Cazaquistão

O Grande Lago de Almaty (Big Almaty Lake) nas montanhas Tian Shan, Cazaquistão

Um dos meus interesses em vir ao Cazaquistão era ver de perto das Tian Shan, esta cadeia de montanhas de mais de 7.000m praticamente desconhecida do Ocidente. Não fosse geologicamente considerada parte dos Himalaias, ela própria seria a segunda mais elevada cordilheira do mundo. Seu nome significa “Montanhas Celestiais”, e desde tempos imemoriais elas são a fronteira quase mítica que a China encontrou nas suas expedições para oeste — seus limites no encontro com as civilizações aqui da Ásia Central.

Essas montanhas hoje são a fronteira política do Cazaquistão com a China, assim como daquele com o Quirguistão logo ao sul, e entre outros desses países aqui da Ásia Central. As fronteiras físicas, que antes foram meandros por onde os caravaneiros e mercadores das Rotas da Seda precisavam desviar para chegar da China à Europa e ao Oriente Médio, hoje tornaram-se as fronteiras administrativas.

Mapa das Rotas da Seda (e das especiarias) pela Ásia Central. Nós estamos bem ali no miolo, onde está o nome Tian Shan. Todo aquele meio da Ásia Central entre o oeste da China e o Mar Cáspio são os “stão”.
Ali são as Tian Shan, agora com as fronteiras políticas. Aquele elevado no meio do mapa é o platô do Tibete, e mais ao norte antes do Quirguistão é o Deserto de Taklamakan, no extremo oeste da China. As caravanas precisavam contorná-lo ou atravessá-lo. (Marco Polo fala dessa experiência já no Episódio 1 da série homônima no Netflix)
Corredeira por entre as rochas nas Tian Shan. Nas vizinhanças de Almaty, Cazaquistão.

O lugar mais popular onde vir conhecer as Tian Shan no Cazaquistão — e provavelmente a atração mais conhecida nestes arredores — é o Grande Lago de Almaty (Big Almaty Lake), a poucos quilômetros da cidade. Ele é o reservatório de água da cidade de Almaty. Portanto não é permitido entrar nele, mas dá uma bela e pitoresca vista. 

Vista panorâmica para o Grande Lago de Almaty.
Você sobe assim, por entre as encostas verdes, e sentindo a temperatura aos poucos diminuir conforme se ganha altitude e troca o calor da cidade pelos ares de montanha.
Uns cavalos soltos pelo caminho naquela manhã.
Naquele ambiente.
Algumas corredeiras pelo caminho.
Esses são os dutos que levam a água do reservatório até a cidade.
Selfie com o Grande Lago de Almaty.

O lago fica dentro do Parque Nacional Ile-AlatauNão é difícil vir até aqui, mas não é muito barato. A forma mais habitual é conseguir um táxi ou motorista particular que o traga — qualquer hotel ou acomodação arranja. Táxis na rua podem sair mais em conta, mas tem mais risco de malandragem. Meu hotel queria 27.000 tenge (KZT), o equivalente a 70 USD. Eu consegui por 25.000 (65 USD) direto com o motorista. Isso é pelo carro todo, não por pessoa. O preço também já deve incluir a tarifa de entrada no parque. São 60 min de ida e outros de volta, além do tempo de aguardo lá.

Já ouvi relatos de pessoas que tomaram uma van lotação até a entrada do parque e depois pediram carona à beira da pista, mas não há nenhum transporte coletivo que o traga direto até o lago. Você lerá relatos mais antigos falando que não é permitido se aproximar do lago, que os taxistas não o levam até ele, etc. e tal. Estão defasados. Hoje o Grande Lago de Almaty já virou ponto turístico e você encontrará muita gente lá. (Evite os fins de semana a todo custo; em vez de “desce”, sobe a cidade toda para vir fazer farofa aqui. Fica uma fila imensa de carros e o lugar lota, pelo que todo mundo me disse.)

O que não é permitido é entrar no lago, por ele ser o reservatório de água da cidade de Almaty. Portanto, ele é policiado. Leve consigo seu passaporte, pois os guardas podem pedir seu documento.

Não há banheiros dignos nem lanchonete, mas havia um furgão vendendo café quando eu fui.

Furgãozinho ajudando as pessoas que gostam de café cá no estacionamento onde aguardam os motoristas.
O Grande Lago de Almaty. (Você verá pela internet umas fotos altamente photoshopadas, mostrando cores surreais. Dizem que no tempo frio a água fica mais azul, mas não se deixe levar demais pelos efeitos nas fotos do Google.)
Turistas tirando fotos. Durante a primavera e o outono, fala-se em levar uma jaqueta, pois a temperatura aqui é mais baixa, mas durante o verão não há necessidade. (É tipo 38 graus em Almaty e 28 aqui em cima. Venha preferivelmente pela manhã.)
Não se surpreenda se encontrar uns visitantes cazaques fazendo uma farofa. Sobretudo no fim de semana, é programa típico das pessoas da cidade vir aqui.
No Grande Lago de Almaty, com a vista para as montanhas Tian Shan lá atrás.

