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Conhecendo Nursultan (ex Astana), a capital do Cazaquistão

O Cazaquistão pode ainda nos evocar um lugar remoto, mas ele está passando a ser um dos centros do mundo, conectando a China à Rússia e à Europa. É a “nova Rota da Seda”, como dizem, capitaneada pelos chineses para desenvolver infraestrutura através da Ásia.

Nursultan (até 2019 chamada de Astana) é a Brasília da Ásia Central. Fizeram-na em 1997 para ser a nova capital do Cazaquistão, levantada no meio das estepes. Almaty (Alma-Ata), sua capital histórica, tem tradição e porte econômico, mas não estava bem localizada para ser o centro da nação que recobrava sua independência em 1991 após o colapso da União Soviética. Por razões estratégicas caso a Rússia resolvesse retomar algo deste vasto território cazaque repleto de recursos naturais, construíram uma capital mais central.  

Reparem em como Almaty está cá no canto sudeste do Cazaquistão. Nursultan (no mapa ainda com o nome antigo de Astana) foi criada para ser uma capital mais central, como Brasília.

Nursultan é uma cidade elegante à sua maneira, mas estranha.

Eu chegava aqui após uma noite de trem vindo de Almaty. Desembarquei na enorme, reluzente e despovoada estação de trem Astana Nurly-Zhol, inaugurada em 2017 e onde o dono do meu albergue me aguardava para me dar uma carona.

Eu achei que estava andando por espaços abandonados após alguma guerra biológica. Tudo me parecia grande demais para a ínfima quantidade de pessoas. O lugar me dava uma sensação quase pós-apocalíptica, de filmes de ficção em que a população humana diminuiu drasticamente mas as estruturas físicas ficaram em pé.

Na estação de trem Astana Nurly-Zhol, quando cheguei. Ela é a mais moderna da cidade, inaugurada em 2017. Éramos pouquíssimos a caminhar pelas suas vastas estruturas. Pareceu-me desproporcional.
Reparem na quantidade de bancos de praça vazios. E as pessoas?

Desfilaríamos de carro por quilômetros a fio em longas avenidas retas até o albergue. Elas eram margeadas por canteiros, largos parques, e prédios onde eu supunha estarem as pessoas.

Os canteiros são bonitos, mas Nursultan é espalhada, pouco natural. Alguns chamam-na de futurista, monumentalista. Monumentalista, sim. Já futurista, só se for aquela visão de futuro típica dos anos 1990. O conceito de cidade do futuro hoje é uma coisa muito mais ecológica e viva, com vivacidade sócio-cultural também. Mas essa é uma pegada pós-moderna que não chegou aqui.

Nursultan foi desenvolvida naquele conceito de modernidade do final do século XX: concretos, asfaltos e brilhos. Ainda bem que pelo menos puseram uns jardins floridos, onde trabalha um exército de jardineiros sob ordens do governo e sob as intempéries deste clima extremo para manter arrumados os canteiros onde ninguém ou quase ninguém circula. Há uma inevitável sensação de vazio no ar, de que a cidade é sub-povoada, grande demais ou espalhada demais para pouca gente.

Nursultan é a cara de um experimento urbanístico meio SimCity, meio projetada no computador.

Prédios e vias em Nursultan, a capital do Cazaquistão.
Praças e monumentos, relativamente vazios e espalhados pela cidade.
Bancos até onde a sua vista alcança.

Quem passa, passa de carro, entre a casa e o trabalho, deixando os espaços públicos relativamente vazios. Você encontra algumas pessoas nos vários shopping centers da cidade, que há a cada 1 Km, mas nem eles se encontram cheios ou animados como no Brasil. 

Eu por aqui andaria longas distâncias, tomando o transporte público quando necessário. Embora não seja exatamente uma cidade aconchegante, Nursultan tem monumentos impressionantes que eu veria.

Tal qual em Almaty, o dono do albergue ofereceu-me um quarto já disponível pela manhã, antes da hora do check-in, se eu lhe pagasse um adicional. (Parece ser prática comum no Cazaquistão.) Não, eu não estava interessado em dormir. Deixei as bagagens e fui andar feito sobrevivente-de-desastre-nuclear nas ruas vazias de Astana. Digo, Nursultan. As pessoas aqui ainda usam os dois nomes.

