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Issyk-Kul: Lago e montanhas no interior do Quirguistão

O lago Issyk-Kul é a atração mais badalada do Quirguistão. Não somente entre turistas, mas entre os quirguizes também. São 180 Km de comprimento e 60 Km de largura. O lago é imenso, e funciona como uma riviera para os quentes dias de verão. Os quirguizes sobem pra cá (pois o lago é elevado, a 1.600m de altitude) nos fins de semana como os brasileiros descem para o litoral. Como ele é levemente salgado, o lago é tipo uma praia. (Cof cof). Pela salinidade, a água nunca congela no inverno, daí o nome Issyk-Kul, “lago quente” nas línguas túrquicas.

Esse lago é emblemático porque por milênios foi o limite oeste do império chinês. Era ponto de parada das caravanas de mercadores na épica Rota da Seda. Foi mencionado no século VII na obra do viajante budista Xuanzang, Relato de Viagem ao Ocidente à época dos Grandes Tang, publicada em 646 após dezenove anos de andanças por estes rincões do que a China conhecia no seu ocidente à época da dinastia Tang.

Os chineses controlaram à distância este território até o Tratado de Tarbagatai (1864), quando teve que cedê-las ao expansionista império russo dos czares. Foi um dos muitos tratados desiguais que a China imperial foi forçada a assinar no século XIX, como o de cessão de Hong Kong aos britânicos, entre outros. Este pedaço da Ásia Central depois se tornaria a República da Kirguizia dentro da União Soviética, e mais tarde (desde 1991) o independente Quirguistão. 

Margeado pelas pitorescas montanhas Tian Shan, Issyk-Kul forma uma bela paisagem de lago e picos que eu vim conferir.

Mapa físico chinês com o lago Issyk-Kul no hoje Quirguistão, na parte superior esquerda da imagem, fora da China. Notem as elevações, e como aquele oeste da China é montanhoso, com a cordilheira de Tian Shan na fronteira. (Já essa área bem escura é o planalto do Tibete.)
Eis as terras por onde o budista Xuanzang andou, no leste do atual Quirguistão. Este oeste selvagem, de estepes secas e tribos nômades, sempre fascinou os chineses. Em 1570, seria publicado na China o romance Jornada para o Oeste, baseado na viagem de Xuanzang mas adicionado de muitos elementos folclóricos, como criaturas fantásticas que o acompanham, o próprio Buda encomendando-lhe uma missão, entre outros. (A figura do Rei Macaco, tão presente nos animês japoneses, é por exemplo elaborada aqui, sendo um dos acompanhantes do viajante. Jornada para o Oeste é considerada uma das quatro obras clássicas da literatura chinesa.)
A vista para as montanhas Tian Shan cá do lago Issyk-Kul. Por essas e outras é que chamam o Quirguistão de “Suíça da Ásia”.
Você se espraia aqui apreciando a água e a vista.
Mas não subestimem o tamanho do lago. Você não vê o outro lado. (Aquilo ali na direita é na mesma margem de cá.)
Mapa do Quirguistão com o lago Issyk-Kul. (As montanhas que você vê na foto são a fronteira com o Cazaquistão a norte do lago.)

São pelo menos 3h de estrada desde a capital Bishkek até Issyk-Kul. Como é um corpo d’água enorme, o tempo e a distância da viagem dependerão de onde na margem do lago você quer ir. 

A cidade mais próxima (Balykchy) é um arraial vagabundo com trocentas vans e barracas — não recomendo. Sugiro seguir mais adiante para o litoral norte ou sul. O sul, dizem, tem maior infraestrutura e é um pouco mais turístico. Tem inclusive domadores de águias, com opção de você tirar foto e fazerem demonstração da caça com a ave de rapina — embora não caça de verdade, que no verão eles não fazem devido ao risco de ataque às crianças brincando soltas.

Eu fui para o litoral norte, até uma praia em Cholpon-Ata. Em qualquer parte haverá bem mais quirguizes que estrangeiros, mas este lado do lago também recebe muitos cazaque vindos de Almaty e russos. Há umas vendas próximas para bobagens industrializadas, mas não conte com vendedores de comida à beira da água como ocorre no Brasil. Aqui em geral as pessoas optam pela farofa, trazendo sua própria comida e bebida.

