Uzbequistão

Samarcanda (Samarkand), Uzbequistão: Joia da Rota da Seda

Há muito, muito tempo, havia uma magnífica cidade do povo de Sogdiana aqui na Ásia Central. Eram uma outra gente iraniana, prima dos persas, e que prestava tributos a esses desde que Ciro, o Grande (601-530 a.C.), rei dos persas antigos veio cá. (Ciro morreria aqui perto, às margens do Rio Jaxartes em 530 a.C.). Duzentos anos depois, Alexandre, o também Grande (356-323 a.C.), traria seus exércitos à tal cidade que eles, falantes de grego, reconheceram como Makaranda. Não acertaram a falar direito o nome com que a chamavam os sogdianos: Samarcanda (Samar-kand, “cidade de pedra”). Essa cidade continua de pé, e continua magnífica.

A Ásia Central sempre foi crucial para o comércio entre a China e as civilizações do Mediterrâneo (árabes, europeus…), passando entre persas, turcos e outros pelo caminho. Essas rotas, apelidadas na era moderna de “Rotas da Seda”, necessitaram sempre de cidades, entrepostos comerciais, mercados e alojamentos onde os caravanistas pudessem se recolher à noite. Essas estalagens ficaram conhecidas pelo nome de caravançarai (ou caravanserai), e havia muitas delas aqui em Samarcanda. Faziam as vezes de alojamento e também de armazém, pois já se iam vendendo as mercadorias pelo caminho.

(“Caravana” vem do persa karwan, para designar grupos de viajantes que desbravavam as intempéries deste clima árido e de temperaturas por vezes extremas deste meio da Ásia. Muito calor no verão, frio fatal no inverno. Saray são pátios internos, como muitos que você verá aqui, daí “caravançarai”.)

Samarcanda sempre teve um papel essencial nessas Rotas da Seda, e portanto é cobiçada há milênios. Passou de Alexandre às mãos dos persas novamente durante a Idade Média, depois às dos árabes que trouxeram o Islã. Passou aos persas outra vez, os mongóis tomaram, e por fim ficou com os povos túrquicos. Muito do que se vê aqui data de 1400-1700, quando Tamerlão — nascido aqui perto — uniu muito da Ásia Central sob seu comando e fez de Samarcanda sua capital. Os russos vieram, conquistaram esta região como parte do seu império no século XIX e depois da sua União Soviética até 1991, mas já foram embora e a cidade voltou às mãos dos túrquicos uzbeques.

Vamos lá. Algum tempo se passou e muito aconteceu aqui. Seiscentos anos depois de Tamerlão, eu pisaria ali naquele mesmo chão.       

Bem vindos a Samarcanda.
Desculpem o choque. Há o centro histórico, mas há uma cidade “moderna” de 320 mil habitantes em volta — que fique claro. A estação de trens, por onde eu cheguei, fica afastada 7 Km do centro.
A estação de trens de Samarcanda mostra o que eu chamaria de orientalismo soviético. Foi construída quando isto aqui era parte da União Soviética (1922-1991) e os russos davam as cartas, antes do surgimento do Uzbequistão como país independente (1991). (Como eu disse no post anterior, note que os uzbeques oficialmente trocaram o alfabeto cirílico da língua russa pelo latino, usado pelos seus primos turcos e pelo Ocidente.)
Interior da estação em Samarcanda. Note esse quê de monumentalismo soviético modernista misturado a um toque orientalista. (Se você achou a estação tranquila, isso é porque os uzbeques são rígidos em controlar o acesso aos interior das estações de trem, e aquela turba de vendedores e táxis é mantida lá depois dos portões.)

Foi curioso desembarcar em Samarcanda e notar que, mesmo a poucas horas de distância da capital e no mesmo país, você já parece estar em outra realidade. Muito mais Oriente Médio que aquela atmosfera pós-soviética do Cazaquistão, do Quirguistão, ou mesmo de Tashkent. Aqui os carros já buzinam loucamente na rua e fazem piruetas. Mulheres parecem desfilar ainda mais seus vestidos e lenços coloridos. Não é o véu árabe, mas o lenço turco amarrado atrás e que, frequentemente, deixa também algo do cabelo à mostra.