O primeiro monumento que eu fui conferir foi a imponente Astana Opera House (a ópera não mudou de nome). Ela foi construída de 2010 a 2013 com mármore da Sicília e sob os auspícios do arquitetos italianos Enrico Moretti e Maria Cairoli. Vê-se que entrou dinheiro, pois o prédio branco neoclássico é impressionante.

A neoclássica Astana Opera House, feita com mármore branco siciliano e inaugurada em 2013.
De frente. (Note em comparação a pequeneza do cidadão na direita da foto.)
Eu com a cara suada e a mesma roupa ainda do dia anterior.
Aqui um músico, com instrumento de corda tradicional cazaque. No outro lado, uma mulher com outro instrumento tradicional.
A entrada da ópera sob as colunas.

Se você tem gostos culturais, cogite se programar para assistir a uma performance aqui. Você pode ver o calendário no site oficial da casa e comprar ingressos online. Dizem que ela tem das melhores acústicas do mundo, e eu só li coisas boas a seu respeito. (Compre as entradas com algumas semanas de antecedência, pois eles se esgotam.)

Um dos espetáculos mais característicos é o Kyz-Zhybek, poema épico do século XVI sobre o povo cazaque. Foi em 1465 que o Khanato Cazaque foi estabelecido, após queda da Horda Dourada dos descendentes de Gêngis Khan. O khanato dos cazaques durou até 1848, quando — enfraquecidos interiormente — sucumbiram diante da Rússia czarista em expansão. Quando em 1922 se estabelece a União Soviética, os russos seguram estas terras como parte do seu território, e os cazaques só conheceriam soberania mais uma vez a partir de 1991, com o colapso do império russo comunista — digo, da União Soviética governada de Moscou.

Caso você visite Nursultan fora da estação de apresentações (o meu caso), é possível fazer um tour guiado todos os dias às 11h ou 15h, exceto às segundas-feiras. Apresente-se uns 10 minutos antes na entrada lateral onde fica a bilheteria e adquira o seu por 1000 tenge (KZT), o equivalente a R$ 10. Há em inglês. No meu caso, foi VIP, pois eu era o único visitante.

Acompanhou-me uma jovem e ereta guia cazaque, esbelta de seus 1,75m num vestido florido, maçãs do rosto centro-asiáticas e sorriso de jovem, num inglês até proficiente. Além de visitar o interior, com o camarote presidencial e tudo o mais, há as lindas cortinas (talvez as mais impressionantes cortinas que eu já tenha visto na vida), lustre de 1,6 tonelada, e fotos do sempre presente Nursultan Nazarbayev no meio das obras — aquela coisa politiqueira.

O interior da Ópera, repleto de mármore branco por toda parte.
De pose nas escadarias. Embora o mármore seja italiano, os desenhos são de lugares do Cazaquistão. Aqui está desenhado o Charyn Canyon, próximo a Almaty.
Minha esbelta guia mostrando-me o figurino.
O palco.
Num dos camarotes. Aquele ali no centro é o camarote presidencial, para quando vem o atual chefe de estado ou o ex-presidente Nursultan Nazarbayev.
O interior do salão com seus camarotes.

O dinheiro do Cazaquistão é quase todo de minérios e hidrocarbonetos (petróleo e gás), e muito dele tem ido para edificações notáveis aqui na capital.

Eu, da ópera, segui para tomar um café e comer algo no Khan Shatyr, o principal shopping da cidade. Ele é no formato de uma gigante tenda, e vasto. Brasileiros que gostam de passar horas e horas nesses ambientes comerciais climatizados irão adorar e se sentir quase em casa.

Aqui há todas as marcas mundialmente conhecidas (Starbucks, Zara, Swarovski, Tommy Hilfiger…) e mais outras. Não são exatamente preços populares, mas tampouco são preços de Dubai; eu diria que são preços do Brasil. No Starbucks, a cazaque simpática insistiu com seu sorriso recatado em usar o que sabia de inglês comigo. Estocou-me com um Hello! antes que eu lançasse mão do meu habitual Zdrasvoytié russo. Como eu digo, os cazaques em geral são sociáveis e simpáticos.

Canteiro em flores em Nursultan e, à direita na foto, o shopping Khan Shatyr, feito em formato de tenda nômade.
Khan Shatyr, o maior shopping da capital cazaque.
O interior do shopping. Como Nursultan chega abaixo dos -30 graus durante o inverno e perto dos +40 no verão, estes ambientes climatizados fazem sucesso.
O centro da capital cazaque Nursultan, com seus prédios monumentais e, lá ao longe, sua emblemática Torre Bayterek.