Foi um programão em que me meti com Maks, o motorista quirguiz que havia me levado  antes à Garganta do Ala Archa.

Cholpon-Ata, na margem norte do lago Issyk-Kul.

Nós saímos de Bishkek umas 8h da manhã, Maks e eu. Passamos pela Torre Burana a cerca de 1h dali e seguimos a estrada rumo ao lago. Ao contrário do que você talvez imagine, a estrada é boa. Nos arredores se vê a simplicidade daquela pobreza rural, mas não vi miséria.

Infraestrutura meio mixuruca no interior do Quirguistão, e a beleza das montanhas Tian Shan lá atrás.
Senhora vendendo peixes defumados e baldes de abricós na beira da estrada entre Bishkek e Issyk-Kul. (Já aquelas bolas brancas não são ovos, mas o “queijo” centro-asiático que eu mostrei no final deste outro post, no Cazaquistão.)
A estrada entre Bishkek e Issyk-Kul é assim.

Maks, que não falava em inglês, às 11 e pouca sinalizou que queria almoçar. Só entendi ele usando a palavra “normal” em russo, e foi parando o carro num desses restaurantes buffet de beira de pista (parecidos com os brasileiros até). Desde que eu lhe disse que falava um quebrado básico de russo, Maks se dirigia a mim como se eu fosse capaz de entender tudo, o próprio Tolstói reencarnado.

No albor dos seus 27 anos, Maks tinha um jeito de “menino amarelo”, meio folgado e conversador, daqueles que chegam aos 30 anos com a cabeça de 18. Segundo ele, tinha três filhos e era casado, mas buzinava para as mulheres na rua. “Devushka“(“garota” em russo), respondia ele cheio de si quando buzinava e eu olhava querendo saber o que foi.

Imagem aos ancestrais quirguizes, na entrada do restaurante de beira de estrada onde paramos.

Entramos no restaurante e eu acabei comendo também, pois uma coisa que aprendi nestes passeios bate-e-volta mundo afora é que grande parte dos estrangeiros não têm o mesmo apreço que os brasileiros pela sagrada hora do almoço. Canso de fazer passeios em grupo onde sou o primeiro (e às vezes o único) a questionar “E que horas vamos parar pra almoçar?“. Ainda que aqui eu estivesse no controle, não sabia quais condições teríamos mais adiante. Resolvi me garantir.

Maks bateu um generoso prato de carnes (chupando até os ossos), ideal antes de irmos nadar no lago ao meio do dia sob o sol de verão. Drauzio Varella teria se arrepiado.

Do telefone, marcou com amigos para que aparecessem no lago também. Com o bolso cheio da parte adiantada que eu lhe pagara pelo passeio, Maks agora se sentia empoderado, e parou para comprar uns cigarros finos no caminho.

Chegamos a Cholpon-Ata cerca de 1h da tarde. Os amigos de Maks já nos aguardavam com outro carro, três rapazes de seus 25-30 anos, munidos de suas carteiras de cigarro que fumariam debaixo do sombreiro na areia.

Como a Ásia Central é dos lugares mais secos do planeta — e mais distante dos oceanos —, confesso que vim sem traje de banho. A cueca acontecia de ser branca nesse dia; não dava. O jeito foi irmos a uma barraca vagabunda que vendia vestimentas Made in China ali no arraial, onde comprei por R$20 um maravilhoso sungão azul — foi o melhor que havia.

Esqueça comodidades brasileiras, tipo banheiro ou chuveiro para tirar o sal depois. Só havia carros estacionados por entre o matagal arenoso, e as pessoas sob os seus sombreiros mais abaixo. Eu não quis nem saber, tirei a roupa ali mesmo e vesti a sunga entre os carros estacionados. Maks olhava ao redor sob seus óculos escuros, espiando se vinham famílias.

Olha que charme.
Ambientação de primeira, com ótima infraestrutura.
Vamos a la playa

A água, apesar de tudo, era muito boa. Levemente fria de início, mas logo você se acostuma. Límpida, até. A salinidade ajuda a conservar a limpeza e, não fosse pela ausência de ondas, parecia que eu estava num mar (não o Oceano Atlântico, mas talvez um desses mares europeus).

