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O Quirguistão, “a Suíça da Ásia”, e sua capital Bishkek

Em cinza escuro estão os países da Ásia Central que faziam parte da União Soviética até 1991, mais a Rússia. Ali em vermelho o Quirguistão, do tamanho do Estado do Paraná.

O Quirguistão é por vezes apelidado de “a Suíça da Ásia Central”, por suas montanhas, lagos e picos nevados que se veem desde as cidades. É um lugar cada vez mais procurado por trilheiros europeus e outros turistas. Visto livre para brasileiros.


PRÓLOGO: A IMIGRAÇÃO

Desembarquei numa manhã de sol no Aeroporto Internacional de Manas, na capital quirguiz Bishkek. Como não há tubos, você caminha pela pista do aeroporto até entrar no saguão de chegadas.

Ao contrário do que dizem sites pela internet (inclusive alguns oficiais), brasileiros NÃO precisam de visto para visitar o Quirguistão por até 60 dias como turistas. Ouvi da boca do próprio oficial, e entrei e saí sem visto.

Ao entrar, logo à esquerda há um balcão para tirar o visto na chegada (visa on arrival), uma janelinha, enquanto os guichês dos oficiais de imigração estão à direita mais adiante. Franceses, alemães e outros — a maioria asiáticos aqui desta região — já se ordenavam lá adiante enquanto eu parei na janelinha, já que as informações online eram de que brasileiros precisavam, sim, tirar o visto. 

O oficial encerrou uma conversa ao telefone dentro de alguns segundos e tomou meu passaporte. Num inglês bom, perguntou quantos dias eu pretendia ficar no país. “Quatro”, respondi-lhe. “Você não precisa de visto. Nós temos acordo com o Brasil, e você pode ficar até 60 dias. Você pode ir para o controle de passaporte ”, completou em tom de simpatia. Ora ora. Economizei os USD 50 que o visto teria me custado, segundo uma tabelinha ali.

Prossegui então à fila onde já estavam os outros. Acabei ficando por último, mas não demorou muito — em 15 min eu já estaria do outro lado coletando minha bagagem. O oficial, ao ver meu passaporte, deu uma exclamação de raridade empolgada “Oh! Brazilia!”, exclamando o nome do país em russo. “Carnaval”, disse ele animado chacoalhando os ombros sob sua farda militar como quem dança. Eles aqui na ex-URSS gostam muito do Brasil. 

Ao contrário de quem se incomoda com essa associação do Brasil com o Carnaval, eu me satisfaço em ver o país ter uma fama positiva até nestes confins da Ásia Central. Não acho admissível que nossos vizinhos no Ocidente, bem mais próximos, saibam apenas isso sobre o Brasil. Mas aqui no Quirguistão, acho que está de bom tamanho. (No Nepal, certa vez, o que me citaram foi que o Brasil exportava frango. Desculpe-me essa indústria brasileira, mas prefiro a fama do Brasil país do Carnaval que exportador de frango. Me parece culturalmente mais relevante. Deixa o frango para os números da balança comercial, não para a fama.)

Welcome!”, declarou ele sorridente enquanto me devolvia o passaporte carimbado, sem adesivos. Em alguns sites eu li que você deveria se certificar de receber o adesivo do visto, não apenas o carimbo de entrada, pois poderia ter problemas na saída, e eu confesso que fiquei um pouco com a pulga atrás da orelha.

Foi grilo a troco de nada, pois eu viria a sair — novamente pelo Aeroporto Internacional de Manas — numa boa. O oficial, muito tranquilamente, dali a uns dias carimbaria meu passaporte de saída enquanto comentava sobe UFC, Anderson Silva, Amanda Nunes e outros brasileiros de que gosta (os centro-asiáticos são fissurados em artes marciais não-orientais, tipo boxe, luta livre, essas coisas). Pronto. Sem grilo algum. Tampouco há qualquer pagamento de saída (exit tax ou departure fee).

No desembarque, vários taxistas já estavam ali agoniadamente à espreita a me chamar de longe antes mesmo de eu chegar até eles. Para minha tranquilidade, eu havia solicitado que o albergue enviasse alguém para me buscar. (Custou o equivalente a R$ 30, mais barato que chegar em quase qualquer cidade do Brasil.) 

Após as andanças pelo Cazaquistão, era hora de finalmente conhecer seu vizinho menor e menos rico. Conhecer de perto as belezas desta “Suíça da Ásia”.

As montanhas no Parque Nacional Ala Archa, nas vizinhanças de Bishkek.

Eu amo a sensação de chegar de manhã numa cidade nova, num país novo, e logo sair às ruas para ver o que que há. Assim foi aqui no Quirguistão.