Por fim, tajiques (persas) misturam-se aqui aos uzbeques (túrquicos). Isto tudo aqui era um país só (União Soviética), e quando os novos países soberanos foram criados em 1991 (Uzbequistão e Tajiquistão), as pessoas não necessariamente se mudaram de onde viviam — danem-se as fronteiras. Samarcanda tem uma proporção praticamente igual de tajiques e uzbeques, que usam o russo como lingua franca para se comunicar. 

Uma legião de taxistas se oferecia no meu caminho a partir do portão da estação. É uma verdadeira Via Taxis, pois você anda bem uns 100m sob as ofertas. Como não vi sinal de ônibus, apenas do bonde n.2, resolvi topar uma corrida por praticidade. Se for ao centro, não há porque pagar mais de 20.000 soum [USD 3]. Eles quererão 30.000, mas você pode barganhar o preço. Fahrid, meu motorista, um senhor tajique, quis já acertar viagens para me levar no dia seguinte à cidade onde Amir Timur nasceu etc.

É uma cidade tajique”, foi-me falando o meu tajique motorista enquanto navegava o trânsito louco de Samarcanda. Ou ao menos estava louco naquele dia. A poeira seca subia no ar e me forçava a virar o rosto da janela do carro velho, enquanto trafegávamos nas ruas entre buzinas. Fahrid olhava para lá e para cá, menos pra mim (ainda bem). Receei quando ele puxou uma caneta para anotar seu telefone e eu lhe dei um papel — receei indiretamente provocar um acidente, mas ele soube fazer os dois: escrever no papel e dirigir em Samarcanda, mais audacioso que o proverbial assobiar e chupar cana.

Os taxistas ficam ali na botija aguardando os turistas.
Eu fotografando da janela do táxi. O nosso carro também era desse modelo.

Acomodei-me na pousada de uma família aqui em Samarcanda. Eram uzbeques. Cheguei e fui atendido pela recatada Camila, uma moça de seus 20 anos em belo vestido uzbeque vermelho e de pés descalços. Aqui há aquela distância social entre homem e mulher que não senti no Cazaquistão ou no Quirguistão. Quando veio me trazer de volta o passaporte que levara para registrar, Camila nem se atreveu a entrar no meu amplo quarto. Bateu na porta e ficou do lado de fora, embora a porta estivesse aberta.

O café da manhã aqui se revelaria maravilhoso. Há umas massas recheadas (com abóbora ou com carne moída e cebola) e fritas, primas do burek que você encontra na Turquia e pelos Bálcãs (especialmente Sérvia, Bósnia, e Macedônia do Norte). Há também um baklava meio diferente, que não é tão melado — e que, portanto, é menos doce. Saboroso, com nozes. Também há muitas maçãs, pêras, ameixas, uvas, abricós e pêssegos. É curioso que a grande maioria dessas frutas temperadas que cremos europeias são, na verdade, oriundas aqui da Ásia Central ou do Oriente Médio.

Olhem que café da manhã bem composto. (Sim, o café propriamente dito vem na tigela, e infelizmente está limitado ao café solúvel. É o calcanhar de Aquiles aqui no Uzbequistão, onde eles são mais de chá preto, mas o resto de Aquiles é muito bom.) Frutas frescas, quitutes doces e salgados, pães e ovo.
Quitute muito saboroso com recheio de abóbora bem temperada.
Baklava, só que não do jeito que você encontra pelo Oriente Próximo. Este aqui do Uzbequistão é menos melado e contém uva passa (meo deos!).
O bazar de Samarcanda, onde você pode encontrar dessas frutas e doces. Ele é como o Bazar Chorsu em Tashkent, porém menor.
As senhoras com seus vestidos e lenços coloridos.