Eu subi aqui com Konish, o motorista que havia ido me apanhar no aeroporto de Almaty. Viemos conversando. Eu lhe pedi que me falasse desta região do mundo. Ele falou que o Quirguistão é mais pobre, pois não tem o mesmo tanto de recursos minerais e de combustíveis fósseis que o Cazaquistão. Falou que o Uzbequistão é estranho pois lá eles praticam incesto, tabu aqui. (De fato, entre os uzbeques foi prática tradicional realizar casamentos às vezes dentro da família. Ficou proibido, embora no interior ainda ocorra.) E reclamou que os chineses vêm pra cá e não vão embora.

Um leitinho de égua. Saiu no Astana Times que o Cazaquistão está planejando exportar.

Me convidou para ir beber kumis, o famoso leite de égua fermentado aqui da Ásia Central. Fazendo movimento circulares com a mão na frente da barriga enquanto dirigia, veio me dizer fazia bem ao corpo. “Good for organism”, declarou ele em sotaque russo com essa palavra muito pouco usada em inglês (os anglófonos diriam good for your body, “bom para o corpo”). Só se for bom para o organismo dele; no meu e no de muitos que vi, kumis provoca é uma bela de uma caganeira.

Eu estava encerrando minha breve estadia em Almaty. Rumaria breve de trem à nova capital do Cazaquistão, criada com o nome de Astana em 1997 no vazio da estepe tal qual Brasília o foi no meio do Cerrado brasileiro. Em março de 2019, a capital mudou de nome. Passou a se chamar Nursultan, em homenagem ao aposentado presidente cazaque Nursultan Nazarbayev, que governou o país de 1990-2019.

Astana é Astana. Isso de agora ser ‘Nursultan’ é idiotice”, comentou Konish revoltado sacudindo a cabeça. (Para efeitos de comparação, é como se o governo brasileiro mudasse o nome de Brasília para “Bolsonaro” ou “Dilma”. Um alemão que encontrei engasgou-se de rir com a noção de que Berlim passasse a se chamar “Angela”.)

Era hora de eu deixar a antiga capital Almaty e ir conhecer a nova. Na estação de trem, finalmente encontrei as maçãs que procurava — que dão nome à cidade mas que na realidade você não vê taaanto assim. Existem tours guiados em trilhas por áreas de montanha onde ainda há maçãs selvagens, mas sozinho você não encontra. Só as maçãs habituais à venda.

Vendedora de maçãs olhando o celular e escondendo a vista do sol na estação de trem de Almaty.
Estação de trens em Almaty.
Kurt, típico da gastronomia cazaque, uma bola de coalhada seca com sal. Duro feito pedra.

Na estação, encontrei uma vendedora simpática numa lanchonete do lado de dentro. Como seria uma viagem noturna para chegar a Nursultan apenas na manhã seguinte, providenciei lanches — e, para experimentar, comprei uma bola de “””queijo””” (muitas aspas) branco típica aqui do Cazaquistão.

Isso é queijo?“, perguntei eu à moça.

Não“, respondeu ela sem pestanejar.

Não sei porque os guias de viagem insistem em chamar de “bolas de queijo” (cheese balls). Talvez por falta de vocabulário para estas coisas. Os cazaques chamam-na de kurt.

Eu comprei achando que pelo menos seria uma experiência macia, ainda que não necessariamente muito saborosa. Que nada. Você não já ouviu dizer que o diamante é a coisa mais dura que há? Mentira, é o kurt. Me senti como um bode, lambendo essa bola salgada sem conseguir morder.

No post seguinte eu falo sobre como é a experiência de viajar de trem aqui.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “O Grande Lago de Almaty (Big Almaty Lake) nas montanhas Tian Shan, Cazaquistão

  1. Ihhhhh que lago fantástico, que lindas águas verdes e mansas; parece que estamos em outro planeta. E que belíssima cabeleira verde dessas magnificas montanhas!… Espetaculares.. Belíssima a natureza, pujante. Linda viagem…Difícil descrever a sensação que um mergulho desse nessa natureza divina proporciona. Como que você esquece as mazelas do mundo. Divina região. Parece intocada. Amei as corredeiras de águas cristalinas entre as portentosas montanhas. Tudo é grande e magnífico. Surpresa por saber que essa região é tao rica de beleza natural e tão bonita. Supunha que os TÃOs eram regiões de estepes e desertos pedregosos. Surpresa.
    E que história fantástica dessa lendária rota das sedas e especiarias e de Marco Polo. Que maravilha. Instigante. Grandes e intrépidos mercadores. Imaginemos as dificuldades daqueles tempos. Ao meu ver, meu jovem viajante, o senhor tem algo desse Marco Polo lendário.” Data vênia”, permita-me respeitosamente, apelidá-lo de Mairon Polo dos tempos modernos, meu amigo. hahaha. Valeu, viajante. Que venham mais belezas e mais aventuras.

  2. A fachada dessa estação de trem tem algo parecido com a de algumas cidades do Marrocco.
    Coitado do senhor, meu jovem com essas comilanças dai. Que horror esse tal queijo, sabe-se lá de quê hahah
    Lindas maçãs.
    Arrremaria. Deus me livre desse leite de égua hahah
    Belissimos e luzidios cavalos. Coitados, pena que são comidos.

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