Se me permitem uma breve introdução, no Quirguistão se fala quirguiz, uma língua muito semelhante ao cazaque e aparentada do turco. Como pertenceram à União Soviética até 1991, os quirguizes também são fluentes em russo, e utilizam o mesmo alfabeto cirílico da língua de Tolstói e Dostoyevsky (convém aprender). Inglês você só utiliza nos hotéis e albergues, mas muito pouco fora deles.

Menina quirguiz.

Os quirguizes são a cara dos mongóis e dos cazaques — asiáticos altos, de pele clara e maçãs pronunciadas no rosto. Em geral a altura lhes confere certa elegância esbelta. Misturam a moda russa com (às vezes) suas vestimentas tradicionais, e têm um jeito de ser que lembra as pessoas do leste europeu, muito distinto dos seus vizinhos chineses aqui ao lado.

Sabe essa noção geral global de que os asiáticos são tímidos e reservados? Isso pode ser verdadeiro na cultura japonesa, chinesa ou coreana, mas não se aplica aqui na Ásia Central. Os quirguizes, como os demais centro-asiáticos, falam com estranhos quase como no Brasil — e independente de ser homem ou mulher, ainda que quase todos aqui sejam muçulmanos. 

O Islã daqui é bem light. De pessoas tradicionais, mas secularizadas. De senhoras que usam seus lenços coloridos no cabelo e moças que se vestem — e, em grande medida, se comportam — como Ocidentais.

Gerações mais velhas e jovens nos jardins da capital quirguiz, num fim de tarde destes.
Mulheres quirguizes, rosas, e prédios soviéticos na avenida.

A minha pré-história com o Quirguistão data do que eu fiz no outono passado, em Copenhague. Num evento, conheci uma moça quirguiz. Como vocês hão de imaginar, eu adoro conhecer pessoas de lugares diferentes do mundo e poder dizer “Já estive lá!“, sei isso e aquilo sobre seu país. Eliza, entretanto, me deixou sem palavras quando comentou que era da capital e eu, de repente, me dei conta de que não fazia a menor ideia de qual era a capital do Quirguistão. “Bishkek“, completou ela.

Mas Eliza mora fora do país, então vocês não a verão nesta história.

Quando eu terminei a coleta da bagagem no Aeroporto de Manas, quem me aguardava era um motorista grandalhão jovem e de pouca conversa, que parecia não saber muito inglês mas tinha uma cara tranquila, sossegada, com um ar de meninão que bebeu muito leite quando era pequeno e ficou grande. Ouvia música de discoteca russa no carro, às vezes fazendo uns movimentos com a cabeça para acompanhar. Chegaríamos a Bishkek (a 25 Km do aeroporto internacional) dali a meia hora.

A vista para a cadeia de montanhas com seus picos nevados ao longe no horizonte logo me impressionou. Árvores margeavam a rodovia, separando-a dos campos já algo amarelos pelo sol de verão que queimava. Quando finalmente adentramos a capital, o que encontrei foi uma cidade arborizada e de vias largas. Podia não ter luxo, mas era mais elegante e melhor cuidada que a maioria das áreas de baixa-renda no Brasil.

Larga avenida arborizada no centro, onde me hospedei. O urbanismo modernista soviético consistia em amplas calçadas e boa arborização.

Deixei prontamente as coisas no albergue e atravessei essa rua para almoçar e trocar dinheiro.

Vocês podem notar ali na foto a tabela de valores de uma casa de câmbio. Aqui, usa-se o som e, como vocês podem notar na placa, é melhor trazer dólares que euros. A novidade mesmo, no entanto — e eu adoro quando mesmo depois de tanto viajar ainda encontro coisas nunca dantes vistas — foi encontrar moeda de 3. Alguém aí já viu? Eu acho que nunca tinha visto em nenhum país.

Moeda de 3 som. (Escreve-se com C porque eles aqui usam o alfabeto cirílico, em que C tem som de S.)
Dinheiro quirguiz. 1 dólar (USD) vale 69 som (KGS).
Calçadas largas no centro de Bishkek.

Fazer câmbio foi fácil, já comer bem são outros 500.

Se você gosta daquela carne gordurosa “de raiz”, com gomos de banha & cia, estará em casa (cuidado com o coração). Se não, terá opções limitadas. Quase todos os pratos são com carne de boi, vitela, ou carneiro. (Não vi tanto carne de cavalo como no Cazaquistão.) Às vezes tem frango, mas comer sem carne é quase ininteligível aqui. Lembraram-me a minha finada avó, que perguntava se eu ia comer “puro”, sem carne, ela preocupada com minha nutrição.