Um longo calçadão jardinado leva do ponto de onde eu tirei a foto até a Torre Bayterek, o principal monumento de Nursultan.

A Torre Bayterek, de 105m, é o monumento mais emblemático em Nursultan. Ela representa um ovo de ave mitológica que fez um ninho por sobre a árvore da vida, elementos dos mitos cazaques. Você pode subir para ter uma vista panorâmica.

Diz a lenda que a torre foi desenhada pelo próprio ex-presidente Nazarbayev, com a ajuda de arquitetos. Paga-se 700 tenge (KZT) [2 USD] para subir de elevador. Há dois pisos lá em cima, ambos panorâmicos e fechados com um vidro amarelado. Embora a Torre Bayterek queira ser à sua própria maneira a Torre Eiffel da Ásia Central, Nursultan não é Paris. Aqui há o vento das estepes, que segue ininterrupto penteando gramas por milhares de quilômetros de extensão. São 30 graus negativos no inverno e às vezes 40 positivos no verão, então eles não puderam se dar ao luxo de pôr espaços abertos lá em cima como na capital francesa.

Lá no alto da Torre Bayterek, em Nursultan.
A vista para a esplanada que leva até o Khan Shatyr, o shopping center em formato de tenda lá no horizonte.

Há uma lojinha de souvenirs no térreo. No piso inicial há um café, lugares de sentar, e no piso superior há uma impressão da mão do ex-presidente Nazarbayev numa placa dourada — um negócio meio Calçada da Fama.

Uma fila maior do que eu imaginei formava-se na escada circular para ir pôr a mão onde esteve a do presidente — o que, hoje em dia, quase que invariavelmente significa tirar também uma foto no celular, então embola ainda mais. Algumas pessoas voltavam como se tivessem tomado a Comunhão. E, do ponto de vista sociológico, tomaram mesmo. Aquele sentimento de que participam da nação cazaque sob seu líder Nazarbayev. Perdoem-me não ter tomado a fila para ir comungar também.

A filar para ir tomar a comunhão; digo, para ir pôr a mão numa placa dourada onde esteve a do ex-presidente Nursultan Nazarbayev.

Como eu perceberia ao longo desta viagem, os centro-asiáticos nunca superaram o “culto à personalidade” de líderes políticos. Coisa do tempo de Stálin (falecido em 1953), e que remonta ao período monárquico em que o czar russo era visto como pai do povo. Ou quando os khans das estepes eram tidos como bravos heróis humanos, quase mitológicos, liderando sua tribo. Você fique aí achando que esse desejo social por “homens fortes” no poder tem algo de particularmente latino-americano ou brasileiro.

Nursultan Nazarbayev, primeiro presidente do Cazaquistão independente após o fim da União Soviética. Governou de 1990-2019.

Nursultan Nazarbayev é matuto como você vê na foto. Após dirigir o Cazaquistão por quase 30 anos, resolveu aposentar-se e pôr alguém mais novo no seu lugar, ainda que continue governando as coisas dos bastidores.

Ao aposentar-se, o parlamento decidiu por unanimidade a troca do antigo nome “Astana” da capital para “Nursultan”, em homenagem a esse estimado Primeiro Presidente da República do Cazaquistão. Você verá menções, assim como a cara dele, por toda parte.

O sistema político aqui é um pouco como na França ou na Rússia, onde há um presidente que manda, mas também um primeiro-ministro (nomeado pelo presidente) que cuida dos assuntos internos. Há eleições periódicas para a presidência como para o parlamento, mas o partido de Nazarbayev sempre ganha.

Encomendaram esse humilde trono, digo, poltrona com o ex-presidente Nursultan Nazarbayev, que figura no belo Museu Nacional do Cazaquistão na capital.
Lá está ele, modestamente entre os cavaleiros e líderes, pinturas de época nas terras do Cazaquistão.
Olha pra isso. (Chega a ser engraçado o quanto ele consegue ser gabola sem a sensação de que para além de certo limite começa a ficar ridículo.) No museu nacional.

O Museu Nacional da República do Cazaquistão foi inaugurado em 2014. Como vocês hão de constatar, tudo aqui é relativamente recente. A cidade está em plenas obras a todo vapor.

