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Quirguistão: Dicas de viagem, aonde ir, e o que fazer

O Quirguistão, apelidado de Suíça da Ásia, é o principal destino da Ásia Central em termos de trilhas, montanhas, lagos e natureza. Os jovens europeus têm vindo aqui cada vez mais, assim como turistas de outras partes do mundo. 

Abaixo, o balanço da minha breve visita aqui, com algumas dicas e sugestões a quem cogita vir.


  • O que mais gostou. Que os quirguizes sejam tão descolados, de bom humor, comunicativos, abertos. Lembram os mongóis e os cazaques.
  • Visita obrigatória. O Parque Nacional Ala Archa, fácil passeio bate-e-volta de um dia a partir da capital Bishkek.
  • O que não gostou. Os preços dos passeios turísticos são exagerados. Num país onde se come bem por 5 USD e passagem de ônibus interurbana pode custar menos de 1 USD, cobrar 30-40 USD por um city tour a pé ou 100-200 USD por passeios bate-e-volta de 1 dia não me parece razoável.
  • Queria ter visto mas não viu.  O lago Ala-Kul nas montanhas. Dizem ser lindo, mas requer um tempo de caminhada e uma viagem até Karakol, no leste do país (leia mais abaixo). 
  • Momento mais memorável da visita. A chegada à capital Bishkek numa manhã de céu limpo, com a magnífica vista para as altas montanhas de picos nevados como pano de fundo por trás da cidade. Impressionei-me com a paisagem, especialmente após dias nas planas estepes do Cazaquistão.
  • Alguma decepção. Que a poluição do ar seja um grave problema a ponto de até enevoar a paisagem das montanhas, e as pessoas mal se deem conta. (Deve-se a muitas usinas de carvão, além de combustíveis de baixa qualidade e motores altamente poluentes.
  • Comidas típicas. Os quirguizes são muito carnívoros. Como no Cazaquistão, o mais comum é espetinho de carne (shashlik). Pilaf (ou plov) é um arroz refogado no óleo com cenoura e carne, também típico. Mas o que eu recomendo mesmo é o baklava e outros doces típicos, semelhantes aos que você encontra também na Turquia, mas aqui com um toque diferente.
  • Bebidas típicas. Kvas, o saboroso híbrido de refrigerante com cerveja de cereal levemente fermentado, vendido por toda parte em banquinha nas ruas. Elas também vendem umas bebidas lácteas fermentadas, se você quiser ser audacioso.
  • Maiores surpresas. Que a capital Bishkek seja uma cidade até aprazível. Eu havia lido na internet que ela era horrível, e ela acabou por se revelar mais arrumadinha que a maior parte das cidades do Brasil. Belas praças, avenidas largas, belos canteiros com flores, monumentos, parques, etc. Pode não ser uma cidade nota 10, mas me foi uma cidade bem agradável onde circular.

PRINCIPAIS DICAS

 

Quando visitar o Quirguistão? Como no restante da Ásia Central, estamos num lugar de clima continental temperado, o que significa invernos rígidos e verões quentes. O mais ameno é visitar o país nas meias estações: setembro/outubro (outono) ou maio/junho (primavera). Pra quem procura um tempo fresquinho, essa é a época.

Vista para as montanhas numa tarde de verão na capital do Quirguistão.

De dezembro a março (inverno) você pode encontrar temperaturas de -30ºC. Já entre julho e agosto (verão), a temperatura sobe aos 35-40ºC. 

Eu visitei no verão. São tardes quentes como de um verão no Brasil, embora menos úmido. Você verá sites em inglês falando que é “insuportavelmente quente” ou coisas assim, mas aí é exagero escrito por pessoas que não foram criadas no Brasil. Dá pra visitar numa boa, se você não se incomodar muito com o calor. É uma época em que você também pode nadar no lago Issyk-Kul e encontrar temperaturas menos baixas no alto das montanhas, caso vá fazer trilha (ver mais abaixo sobre isso).

Visto & Imigração. Ao contrário do que dizem muitos sites por aí, brasileiros não precisam de visto para visitar o Quirguistão por até 60 dias. Não precisa tirar nenhum visto na chegada (visa on arrival); é só chegar e sair de graça mesmo. Tampouco põem qualquer adesivo no seu passaporte, só mesmo os carimbos habituais de entrada e de saída. Nem há qualquer formulário de imigração a preencher. É super simples e rápido.

Essa foi a minha experiência recente no Aeroporto Internacional de Manas, na capital Bishkek. Não posso falar da situação nas fronteiras terrestres. 

Segurança. O Quirguistão é muito sossegado para os turistas, especialmente a capital Bishkek. Você às vezes lê notícias de reboliços políticos ou certos riscos no interior, mas francamente não me pareceu nada que você sequer perceba. Passei dias tranquilíssimos aqui.

Dinheiro, Câmbio & Custos. O dinheiro quirguiz chama-se som (KGS). No alfabeto cirílico usado aqui, o do russo, escreve-se COM.

