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A Garganta do Ala Archa (Ala Archa Gorge) nas montanhas do Quirguistão

A Garganta do Ala Archa (Ala Archa Gorge em inglês) é a atração mais visitada pelos turistas estrangeiros no Quirguistão. Estamos numa área de esplêndida beleza natural, entre as montanhas próximas à capital Bishkek, a meros 40min de carro.

Antes que pensem alguma estranheza sobre a garganta “desse tal Ala Archa”, trata-se de um rio com esse nome que passa fino num vale entre as montanhas. Eis então porque “garganta”. É possível pernoitar no Parque Nacional Ala Archa, mas também dá uma excelente trilha bate-e-volta de um dia na natureza.

Abaixo o roteiro, os custos, e minha experiência.

O estreito rio Ala Archa lá embaixo, no vale. Parque Nacional Ala Archa.

É perfeitamente possível fazer um passeio a Ala Archa por conta própria, sem guia.

Estamos falando de uma trilha de cerca de 5h no total (3h de subida & 2h de descida no meu caso). Leva um pouco menos se você for trilheiro habituado, um pouco mais se você quiser pegar leve e descansar no caminho. É subida quase o tempo todo, então requer certo esforço, mas a paisagem é recompensadora. Culmina na simpática cachoeira Ak-Sai.

Abaixo é o roteiro geral da trilha. Mantive os nomes dos lugares em inglês, como exposto lá, para ficar nítido a quem for.  Em parênteses estão as altitudes, em seguida as distâncias e os tempos de caminhada previstos pelo parque.


  • Alplager Hut (começo da trilha, 2200m) ao Broken Heart (2377m): 1.5km, 1 hora
  • Broken Heart ao Tepshi Plateau (2458m): 0.3km, 20 min
  • Tepshi Plateau à Ak Sai Waterfall (2665m): 2.2km, 1 hora

Daria um total de 2h20min até a cachoeira, mas eu levei 3h para subir e 2h para descer. O  padrão é esse bate-e-volta, mas há o “extra” para quem quiser pernoitar lá. Você verá algumas pessoas com material de acampamento. 

  • Waterfall à Razeka Station (Ratsek Hut, 3300m): 2.4km, 2 horas 30 min

Você vê várias pessoas trilhando, algumas com aqueles cajados de caminhada para ajudar na descida.

Preços variam. Via de regra, ir só com um motorista para levar e trazer sai menos da metade do preço de ir com um guia. Agências oferecem o passeio com guia por 80-100 USD por pessoa (o que é um absurdo para o custo de vida no Quirguistão). É uma trilha onde você não se perde, então você vai pagar basicamente pelo extra de comodidade e para a pessoa ficar conversando com você.

A entrada no parque custa 450 som [6.50 USD]. Meu albergue cobrou-me 2.700 som [40 USD] para o motorista me levar e ir me buscar numa hora combinada. Não é exatamente barato, mas poupa o esforço de catar uma van lotação (marshrutka) até as proximidades do parque e depois um táxi ou carona na beira da pista. Há uma entrada exterior do parque onde o ingresso é cobrado, e 12 Km depois o estacionamento até onde vão os carros. (Você não precisa pagar outros 450 som para o motorista entrar, só o seu próprio ingresso. Que fique claro.)

Um belo corredor de árvores na estrada de Bishkek ao Parque Nacional Ala Archa. Eram umas 9h da manhã. A maioria dos visitantes dorminhocos só começa às 10h. No verão, vale a pena ir mais cedo que eles, tanto para evitar aglomerações quanto o calor.
O estacionamento no início da trilha. O controle de bilhetes é 12 Km atrás. Note que os táxis da rua só o levam até lá, a menos que você deixe claro que ele deve trazê-lo até aqui.

Do estacionamento eu usei 3h para subir e 2h para descer. O painel fala em 2:20 em cada rota, mas a descida é obviamente mais rápida. Eu não sou atleta nem trilheiro profissional, e diria que essa é uma trilha de esforço moderado. Não há nada sobre-humano nem que exija grande experiência; basta esforço; mas são basicamente 3h de subida por vezes íngreme, seguida de 2h de descida que cobra um pouco dos seus joelhos. Se tiver aqueles cajados de trilheiro, eles virão a calhar. Você cruzará com muita gente os usando.

Com menos de 1h de subida você já tem diante de si a amplidão vasta da garganta do Ala Archa. O rio, no entanto, é modesto (ao menos nesta época do ano). É mais um riacho que corre rápido por sobre e entre as rochas. Adiante você verá as colinas e, por detrás, picos montanhosos cobertos de neve o ano inteiro. São as Montanhas Tian Shan. Com 1h você chega ao “Coração Partido” (Broken Heart), uma grande rocha que parece ter sido finamente dividida em duas por alguma espada gigante.

