Cazaquistão

Visitando o Cazaquistão: Dicas de viagem, aonde ir, e o que fazer

O Cazaquistão, nono maior país do mundo, mistura natureza e a herança histórica dos cazaques que combina influências túrquicas, mongóis e russas. Desde que liberou o visto para brasileiros em 2016, tem sido um destino crescentemente procurado. 

Abaixo é um balanço breve da minha visita recente ao país, seguido de dicas e considerações gerais a quem pretende vir aqui.


  • O que mais gostou. Conhecer melhor os cazaques. Gente tranquila, simpática, e relativamente aberta.
  • Visita obrigatória. Almaty (Alma-Ata), a maior cidade do país e capital até 1997.
  • O que não gostou. Os passeios são um pouco caros, e o trem veloz Talgo é apertado.
  • Queria ter visto mas não viu. Turkestan, uma cidade histórica, e o lago com árvores submersas no sul do país.
  • Momento mais memorável da visita. Ver as montanhas Tian Shan no horizonte a partir das avenidas de Almaty.
  • Alguma decepção. Para ser franco com vocês, o Big Almaty Lake foi uma ligeira decepção pra mim, pois se você o vir pelo Google ou no Instagram ficará maravilhado com cores quase mágicas. Relatos que li falavam em “um dos lugares mais bonitos que já vi na vida!”. Não sei que vida essas pessoas tiveram, mas o Big Almaty Lake, pra mim, embora muito bonito não entraria num rol de 5 mais belos lagos que vi. O Cazaquistão dificilmente é um destino de iniciantes; se você já viu muita coisa bonita, como as Lagunas Altiplânicas no Atacama, ou as lagoas coloridas na Bolívia, ou mesmo o imenso Lago Baikal na Rússia, não acho que o Big Almaty Lake se compare a nenhum deles, embora bonito. Visite, mas modere as expectativas, e não se deixe levar demais pelas fotos filtradas do Instagram.
  • Comidas típicas. Muita carne. Shashlik é como eles chamam o espetinho, que fazem de tudo. O mais peculiar e típico são os pratos com carne de cavalo. No mais, sopas regadas a endro como na Rússia; e pilaf (ou plov), um arroz refogado no óleo com cenoura e carne.
  • Bebidas típicas. Eles aqui bebem leite de égua fermentado (kumis) como os mongóis, e também leite de camela (shubat) — você acha em qualquer supermercado. É, como li certa vez alguém se auto-descrever, “forte como um gole de cachaça ao meio-dia”.
  • Maiores surpresas. Ver que os cazaques são a cara dos mongóis, tanto no físico quanto em muitos hábitos e pano de fundo cultural. Só falam uma língua diferente.

PRINCIPAIS DICAS

Crianças a se refrescar em Almaty numa tarde de verão.

Quando visitar o Cazaquistão? E qual a melhor rota? Estamos num lugar de clima continental temperado, o que significa invernos rígidos e verões quentes. Portanto, o mais ameno é visitar o país nas meias estações, especialmente em setembro/outubro (outono) ou maio/junho (primavera). De dezembro a março você pode encontrar temperaturas de -30ºC. Já entre julho e agosto, a temperatura sobe aos 35-40ºC. 

Eu visitei no verão. As tardes quentes são aquelas de um verão no Brasil, embora menos úmido. Vai do seu gosto, se prefere algo mais “fresquinho” ou não. Você verá sites em inglês falando que é “insuportavelmente quente” ou coisas assim, mas aí é escrito por pessoas que não foram criadas no Brasil.

Já a melhor forma de chegar ao país é voando até Almaty (Alma-Ata), antiga capital do país e ainda sua maior cidade. Há voos diretos pra cá de muitas cidades da Europa. (Para facilitar sua vida, sugiro não fazer conexão na Rússia. Melhor vir direto da União Europeia pra cá, se puder.)

Se estiver vindo do Brasil, cogite combinar com uns dias no continente europeu e comprar os trechos separadamente (Brasil-Europa, e depois Europa-Cazaquistão). Se você comprar com antecedência de alguns meses, consegue ida e volta de cidades da Europa pra cá por 200 euros.