Vale mais a pena trazer dólares americanos (USD) que euros (EUR). Você troca dinheiro com muita facilidade em casas de câmbio no centro da capital Bishkek. A diferença é bastante pequena, e quase nem há variação entre as cotações de compra e venda do dólar. Para se ter uma ideia, quando eu fui, encontrei o dólar a 69,70—69,00 a compra e venda. (Verifique as cotações atualizadas antes de viajar).

Som (KGS), a moeda quirguiz. Aprox. 1 USD = 69 KGS; 1 EUR = 77 KGS.

Não espere pagar nada em moeda estrangeira, exceto passeios turísticos. As agências de viagem cotam seus passeios em USD, mas é só. No dia-dia, como restaurantes, albergues etc., todos esperarão receber em som. É possível que hotéis caros aceitem pagamento em dólar, mas provavelmente será uma cotação desvantajosa pra você.

O Quirguistão é um país barato. Você faz uma refeição pelo equivalente a USD 5. Se quiser economizar, pode comer sanduíches caprichados na rua por USD 1. Transporte coletivo de uma cidade a outra próxima pode sair também por USD 1-2. Quarto em dormitório de albergue (com café da manhã!) sai a USD 10/noite. E daí pra cima tem hoteis de todos os preços.

O caro mesmo — e que me pareceu abusivo — foram os preços dos passeios. Percorri várias agências de turismo no centro de Bishkek, e algumas delas você também encontra online. Os passeios aqui são cotados em dólares (USD), e em geral se paga um preço por pessoa, mas que diminui a depender da grandeza do grupo. Por exemplo, para fazer um bate-e-volta ao Parque Nacional Ala Archa com guia sai 100 USD por pessoa se for você sozinho. Se forem duas pessoas, baixa pra algo como 90 USD por pessoa, e por aí vai. Os valores exatos variarão a cada agência, assim como os roteiros exatos.

Passeios bate-e-volta de um dia ao Parque Nacional Ala Archa vi por 60-100 USD por pessoa, a depender do tamanho total do grupo. Passeios mais longos, também de um só dia, a pontos mais distantes como Issyk-Kul e outros lagos, a USD 150-200/pessoa.

Você consegue pelo menos a metade disso se negociar com sua acomodação e arranjar um motorista particular. A maioria das atrações no Quirguistão são natureza, então motorista é bem mais importante que guia. Eu consegui por USD 40 o motorista para me levar ao Parque Nacional Ala Archa e trazer, e por USD 100 negociei uma viagem particular de um dia inteiro ao lago Issyk-Kul (3-4h de Bishkek), parando na Torre Burana no caminho. 

Idioma. Dá pra se virar com inglês? Dá, mas sua vida ficará muito mais fácil se você investir um par de horas numa destas tardes para aprender a ler o alfabeto cirílico, da língua russa e usado também na língua quirguiz. Tudo estará escrito em cirílico, inclusive cardápios etc. Russo é a segunda língua de todo mundo aqui. Inglês é falado basicamente nas acomodações ou agências do turismo, mas não espere fluência em restaurantes etc. Se puder aprender umas palavras-chave em russo, elas virão a calhar.

Aonde ir, e quantos dias em cada lugar? 

O Quirguistão é um país relativamente pequeno (do tamanho do Paraná), mas bastante montanhoso, e o deslocamento não é o mais eficiente do mundo. O mais básico é fazer da capital Bishkek um ponto de apoio, de onde partir em outras viagens.

Praças floridas e edificações soviéticas em Bishkek.

Bishkek, a capital, é uma cidade tranquila, com belas praças, monumentos, mas nada muito estonteante (nenhuma obra faraônica recente de ditador). Eu diria que em 1 dia você circula bem pelo seu centro, vendo a pé as áreas de interesse e ganhando uma noção da cidade.

Se você gosta de visitar mercadões, pode adicionar um outro dia para ir ao Osh Bazaar e/ou passear pelo Dordoy Bazaar, este o maior da Ásia Central. Esse último fica a uns 12 Km do centro, e você pode ir de marshrutka (van lotação). Eu acabei não descolando tempo pra ir, mas dizem ser impressionante, pra quem gosta dessas experiências.

A Torre Burana, do século IX, é o monumento mais famoso do Quirguistão.

Já quem busca algo mais histórico e arquitetônico, o Quirguistão nesse sentido é bem mais modesto que seu vizinho Uzbequistão. O principal monumento restante é a milenar Torre Burana, a cerca de 1h de Bishkek. No meu post com o relato da visita, você pode ler mais sobre ela e sobre como chegar. 

A maioria dos turistas vêm cá mesmo é em busca de paisagens e natureza. Trilhas pelas lindas montanhas, vistas para lagos, ou mesmo uma noite num yurt, aquelas tendas nômades redondas aqui da Ásia Central.

A chamada Garganta do Ala Archa (Ala Archa Gorge), no parque de mesmo nome, próximo a Bishkek.

