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Trens no Cazaquistão: Como são, como comprar online, e minha experiência

O Cazaquistão é o 9º país mais vasto do mundo, maior que as regiões Nordeste e Sudeste do Brasil juntas. Deslocar-se é preciso, e a maneira mais interessante aqui é fazê-lo de trem. Uma das boas heranças da União Soviética nesta parte do mundo é um funcional — e barato — sistema de transporte ferroviário. 

A rota mais praticada pelos turistas de longe é Almaty-Nursultan (ex Astana), as duas principais cidades cazaques. Almaty, a capital econômica e principal cidade; Nursultan, a capital política, a “Brasília das estepes”, construída aqui em 1997 por motivos geoestratégicos.

Você lê mais sobre as cidades nos seus posts correspondentes. Aqui, quero falar do procedimento para comprar passagens de trem cazaques e da experiência que tive indo de Almaty a Nursultan — 1000Km de estepes, que atravessamos em 14h nas vias férreas.

As estepes cazaques, vistas da janela do trem. Estas são planícies que se estendem por milhares de quilômetros na Ásia Central, da Mongólia até a Ucrânia. Podem não ser a vista mais pitoresca da sua vida, mas elas têm seu charme. 
Alma-Ata 2, uma das estações de trem em Almaty, com sua arquitetura monumentalista soviética.

A primeira informação que você precisa ter é que tanto Almaty quanto Nursultam possuem duas estações de trem cada uma. Em russo, Almaty continua sendo escrito Alma-Ata, seu nome anterior, as estações preservam este nome: Alma-Ata 1 e Alma-Ata 2. Ponha no Google Mapas, e você verá que Alma-Ata 2 é bem mais próxima no centro da cidade que Alma-Ata 1, algo afastada.

Em Nursultan a situação é parelha. Ambas as estações ficam distantes (como tudo naquela cidade), mas Astana Nurly-Zhol (esse Zh se lê como o J de Juliana) é a estação de trem mais moderna, inaugurada em 2017, enquanto que Astana é a estação mais antiga. Nurly-Zhol parece um aeroporto. De lá, o ônibus 50 o leva até o centro da cidade. Note que a cidade pode ter mudado de nome de Astana para Nursultan, mas as estações de trem, não.

Site oficial da companhia ferroviária cazaque.

Para comprar passagens, acesse o site oficial da companhia ferroviária cazaque. Ele tem boa tradução para o inglês e funciona melhor que muito site de cia aérea internacional. Paguei com o cartão de crédito sem problemas. Bilhete eletrônico com código de barras que você imprime em casa e leva consigo. É possível mostrá-lo também na tela do celular. (Sim, o bilhete vem todo na língua cazaque, com o alfabeto cirílico, mas c’est la vie. Os numerais continuam arábicos.)

Na prática, nem precisei mostrar meu bilhete, pois os oficiais-condutores à entrada do trem já tinham uma lista de nomes, e prontamente mostraram um pedaço de papel com meu nome completo perguntando se aquele era porventura eu. Sim, sou eu. Querem ver seu passaporte, como sempre aqui na ex-União Soviética, então tenha-o à mão. (Eu sempre levo bilhete impresso também comigo por via das dúvidas, ainda que neste caso eu não tenha precisado.)

Quando reservar, tenha atenção a qual estação escolhe. Não é como em outras cidades do mundo (tipo Bruxelas ou Amsterdã) em que o trem começa em uma e sai passando pelas outras estações no caminho. Aqui, trens diferentes saem de estações diferentes, com horários e velocidades diferentes. Avalie as várias possibilidades e escolha a da sua preferência.

Alma-Ata 2, do lado de dentro.

O Cazaquistão tem tipos de trem diferentes. De praxe são os trens habituais soviéticos, espaçosos mas mais com cara de século XX que de século XXI. Eu os mostrei bastante na Rússia quando viajei por lá, e sugiro que você confira para ver. Eles fazem o percurso Almaty-Nursultan em cerca de 20h de viagem. Não os tomei aqui no Cazaquistão porque optei pelo Talgo, os trens mais modernos (e rápidos) de fabricação espanhola, que fazem o mesmo percurso em 13h e param menos.

O porém desses trens Talgo é que eles são menos espaçosos que os habituais trens de fabricação russa. Francamente, cogitei numa eventual segunda vinda ao Cazaquistão optar pelo trem menos rápido mas mais espaçoso. Depende da sua prioridade. O ar condicionado funciona relativamente bem; você nem passa calor, nem o trem vira frigorífico como em alguns países.

