Quirguistão

A milenar Torre Burana (Quirguistão) e uma brevíssima História da Ásia Central

Não é todo dia que você se depara com um monumento de antes do ano 1000. Mesmo no Velho Mundo, fora dos principais centros urbanos da Antiguidade como Egito, Grécia e Irã (Pérsia), isso não é coisa corriqueira.

Na Ásia Central, o Uzbequistão e as coisas da antiga Rota da Seda têm caído nas graças dos turistas, mas a maioria é dos idos de 1400-1600 d.C. (Chegaremos lá.) Antes disso, estas estepes asiáticas já eram cavalgadas por turcos e mongóis há muitos séculos. Como os mongóis devastaram muita coisa nas campanhas militares de Gêngis Khan e seus sucessores durante o século XIII, a maioria do que se vê é posterior. Mas volta e meia se encontra algo mais antigo que sobrou aqui.

Campos aqui da Ásia Central no Quirguistão, com um rapaz quirguiz por entre o capim.

A Torre Burana (Burana Tower) foi construída no século IX, não se sabe ao certo em que ano. Ela é a única edificação que restou do que era uma cidade dos turcos karakhânidas, que governaram esta região histórica da Transoxânia entre 840 – 1212 d.C. 

A Transoxânia, para quem estiver desorientado, foi o limite norte das campanhas de Alexandre o Grande na Ásia Central. Daqui ele deu meia-volta e decidiu rumar à Índia. Este também foi o limite do que os romanos e os persas antigos conheciam deste miolo da Ásia, onde viviam os nômades “selvagens” ancestrais do rapaz quirguiz na foto.

Em latim, os romanos chamaram esse lugar de Transoxania, a região para além do caudaloso Rio Oxus [ôksus]. O nome desse rio é — literalmente — mais velho que o rascunho da Bíblia, pois seu nome em diferentes formas já é mencionado nos Avestas persas antigos do zoroastrismo, assim como em sânscrito nos antigos Vedas do hinduísmo. (Para efeito de comparação, os livros mais velhos do Antigo Testamento datam do século VI a.C., enquanto que aquelas escrituras orientais são de um milênio a.C.

Mapa da campanha de Alexandre o Grande pela Ásia. A Transoxânia é a parte mais ao norte da mancha verde na Ásia, para além do Rio Oxus. (Nós aqui no atual Quirguistão estamos perto daquele “laguinho” — Issyk-Kul, que na verdade é um lago enorme — na ponta superior direita do mapa.)

Conquistadores como Alexandre (356-323 a.C.), o persa Ciro o Grande (601-530 a.C.) antes dele, e mais tarde os romanos, nenhum deles passou daqui. Ciro, inclusive, faleceu em batalha — já aos 70 anos — aqui na Transoxânia às margens do Rio Jaxartes, mais além do Oxus. Esses rios mais tarde na Idade Média adotariam os nomes persas de Amu Dária (Oxus) e Syr Dária (Jaxartes), as denominações anteriores dadas pelos greco-romanos relegadas hoje à História Antiga. [Darya em persa quer dizer “rio”.]

Aqui também vieram missionários religiosos, como os cristãos nestorianos e mais tarde os muçulmanos. Os cristãos nestorianos, se me permitem uma breve digressão, são desde o século V uma das várias Igrejas Orientais do cristianismo. Naquele tempo, em Constantinopla, havia brigas homéricas por razões teológicas arcanas, como saber se Jesus era ao mesmo tempo “homem” e “Deus”, se as duas eram uma natureza só ou duas separadas, se Jesus já nasceu divino ou nasceu homem e depois se divinizou, etc.

Nestório (386-451 d.C.), patriarca de Constantinopla, foi exilado no Alto Egito pelo imperador Teodósio II após sua teologia ser considerada herética pelos demais bispos.

Nestório, patriaca de Constantinopla entre 428-431 d.C., versou que havia as duas naturezas mas elas eram distintas. Gerou protestos, pois então não se poderia dizer que Maria era “mãe de Deus”, mas apenas mãe do homem. O nestorianismo virou heresia no Império Romano do Oriente, e muito dos seus seguidores migraram Ásia adentro.

O cristianismo pode hoje nos parecer algo muito Ocidental, mas historicamente não era. Ainda naqueles idos dos anos 500-600 d.C., ele era muito mais uma religião asiática, com presença pelo Oriente Médio e mais além, chegando aqui à Transoxânia e convertendo também populações túrquicas.

Mas aí veio uma outra religião ainda mais expansionista: o Islã, trazido aqui por conquistadores árabes. Os árabes, como eu já relatei em outras postagens, realizaram rápidas conquistas desde Maomé (570-632 d.C.) até dominarem, à altura do ano 800 d.C., de Portugal e Marrocos lá no Oceano Atlântico até aqui a Transoxânia. Os árabes chegaram até mesmo a batalhar os chineses Tang nas fronteiras deste império.

O Islã logo se tornaria a religião dominante aqui. Porém, notem que na Pérsia e na Ásia Central — ao contrário do que viria a ocorrer na Síria, no Egito, e por todo o norte da África — as pessoas adotaram a religião sem adotar a língua ou a etnia árabe. Isso se deveu em grande parte à força já estabelecida da língua e da cultura persa, que não cedeu.