Arranjei-me com umas combinações de arroz e saladas. Nada muito impressionante, mas encheu a barriga. Ao menos a sobremesa valeu a pena. Como comentei anteriormente, a maioria destes povos da Ásia Central são túrquicos — a ampla família etnolinguística onde os turcos da Turquia se inserem. Há muitas tradições compartilhadas além da língua parecida, dentre elas — esta sim — a mui louvável presença de doces característicos, como o baklava e o delicioso fistik durum que comi.

Fistik durum. para quem não reconhece o nome, é esse docinho de pistache. Coisa divina! Em Istambul também se acha. Estou usando seu nome turco, mas em quirguiz deve ser parecido. Se você falar baklava, as pessoas aqui entendem. As duas línguas são parecidas como português e italiano.

Embora fizesse um sol de rachar o crânio, eu saí às ruas para dar umas voltas. Estávamos aos 38 graus (chamem-me de maluco), que mesmo secos queimavam a pele, mas eu estava curioso para saber o que Bishkek me reservava.

Estamos numa cidade de 1 milhão de habitantes, então não imaginem a roça. Afora as avenidas, seu centro movimentado continua repleto de prédios públicos cinzentos do tempo da União Soviética, alguns melhor conservados que outros. Até que, com os belos jardins bem cuidados, os ambientes são tranquilos e aprazíveis. 

Prédio da Universidade Nacional do Quirguistão.
Mulheres nas calçadas com seus jardins floridos. Notem as montanhas visíveis lá ao longe.
Aquela é a prefeitura de Bishkek por detrás dos jardins. Ao longe, as montanhas da cordilheira Tian Shan.
Não há metrô, pois Bishkek não é tão grande assim e tudo no centro se faz a pé. Aquela descida é para atravessar a rua por baixo. Já para se ir mais adiante, toma-se van lotação (marshrutka em russo, o nome que eles usam aqui). Naquela banquinha vermelha ao lado — como por todas as ruas de Bishkek no verão — uma tia vendendo kvas, o híbrido de refrigerante com cerveja feito de cereal levemente fermentado e doce, além de outras bebidas típicas.
Senhora tomando uma marshrutka (van lotação) na rua. Elas aqui são numeradas, com rotas fixas, mas tem aquela informalidade de parar onde você pedir.
Certas coisas não são diferentes do Brasil, como a tia ali ao celular enquanto não tem cliente, nas ruas de Bishkek. (Algumas, porém, não têm smartphone e usam ainda aqueles celulares antigos só com ligação e torpedo.)
Como vocês hão de notar, há muitos prédios velhos ainda de edificação soviética. Este aqui, notem trilheiros, é a sede da União de Trilheiros do Quirguistão. Se você procura trilhas guiadas a baixo custo, procure-os. (Falarei mais disso depois.)
Mas nem tudo aqui é coisa antiga. Eis o shopping Bishkek Park, com lojas (e preços) de marca.
Há umas zoeiras pelas ruas também, como esse anúncio do “Embargo Shop” com a clássica foto do Tio Sam, o embargador-geral do mundo. (Não me pergunte o que essa loja vende. Se estiver curioso, acesse o site.)
Caso você não saiba, abundam cópias do KFC (Kentucky Fried Chicken) mundo afora. Este aqui é o BFC (Bishkek Fried Chicken).
Eu naquela tarde fagueira, sem sombra de bananeiras, e quase debaixo da estátua do seu Manás!

Eu acho que vou largar as viagens e virar poeta.

Aquele cavaleiro que vocês veem ali no meio da praça, a estátua, é Manás, o mais famoso herói épico quirguiz, que dá nome ao aeroporto. (Finalmente um aeroporto sem nome de político!)

Jardim com a estátua do herói quirguiz Manás, e o prédio da Orquestra Filarmônica de Bishkek.
O herói quirguiz Manás, sobre o qual falo mais abaixo.

Os quirguizes são nativos aqui da Ásia Central, mas por séculos foram dominados por outros povos, como os mongóis vindos de mais a leste a partir das conquistas de Gêngis Khan no século XIII. Conforme os descendentes de Gêngis Khan foram perdendo as rédeas do imenso império, os povos subjugados foram se rebelando e reclamando autonomia. É nesse contexto, já lá por voltas dos século XVIII, que surge Manás.