O começo da trilha é por entre esses belos pinheiros compridos. Se em Bishkek os dias estavam a 38 graus, aqui estávamos a 28. Não é preciso jaqueta no verão; mas algo para a cabeça e protetor solar, sobretudo se você tiver pele clara, são boas ideias.
As montanhas lá atrás.
E, depois de um tempo, a vista para a amplidão do vale da Garganta do Ala Archa.
Garganta do Ala Archa, por detrás da mata de pinheiros.
Zoom. Como vocês podem notar, o rio é um riacho a esta época do ano (verão). Fica maior em época de chuva.
Lá naquele ambiente. Fazia uns 28-30 graus de verão, bem menos que os quase 40 da cidade. O sol é forte, ajudado pela altitude elevada.
A vista panorâmica lá do alto é assim.
E finalmente a tal rocha “coração partido” (broken heart).

Dali a menos de 1 Km há o Tepshi Platô. Dizem que leva 20min, mas eu levei uns 30min. (Levei 20min no retorno). Não é exatamente plano apesar do nome — só em comparação com o restante da trilha.

Tepshi Platô, com a vista para o vale e as montanhas mais adiante.
Eu estou habituado a encontrar flores e espinhos pelo meu caminho, mas nem sempre dou de cara com flores de espinhos.

Após aquele trecho curto, há a pegada final rumo à cachoeira, um trecho mais longo em que eu levei 1h30. Num dado momento, você cruza uma corredeira que alimenta o Rio Ala Archa. É uma travessia fácil por sobre as rochas, onde você pode também sentar um pouco para ouvir a água correr e sentir a natureza com os seus ruídos brancos.

Riacho.

A cerca de 1Km da Cachoeira Ak-Sai você já a avista de longe. Passei por uma área de acampamento onde estavam uns russos e subi. Lá em cima, um grupo grande de franceses jovens lagarteava ao sol. Não há banheiro nem lanchonetes nem nada. Não é uma cachoeira imensa, mas é grandinha e tem seu volume. A água dela desce tão fresca que a temperatura é mais baixa nos seus arredores. Sente-se o ar frio perto dela. 

A Cachoeira Ak-Sai ao longe.
A cachoeira de perto.
Lá em cima.

Foram 3h de subida, e seriam mais 2h descendo até retornar ao estacionamento. A trilha é bastante óbvia, e você encontrará também outras pessoas fazendo o percurso. Se você usar o aplicativo Maps.me, aí é que não se perde mesmo, pois todos os lugares da trilha (inclusa a Cachoeira Ak-Sai) estão marcados.

Leve comida, pois não há absolutamente nada lá em cima. Às 5h de caminhada, acresça aí o tempo que quiser ficar lá “de boa” lanchando ou apreciando a natureza.

No princípio não havia quase mais ninguém, mas depois as pessoas foram aparecendo, inclusive aqueles que pernoitaram lá no alto e vinham retornando. Muitos contratam carregadores para trazer o equipamento de camping — uns quirguizes ágeis feito cabras, que descem depressa mesmo carregados de mochilas. Crendo-me árabe, saudavam-me com um salam aleikum [“a paz esteja convosco”], sinal de sociabilidade entre os homens muçulmanos. Um até parou para vir apertar minha mão.  

Eu, que iniciara a caminhada às 9:30, às 15:00 estava (agora suado e queimado) de volta ao estacionamento aguardando por Max, o meu motorista. Ou melhor: Maks, numa transliteração mais precisa do modo como eles escrevem o nome aqui, MAKC em cirílico. Maks era um desses rapazes que crescem mas continuam com a cara de menino (aquela “cara de menino que comeu muita banana amassada quando era pequeno”, como diria a minha avó). Maks apesar dos 27 anos também tinha (i)maturidade de menino, mas disso eu falo depois.

 

Na entrada do parque, lá embaixo. Eu amo essas placas traduzidas no Google. “Proibido desunião“. E não me perguntem o que é “mangal”, mas também é proibido.

Há áreas de alojamento e camping próximo ao estacionamento também, sem precisar subir, e muitas famílias quirguizes chegavam feito a Família Buscapé — carregados de parentes e coisas — para passar a tarde ou virar a noite. Se no início do dia eu mal encontrava viv’alma na trilha, a tarde por outro lado estava movimentada.

Sentado debaixo de uma árvore comendo abricós secos, eu assistia ao movimento de pessoas estacionando e pegando as coisas no carro enquanto crianças corriam gritando e as sogras olhavam ao redor. Alguns quirguizes às vezes detinham o olhar em mim com aquele ar de “O que é que aquele está fazendo ali?”. Eu olhava de volta.

Numa dessas, notei um penico que alguém carregava no meio das coisas. (Fazia anos que eu não via um.) A pessoa reparou eu olhar, comentou em quirguiz com os parentes, e de repente a família toda estava rindo com aquela cara de “ele viu o nosso penico”. O pai da família viu por último, um coroa com ar de pai de muitos filhos, e fez uma cara defensiva comentando algo tipo “ele que vá procurar o que fazer, o penico é nosso”, tudo em quirguiz. Eu tive que rir.