Reconstrução facial de Tamerlão com base nos seus restos mortais, que foram exumados e depois reenterrados, aqui em Samarcanda.

Numa destas manhãs, eu fui logo visitar próximo de mim a Mesquita de Bibi Khanym (melhor mesmo visitada pela manhã, quando o sol incide sobre o seu gigantesco portal de entrada). Completada em 1404, ela é um grande exemplo da chamada arquitetura timúrida — do período de Amir Timur, o Tamerlão.

Timur ibn Taragay Barlas (1336-1405) é o grande personagem daqui. Seus seguidores o chamavam de “príncipe” Timur (emir Timur, ou Amir Timur como o chamam os uzbeques hoje, de forma respeitosa). Ele entrou para a História, entretanto, como Timur-i-Lang (“Timur, o Coxo” em persa), Tamerlane em inglês ou Tamerlão em português. Invadiu a Índia e fez um imenso império de lá até a atual Turquia tentando replicar as conquistas de Gêngis Khan. Criou o que ficou conhecido como Dinastia Timúrida de imperadores, Samarcanda a sua capital.

Enquanto que o mongol Gêngis Khan (1162-1227) antes dele havia sido xamanista, Tamerlão era islâmico, embora fosse de origem misturada túrquica e mongol. Isso significa que não faltaram novas mesquitas, madraças (escolas islâmicas) grandiosas, e mausoléus ricamente decorados — incluso para ele próprio.

Bibi Khanym, que dá nome à primeira mesquita que visitei, era sua esposa. Ela teria ordenado no século XIV a sua construção, ao lado do mercado, enquanto Tamerlão estava em campanha na Índia.

O imenso portal de entrada da Mesquita de Bibi Khanym. (Olhe eu ali.)
Portas ricamente elegantes de entrada.
O interior destes complexos quase sempre se constituem de um jardim no meio, cercado por edificações dos outros três lados além da entrada. Não funciona mais mesquita aqui, mas as lindas edificações com seus característicos domos azul-turquesa permanecem.
Neste jardim, um imenso porta-Alcorão de pedra ali no meio. É como as bases de Bíblia que às vezes se veem no Brasil. E, sim, caso alguém esteja a se perguntar, há versões agigantadas do Alcorão que caberiam ali. (O Alcorão é o livro sagrado dos islâmicos, pra quem não sabe.)

Há mesquitas e madraças a rodo por Samarcanda, em estilo parecido. Você não as verá todas, mas mesmo assim é possível que dali a um tempo se canse — um pouco como ver muitas igrejas ortodoxas nas cidades russas ou seguidos templos budistas na Tailândia. Os três lugares que você NÃO pode deixar de conferir aqui são:

  • O belo complexo de Shah i-zinda
  • A Praça Registan
  • O Mausoléu de Amir Timur (Tamerlão)

Shah-i-zinda foi um dos lugares onde eu primeiro fui. Não deixe de ir, ou vai se arrepender.

Trata-se de um magnífico complexo de mausoléus — uma necrópole — construídos do século XI ao XIX, em homenagem a personagens importantes como Shirin Bika Aga, irmã de Tamerlão, e Kusam ibn Abbas, o primo de Maomé que teria vindo aqui no século VII pregar o Islã em Samarcanda e foi decapitado por isso. Hoje, ele é tido como um mártir como o cristão St. Denis em MontMartre (monte do mártir) na França. (Ambos teriam sobrevivido à decapitação e por obra divina saído andando com suas próprias cabeças, antes de rumar ao paraíso.)

O complexo de mausoléus Shah-i-zinda em Samarcanda.
Você os tem assim muito próximos, formando um corredor esplendoroso e azul.
No recinto.
Passando por entre os mausoléus azuis em Shah-i-Zinda.
Assim.
Os detalhes. A maior parte data dos séculos XIV e XV, quando viveu Tamerlão.
Alguns interiores são assim.
A decoração ao seu redor.
Aqui, no mausoléu do missionário islâmico Kussam ibn Abbas, primo do profeta Maomé, um homem conduzia uma oração com o grupo de turistas uzbeques (provavelmente vindos de Tashkent) enquanto eu estava por ali.
Já este é o interior da cúpula do mausoléu de Shirin Beka Oka, irmã de Tamerlão. Ela faleceu em 1385; o imperador ainda viveria outros 20 anos.
Complexo Shah-i-Zinda em Samarcanda.

