Tajiquistão

Tajiquistão: As Montanhas Fann e o Lago de Alexandre (Iskanderkul)

Você sabia que o conquistador macedônio Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), aparece no Alcorão, livro sagrado islâmico? Embora este tenha sido escrito apenas no século VII — segundo a crença islâmica, tomando-se nota das narrativas divinamente inspiradas do profeta Maomé —, há contos muito mais antigos, como no caso da Bíblia cristã. 

Caso alguém ache “Estranho, eu nunca ouvi falar disso“, é porque nunca reparou direito. Esta é uma moeda cunhada no tempo de Alexandre com sua própria cara, como era normal. Note o chifrinho ao lado.

Uma dessas histórias é a de Zul-Qarnain (18: 83-94), ou “o de dois chifres”. Vossas cristandades já devem estar achando que é alguma referência ao capeta, tanto que nos infundiram com essa associação de chifres e o tinhoso, mas se refere aos dois chifres de carneiro que eram um dos símbolos de Amon-Rá, deus do Antigo Egito.

Quando Alexandre passou por lá, foi recebido pelos sacerdotes egípcios como um “filho de Amon”. Historiadores gregos antigos dizem que ele foi se consultar num oráculo onde hoje são os desertos da Líbia, e lá lhe disseram que seu verdadeiro pai não era Filipe II da Macedônia, mas o deus Amon. Ele acreditou. 

No Alcorão, fala-se desse “monarca pré-islâmico” na região que teria protegido dos selvagens o mundo civilizado. Muitos acreditam que se trata de Alexandre, enquanto outros dizem que é referência ao persa Ciro, o Grande (601-530 a.C.). Já os “selvagens” bárbaros eram sem dúvida os nômades da Ásia Central e do Cáucaso, onde teriam-se construído As Portas de Alexandre, uma espécie de muralha para proteger-se de invasores incivilizados.

Tomamos Alexandre como uma figura mui ocidental, mas lembrem que sua vida adulta se deu quase toda no Oriente Médio, quando expandiu-se Ásia adentro até a Índia. Ele goza de uma fama imensa nessa região, onde é em geral conhecido por variações de seu nome em árabe: IskanderIskanderkul, no atual Tajiquistão, é um magnífico lago onde dizem que ele acampou em suas campanhas, nas Montanhas Fann, no oeste do país. 

Primeiro, a quem estiver perdido na geografia, o Tajiquistão hoje está onde era Bactra naquele tempo. Os persas daqui depois se livrariam do jugo macedônio. São ancestrais dos tajiques, que falam um dialeto persa.
Hoje a cara política da região é esta. Note o Tajiquistão como é quase todo montanhoso. Faz parte dos Himalaias, mas cada segmento tem seu nome distinto. As montanhas ao norte de Dushanbe são as Fann.
A cara da região é essa. O Tajiquistão tem este terreno.

Meu dia começava, como antes, com o copioso café da manhã do albergue onde eu me hospedei em Dushanbe, a capital. Aquela mesa posta que assim ficava, repleta de pães e frutas secas, até passado do meio-dia. Membros da família circulando lá e cá por entre mochileiros ou pequenas famílias de europeus vindo conhecer o Tajiquistão.

A figura mais sui generis era a mulher da cozinha, até jovem, deveria ter seus 35 anos, embora aqueles 35 anos da roça, os pés algo calejados e o ar disperso, com seu cabeço enrolado atrás num lenço às cores da bandeira verde, branca e vermelha do Tajiquistão. Parecia meio doida. Ouvia a mesma música no repeat horas a fio, a mesma todas as manhãs em que estive lá. Era uma loucura. Eu não sei se ela ouvia a música repetida porque era doida ou era doida porque ouvia a mesma música repetir sem fim. Acho que era um círculo vicioso. Eu quase fiquei doido também.

Um dos passeios imperdíveis a partir de Dushanbe é tirar um dia para vir ver Iskanderkul, com as Montanhas Fann ao redor.

Ele é o mais famoso dentre outros lagos. Seja a partir de Dushanbe ou da cidade de Panjikent, no norte do país, se você for trilheiro pode explorar vários desses lagos e fazer caminhadas. Os mais intrépidos vão também ao oriente do país, onde estão as Montanhas de Pamir, já lá dando com os Himalaias propriamente ditos e a fronteira com a China.

Como em outras situações, a forma mais prática de vir a Iskanderkul é arranjando um motorista que faça o passeio particular. Qualquer acomodação organiza isso. O preço de USD 100 é de praxe para um bate-e-volta a partir de Dushanbe com algum tempo de espera. (Esse é o preço total, a ser dividido pelo número de passageiros, e em geral não inclui almoço. Não há tarifas de entrada nem nada disso nas montanhas. Gasolina e pedágio ficam normalmente por conta do motorista.) Há um riacho também com o nome de Alexandre e uma cachoeira próxima do lago que você não deve deixar de ver.

