Alemanha

Conhecendo Hamburgo, a metrópole portuária da Alemanha

Bem vindos a Hamburgo, a segunda maior cidade da Alemanha (depois da capital Berlim). Ainda assim, é uma metrópole relativamente pouco visitada por turistas, que parecem preferir sempre Munique, Frankfurt, ou outros lugares mais ao sol e ao sul.

Hamburgo é, no entanto, a principal cidade portuária e comercial da Alemanha (por onde ela exporta boa parte das Mercedes, BMWs e outros produtos da sua engenharia), uma cidade de longa tradição marítima com participação na famosa Liga Hanseática da Idade Média, de um cheiro norte-europeu que às vezes lembra mais as vizinhas Holanda e Escandinávia que o sul da própria Alemanha. E, sim, Hamburgo também deu origem à palavra hambúrguer. 

Holanda ou Alemanha? Alemanha.
Hamburgo.
Sua vasta área portuária.
Mapa da Alemanha, com Hamburgo lá no norte à margem do Rio Elba.

Hamburgo é hoje uma cidade-estado dentro da Alemanha, é sozinha um dos 16 estados do país. Isso se deve em grande parte ao seu histórico de independência e autonomia como cidade portuária, que extraía suas receitas do comércio e não tanto dos nobres donos de terras. Até a unificação da Alemanha em 1871, esta era uma cidade soberana. 

Hamburgo tem uma história legal. A primeira menção a esta região da Germania vem do romano Cláudio Ptolomeu (não é o astrônomo grego), que no século II d.C. identificou este lugar como Treva. (Talvez ele tenha visitado no inverno.) Hamburgo propriamente dita, com este nome, só surgiria em 808 d.C. quando Carlos Magno ordenou a construção de uma fortificação à margem do Rio Elba para defender seu império dos eslavos.

Você hoje vê o mapa da Europa com os eslavos poloneses, tchecos e eslovacos às margens do mundo alemão? Pois naquele tempo eles não eram tão amiguinhos. Os eslavos vêm de uma migração posterior à germânica e fazem guerra com estes por séculos. Hoje a Europa é do jeito que é porque os germânicos se uniram numa nação e os eslavos, não. 

Carlos Magno (742-814 d.C.) foi rei dos francos e o fundador do Sacro-Império Romano Germânico. Naquela ocasião, não havia divisões entre o Reino de França e as terras que hoje correspondem à Alemanha — eram todas partes de uma mesma coroa, que os filhos de Carlos Magno é que dividiriam entre si. As divisões entre França e Alemanha começam ali.

Hamburgo, nesse contexto, se torna uma diocese em 834 e em 1189 adquire do imperador romano-germânico Frederico Barba-Ruiva (ou Barbarossa) o status de Cidade Imperial Livre (livre de impostos). É aí que sua vocação comercial marítima tem início. Essa localização de entreposto do norte da Europa rende a Hamburgo constantes invasões e pilhagens tanto dos Vikings quanto dos poloneses, mas lhe rende também vantagens comerciais. Em 1241, a Liga Hanseática é fundada quando ela se alia à vizinha Lübeck (terra do escritor Thomas Mann, e que eu ainda visitarei um dia).

Essa dobradinha dominaria o comércio no Mar do Norte e no Mar Báltico pelos próximos séculos, estabelecendo filiais na maioria das grandes cidades marítimas do norte da Europa. Tratava-se não de uma associação estatal, mas de associações privadas de guildas de mercadores. Estas foram, de certa forma, o prólogo medieval do que viria mais tarde com as grandes navegações dos portugueses, espanhóis, holandeses e ingleses na Idade Moderna.

A Liga Hanseática cai no século XVI com a ascensão do mercantilismo, no sentido de reinos poderosos que assumem as rédeas do comércio internacional. Isso não só dos portugueses e espanhóis, como conhecemos bem, mas — de forma mais relevante às imediações da Liga — do Reino da Suécia passando a controlar o Mar Báltico. Hamburgo retornaria para si, mas permaneceria uma Cidade Imperial Livre até a queda do Sacro-Império Romano Germânico em 1808. Só a unificação forçada pela Prússia em 1871 é que tomaria sua liberdade. 