Manás teria sido o líder de uma tribo nômade centro-asiática que a partir do século XX os quirguizes passam a dizer que são seus ancestrais. Estima-se que ele tenha vivido em 1700 e algo, embora os quirguizes digam que se trata de algo muito mais antigo. Contadores de histórias memorizaram os 500 mil versos do poema épico que conta a história de Manás, seu filho Semetei e o neto Seitek nas lutas contras os mongóis, chineses e indianos.

Um manastchi, poeta e contador de histórias quirguiz. (Imagina o tanto de coisa que esse vô sabe?)

Memorizar 500 mil versos nos parece absurdo hoje, nós que atualmente nem conseguimos mais memorizar um número de telefone, mas isso não é raro nas culturas de forte tradição oral. Por exemplo, na Idade Média muitos poetas e homens sábios do mundo muçulmano memorizavam o Alcorão inteiro. (É que hoje em dia nossa cabeça definhou; a maioria das pessoas mal acertam a se concentrar para ler um parágrafo.)

A primeira versão escrita do poema épico só apareceu quase em 1800, na língua persa aqui de perto, mas hoje em dia já há várias versões. Como você há de imaginar, elas não são todas idênticas. Um contador de históricas no Quirguistão é chamado de manastchi, e dizem que só seguem essa vocação aqueles que sonham com os personagens da obra recomendando-lhes este caminho. 

Os conflitos entre emirados e outros potentados túrquicos aqui na Ásia Central foram interrompidos na segunda metade do século XIX, quando o Império Russo se expande para cá. O czar russo subjugou os quirguizes em 1876, fazendo-os formalmente parte do império. Este cairia em 1917 com a Revolução Russa orquestrada por Lênin, e a partir de 1922 seria substituído pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O Quirguistão — ou melhor, Kirguízia como era então chamada — se tornaria uma dessa repúblicas dentro da URSS. Isso até 1991, quando então os quirguizes readquiriram sua soberania.

(O sufixo “stão” provém de stan, que significa “terra” em persa e nas línguas túrquicas. Em contraste, os romanos antigos terminavam os nomes de terras normalmente com “ia” — Britannia, Germania, Italia, AsiaKirghizia, embora os romanos não conhecessem os quirguizes — acho que nem existia quirguizes enquanto povo na Antiguidade. Os russos, como nós, mantiveram a terminação latina. Os quirguizes, ao tornarem-se independentes em 1991, deram uma banana aos russos e resolveram trocar de Kirghizia para Kyrgyzstan.) 

Busto em homenagem ao manastchi Naimanbai (1853-1911), no centro de Bishkek. (Se você voltar lá na foto do dinheiro quirguiz, a pessoa na nota vermelha de 20 soms é o manastchi Togolok Moldo, 1860-1942).

O Quirguistão é a única das ex-repúblicas soviéticas na Ásia a não ter tido um único ditador governando feito rei após a independência. Ao contrário, os quirguizes impuseram uma revolução — a chamada Revolução das Tulipas — em 2005, e outra em 2010 quando o novo presidente fuleirou e foi destronado. Há eleições de verdade e com alternância de poder, ainda que aqui não seja um paraíso de estabilidade. 

Talvez por isso, por não ter tido um presidente-rei por muito tempo, o Quirguistão não tenha obras faraônicas recentes como seus vizinhos, como grandes mesquitas ou museus pomposos. O que há é ainda quase tudo do tempo da União Soviética.

Numa outra praça no centro de Bishkek, com outra estátua de Manás. Aquele prédio do tempo soviético é o Museu Estatal de História.
O Museu Estatal de História visto de outro ângulo. Ele foi fundado em 1926 nessa típica arquitetura modernista. Segue fechado em reforma já há alguns anos.
Estátua do senhor Lênin, uma das poucas fora da Rússia. Ele foi um dos principais líderes da Revolução Russa, que em 1917 derrubou a monarquia imperialista dos czares.
Próximo dali, a elegante estátua dos senhores Marx e Engels, pensadores alemães e co-autores do Manifesto Comunista em 1848.

Embora o Quirguistão seja mais pobre que os vizinhos, ele ao menos goza de uma cultura política um pouco mais aberta. É o que me comentava Aiya, uma esbelta moça quirguiz na recepção do albergue onde me hospedei.

Aqui a gente pode falar mal do presidente. Não tem essa, não“, dizia ela satisfeita, fazendo contraste com a maioria dos “stão”, como o moderadamente rico Cazaquistão, com seus mui incensados e incriticáveis presidentes-reis.

Jamais me esquecerei de como Aiya observou que “ficar no Instagram é o mesmo que assistir filme pornô. O cérebro fica viciado em receber aquela estimulação. É a mesma coisa.” Ela conversava bastante. Sendo professora de inglês, e fazendo um bico aqui na recepção do albergue como emprego de verão, tinha fluência. Simpática, a moça.