Os compartimentos kupê, para 4 pessoas, são um pouco justos. Você não fica espremido, mas tampouco tem muito espaço. Quem mais sofre são as bagagens, pois você pouco tem onde pô-las. Se você estiver carregando mochilas enormes ou malas de despacho, recomendo que considere o trem padrão, porque no Talgo eu nem sei onde as colocaria. Não vi espaço algum. As pessoas viajam só com bagagem de mão, tipo europeu. Também não vi turistas.

O interior do meu compartimento kupê, para 4 pessoas, no Talgo no Cazaquistão. Note que não é espremido mas tampouco é muito espaçoso. Dormem duas pessoas de cada lado em camas que se abrem da parede. Há pouco espaço para bagagem.
Os fabricantes espanhóis foi um tanto econômicos demais no espaçamento, como nesse acabamento de plástico do trem. Essa é a classe kupê (ou 2a classe), em que vão 4 pessoas em compartimentos fechados. Na classe luxo vão somente 2 pessoas, e na 3a classe (platzcart) os compartimentos não têm porta, é o vão aberto.
Os compartimentos à noite ficam assim, com as camas abertas da parede. Você recebe roupa de cama e uma toalhinha de rosto.
Água livre.
O vagão-restaurante mais parece um barzinho. Não espere grande coisa.

Como em outras partes da ex-União Soviética, os funcionários são uma mistura oficialesca de condutor e policial que toma nota da sua identificação.

Não espere que saibam inglês, embora você pode dar a sorte de algum passageiro saber algo da língua de Shakespeare. Mas tampouco se preocupe muito com isso, pois seu dever com os oficiais é somente um “cara-crachá” e pronto. No máximo, me perguntaram se eu estava viajando a turismo.

Fui a única pessoa não-fluente em russo que eu vi no trem. Acompanharam-me no compartimento duas coroas que conversaram a viagem inteira e um quarentão que só fazia comer ou jogar no celular. No vagão inteiro eram praticamente todos cazaques, e os caucasianos que vi acabavam por ser russos. Tanto é que os oficiais resolveram vir prosear comigo depois que a maioria dos passageiros desceu em Karaganda, a uma hora e pouco de Nursultan.

A vista para o pôr do sol sobre as planas estepes cazaques.

Você fala que entende um pouco de russo e eles já soltam o verbo. Pererê pê pê. Eu ficava perdido, soltava um ni panimayo [não entendo] atrás do outro. Ao fim, com o meu quebrado de russo e o quebrado de dois deles em inglês, pudemos falar sobre a tradição do Cazaquistão em boxe (onde frequentemente são medalhistas olímpicos, portanto cuidado se pegar briga no bar ou na rua), e sobre Ronaldinho, o que engordou.

Eles ainda o chamavam com o nome antigo, no diminutivo. E era engraçado, pois um deles de fato se parecia com o jogador. Se a diferença de idade fosse maior, eu diria até que era filho perdido. Eu cheguei a soltar o nome de Neymar para fazer uma social. “Nah. Neymar nyet legenda. Ronaldinho legenda”, disse-me ele em russo [Neymar não é uma lenda. Ronaldinho, sim.] Vai ver ele gostou tanto do jogador que ficou parecido. Vê-lo quando criança nas copas de 1998 e 2002 deve ter influenciado sua osteogênese dos dentes e do rosto. A ciência deveria se debruçar sobre esse fenômeno.

Dali a um tempo, quando já era de manhã, chegamos à gigantesca estação Astana Nurly-Zhol, feita no molde das novas estações de trem chinesas e parecida com um aeroporto. Você se sente até num cenário meio pós-armageddon, vazio que o prédio estava. Era hora de conhecer esta moderna capital do Cazaquistão.

De manhã em Astana Nurly-Zhol, a estação de trens de Nursultan inaugurada em 2017.

Havendo dúvidas sobre os trens cazaques, ou qualquer outra coisa que eu não tenha esclarecido (exceto a semelhança do oficial com Ronaldinho), é só pôr aí abaixo nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Trens no Cazaquistão: Como são, como comprar online, e minha experiência

  1. Meu jovem, que belíssimo por de sol!… Espetacular. Parece os ocasos do NE brasileiro e do Centro-oeste. Lindos, com suas nuances de dourado, laranja e avermelhado. Uma pintura.
    E que imagem surreal das estepes vistas do trem Maravilhosa, com seu dourado degradé. Lindissimas. Ambos merecem um belo quadro.
    Muito bonita essa nova estação. Parece mesmo um aeroporto.
    Desculpe-me, mas apesar de amar viajar de trem, não gostei das acomodações nem do estreito corredor. Parece-me um trem que tomei de Casablanca a Marrakech no Marroco. Cheio e apertado. Não faz o meu gênero hahaha.
    Gostei das observações. Bastante esclarecedoras.

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