Ela, no entanto, permaneceu como principal porto da Alemanha, e foi daqui que partiram milhões de emigrantes alemães às Américas. Foi severamente bombardeada pelos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial (enquanto os alemães bombardeavam Londres), e ainda hoje você vê resíduos disso.

Algo como 75 anos depois desses bombardeios, eu viria à cidade. 

Bem vindos à Estação Central de Hamburgo, a Hamburg Hauptbahnhof.
A Estação Central de Hamburgo é praticamente um shopping center de onde acontecem de partir trens. É ampla e localizada no coração da cidade.
Hamburg Hauptbahnhof vista pelo lado de fora.

Hamburgo hoje é muito mais uma cidade grande com coisas de cidade grande que uma pitoresca cidade histórica. Não espere muito neste sentido, já que seu casario antigo queimou às chamas da História. Por outro lado, você aqui encontra todas as lojas de marca e marcas da cultura alemã contemporânea.

Uma caminhada de 1 Km da estação até a magnífica prefeitura lhe mostra alguns dos prédios e igrejas típicas restauradas, assim como algo do que sobrou (ou se restaurou) do casario comercial típico aqui do Mar do Norte. 

Não sei qual a imagem que você faz da Alemanha contemporânea, mas o país hoje é marcado pela juventude com seus cabelos “criativos” e artistas de rua estrangeiros.
Este prédio neoclássico é hoje um Starbucks.
Centro de Hamburgo.
Prédio que nos faz lembrar Amsterdã.
A imensa Igreja de São Paulo foi restaurada por diversas vezes desde a sua origem no século XII e expansão no século XV.
A magnífica prefeitura de Hamburgo.

O Rio Elba e seus muitos canais aqui nunca estão muito longe. É interessante pois a aura de Hamburgo nesses canais não é a de uma cidade romântica, mas de uma cidade de inovação. Você sente o cheiro de dinheiro e tecnologia comerciais no ar. Quase tudo é moderno, como seu imenso símbolo à beira do rio: a Filarmônica do Elba (Elbphilarmonie), um reluzente prédio de quase 1 bilhão de euros inaugurado em 2017.

A Filarmônica do Elba é uma casa de eventos musicais. Custou 789 milhões de euros e foi inaugurada em 2017, com o que dizem ser uma das melhores tecnologias acústicas do mundo.
A reluzente Elbphilarmonie, à margem do Rio Elba em Hamburgo. (Veja como as pessoas são miudinhas ali na varanda.)
Visto de longe.
Estes canais do centro de Hamburgo exalam negócios e dinheiro.
Claro que há também seus recantos pitorescos.
Com as águas de um dos lagos artificiais da cidade que se conectam com o Rio Elba aqui em Hamburgo.

Se você quer pitoresco ou ver algo mais de estilo “bonitinho” em Hamburgo, sugiro visitar a atração mais popular da cidade: O Mundo Maravilhoso em Miniatura (Miniatur Wunderland). É especialmente recomendado se você viaja com crianças. Garanta suas entradas antecipadamente no site oficial. O lugar todo encantado é fofinho, com maquetes em movimento de várias partes da Europa, como os Alpes, a própria Hamburgo, etc. Há aviõeszinhos que se movimentam, trens em miniatura, luzes que se ascendem quando “anoitece” no interior, etc. 

Já se você busca algo mais tradicional, sugiro visitar a casa do compositor Brahms (hoje um museu), a bela Igreja de São Miguel, ou ainda as ruínas do que fora a igreja gótica de São Nicolau, da qual só sobra a torre onde você pode subir para ter uma excelente vista de toda Hamburgo.

Depois de visitar o museu das miniaturas por conta própria, foi por aqueles lugares que eu dei umas voltas com duas amigas brasileiras que aconteciam de estar em visita à cidade.

O Mundo Maravilhoso em Miniatura (Miniatur Wunderland) fica ali do outro lado do canal.
Veneza em miniatura. Há muitos lugares da Europa, com veículos a se movimentar e tudo.
De tempo em tempo “anoitece” dentro do lugar, para você ver tudo iluminado.
A imponente Igreja de São Miguel, inaugurada em 1669 em estilo barroco, é a maior de Hamburgo.
O belo interior barroco da Igreja de São Miguel.
Não muito distante dali está o museu sobre Johannes Brahms (1833-1897), que nasceu e viveu em Hamburgo nesta vizinhança. Ele foi um dos grandes nomes do romantismo germânico. Junto com Bach e Beethoven, Brahms compõe o chamado “BBB” do cânone de maiores compositores alemães clássicos. (BBB já era isso muito antes de haver Big Brother Brasil ou as bancadas do boi, bala e Bíblia.)
O Museu de Brahms nesta pitoresca vizinhança de Hamburgo. É um lugar muito fotogênico da cidade.
Suas construções de tijolinhos, cor, e arquitetura lembram mais a Bélgica e a Holanda que o restante da Alemanha.
Parque extenso no centro da cidade. Como eu falei, Hamburgo tem coisas de cidade grande.