Visto, Imigração & Formulário. Brasileiros ou portugueses não precisam de visto para visitar o Cazaquistão por até 30 dias. Note que, via de regra, se você usar todos os seus 30 dias precisa se ausentar outros 30 até poder entrar de novo; não é porque saiu e entrou de novo que a cota se renova.

Não é necessário pagar nada na entrada nem na saída, mas é preciso preencher brevemente um formulário de imigração ao desembarcar (ver foto). Via de regra, basta que você preencha seu nome, sobrenome, propósito da viagem (“tourism”, se for o caso), e assine. Você conservará o formulário carimbado consigo até sair do país.

Formulário imigratório a ser preenchido no Cazaquistão. Basta preencher nome, sobrenome, propósito da viagem, e assinar. O resto todo mundo deixa em branco.

Segurança. O Cazaquistão é seguríssimo, muito mais que qualquer país da América Latina. Às vezes escuto brasileiros preocupados com a segurança aqui, mas asseguro-lhes que você corre mais risco ao sair pra comprar pão aí no Brasil do que no Cazaquistão. As cidades cazaques me parecem mais seguras até que certas metrópoles europeias.

 

Tenge.

Dinheiro & Custos. O dinheiro cazaque chama-se tenge [lê-se tên-guê, tipo “dengue” com um sotaque meio paranaense e T no início].

Se quiser arredondar na sua cabeça, 1 real (BRL) são aproximadamente 100 tenge (KZT). 1 USD = 385 KZT, e 1 EUR = 435 KZT. Mas verifique as cotações atualizadas antes de viajar.

Trocam-se dólares, euros ou rublos russos com muita facilidade em qualquer lugar do centro de Almaty. A capital Nursultan é menos movimentada e, tal qual Dubai, uma cidade mais fundamentada em shoppings que em lojas na rua, mas com um pouco mais de dificuldade você também acha onde cambiar. 

Não espere pagar nada em moeda estrangeira. O Cazaquistão tem uma economia relativamente boa, e até os passeios turísticos são em geral cotados na moeda cazaque. Há quem possa aceitar coisa em dólar ou euro, mas será uma cotação desvantajosa pra você.

O Cazaquistão é barato, mas é o mais caro dos países da Ásia Central. Eu passei 5 dias no país e gastei um total aproximado de 300 euros, afora os voos. Seu orçamento dependerá, mais que tudo, do nível de conforto da sua acomodação — há albergues, mas os hoteis são mais baratos que na Europa — e dos passeios particulares que fizer. Esses passeios, que facilmente podem sair por 60-100 USD, são o que há de mais salgado.

Uma bizarrice que encontrei em Almaty, que não sei se é Coca-Cola com maior teor de cafeína ou (o que suspeito) misturada com café. Perdão, mas não tive estômago para comprar e experimentar.

Idioma. Dá pra se virar com inglês? Dá, mas a sua vida ficará muito mais fácil se você investir um par de horas numa destas tardes para aprender a ler o alfabeto cirílico, da língua russa.

Há o início de um movimento para substituí-lo pelo nosso alfabeto latino, mas isso claramente demorará anos, se não décadas.

Como foram parte da União Soviética até 1990, os cazaques são praticamente todos fluentes em russo, além da língua cazaque (que é semelhante ao turco). Há também muitos russos que moram no Cazaquistão, vivem aqui desde aqueles tempos.

Nos hotéis e albergues você sempre tem alguém que fala inglês, muita gente inclusive com bem maior fluência que em certos países da Europa (ex. Itália, França, Polônia…). Porém, nos restaurantes e cidade afora, não espere muito inglês. Você encontrará cardápios em inglês, e as máquinas do metrô também têm versão em inglês. Mas não espere conversar com as pessoas em inglês.

O melhor — de longe! — é aprender algumas palavras básicas de russo e, sobretudo, a ler o alfabeto cirílico. Muitas palavras russas são parecidas com o português (pelas raízes gregas e latinas), mas estão escritas com letras diferentes. PECTOPAH lê-se “restoran”, por exemplo, e você logo deduz o que significa. Como eu indiquei, vale a pena investir um par de horas para memorizar os sons.