O museu, embora não seja excelente, é bom. Bastante visual, há uma combinação de itens históricos autênticos e dioramas com montagens do que seria a vida nestas terras em outros tempos — afora, é claro, uma seção sobre a vida & obra de Nazarbayev que você pode pular se quiser. A cada hora cheia há um espetáculo de sons e projeções no saguão de entrada. O tema, é claro, é a saga do povo cazaque nesta nobre terra.

É curioso, pois os cazaques não são exatamente nativos daqui, mas procuram como que por osmose associar-se aos ocupantes anteriores, ignorando as migrações e miscigenações. Eles originalmente provêm das estepes mais a oriente, e são altamente misturados com os mongóis. Só se fala em “povo cazaque” a partir do século XV, e já como resultado dessas misturas. Na Antiguidade, havia aqui sármatas e húngaros, que viriam a migrar depois. (É um pouco como também os franceses sempre fizeram, declarando-se descendentes dos gauleses quando na verdade são mais fruto de migrações posteriores dos francos e dos romanos.)

Caso você não saiba quem foram os sármatas, tratou-se de um povo indo-europeu da Antiguidade que habitava parte do leste europeu e Ásia Central. Marco Aurélio (121-180 d.C.), o imperador filósofo, os menciona no seu Meditações pois os romanos os combatiam. Junto com o cítios e os saka, os sármatas eram povos iranianos que viviam também nas estepes. A vinda dos povos túrquicos (como os cazaques) pra cá só se deu séculos mais tarde, durante a Idade Média. Esses povos iranianos, com seus característicos chapéus compridos, estão retratados também nas ruínas de Persépolis. Vá conferir.
Esta é uma das principais peças do museu, o chamado Homem Dourado. Estima-se que essas vestimentas em ouro datem dos séculos III ou IV a.C., e provenha do povo cítio ou saka nestas terras naquela época.
Projeção celebratória ao Cazaquistão no saguão de entrada do Museu Nacional a cada hora fechada. É com música e tudo. Vale a pena ver.

Eu diria até que o espaço é mais um centro de doutrinação nacionalista que um museu. Mas aí preciso reconhecer que isso não é muito distinto de outros museus nacionais por aí afora. Em verdade, museus nacionais datam quase todos do século XIX, com os albores do nacionalismo e a criação de mitos fundacionais e histórias compartilhadas que dessem coesão a um povo — um sentimento de irmandade mesmo para com aqueles que você nunca viu. Um sentimento forte o bastante para fazê-lo ir se matar na guerra em nome de um hino, de uma bandeira, e de uma mitologia nacional.

É por isso que quase todos os hinos nacionais soam parecidos e têm aquele estilo sinfônico do século XIX (“como se feitos por Beethoven num dia pouco inspirado”, nas palavras do historiador Yuval Noah Harari). A diferença é que aqui, como nação jovem, eles ainda não tiveram tempo para auto-crítica, nem gozam da irreverência dos latino-americanos.

À entrada do enorme museu, os nobres cavaleiros cazaques nesta fonte. Lá atrás você pode notar os minaretes da Mesquita Hazrat Sultan.

O Islã é outro elemento presente aqui, que hoje se combina com o estadismo personalista e o nacionalismo dos cazaques. (É também uma forma de auto-afirmação e diferenciação dos vizinhos cristãos russos).

A Mesquita Hazrat Sultan, inaugurada em 2012, é a maior da Ásia Central. Um esplendor de tapetes na cor azul-turquesa da bandeira do Cazaquistão. (A cor se chama azul-turquesa exatamente por ser típica aqui destes povos túrquicos, viu gente?). Tudo foi feito a dedo. Seu interior com tapetes azuis, arcadas mouriscas, caligrafias árabes com os nomes sagrados do Islã, e até mesmo uma fonte no centro de um dos saguões. É provavelmente a terceira mais bela mesquita que eu já vi na vida, após a Grande Mesquita do Sultão Qaboos em Omã e a Mesquita Hassan II em Casablanca no Marrocos.

Para entrar, os homens precisam estar com os joelhos e ombros cobertos. As mulheres também, mas às mulheres eles fornecem uns mantos azuis que podem ser vestidos para entrar. (Fica uma coisa meio Assassin’s Creed.) Se você gosta desses interiores, eu diria que vale a pena um “tira essa bermuda que eu hoje eu quero você sério” só para visitar a mesquita.

