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Halle (Saale): A cidade do compositor Handel na Alemanha

Você aí provavelmente conhece as obras de Händel [lê-se “Rendel”] sem talvez saber que são dele. Fãs de música clássica ou barroca o conhecem. Aos demais, vale saber que George Frideric Händel (1685-1759) é um dos maiores compositores clássicos europeus do século das luzes (o XVIII) e autor de uma das mais famosas melodias da Ave Maria. Nasceu alemão, morreu inglês.

Nesta viagem eu vim conhecer aquela que é não apenas a sua cidade natal, mas também uma bela paragem a 1h de Berlim. Halle an der Saale, hoje conhecida como Halle (Saale) e nomeada assim por estar às margens do Rio Saale, tem uma longa e salgada história. Ambos os nomes significam sal: halen na língua dos antigos celtas, salis em latim. Estima-se que já se extraía sal aqui a partir de fontes d’água salina desde antes da chegada do romanos, que então embarcaram no comércio.

Muito, é claro, mudou de lá pra cá.

Holla! Hallo, Halle.

Halle é hoje uma cidade algo estudantil, com boas universidades. Uma amiga acontece de estudar aqui e foi o pivô de um reencontro de amigos.

A chegada logo lhe revela bastante desta Alemanha contemporânea. (Desculpem-me, pessoas que acham que a Alemanha é ainda aquela dos tempos de Händel. Não é.) Sobre a bagagem histórica do medievo e de uma modernidade pomposa, sob os auspícios da Reforma Protestante e da aristocracia germânica que vivia ao sons de Bach e Händel, temos hoje uma contemporaneidade com ricos industriais num ambiente urbano de estética que muito mudou.

Acompanhem-me brevemente na minha chegada de trem a Halle, naquele fim de tarde de verão.

O meandros por debaixo de viadutos por onde se caminha da estação central de Halle até o centro não são lá muito pitorescos.
Passa-se depois por uma área urbana assim pouco encantadora, com suas vendas baixa-renda lanchonetes de kebab turco (com aquela carne girando) ao ponto do bonde.
Conforme nos aproximamos do miolo do centro (a estação central de Halle não fica tão central assim), o décor começa a se tornar mais clássico. Fui seguindo com esse mano ali de verde.
O esplandecer do pôr-do-sol na praça principal de Halle, com sua torre e catedral.
A catedral de Halle tem histórias curiosas que contarei a seguir.
Handel mirando-as e assistindo ao pôr-do-sol em Halle.
George Frideric Händel (1685-1759), um dos maiores compositores do século XVIII, aqui homenageado na sua cidade natal.

Falemos desse que foi o mais conhecido filho de Halle, antes de continuar.

Händel foi um alemão que ficou rico produzindo obras italianas na Inglaterra. Ele nasceu no mesmo ano de Bach e compartilhou com este alguns traços musicais, além de ambos terem composto muitas peças sacras, como era próprio da época. Händel é conhecido no Brasil sobretudo por sua Ave Maria e por seu Hallelujah (ouça-os abaixo). Com 10s de música, milhões de imediato reconhecem os acordes.

Muito dos seus saberes foram trabalhados a partir da música barroca italiana. Hoje, afora Vivaldi e Verdi, não imaginamos muitos nomes italianos no panteão de compositores clássicos, mas a verdade é que muito da tradição musical renascentista, clássica, e barroca tem origens italianas, conjuntamente com a ópera.

Händel foi levar à aristocracia inglesa essa musicalidade italiana e fez sucesso. Morreu rico e foi sepultado na nobre Abadia de Westminster, em Londres, após tornar-se súdito da rainha. (As pessoas não tinham muitos apegos nacionalistas naquele tempo. Nacionalismo é uma invenção do século XIX, que viria depois.)

No Reino Unido uma de suas mais conhecidas obras é A Chegada da Rainha de Sabá (The Arrival of the Queen of Sheba), que se tornou popular na Inglaterra por razões óbvias. Se você escutar também Sarabande, bem provavelmente também reconhecerá os acordes de alguma coisa que viu na internet. A composição leva o nome da dança popular espanhola zarabanda, que a corte francesa abraçou numa versão lenta. E, vocês sabem, o que a corte francesa abraçava, espalhava-se pela Europa. Abaixo você pode escutar e reconhecer essas obras.

Se você se interessar mais por música clássica, pode visitar o museu da Casa de Händel na cidade.

A casa onde Handel nasceu foi adquirida pela cidade em 1937 e transformada num museu onde você aprende mais sobre sua vida e sobre música clássica.
Há um café com um agradável pátio no museu. Ambiente bastante agradável, e com muitas tortas. Recomendo.

Halle, a cidade do sal, vai no entanto além de Händel. Há ainda belos vestígios medievais que se contrastam hoje com o passado recente da cidade, que foi parte da Alemanha Oriental. Camadas dos séculos de História aqui se sobrepõem, do legado arquitetônico germânico ao passado recente de cultura urbana meio punk, meio trash em meio ao cosmopolitismo da atualidade.