Estávamos no verão, e eu já comentei como o Uzbequistão é quente nessa época, especialmente nos meses de julho e agosto, quando a temperatura às vezes passa dos 40 graus. Por um lado, é tórrido, sobretudo no começo da tarde. Por outro, casa-se com aquele nosso estereótipo de imaginar as civilizações islâmicas sempre como lugares quentes (ou alguém aí imaginou Aladim de casaco no inverno?).

Eu não costumo fazer propaganda de estabelecimentos aonde vou, mas às vezes é necessário porque conta como experiência. Fazia 38 graus quando eu me assentei para almoçar na Bibi Khanym Teahouse (ao lado da mesquita), e estar à sombra de uma árvore tomando uma fresca naquele ambiente gostoso foi a glória. Você parece que está numa fábula.

A Bibi Khanym Teahouse, um restaurante ao lado da mesquita homônima, que você vê ao fundo. O jeito de tenda fazendo sombra ao sol é ótimo (mas a rainha do lugar, deixem-me dizer, é a árvore).

Nesta cultura da Ásia Central e do Oriente Médio você tanto tem assentos normais quanto plataformas elevadas, aonde você sobe sem sapatos e se senta ao redor de almofadas, com as pernas cruzadas diante de uma mesa que fica à altura do peito. 

Assim.
Pode se espraiar ali tomando uma fresca como se fosse nos tempos da Idade Média.

Você parece que está nas Mil e Uma Noites. E, de fato, algumas histórias medievais muçulmanas se passam aqui na Ásia Central, não necessariamente no mundo árabe. Aladim, por exemplo, se dá aqui, como comentei no post anterior. Leitores ou espectadores detalhistas perceberão que o conto diz se dar “na China”, alcunha que era às vezes usada na Idade Média para designar estas terras onde turcos e persas islamizados se encontravam às bordas do império chinês, com certa troca de mercadorias e intercâmbio cultural entre uns e outros.

De Bibi Khanym até a Praça Registan, coração do centro histórico de Samarcanda, há uma longa avenida tranquila, margeada por lojas de souvenirs. É coisa de 1 Km, e se você não quiser caminhar essa extensão há uns carrinhos elétricos que levam de lá pra cá e cá pra lá por 1.000 soum (R$ 0,50). 

Vamos pra lá, pois a Praça Registan está para Samarcanda como a Praça de São Pedro está para Roma.

Os carrinhos elétricos aguardando à entrada da Mesquita de Bibi Khanym. Eles saem e todo momento e cobram 1.000 som pelo trajeto entre aqui e a Praça Registan.
Eis a avenida. Essa área do centro histórico foi fechada ao tráfego de carros comuns, então ficou muito tranquila. É 1 Km da Mesquita de Bibi Khanym à Praça Registan.

A Praça Registan (do persa “lugar de areia”) é onde se centra a vida de Samarcanda há séculos. Costumava ser um espaço aberto, de chão, onde ocorriam feiras livres, pronunciamentos públicos, e também execuções. No período timúrida, construiu-se ali uma grande madraça, a Madraça de Ulugh Beg (em 1420), à qual depois se somariam outras duas em 1636 e 1660.

Hoje, Registan não é mais uma praça normal, mas um lugar cercado, uma atração turística onde você precisa pagar para entrar. Tenho sentimentos mistos acerca disso. Por um lado, é muito agradável ter aquele boulevard central totalmente para os turistas, margeado 100% por lojinhas de souvenirs e restaurantes. Por outro lado, fica algo artificial que a área histórica da cidade acabe comercializada como um grande centro de entretenimento para visitantes.