Os nômades túrquicos, aqui mais além, eram uma salada religiosa. Havia xamanistas, semelhantes aos mongóis mais a oriente, havia tribos nômades já convertidas ao cristianismo, e também havia zoroastras já influenciados pelos persas. Em tempo, quase todos se converteriam ao Islã, embora muitas vezes misturando-o com o xamanismo tradicional. 

À altura do século IX portanto, quando constroem a Torre Burana, estamos falando de turcos karakhânidas já islamizados. A torre nada mais era que um imenso minarete de 45m  na cidade de Balasagun. Nada restou dela, exceto o minarete. Um terremoto no século XV ainda derrubaria sua metade superior, reduzindo-o à torre de 25m que se encontra hoje. Já há muito não funciona mais como minarete. Serve apenas como monumento para lembrar a civilização túrquica medieval que um dia existiu aqui. 

A Torre Burana, do século IX. Só o que restou da cidade medieval de Balasagun, do tempo dos turcos karakhânidas aqui nesta região.
Os detalhes intrincados da torre.

Os turcos karakhânidas são ilustrativos do que ocorreu às populações centro-asiáticas naquele período. A designação de “Karakhânidas” vem de Kara Khan, kara significando “corajoso” nas línguas túrquicas. Um pouco como ocorreu com o império inca, em que a designação de Inka se referia apenas ao líder mas acabou sendo usada para o povo como um todo, o Kara Khan era o chefe. É a mesma nomenclatura usada também pelos nômades mongóis. Os historiadores é que depois apelidariam o povo, por metonímia, de “karakhânidas”.

Eles foram migrando para oeste e se islamizando. Em meados do século X, abraçaram a religião de Maomé. Conquistaram estes territórios que antes eram de povos sedentários iranianos (falarei mais destes depois, na visita ao Uzbequistão), e outros turcos islamizados chegariam ainda mais a oeste, como os seldjúcidas combatendo os cruzados europeus na Terra Santa e os otomanos vindo a tomar Constantinopla, vindo a fazer dela Istambul.

Mais de perto. A Torre Burana era um minarete de 45m na cidade medieval de Balasagun. Um terremoto no século XV derrubou a parte de cima. Hoje, com 25m, ela ainda assim é portentosa.

A construção da torre é toda em tijolos. O exterior foi restaurado na década de 1970, mas por dentro você pode ver ainda os tijolinhos milenares já desgastados. Já esse padrão de base octogonal me recordou os pagodes hindus e budistas — aqui perto. Não acho que seja uma mera coincidência, mas adoção de padrões estéticos e de técnicas já existentes em regiões próximas aqui na Ásia.

Normalmente é possível subir por uma escada em espiral no interior, mas a porta de entrada — que fica no primeiro andar, e não no térreo, como você pode notar pela presença da escada exterior de metal — estava fechada. Há alguns painéis com explicação históricas e uma pequena lojinha — tudo muito simples. Esta não é uma visita demorada; em coisa de 30min você faz tudo, tira suas fotos, e absorve a beleza e significação histórica do lugar.

Tijolos novos e velhos na Torre Burana.
A vista para os campos aqui desta Ásia Central, com as colinas e montanhas mais adiante.
Eu e a milenar Torre Burana, ex-minarete de uma cidade medieval que já não é. Mil e poucos anos se passaram.

A Torre Burana é um dos poucos monumentos históricos restantes aqui para se visitar no Quirguistão, este país que atrai turistas muito mais pelas suas belezas naturais que arquitetônicas. 

Você pode vir por conta própria tomando um ônibus na Rodoviária Oriental de Bishkek (East Bus Station ou, ou em russo, Vostochny Avtovokzal). É um prédio verde-claro com umas arcadas; está a alguns Km do centro e você pode ir a pé ou com uma van lotação (marshrutka) a partir do Osh Bazaar. Lá encontrará motoristas chamando, enchendo ônibus para a cidade de Tokmok, próxima à torre. A passagem custa apenas 60 soms (menos de um dólar).

À saída em Tokmok, taxistas já estarão a oferecer corridas para ir ver a Torre Burana, aguardar, e trazer de volta. O lugar é hoje zona rural, como as fotos mostram. O preço da corrida dependerá do quanto você quer que ele espere, mas coisa de 500-700 soms é a média. Você paga um preço módico para visitar a área da torre, hoje um museu. Há painéis contando sua História e processo de renovação, assim como uma pequena lojinha de souvenirs. Se a torre estiver aberta, é possível entrar e subir até o topo.

No meu caso, eu organizei este passeio com Maks, o motorista que havia me levado à Garganta do Ala Archa no dia anterior. Negociei um pacote com ele, no qual passaríamos aqui pela Torre Burana no caminho para o lago Issyk-Kul, a mais popular atração natural do Quirguistão. É pra lá que estamos indo.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “A milenar Torre Burana (Quirguistão) e uma brevíssima História da Ásia Central

  1. Ihhh que bela e histórica torre. Lindas suas faixas à semelhança das gregas, porem mais intrincadas.
    Linda a região. Que belo descampado. E com as montanhas fica mais bonita ainda. Bela natureza.
    Gostei da resenha histórica. Grande Alexandre. Corajoso e idealista.
    E que perda de tempo e do que fazer, diriam os antigos, isso de saber detalhes acerca de Jesus, da Sua natureza e ligações com o Pai dos Céus. Ora pois. Havia mesmo entre os antigos essas bobagens.
    Mas muito interessante esse resgate histórico da região e de suas características. Instigante. Gostei.

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