O Memorial de São Nicolau é a edificação que chegou a ser a mais alta do mundo (entre os anos de 1874 e 1876), a igreja neogótica que foi deliberadamente deixada em ruínas como marca da Segunda Guerra Mundial, para ninguém esquecer. Sua elevada torre é que permanece de pé, a qual hoje você sobe de elevador para do alto ter um mirante da cidade. É uma visita particularmente bonita no fim do dia.

A imensa torre de 147m do que foi a Igreja de São Nicolau (St.-Nikolai-kirche), sob a luz da tarde em Hamburgo.
Esta igreja existiu desde o século XII, mas foi uma expansão ao fim do século XIX que a trouxe a esta grande altura em estilo neogótico. Sua estrutura, no entanto, seria quase completamente avariada durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sobraram ruínas e a torre, que permanecem como ficaram nos anos 40 para dar testemunho às destruições da guerra. Agregaram-se algumas exibições contemporâneas e um elevador para você subir a uma plataforma de 76m de altura na torre.
Vista para Hamburgo lá do alto, com o prédio da prefeitura ali em evidência.
As gárgulas mirando Hamburgo sob o sol do entardecer na cidade.
O lago mais industrial, com o Rio Elba e suas embarcações pesadas. Este é o terceiro mais movimentado porto da Europa, após Roterdã (Holanda) e Antuérpia (Bélgica).

Por fim, ninguém realmente sabe quando Hamburgo pariu o hambúrguer. É uma dessas origens controversas e inexatas, onde há várias explicações para como surgiu o achatado de carne moída dentro do pão. Uma das teses é que tal comida era servida no famoso Hamburg-America Line, a linha de navio que começou a operar em 1847 e a levar emigrantes aos Estados Unidos. Foi lá que esse lanche barato (nos dois sentidos) ganhou popularidade entre o operariado, muitos de origens germânicas, no início do século XX.

Não vi, entretanto, qualquer sinal de romantismo por hambúrgueres por aqui. É mais coisa de norte-americano que de alemão. Hoje aqui você encontra mais fast food asiático que sanduicheria, ou schnitzel (frango empanado) no pão, ou os kebabs dos imigrantes turcos. O bonde anda, e Hamburgo segue sua vocação cosmopolita.

Eu, no dia seguinte, iria aqui perto conhecer a singela Luneburgo, irmã dos tempos da Liga Hanseática e hoje cidade universitária. Vamos dar umas voltas pela Alemanha.  

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Conhecendo Hamburgo, a metrópole portuária da Alemanha

  1. Nossa, que bela cidade. Fiquei sem ter certeza se ela está no Báltico ou no Mar do Norte, embora as semelhanças com Amsterdam e outras cidades a Holanda. Muito bonita a cidade. Adorei a estilosa e muito elegante prefeitura, uma obra de arte, maravilhosa. Charmosa e linda. Bela tambem é elegante igreja de Sao Miguel. Linda por fora e por dentro. O interior é belíssimo: tons, decoração, jogo de luz e sombras e cores. Linda.
    O casario tambem é muito bonito. Parece mesmo com Amsterdam.
    Gostei também dos tons da cidade; Colorido. Com azuis, verdes, marrons e arborizada; Belo parque.
    Salve o grande Brahms. Alemanha rica em grandes compositores.
    Lindos esses lagos e braços de rios. Bela paisagem.
    Linda a cidade miniatura. Sei que há uma também bonita em Riminni na Italia.
    E que Espetáculo esse moderno prédio da filarmônica. Vistoso e arrojado.
    Belas praças e avenidas. Gente alegre, jovem. E o Nivea, entao, é famoso. Muito bonita a cidade. Gostei. Pretendo visitar.

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