Meu albergue, essa ampla morada no centro de Bishkek, era tipo a Casa das Sete Mulheres — não havia funcionários homens, mas mulheres que se revezavam na recepção e na arrumação das coisas. A clientela era variada, de alguns poucos mochileiros europeus a muitos russos que vêm dar umas voltas aqui no verão.

Eu puxava prosa com um outro, ou às vezes puxavam prosa comigo. Na cozinha certa vez, por exemplo, pus-me a conversar com um par de mãe e filha de Yakútia [nada absolutamente a ver com yakult], região no norte da Sibéria (dentro da Rússia) onde vive um outro povo túrquico, os yakuts, de olhos ainda mais puxados. Seus olhos são tão puxados, mas tão puxados, que eu já aprendi a diferenciá-los dos outros asiáticos. Lá o Islã nunca chegou, e eles portanto permaneceram xamanistas.

Estes eram pessoas plácidas tomando sopa na espaçosa cozinha do albergue. A mãe era uma mulher magra de seus 40 anos, diante de uma menina crescida e com ar de bem comportada.

— “Que idade ela tem?“, perguntei.

— “Um ano“, respondeu a mãe atrapalhando os números em inglês.

Tinha 10 anos a menina, depois a mãe corrigiu. Comentou com a menina em russo e ela riu em meio à sopa. Ficamos ali de prosa um pouco sobre o Brasil e sobre xamanismo, ou tengrismo como os yakuts chamam seu xamanismo de veneração ao céu azul, eu a nutrir minha curiosidade de um dia ir lá bater perna em Yakútia.

Por ora, eu batia perna aqui no Quirguistão. Ao fim da tarde, ia ver o pôr-do-sol na rua, quando as famílias e a juventude quirguiz de Bishkek vão às praças passear quando o calor já passou.

Prédio de governo do Quirguistão, sob a luz do sol do fim da tarde.
Entardecer sobre a praça principal de Bishkek, com jovens a passear. Ali a imensa bandeira vermelha do país e, mais atrás, o Museu Estatal de História.
Sob este céu, a Praça Ala-Too, a principal de Bishkek. Ali havia uma estátua de Lênin, mas em 2011 substituíram por uma estátua de Manás.
O outro lado da praça principal, com canteiros e flores.

A terrível herança soviética de praças com canteiros floridos onde as famílias passeiam e namorados sentam-se pra conversar nos fins de tarde e à noitinha. (A depressão que dá quando você constata que até as praças do Quirguistão são mais belas, seguras e arrumadas que as do Brasil.)

Quirguizes na Praça Ala-Too em Bishkek.
Prédios antigos e pessoas novas.
O pôr-do-sol em Bishkek.

Em seguida, eu mostro a vocês o que viria a conhecer do Quirguistão para além da capital.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “O Quirguistão, “a Suíça da Ásia”, e sua capital Bishkek

  1. Meu jovem, que linda cidade e que espetaculares esses pores de sol e essas montanhas nevadas. Magníficos tons do céu e do pôr de sol. Que nuances. Lindíssimas… só comparáveis com aqueles do NE ou do C-O do Brasil. Lindas as montanhas. Parecem sim os Alpes Suíços. Deslumbrantes.
    Gosto dessas largas, arborizadas e compridas avenidas do tempo da URSS, e não gosto da monótona e pouco criativa arquitetura do mesmo período.
    Os jardins, com suas belíssimas flores e ordenações são de encher os olhos de tamanha beleza.
    Interessante a História desse povo.
    Outra surpresa para mim que achava que ai se encontravam só savanas; Maravilha. Que beleza!.. Belíssimas praças. Alegres, Viçosas, coloridas, floridas e cheias de gente que parece estar bem apesar do pais não ser dos mais desenvolvidos economicamente.
    Gostei muito da versão light dos seguidores de Alhah. As flores e as montanhas estão por todos os lados. Majestosa a cidade. Lindinha a gatinha lourinha. Curiosa a história do povo.
    Bela postagem, linda regiao. Parabéns, jovem viajante.
    Sem que me esqueça, apesar da gostosa parodia dos ”Meus 8 Anos” do poeta brasileiro Casimiro de Abreu, permita-me não concordar com a troca levantada, de viajante para poeta. Nada contra os poetas nem contra as habilidades literárias do viajante, MAS, Que seria dos amantes dessas belas e gostosas viagens se o jovem Mairon Polo dos 7 mares deixasse de as fazer? hahaha Haveria um vácuo nessa bela visão desse Beautiful World. hahahah

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