Achei Nima, um jovem médico britânico de origem iraniana, para dividir o preço comigo e lá fomos nós. (Já que ele falava persa, também veio a calhar para nos comunicarmos com o motorista. Exceto por alguns funcionários jovens de acomodações, não espere que ninguém aqui fale nada além de tajique/persa e russo.)

O interior do Tajiquistão é uma terra economicamente precária, tanto quanto é rica de belezas naturais.
Mulheres caminhando à beira da pista, com as lindas montanhas mais adiante.
Moça tajique e uma criança no interior do país. O Tajiquistão é o país mais pobre da Ásia Central.

Você viaja cerca de 130 Km desde Dushanbe até Iskanderkul. A maioria é numa estrada moderna, mas os últimos 20 Km são em estrada de chão. Leva ao todo umas 2h de viagem, passando por túneis — alguns deles imensos e completamente no escuro — e com vistas para a paisagem montanhosa deste Tajiquistão.

A estrada pela maior parte do trajeto é assim. Você segue com aquela linda corredeira verde ao seu lado e as montanhas à frente.
Muitos túneis pelo caminho.
A estrada na parte final até Iskanderkul fica assim.
Às vezes a paisagem aqui parece um quadro.

Nima capotara de sono no banco de trás do carro. Na frente, fui eu ao lado do nosso silencioso motorista, um sujeito quieto, homem magro de seus 45 anos com a timidez de certas pessoas caladas do interior.  

O cidadão mudo, todavia, insistia em querer fechar a minha janela. Alegava que era para evitar a poeira, sendo que nem havia tanta poeira assim, só a de uma estrada básica, e enquanto a janela dele estava bem abertinha com brisa, para ele cuspir frequentemente para o lado de fora, após segurar na boca um amassado verde de folhas de tabaco.

(As pessoas aqui, sobretudo os homens, mascam tanto tabaco que seus dentes ficam todos podres depressa com ares de ferrugem, e eles aos 40 anos ou menos já estão usando dentes de ouro como substitutos.)

Depois eu entenderia melhor essa obsessão dele anti-poeira, mas por ora tive que forçar a janela aberta com o braço, pois não estava ali onde Judas perdeu as botas para chegar lá e ficar de vidro fechado.

Olhe a paisagem que o tiozinho teve a vã esperança que eu aceitasse ver e fotografar por detrás do vidro.

Dali a pouco, chegaríamos ao Lago de Alexandre, à altitude de mais de 2.000m, com seus mais de 3 Km² de superfície de águas verdes por entre estas montanhas cinzentas ou acastanhadas. É um lugar pacato; não espere ver muitos turistas. Por enquanto, quase que só umas famílias russas e mochileiros ocasionais vêm aqui.

Mochileiro ocasional no Lago de Alexandre.
Iskanderkul, por entre as Montanhas Fann.
As águas correm gélidas para o lago. É um lago de formação glacial nestas altas montanhas.
Uma lancha com a bandeira tajique em Iskanderkul.

Próximo daqui, a cerca de 30min de caminhada, há uma bela e poderosa cachoeira. Infelizmente, não é do tipo onde dá para se banhar — embora com a gelidez dessas águas eu não sei se ninguém toparia. É uma cachoeira que despenca penhascos abaixo num cânion, e você a vê de cima. 

Fomos eu e Nima, a conversar e apreciar a vista.

Coisa modesta, assim.
O rio segue rápido; caminha-se em paralelo a ele até a cachoeira. (Não há qualquer sinalização exceto a trilha propriamente dita; mas se você usar o aplicativo Maps.me, dá pra marcar a cachoeira e seguir até ela sem erro.)
O rio, que corre aqui assim, também recebe o nome de Alexandre. Chama-se Iskander Darya em persa.
Até despencar assim pelo cânion. Daquela grade mais abaixo você vê a cachoeira (cuidado pra não deixar cair o celular…).
A cachoeira vem assim gostosamente barulhenta…
E despenca para além do arco-íris.

É uma visita pra lá de agradável. Fica só a vontade de tomar um banho nesse rio, mas não vi onde: ele é por demais rápido e frio. Pode-se molhar as pernas se você for atrevido, mas com o cuidado para não acabar levado para além do arco-íris junto com a água.

No post anterior, eu mencionei algumas leis um tanto excêntricas aqui do Tajiquistão, como a proibição de barbas. Outras pataquadas incluem a polícia lhe parar o carro se você entrar com ele minimamente sujo na capital. Para mesmo. (Não pode andar com o carro sujo na capital, mas os esgotos correm a céu aberto. Prioridades.)

Tome praticamente por garantido que, se fizer qualquer passeio, ao voltar à cidade seu motorista se deterá num lava-jato para limpar o veículo. Pode levar 10 minutos se o limparem somente por fora, ou 40 se forem aspirar poeira do lado de dentro etc. Aí eu vim entender a obsessão do meu taciturno motorista em querer que eu fechasse a janela. 