(Volta e meia alguém me pergunta se as pessoas não sabem espanhol. Não, querido. Esqueça. Espanhol é coisa de América Latina, Estados Unidos e parte da Europa. Só.) 

Transporte. O Cazaquistão é dono da melhor cia aérea da Ásia Central, a Air Astana. Alguns aí podem estar a rir e se perguntar que confiança passa “uma cia aérea da Ásia Central”, mas digo-lhes que é uma empresa boa. Serve até comida sem custo adicional. Mais qualidade que a maioria das empresas brasileiras e que muitas companhias europeias também. 

No entanto, a dica da Air Astana é sobretudo para voos internacionais aqui na região. Dentro do Cazaquistão, a principal necessidade dos turistas é deslocar-se entre Nursultan (a capital, ex-Astana) e Almaty, a maior cidade. São 1.000 Km de estrada de ferro entre uma e outra, e as viagens de trem podem durar de 13-20h, a depender do tipo que você escolher. No link ali você chega ao meu post específico sobre os trens no Cazaquistão e como reservar. É a melhor forma de viajar aqui, tendo a vasta estepe centro-asiática como vista da janela.

Tanto Almaty quanto Nursultan são cidades onde você faz as coisas a pé sem problemas — se você gosta de caminhar, pois são cidades amplas. Em Almaty há um metrô pequeno mas funcional, que o ajuda a cobrir as maiores distâncias. Já em Nursultan há obras de metrô, inclusive ao aeroporto e às estações de trem, mas até 2019 não havia sido inaugurado. Lá na capital, entretanto, há bons ônibus que você pode tomar por uma pechincha e sem dificuldade, comprando passagem direto com o motorista.

Em Nursultan, a capital do Cazaquistão.

Aonde ir, e quantos dias em cada lugar? 

O Cazaquistão pode ser um país vasto, mas suas áreas de interesse turístico não são muitas. A maioria das pessoas passa aqui menos de uma semana — e em geral o combinam com idas aos países vizinhos aqui na Ásia Central.

Almaty é de longe a cidade mais interessante, e também um bom portal de entrada para quem é novo nesta região do mundo, pois ela não se difere muito das cidades do leste europeu (Varsóvia, Bucareste, ou as cidades da Rússia). Em dois dias inteiros você vê o que precisa, se estiver viajando sozinho; já se quiser uma coisa mais compassada, parando para tomar um café e indo devagar, eu diria 3 dias, incluindo aí a ida de um turno ao Grande Lago de Almaty nos arredores da cidade. (Essa ida ao lago costuma custar uns 25.000 KZT [65 USD] pelo carro particular, incluindo tempo de espera e a entrada no parque nacional. Todo hotel organiza. Um pouco caro, mas é o preço.)

Avenidas largas e bem arborizadas em Almaty.

De Almaty você pode fazer um passeio também ao Charyn Canyon, o segundo maior cânion do mundo. Não é algo que eu fiz, pois não me pareceu nada muito diferente do que eu já tinha visto por dias a fio na Mongólia. Ademais, é caminhar sem sombra sob o sol do verão daqui. É pra quem é rato de trilha. Há também o lago das árvores submersas, a 129 Km de Almaty, o Lago Kaindy.

Nursultan, a capital, é uma espécie de Brasília da Ásia Central. Cidade planejada, mas não para pedestres. Monumentos, museus, shoppings e condomínios apresentam-se entre as pistas compridas que dominam a cidade. Eu diria que 2 dias são o bastante na cidade, incluindo aí visitas a esses interiores e algum tempo de diversão em shopping, além da subida na emblemática Torre Bayterek, símbolo principal da cidade.

Turkestan parece ser bonita — pode ser uma prévia do que se encontra em maior dimensão no Uzbequistão. Shymkent é uma cidade da qual não ouvi nada muito digno de nota. No mais, claro, se você quiser visitar cada um dos lagos no sul do país, alguns parecem ser muito bonitos (como o Lago Kaindy), mas aí é preciso mais que uma semana.

Vista panorâmica para o Grande Lago de Almaty, nas montanhas Tian Shan, fronteira do Cazaquistão com a China e o Quirguistão.

Se você ficou com alguma dúvida, quer algum toque, ou tem alguma pergunta que eu não respondi, é só pôr abaixo nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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