Após dar com a estátua de Händel na praça principal naquele fim de tarde, eu segui caminho até me deparar com o Dr. Karamba, quando então minhas amigas acenaram do restaurante vietnamita onde nos encontraríamos. Foi uma festa de macarrões asiáticos e chás gelados entre palavras em inglês e alemão com os baixinhos garçons vietnamitas. Nos dias seguintes veríamos coisas da cidade.

O prestigiado Dr. Karamba, em Halle.

A começar pelo mais antigo, Halle tem uma curiosa catedral fundida, resultante de duas antigas, e a imponente torre de vigília na praça principal. 

A Igreja do Mercado de Nossa Senhora (não parece até nome de paróquia brasileira? É o resultado quando a gente traduz os nomes do alemão), Marktkirche Unser Lieben Frauen na língua teutônica, foi completada em 1554 da fusão de duas igrejas medievais mais antigas que havia na praça. Você pode visitá-la e também subir ao alto de suas torres. 

Saudações do alto de Halle.
A praça principal de Halle na Idade Média era assim, com duas igrejas e à direita a torre separada que você ainda vê comigo na foto mais acima.
Aí demoliram uma das igrejas, unido suas duas torres à outra. Temos desde o século XVI essa catedral portanto com quatro torres. Nas duas da esquerda é possível subir, a partir daquela portinha lateral de onde você vê pessoas saindo na foto.

Notem que a igreja e a portinhola que dá acesso ao alto das torres funcionam separadamente, e com horários de funcionamento distintos. Há um Centro de Informação Turística do outro lado da rua onde você pode ter informação atualizada. A igreja tem entrada franca, mas a subida às torres custa 4 euros.

Lá no alto você fica conhecendo como viviam o guardião da torre e sua família. Viviam todos lá em cima até tão recentemente quanto 1916, quando o último guardião morreu. Uma torre servia de sala de estar, enquanto na outra dormiam homem, mulher e penca de crianças.

O último guardião, por exemplo, Gustav Otto Ziegler, tinha cinco filhos além da mulher consigo lá em cima. Desciam para fazer o que precisassem, mas ele tinha a tarefa de estar lá de hora em hora para badalar o sino, além de vigiar a cidade do alto. Há registros de que a mulher do padeiro, que tinha sua banca logo abaixo da torre, queixava-se com frequência da queda de objetos lá do alto.

A escada em espiral para o alto da torre.
Eis a vida lá em cima, entre uma torre e outra. Aqui brincavam as crianças, quando não lá embaixo, entre o que era a sala e o que era o quarto da família. Dizem que o inverno, com seus ventos frios e pouco isolamento térmico, era particularmente difícil. Hoje você daqui tem uma bela vista de Halle.
Vista para as outras duas torres do outro lado da igreja.
A vista lá do alto para a praça principal de Halle, com a outra torre. Aquela ali é a chamada Torre Vermelha (Roter Turm), um campanário construído como parte do complexo em 1503.
O interior da catedral.
Vista do altar.
O órgão. Como tantas, esta catedral foi convertida ao luteranismo durante a Reforma Protestante e seu interior foi remodelado do que costumava ser na Idade Média.

Há um Museu dos Beatles e um Museu do Chocolate aqui na cidade, mas não os vimos. Ficam as dicas a quem vier. O cantor Sting estava na cidade, com um concerto no parque, e optamos por ir vê-lo com uns amigos. Realizei meu sonho de ouvir Desert Rose ao vivo, e aprendi que Sting, já na casa dos 70, na realidade se chama Gordon. 

Os alemães adoram parque, e Halle tem um bastante grande. (Inclusive, foram eles os primeiros a criar um Partido Verde, faça-se saber.) São gostos e costumes da Alemanha contemporânea que muitas vezes não nos ocorrem, nós habituados a pensar a Alemanha através dos descendentes brasileiros que trazem consigo as tradições do século XIX pra trás, mas não necessariamente as mais recentes.

Por exemplo, especialmente aqui na ex-Alemanha Oriental, há um gosto muito grande que eu tenho dificuldade de compreender por espaços urbanos mal-acabados, pichados, uma coisa meio punk trash que tanto da juventude alemã adora. Halle tem disso, como têm Berlim e Leipzig.

O parque com o Rio Salle, onde os germânicos de outrora comercializavam sal e os germânicos de hoje lagarteiam sob o sol.
Multidão aglomerada para o show de Sting no parque.
Manhã de sábado nas ruas de Halle, aspecto algo típico de muitas cidades alemãs hoje, especialmente no leste do país. Não era nenhum gueto.
Permitam-me a foto do banheiro do lugar onde tomamos café da manhã, um cafeteria normal. Só na Alemanha eu não me impressiono de ver isso passando por decoração.
Eu numa rua de Halle com um trabant, carro emblemático da ex-Alemanha Oriental.