A Mesquita Hazret Sultan, inaugurada em 2012.
Vista de outro ângulo. Ela é a maior mesquita da Ásia Central. Aqui no Cazaquistão predomina um Islã light, bem secularizado após as décadas de União Soviética.
O interior da Mesquita Hazret Sultan, toda em tons azuis como a bandeira do país.
Algumas mulheres em mantos azuis. (São fornecidos às que vieram com os ombros ou joelhos descobertos.)
Outras partes do interior, com o mihrab, aquele nicho na parede que indica a posição de Meca e, portanto, a direção para onde se deve orar.
Caligrafia árabe com nomes sagrados do Islã (em geral, o nome de Allah ou de Maomé). Traduzem-se as palavras do Corão para que as pessoas entendam, mas a versão original em árabe se preserva, e é somente o texto na língua original que é considerado sagrado.

Como dito no princípio, uma cidade monumentalista, sem dúvida.

Quando me deu fome, precisei ir a um dos shoppings. Há um shopping diferente a cada Km no centro de Nursultan. Nem sempre há nomes óbvios; você só vê aquele aglomerado de marcas de lojas e vai entrando. As praças de alimentação, como de costume, ficam no piso superior.

Atendeu-me Shalpan, moça com ar do interior humilde da Ásia naquela vestimenta americana de uniforme de fast food com boné, servindo comida chinesa no Gold Dragon. Não chegam a ter a vivacidade pululante das praças de alimentação de shopping no Brasil, mas têm algum movimento e têm opções. Ainda bem que a China tem influência gastronômica no mundo, senão eu estaria entre o fogo e a frigideira. Tripa de cavalo, iguaria típica cazaque, ou hambúrguer ocidental.

Sorveterias do mundo, façam sorvete de kiwi que fica bom.

De todos os lugares do mundo, foi aqui em Nursultan que eu tomei pela primeira vez na vida sorvete de kiwi. Não é que estava bom? Para quem não sabe, a fruta é da China, não da Nova Zelândia. Os chineses, no entanto, a viam com desprezo (“fruta em formato de bosta de cavalo”). Ninguém vendia, crescia como mato, até o agronegócio neozelandês se espertar e fazer um marketing da fruta como “fruta kiwi”, eles que lá já são apelidados de “kiwis” por conta da ave nativa, símbolo nacional, que tem esse nome. Mas foi aqui no Cazaquistão que eu tomei o sorvete. Recomendo às sorveterias urbe et orbi.

Sentado, pude assistir a um espetáculo de pedagogia no shopping, em que o menino de seus 8 anos mexeu com a irmã mais jovem, fazendo-a chorar, tomou um puxavão do pai, devolveu um tapa no pai, tomou outro mais forte, e ficou aquela linda espiral de violência que nos diz muito sobre o mundo. O Cazaquistão é parecido com o Brasil nesse sentido — e ambos muito diferentes da criação mais civilizada que eu tenho visto nos últimos 10 anos na Holanda ou na Suécia. Essas diferenças de paideia falam muito sobre o estado de harmonia social nesses países.

Eu às vezes gosto de caminhar, às vezes tomo o transporte público. (Odeio táxi). Na volta para o albergue no fim primeiro dia, caminhando naquela solina vespertina aos 35 graus, dois garotos acompanhados de dois adultos me miraram e resolveram me interpelar. Faraôniets!” Ou gritou-me ele algo que soou como “faraó”. Vai ver me achou com cara de árabe egípcio.

De fato, não sabia ele que todo baiano crescido ao som do Olodum é mesmo faraó. Eu vi a hora de ele repetir com aquele tom de cobrança: “Eu falei faraó-ó-ó” para que eu respondesse “ê faraó”. (É quase um Valar morghulis, valar dohaeris versão baiana dos anos 90.) Mas o que ele me disse, agora já me fixando enquanto caminhávamos em direções contrárias, foi um “Hello!”, como eles às vezes aqui soltam animados. Devem aprender assim na escola. Estou ainda para ouvir um “Hi” ou um “Good morning”; não, é sempre Hello.

Trocou para o russo. “Vy rusky?” [Você é russo?]

Nyet.

Americanyets?

Eu teria dito que sim, mas eles queriam saber se eu era dos EUA. Não daria para ter esclarecido, então eu disse que não.