Detivemos-nos uns 10 minutos para limpar a máquina, o nosso motorista ali de camisa listrada com seu fenótipo de primo do interior do sírio Bashar al-Assad.
Brasileiros têm o hábito de pensar que certas coisas só existem no Brasil. Aqui nosso motorista enfeitava o carro com um pendante islâmico com o nome de Allah e, por via das dúvidas, também a imagem de uma rara nota roxa de 500 euros (existe, mas está pra ser tirada de circulação).
Alguém aí já tinha visto isso, pulseira de “brilhantes” enfeitando a marcha do carro?

EPÍLOGO

Meu avião de saída de Dushanbe estava repleto de adolescentes em camisas azuis, uniforme de um programa de intercâmbio com os Estados Unidos. Ao meu lado, ia sentada a sorridente — e charmosa — Safeena, aquela beleza persa de cabelos escuros e olhos pronunciados. Animada e irrequieta, a adolescente me disse que tinha o sonho de tornar-se embaixadora da ONU.

Ela questionava a necessidade de óperas e prédios pomposos em Dushanbe enquanto o povo passa necessidade. Havia aprendido inglês sozinha, enquanto ajudava a mãe viúva (de 35 anos!) e os dois irmãos menores. Agora, aos 18, ia passar um ano no Alabama terminando o ensino médio e consolidando seu inglês — e quem sabe também a sua vida. Relate este caso àquele seu amigo ou amiga que diz que “não consegue” aprender inglês. Diga que a menina filha de mãe solteira no interior do Tajiquistão conseguiu.

Safeena vinha de Pamir, a região montanhosa no leste do Tajiquistão que foi exatamente a parte do país que eu não conheci. Eles lá, no que politicamente é a Região Autônoma de Gorno-Badakhshan (abreviado GBAO), à qual se precisa de um visto adicional, têm uma origem cultural e linguística distintas. São muçulmanos ismaelitas em vez de sunitas, o que os torna algo mais liberais — nada de véus na cabeça, por exemplo. Falam também uma língua distinta do persa tajique, mais próxima do idioma pashtun afegão.

Este era um voo para mim de retorno familiar ao Cazaquistão. Safeena tinha daqui ainda uma longa rota até os Estados Unidos com seus companheiros — tudo financiado por esse programa de intercâmbio e acomodados voluntariamente por famílias americanas. (Eu disse a ela que cuidasse para não comer como eles.) Já eu retornava a Almaty para uma noite, um pit stop antes de seguir a outras bandas.

No aeroporto, me recebia a cara conhecida de Konish, o Otaviano Costa cazaque, segurando uma folha de papel com o meu nome escrito. Deu-me um abraço daqueles calorosos que os europeus em geral não sabem dar.

Quando eu vi esse nome escrito no papel eu disse ‘Eh! Esse é o meu amigo!”, disse-me ele empolgado por detrás do seu sorriso de centro-asiático, aquela cara mongol com trejeitos e roupas russas. Dali foi uma corrida breve, os sorrisos das mesmas moças cazaques do hotel, e no dia seguinte eu estaria de partida novamente. Foi quase engraçado passar a (re)ver a cara do amado-líder cazaque Nursultan Nazarbayev em vez do ditador tajique Emmomali Rahmon nos outdoors à beira da pista. Ah, Ásia Central…!

Recebi um convite para visitar quando Safeena retornar do Alabama para a sua “sweet home” em Pamir. Quando o fizer, relatarei aqui.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Tajiquistão: As Montanhas Fann e o Lago de Alexandre (Iskanderkul)

  1. Ihhh meu jovem amigo.. mais um lugar paradisíaco. Que maravilhosa água/corredeira, verde. Linda. Amo águas verdes e azuis, em particular aquelas que descem das montanhas, sempre cristalinas, puras, energizadas. Uma benção do Alto. Maravilhosas.
    Espetaculares essas magnificas montanhas. Uaaauuu. Lindas. Adoro montanhas. Essas tem belos tons, e lindas conformações. Bela, inóspita e agreste região. Quase intocada na sua pureza.
    Meu jovem, que coragem e que deslumbrante essa maravilhosa cachoeira. Imagino o ruido. Espetacular. Uaauu
    Bela e selvagem região. Maravilhosa a natureza na sua pujança, beleza selvagem e mistério. Trilhas não tao fáceis
    Amei o lago de Alexandre, de um verde divino e a tranquilidade gostosa dos lugares distantes dos ”agitos” da “civilização”. Linda a região. Convida à reflexão
    Bela a História desses povos. A Historia que se estuda aqui passa por cima de muitas informações e fatos e só faz algumas citações e comentários superficiais.
    Muitas curiosidades, vícios de autoritarismos, hábitos, culturas e manias que só se sabe indo la, ver de perto, ou tendo alguém para nos contar. hahaha. Assim como o viajante brasileiro. Valeu.
    Adorei conhece o Tajik , sua historia, sua imponente natureza e um pouco da sua gente. Obrigada. Aprendi bastante. e gostei hahah

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