O acesso à praça é das 09 às 18h, mas nas semanas que antecedem o evento Melodias do Oriente (Sharq Taronalari), que ocorre todo fim de agosto, a abertura fica restrita a 11-17h. Não perca a hora. Custa 40.000 soums [uns R$ 20] a entrada. (A Mesquita de Bibi Khanym foi 20.000. Os demais ingressos são quase todos 15.000. Barato, mas é 1+1+1+1 e por aí vai.)

A Praça Registan, o coração de Samarcanda. Essa área arborizada é de acesso livre, mas veja que depois tem uma cerca.
Eu e lá atrás as três madraças, com o palco sendo montado para o evento anual de música tradicional Melodias do Oriente (Sharq Taronalari).
Vamos entrar. A bilheteria fica um pouco escondida, mas há umas setas indicando.
Adentrando Registan.
Vista de perto para uma das magníficas madraças da praça.
O panorama naquela manhã ensolarada de verão.
Pátio interno de uma das madraças.

As três madraças de Registan são hoje áreas abertas ao público (pagante), com lojas de souvenirs onde costumava haver classes ou estalagens para os mercadores e suas caravanas.

Fotografia de Samarcanda em 1890.
Hoje os visitantes aqui pagam para se vestir daquela forma.
Os pátios internos das madraças são sensacionais. Aquelas alcovas eram originalmente acomodações de alunos, depois viraram um caravançarai com armazéns e estalagens para as caravanas e seus produtos. Hoje, elas são lojas de souvenirs para os turistas.
Há também áreas internas cobertas, com peças de museu e mais lojas. (Cheguei numa loja a tempo de presenciar uma vendedora tentando passar como seda aqueles cachecóis coloridos escrito “100% pashmina” que você encontra por 5 dólares em qualquer lugar da Ásia. Há umas cerâmicas passadas como porcelana também. Coisa bonita, mas não vá confiado demais na qualidade. Um cidadão quis me vender uma pintura por 90 dólares. Eles são gaiatos com os preços. Aja como se estivesse barganhando na Turquia ou no mundo árabe, pois é parecido.)

Num desses pátios internos, presenciei uma maravilhosa performance musical de um grupo uzbeque ensaiando para o festival, com percussão, ritmistas e canto. Parecia uma orquestra com suas etapas. Foi quando a riqueza do legado cultural e histórico do Uzbequistão, que já me havia assaltado os olhos, assaltou-me também os ouvidos.

Deixem-se ser assaltados também. Assistam ao vídeo abaixo se quiserem conhecer a música tradicional daqui. (Como é uma espécie de ensemble musical, a música vai mudando. Mais pronunciadamente aos 1:40min, depois aos 3:20min, e por fim aos 5:11min com uma parte final que incluirá um canto feminino solo.) Que rufem os tambores.

Diz a lenda que todas às noites, às 21h, há um show de luzes sobre a Praça Registan, mas não é bem assim.

Numa dessas, eu estava bordejando por ali no comecinho da noite, quando o calor passa e os jardins próximos à praça enchem-se de famílias, crianças a correr ao redor da estátua do ex-ditador Islam Karimov, e vendedores de maçã do amor e algodão-doce como em outras  eras. Procurando onde jantar enquanto fazia hora para o show de luzes, tentei localizar algum restaurante que oferecesse mais que churrasquinho no espeto — o pão nosso de cada dia aqui dos uzbeques.

Aquela avenida tranquila desemboca nesta praça, onde as famílias reúnem-se à tardinha e à noite. Ali adiante, uma estátua do ex-ditador Islam Karimov (falecido em 2016). A avenida leva o seu nome (claro).

Acabei indo parar numa bodega, dessas onde coroas sentados sozinhos à mesa ficam lá aparentemente sem nada pra fazer, espiando uma televisão ligada no alto. Só não tem a cerveja, já que o álcool aqui é menos consumido que na América Latina (embora o seja). Alguns homens entravam e saiam, e um com cara de conversador sentado ali logo me olhou, puxando conversa em russo. Iluminou-se quando eu lhe disse que era brasileiro.