Às 15:29 Maks apareceu, com seus óculos escuros e sorrisão de menino poderoso no carro. Eu havia agendado com ele 15:30 caso eu levasse mais tempo caminhando. Apontei para o relógio e fiz um positivo com o polegar, elogiando sua pontualidade, ao que ele fez uma expressão de orgulho e veio buscar o meu aperto de mão.

Era hora de relaxar, 40 minutos de carro agora até Bishkek após o exercício e a nutrição visual. Foi o primeiro mas não seria o último passeio que eu faria aqui no Quirguistão.

(Se você pretende fazer este percurso e tem alguma dúvida, é só perguntar nos comentários.)


EPÍLOGO: “Os ciganos de São Petersburgo amam fogo livre”

Kak hrachó! [“Que maravilha!”], exclamava Maks animado no caminho de volta, com o braço estendido para fora da janela enquanto segurava o volante com o outro. Apreciava a temperatura fresca aqui das montanhas, em comparação ao calor do concreto de Bishkek lá abaixo.

Maks não falava uma única palavra de inglês, preciso dizer. Certamente sabia uma ou duas, mas não falava. Só falava em russo, que quando ele descobriu que eu entendia um pouco, passou a investir bastante como se eu fosse capaz de conversar qualquer coisa.

No caminho de volta, como tantos motoristas que ganham dinheiro com isso mundo afora, ele quis saber o que eu faria no dia seguinte. Perguntava se eu iria a outros lugares — estava prospectando serviço, obviamente. Disse-lhe que planejava visitar a Torre Burana por conta própria no dia seguinte, um monumento histórico milenar aqui no Quirguistão.

— “E como você vai à Torre Burana?”, indagou ele querendo problematizar.

— “Marshrutka”, respondi curto referindo-me às vans lotação.

— “Marshrutka não vai pra lá

— “De marshrutka até estação rodoviária oriental, e de lá ônibus para Tokmok

— “Hmm”, fez ele resignado, como quem entendia o trajeto.

— “Você deveria ir para Issyk-Kul. Ali sim é bom. Você vai ver o que na Torre Burana? Não tem nada lá.”

Issyk-Kul é o segundo maior lago de altitude do mundo, a 1600m, atrás apenas do Lago Titicaca (este a 3.800m) na América do Sul. Eu aprendi que Issyk-Kul é a rivieira dos quirguizes; eles sobem pra lá aos fins de semana de verão como os paulistanos descem a serra nos fins de semana prolongados para o litoral. Mostrou-me também um vídeo de YouTube com a Torre Burana, como quem quis que eu me satisfizesse por vê-la em vídeo e me decidisse por ir ao lago com ele.

Os vídeos de YouTube sobre o lago pareciam coisa promocional de parque aquático, com crianças animadas, jovens sorridentes em trajes de banho a pular na água, etc. Maks propôs sairmos às 7:30am no dia seguinte de Bishkek e às 5pm retornar do lago. “São 3h de viagem. Você vai e volta no mesmo dia.” Eu havia lhe dito que só tinha mais um dia antes de deixar o Quirguistão, e Maks agora passava da problemática à “solucionática”.

Pôs-se a dizer mais coisas então que eu não entendi, ao que teve que recorrer ao aplicativo de tradução após sucessivas repetições mal-sucedidas. Ele tinha um aplicativo de tradução por voz; você fala e o aplicativo tanto escreve em russo quanto traduz ao inglês. Mas não era tão afiado quanto o de Konish do Cazaquistão.

Os ciganos de São Petersburgo amam fogo livre” [The gypsies of St Petersburg love free fire], me mostra ele escrito na tela do celular. Eu depois descobri que ele quis me falar sobre a temperatura agradável da água do lago, eu depois descobri. Vai entender. Tivemos que rir, quando ele depois viu também escrito em russo que não tinha nada a ver.

Depois de algo pensar e acertarmos o preço, eu topei.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “A Garganta do Ala Archa (Ala Archa Gorge) nas montanhas do Quirguistão

  1. Nossa, que espetacular essa natureza. Impressionantes essa cadeia de montanha e essa garganta. Há uma certa semelhança com as vizinhanças da subida até a entrada de Machu Pichu vindo de Oyanta y Tambo, aqui mais perto, na magnifica Cordilheira dos Andes, na America do Sul.
    Linda a cachoeira, com flores de relva. Parece mesmo um lugar paradisíaco.
    Bela região. Ótima para readquirir forças elevadas. Convida à reflexão. Ótimo esse contato com a natureza. Belíssimo esse corredor de árvores. Interessante como mesmo no verão a região é rica de verde, o que nao acontece aqui com os Andes. Linda.
    A foto com a cachoeira e com as flores está um deslumbre. O senhor está muito bem, meu jovem. Como sempre parece parte da natureza.
    Bela postagem e estupenda a natureza da região. Gostei da aventura mas não me disponho a fazê-la haha. Parabéns pela coragem, disposição e escolha do local. Que venham mais belezas.

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