo-príncipe”, tampouco se apreciava muito essa coisa moderna-liberal de separação entre Estado e Igreja. (Conheço alguns compatriotas que também não apreciam muito não.) Foi para um desses que se construiu o Palácio Mirabell em Salzburgo, em 1606 para o arcebispo Wolf Dietrich Raitenau, que sofria de gota, teve um infarto, e não dava conta de subir mais até a colina. (Não havia teleférico naquela época.)

A entrada para os jardins do Palácio Mirabell, no inverno em Salzburgo.
No verão.
O interior barroco do palácio.

O curioso é que essa gente supostamente muito reta não era sem falcatruas. O arcebispo Wolf Dietrich levou ninguém menos que a amante para morar consigo, Salomé Alt. Pra não dizer que foi na surdina, tiveram 15 filhos. Nunca conseguiram do papa uma licença para casar, mas nunca visita do imperador obtiveram pelo menos o reconhecimento imperial para que os filhos passassem a ser legítimos e não bastardos (é tipo Game of Thrones).  Depois, claro, os inimigos usaram isso contra Wolf e ele foi deposto. A mulher e sua família foram postos pra fora.

Eu, na primeira vez que vim a Salzburgo, fiz apenas uma visita rápida. Lembro que as duas moças com quem eu viajava (uma alemã e uma canadense) optaram por pular o almoço, um sacrilégio pra mim, e acabei lhes pedindo licença para ir a um chinês. Dez anos depois eu quis rever o tal chinês (a comida era boa), mas já não o encontrei mais. Acabei por circular pelas suas ruas nevadas, tomando aquele ar fresco e gélido do inverno, enquanto me preparava para já no dia seguinte seguir de trem a Innsbruck.

Como era ainda janeiro, deu tempo de tomar aqui um dos últimos vinhos quentes da estação. Havia um restinho de decoração de Natal ainda no ar.
Salzburgo, com seu casario típico nos tons pasteis da Europa Central.
Olha que coisa fofa. E você aí, tem medo de frio?
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Salzburgo, Áustria: Conhecendo a cidade natal de Mozart

  1. Uffffffa, quanta neve!…adoro neve e frio. Que belas e nevadas ruas, avenidas e monumentos. Lindinha a cidade. Gostei mais dela enfeitada para o Natal e cheia de neve. Românticos esse cadeados. Adoro cidade com rios. Acho charmosas. Muito bonita e estilosa a casa onde Mozart nasceu. Aprecio o estilo e gosto das musicas dele.
    Curiosas essas curtas vidas dos gênios. Nao havia pensado nisso.
    Fofinho o cachorrinho na neve hahah uma gracinha.
    Linda a arquitetura e os templos são belíssimos. Estes estilos Barroco-Rococó são maravilhosos. Criaram verdadeiras obras de arte.
    Interior maravilhoso desse palácio Mirabel, que nao é biscoito hahah….E que lindas praças.
    Que horror essa promiscuidade profano – sagrada. Pelo visto hoje as coisas estão até melhores hahaha, nesse sentido.
    Adorei as ruelinhas enfeitadas e nevadas. Bela cidade. linda regiao. que inverno, hemmm?

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