— “Ah! E você fala bem o russo!“, proclamou ele. (Mentira. Eu quebro o galho.)

— “Um pouco“, respondi tentando limitar a conversa, já que meu russo básico não me permitiria ir muito longe mesmo.

As perguntas quase sempre são as mesmas. Comentários sobre futebol, com nomes de alguns jogadores brasileiros famosos, seguidos de perguntas querendo saber como eu vim ao Uzbequistão, por onde etc., culminando com a dobradinha de se eu sou solteiro e qual a minha idade. Fazem uma cara de espanto ao saber que eu estou na casa dos trinta sem esposa. “Por quê?”, indagou-me o tio franzindo o cenho preocupado, como que aquilo fosse um problema que ele de bom grado, com a prontidão do seu caráter, poderia me ajudar a resolver se eu quisesse. Tanta solidariedade.

Chegou a comida para interromper nossa conversa. Como frequentemente acontece comigo, primeiro eu tiro a foto para registrar antes de começar a comer. Aí ele não se conteve. Não! Espere.” Mandou o menino ir buscar um pão maior, inteiro, para sair melhor na foto. “Traga um grande aí para ele tirar a foto”, comandou ele ao menino com aquele tom de freguês veterano, conhecido dos donos, que se vê à vontade para dar ordens aos adolescentes da família que trabalham no lugar.

O rapaz trouxe-me então outra quina do pão redondo, para a insatisfação do coroa. “Não…! Traga um inteiro, rapaz. Um inteiro.” Não precisava entender uzbeque. O rapaz já meio agoniado com aquela solicitação inusitada acabou por me trazer um pão grande que só posou para a foto e depois foi embora. Eu avisei que não comeria tudo aquilo. É o que vocês veem na foto aí abaixo.

À noite na bodega em Samarcanda.
Esses embrulhadinhos (mantys) são dos poucos pratos típicos que há aqui — não é uma culinária lá muito desenvolvida. O recheio é de abóbora ou de carne moída fervida (com gomos de gordura como nos velhos tempos). Acompanha creme e endro (dill, yukrop), este por influência dos russos obcecados com o gosto dessa erva. Ali na tigela, chá verde. E pão, pois eles aqui sempre comem com pão.
Fora do centro histórico, as ruas normais de Samarcanda têm esse quê popular. Muitas melancias, que alguns aqui atrevem-se a chamar de “a fruta nacional”. (Eu quis dizer a eles que sempre comi melancia desde pequeno, sem nenhuma conexão com o Uzbequistão, mas não cheguei a fazê-lo.)

Voltei a Registan para ver o tal show de luzes e música à noite. Normalmente vai das 21h às 21:30, mas eu aprendi que às vezes ocorre, às vezes não. Após a bodega, eu cheguei a tempo de assistir a um grupelho de animadas crianças de seus 4-5 anos se aproximar da balaustrada diante da praça, onde começariam as luzes que nunca aconteceram. Ficamos ali a esperar. Alguém gritou ao guarda, que respondeu que não era com ele. Por sorte eu teria outra noite aqui.

No dia seguinte, fui ao Mausoléu de Tamerlão, construído no século XV e que viria a inspirar o Taj Mahal na Índia no século XVII. É outra das atrações imperdíveis de Samarcanda, e uma envolta numa lenda soturna. 

Não me perguntem se é verdade, mas fala-se que havia a lenda de uma “maldição de Tamerlão” entre os uzbeques, semelhantes àquelas das múmias egípcias. Uma inscrição na sua tumba dizia “Quando eu levantar dentre os mortos, o mundo irá tremer.” E que “Aquele que perturbar o meu sono, desencadeará um invasor ainda pior do que eu.” Estima-se que morreram 17 milhões de pessoas nas campanhas de Tamerlão (antes dele morrer de gripe aos 69 anos), então é difícil imaginar pior.

O antropólogo soviético Mikhail Gerasimov, especialista em reconstrução facial forênsica, com base em restos mortais.