As dinâmicas familiares não eram muito distintas das do Brasil. Crianças rodavam e viravam animadamente, às vezes soltando um choro repentino porque aquele outro tomou a bola. Moças e rapazes (entre eles eu) pulávamos do fim desse caminho de madeira pra dentro d’água, sorrisos lá debaixo depois que você cai e se refresca. O mais inusitado, pra mim, era ter a vista para as montanhas ali de pano de fundo. 

Issyk-Kul.
Pura badalação quirguiz. (Quem precisa de Jericoacoara?)
Vista do lago para as montanhas.
O chalme.

Max fumava com seus amigos na toalha após darem uns pulos na água. Eu rodei, nadei, virei, mas não tenho paciência pra ficar horas sem fazer nada. Max queria ficar na praia até 5h da tarde, mas numa reviravolta que teria deixado a minha avó orgulhosa — ela fazia dessas —, resolvi levantar acampamento antes. Quem estava pagando era eu.

Entre telefonemas após sairmos da areia, Maks perguntou se teria problema apanharmos duas moças para retornarem conosco no carro. Passou-me pela cabeça se, agora com dinheiro, ele resolvera pegar umas garotas de programa. No escuro, disse-lhe que não fazia objeção a dar carona, já que o banco de trás ia mesmo vazio. (Crianças, não façam isso em casa.)

Maks ainda me deixou meia hora nesse lugar aí, “pra dar uma olhada” enquanto ele ia resolver as caronas. Acabei não indo além dessas lojas de souvenirs, pois neste outro lugar os donos mercenários do pedaço cobravam uma entrada algo cara. (Nós no Brasil estamos bem habituados a praias públicas, mas mundo afora, sobretudo em países menos desenvolvidos, não é raro ver praias privatizadas.)

Maks voltou sozinho. Não explicou bem o que houve, e tocamos caminho. Na beira da pista, as duas mulheres que pegamos foram um par de mãe e filha (esta uma garota de seus 7 anos), além de um bebê. Claro que ninguém usava cinto nem cadeirinha de segurança. Pagaram um trocado para ir da metade do caminho até Bishkek. 

Satisfeito por sua sagacidade comercial, Maks dirigia alegre com o braço estendido para fora da janela segurando uma garrafa plástica contra o vento. Fez uma cara sonsa de “ops, escapuliu” quando deixou o vento levar.

Poucas coisas me deixam mais puto que ver pessoas jogando lixo na rua. Uma dessas coisas é motorista fumando dentro do carro. Então quando Maks resolveu acender um dos seus cigarros de luxo, com criança ali e tudo, eu lhe disse que jogasse fora. Ficou contrariado, sem entender, mas obedeceu.

Dali a mais um par de horas chegaríamos a Bishkek. A família ficara nos arredores da cidade. “Você amanhã vai embora, mas não vá se esquecer de mim“, disse-me Maks sem saber que viraria história. 

Nem tive a chance de me despedir de Aiya, a moça que havia comparado o Instagram a filme pornô. Dia seguinte de manhã, era hora de eu deixar o Quirguistão e rumar ao Uzbequistão. Apesar da semelhança dos nomes, ali seria uma onda diferente.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Issyk-Kul: Lago e montanhas no interior do Quirguistão

  1. Meu jovem que maravilhosas montanhas, de picos nevados e que belíssimo e gostoso lago de águas transparentes, verde -azuladas. Um espetáculo para quem ama a natureza e seus encantos e recantos. Uma beleza a região. Muito bem posto o titulo da Suíça da Ásia Central. Nem suspeitava que existia nem que era tão bela. Que bom ter um viajante corajoso e intrépido para no-la apresentar. No muito os livros de geografia tratam de um deserto pedregoso nas vizinhanças da Russia, da Mongólia e China. O senhor daria um excelente professor de Geografia meu jovem amigo, e os estudantes iriam amar a matéria. Hahaha.. Precisamos de jovens que amem a natureza. Amei a região.
    Excelente, também o resgate histórico. Muito bom. Parabéns.
    Ahahaha meu amigo, que facilidade o senhor tem de entrar em situações sui generis, hahaha e que carinha engraçado esse seu cicerone/motorista. Diverti-me com as peripécias do passeio e as performances do tal moço haha. Ainda bem que o senhor ‘tomou a frente’ da situação e saíram dali a tempo ou pelo visto ficariam até à noite hahaha. Muito divertido. E o moço entrou para a história haha. Valeu, viajante. Gostei haha.

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