Brazília!”, gritei-lhes o nome do Brasil em russo, já seguindo o meu caminho já que não paramos para conversar. Acho que deu pra ele ouvir e entender.

Curioso gritar “Brazília” aqui nesta capital. Ao voltar ao albergue, quebrado das voltas quilometrais sob o sol após noite dormida no trem e ainda com a mesma roupa, tomei um banho e fui relaxar. Um rapaz asiático na cozinha preparava uma piscina de óleo numa frigideira e ali punha 6 ovos que aguardavam numa tigela com salsinha e sal. Contei porque estava sem ter o que fazer.

Ao fim das tardes, crianças brincavam nos parquinhos típicos de condomínio (embora aqui eles não sejam fechados), mas as avenidas seguem vazias de cabeças. Lá e cá, só carros e ônibus deslizando nas longas pistas.

Blocos residenciais com seus parquinhos, onde surgem algumas famílias nos fins de tarde. É essa vida condominial, embora eles aqui não sejam fechados.
Os monumentos lá fora, com algumas poucas pessoas a circular nos espaços abertos.

Nas palavras de um amiga minha, há certo “charme pós-soviético na grandiosidade dos edifícios e uso de concreto”, com seu uso de formas geométricas nos formatos dos jardins e prédios. Sem dúvidas os monumentos são impressionantes. Apesar disso, acho a atmosfera algo insípida — para mim falta-lhe vida. 

Quando no segundo dia precisei usar o transporte público para ir ao museu, tive aquele momento de tristeza e indignação ao perceber que até a capital do Cazaquistão tem uma infraestrutura de transporte público melhor que a capital do Brasil. Os ônibus fisicamente são como no Brasil, mas passam no horário. Uma telinha avisa quantos minutos faltam para cada ônibus chegar (como em boa parte da Europa), e eles são pontuais.

A hora de ir embora seria através do aeroporto internacional da capital. Dou uma chance a vocês de adivinhar o nome do aeroporto. Exato, Aeroporto Internacional Nursultan Nazarbayev. Por que eu me espantei quando vi que até o aeroporto tem o nome do cara?  

O aeroporto Nursultan Nazarbayev, de Nursultan, feito pelo presidente Nursultan Nazarbayev, é limpo, arrumado e funcional, embora não seja enorme. A imigração de saída foi um passeio, mais veloz que na Europa e quase sem filas. A segurança também foi o habitual. Check-in feito pelo telefone, com cartão de embarque virtual e tudo. Tudo bem moderno.

Era hora de eu rumar ao vizinho Quirguistão. Vejo vocês lá.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Conhecendo Nursultan (ex Astana), a capital do Cazaquistão

  1. Uuuuu que monumento essa cidade!… que maravilhosas e imensas obras. Belíssimas. As linhas, estrutura e detalhes são de encantar os olhos. Que mármore lindo. Que qualidade e que espetáculo a decoração e as linhas internas. Uma maravilha.
    Belíssima também, tanto no interior quanto no exterior essa esplendorosa e elegante mesquita. Linda. Belos tons.
    Esses jardins são uma fofura e humanizam um pouco essa cidade projetada e espalhada.
    Os monumentos são magníficos. De babar, como dizem por aqui.
    A limpeza dos pisos chama a atenção, alem da amplitude. É mesmo aquele estilo de Brasilia, espalhada.
    A área residencial é bonita e ajardinada o que deixa mais alegre a cidade.
    Curiosa a construção de uma cidade tao vasta e ampla em descompasso com a população. Ao contrario de Brasilia que inchou tanto que tiveram que criar cidades satélites.
    As esculturas são também belíssimas. Muito bom gosto.
    Essa torre é magnifica.
    Muito bonito esse ´portal da cidade. Toda a arquitetura é portentosa assim como singulares e belos seus motivos .
    Bela essa longa avenida a la Champs Èlysée. Muito bonita mesmo.
    Gostei desse shopping climatizado. Alegre, colorido . No Brasil estaria apinhado de gente e ruidoso.
    Pontos altos O Museu e a Mesquita Um esplendor. Lindas obras. Impressionante cidade, apesar da gabolice do tal ex presidente, que como diria alguém que conheci: toca o foguete e apanha a flecha e da babaquice do povaréu. hahah. Surpresa. Pensei que eram só belas e intermináveis estepes. gostei.

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