Os muçulmanos não têm o hábito de exumar cadáveres, mas eles aqui estavam sob o jugo soviético. Os comunistas não davam a menor bola para essas superstições, e Stálin teve interesse no estudo antropológico que havia encomendado sobre Tamerlão. 

O antropólogo soviético Mikhail Gerasimov com sua equipe então abriu a tumba dia 20 de junho de 1941. Isso está documentado — a avaliação cranial que levou à imagem de Tamerlão que mostrei antes foi com base nessas análises. A coincidência aí foi que dia 22 de junho de 1941 teve início a famosa Operação Barbarossa, nada menos que a maior invasão armada da História: o ataque da Alemanha Nazista à União Soviética.

Glup. Viriam a morrer mais de 20 milhões de russos nessa invasão, só para constar. 

Você aí não vai achar que alguém como Stálin — cujo próprio apelido (Stálin) quer dizer “aço” (pois seu nome real era Joseb Jugashvili) — era dado a superstições. Entretanto, em novembro de 1942 o líder soviético ordenou que reenterrassem Tamerlão. Bem naquele mês, a decisiva Batalha de Stalingrado penderia então em favor dos soviéticos, quando a maré começou a virar contra Hitler. 

Ficam aí as coincidências, e fica aqui o Mausoléu de Tamerlão (devidamente lacrado) em Samarcanda.

O esplendoroso Mausoléu de Tamerlão (Gur i Timur), feito no século XV, e que viria a inspirar o Taj Mahal no século XVII.
Entrar é permitido, e há mais uma vez lindos interiores (só não é permitido abrir a tumba de novo).

Eu, no fim das contas, conseguiria ver o show de luzes e sons na Praça Registan na minha última noite aqui. Deixo com vocês o vídeo abaixo.

Não sei sobre Tamerlão, mas a ressurgência do Uzbequistão e sua cultura centro-asiática no mundo, essa é certa.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Samarcanda (Samarkand), Uzbequistão: Joia da Rota da Seda

  1. IIIIhhhhhhh que maravilha, que cidade fantástica!… parece saída dos contos de Aladhim. Uaauu…. só falta ele aparecer no seu tapete voador. hahah. Parece que entrei em um filme haha
    Fiquei fascinada com os monumentos, suas cores, portes, linhas decorações e belos interiores. Estupendos. Difícil acreditar que são reais. Parecem parte de um filme. Belíssimos.
    Achei a cidade surpreendente, linda. Gostei de tudo.
    Adorei as largas e belas avenidas, arborizadas, achei linda a tenda com suas belas coberturas e sua magnifica e frondosa árvore,
    Adorei o belíssimo espetáculo de luzes cores e sons, na área dos monumentos.
    Impressionante historia do pais ao passar de mão em mão entre os diferentes invasores, e do “heroi” Tarmelão. Apreciei a justa independência do pais, assim como dos diversos Tãos.
    Curiosa a co-incidência, se o foi, da retirada do sossego do Tarmelao e os episódios da guerra. Eu não arriscaria na co-incidência. hahaha
    Amei o show, o ritmo as nuances, as vozes, os instrumentos e sobretudo o Maestro seus auxiliares…umas figuras … e a batuta de pandeiro hahahah uma onnnnddaaa, com direito a paradinha de escola de samba. Joaozinho 30 de vivo fosse iria adorar hahaha. Brincadeiras à parte, excelente e interessante cultura, maravilha de show. Gostei muito.
    Esses monumentos religiosos são fabulosos, impressionantes arrojados, belíssimos. Suas linhas tons e contornos sao magníficos. Uma maravilha para os olhos. Belíssima região. Nem sabia da existência de tanta beleza nessa parte do mundo. Para mim seriam só estepes. Foi preciso um jovem viajante para a descrever. Muito bom. Tomei conhecimento. Valeu. Estou aprendendo.
    Linda postagem. Deu saudade dos filmes de Aladhim.
    Obrigada, meu jovem.

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