O mais fácil nesse quesito é a caminhada de um dia no Parque Nacional Ala Archa, magnífico e pertinho de Bishkek. Faz um ótimo bate-e-volta, como detalhei no post lá. Os mais intrépidos têm a possibilidade de acampar por uma noite.

Para quem busca algo mais, a Trekking Union of Kyrgyzstan é uma opção para quem gosta de trilha. Preços baixos, mas eles só saem aos fins de semana. Às vezes de quinta a domingo, coisas assim. É mais uma opção para quem chega ao país com bastante tempo. Tentei enviar-lhes um e-mail, e nunca me responderam, mas fui lá pessoalmente em Bishkek e são corteses, há quem fale inglês e tal. Vale a pena conferir o site deles talvez para ter uma noção melhor das muitas possibilidades de trilha. 

Karakol é uma cidade hub para pessoas interessadas em fazer trilhas montanhosas no leste do país. O Vale de Karakol (Karakol Valley) e Altyn Arashan são nomes a procurar. O Lago Ala-Kul é particularmente bem recomendado, mas é uma trilha de alguns dias, lá nas montanhas que servem de fronteira entre o Quirguistão e a China. Se você não tiver interesse em trilhar, não sei se vale a pena ir até lá. Aos trilheiros, busquem também pelo Lenin Peak no sul do país.

O imenso lago Issyk-Kul, a 1.600m de altitude, é uma riviera quirguiz entre as montanhas.

Issyk-Kul é o grande lago do país, com mais de 100 Km de extensão, e uma outra atração muito popular. Seu ponto mais próximo de Bishkek fica a 3h de carro desde a capital. É possível fazer num bate-e-volta ou se hospedar lá e curtir mais, se você gozar de tempo. (Cheguei a relatar o meu bate-e-volta e mostrar mais do lago aqui.) Ele é a grande riviera dos quirguizes no verão, e um ponto que gostam de recomendar aos visitantes.

Ouço dizer que o litoral sul é mais turístico, mas fui ao litoral norte e ele também recebe sua cota de visitantes, inclusive os cazaques vindos de Almaty logo ali. É legal, a água é fria para meus padrões do Nordeste do Brasil, mas não fria o bastante que você não possa curtir. Depois de uns minutos o seu corpo já superou. É ótimo para um dia quente de verão (na primavera eu acho que estará fria demais para aproveitar, mas depende da sua tolerância ao frio ou do seu gosto. Venha e verifique). O lago é levemente salino e me pareceu limpo.

Você verá ofertas de fotos e demonstração da caça com águias pela turística margem sul do Issyk-Kul, mas é algo sobre o qual eu tenho sentimentos mistos. Por um lado, eu valorizo esses meios de vida tradicionais, gosto da valorização cultural, e imagino que esses cidadãos tenham interesse na preservação das espécies de ave de rapina aqui. Por outro lado, ver essas majestosas aves empoleiradas e de olhos vendados para o entretenimento de pessoas me parte o coração e não me parece correto. A escolha será sua.

Estas são as tendas nômades das estepes da Ásia Central que os povos túrquicos (quirguizes, cazaques, uzbeques…) chamam de yurt e os mongóis chamam de ger. Esta foto foi na Mongólia, mas no Quirguistão também é possível vê-los e pernoitar num deles.

Você pode também dormir em yurts, aquelas tendas brancas redondas que os mongóis chamam de ger. É a mesma coisa. São casas de nômades, e se você não teve essa experiência ainda, é interessante. Como eu já tinha passado mais de uma semana dormindo em gers na Mongólia dois anos atrás, não fiz questão de repetir a experiência aqui, mas pode ser interessante. Inclusive, é a forma mais prática se você quer visitar Issyk-Kul com tempo. 

O lago Song-Kul também parece ser legal, mas básico: um lago circundado de campos.

Por fim, Osh é a segunda maior cidade do país, e povoada também por uzbeques. Não cheguei a ir lá, pois fica do outro lado do país. Acho que se encaixa melhor se você estiver rumando por terra ao Uzbequistão ou ao Tajiquistão, mais a sul. Os quirguizes (que podem pagar) quase sempre vão de avião. As rotas por terra existem, mas parece pouco prático, é mais no esquema aventura.

Resumo sobre duração: Para ver Bishkek propriamente dita, 2 noites. +1 noite lá se quiser fazer um bate-e-volta à Garganta do Ala Archa. +1 outra noite se quiser fazer um bate-e-volta também ao lago Issyk-Kul ou ao Song-Kul. Já se quiser ir a Osh ou trilhar nas vizinhanças de Karakol, estamos falando em uma semana ou mais. Aí sua agenda é o limite.  

Garganta do Ala Archa, próximo a Bishkek, Quirguistão.

Se você ficou com alguma dúvida, quer algum toque, ou tem alguma pergunta que eu não respondi, é só pôr abaixo nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Quirguistão: Dicas de viagem, aonde ir, e o que fazer

  1. Amei. Linda a capital, florida cheia de charme. Adorei o lago, as montanhas, gostei da torre e das histórias. Pontos Altos, as montanhas as águas e as flores. Belíssimas. Impressionantes.

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