Old habits die hard [velhos hábitos não morrem fácil] já cantava Sting. Minto, Mick Jagger. São da mesma geração.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

7 thoughts on “Halle (Saale): A cidade do compositor Handel na Alemanha

  1. Que interessante e fofa essa cidadezinha.Parece com as holandesas; Adoro esses ares medievais. Linda essa rua com suas belas construções. Parece um elegante calçadão. Uma graça. Belissima. Linda essa praça com essas linda arquitetura. Um primor. E que belos tons e linhas. Maravilhosas. Adoro.
    Essas igrejas com seus belíssimos interiores são de encher os olhos. Em toda a Europa se pode ver a grandeza e a delicadeza desses interiores, suas belas arcadas, colunas, seu jogo de luz e sombra, seus vitrais coloridos, mostrando a linda arte daqueles tempos. Uma preciosidade. Belíssimos órgãos. Obras de arte. Imagino o belo som que produziam.
    Acho um charme essas cidadezinhas da Europa com suas pracinhas com cafés cobertos, coloridos, com mesinhas do lado de fora, onde as pessoas nos dias de sol acorrem para aproveitar a luz e o calor. Muito fofas.
    Essas ruas e construções são a cara da Alemanha Oriental dos anos 1940 retratada em filmes como o “Adeus Lennin”. Muito sugestiva a foto.
    Que me perdoem os artistas e a arte mas detesto essa pseudo arte onde tudo e rabiscado e sujado ficando sujo e sem graça; Para mim, a arte tem que ser bela e delicada. Gosto da Pintura de rua , mas nao desse estilo ai. Ha grafites bem bonitos. isso é rabisco.
    Esses parques cheios de gente são a cara da Europa do Centro Norte no verão. Lembro bem deles em Amsterdam quando ia por la.
    O senhor está ótimo, meu jovem amigo, ai pelos “altos Pirineus,” como dizia minha madrinha, parecendo um passarinho com a cabeça fora da gaiola hahaha. Haja altura. e que bela a praça. Históricas a foto e a praça haha;
    Muito bem, jovem viajante. Que venham mais belezas. Agora vou me deliciar ouvindo este que é um dos meus compositores clássicos preferidos: Handel. Que não sabia que era alemão e pensava que era inglês hahaha. Nada como aprender com um jovem viajante haha…É isso ai.

  2. Esqueci de comentar a beleza da casa onde nasceu e morou Handel ; Lindinha. E da bela escultura do compositor numa das lindas praças da cidadezinha.
    Não se pode esquecer de elogiar esses engenheiros que parece faziam milagres como essa acoplagem das duas igrejas. Que maravilha, poem os engenheiros modernos no bolso. Incrível.

  3. Meu jovem, que maravilha de acordes… Parece-me ter estado perto do céu tamanha a delicadeza e beleza das partituras e sua execução. Divinas.
    Na maravilhosa Ave-Maria, parece que os anjos vão aparecer de repente e de varias cores dançar e cantar em honra à Grande Mãe de Jesus e nossa. Uma delicadeza de acordes, uma graça nas melodiosas vozes do coral que associadas ao ambiente clássico e austero parece-nos levar aos céus. Belíssima. Uma Obra prima da musica erudita de todos os tempos. Divina

  4. A chegada da Rainha de Sabá é uma epopeia alegre, saltitante brilhante, festiva, que lembra Corelli, ou Vivaldi, ou Bach em Jesus Alegria dos homens. Um allegro maravilhosos que sugere borboletas, passarinhos, flores, musica e gente alegre; Um grande reboliço e festejo. Voce quase que ve tudo isso no colorido dos acordes e do instrumental. Uma pintura que enche o coração de alegria. Amei. Grande compositor, excelente musical.

  5. E por fim essa magistral Hallellujah, dentro do não menos espetacular Oratório do Messias que, dentre outras obras marcantes, imortalizou Handel e lhe deu notoriedade como divino compositor erudito no mundo de então, e chegou aos nossos dias., cada dia mais bela… Imortal…Eterna.
    Que emocionante ouvir o belíssimo coral entoar harmoniosamente aquele cântico divino em homenagem ao King of kings, ao Lord of lords. Magnificat. Memorável. Destaque-se ser uma obra difícil de ser cantada dadas as suas variantes, riqueza de modulações e acordes em diversas vozes. Um espetáculo para quem ama a musica erudita. Como que quem ouve levita, e quem canta chega aos Céus, ambos embebidos do clima etéreo que a musica oferece e enleva. Valeu jovem viajante. Obrigada pela oportunidade. Congratulations.

  6. Linda tambem essa Sarabande, lembrando música e dança antiga da Espanha. Lembra os mistérios dos antigos povos que habitaram a Iberia particularmente os muçulmanos.

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