Tajiquistão

Viajando pela Ásia Central: Dicas, alertas, aonde ir e o que fazer

Céus amplos, vastidão… Por aqui passavam as caravanas da antiga Rota da Seda entre a China e o Ocidente. Um lugar de natureza ainda pouco explorada e muita cultura nativa.

A Ásia Central é uma delícia, uma delícia de descobertas por uma das regiões menos visitadas do planeta. Uma cultura milenar, rica em tantos aspectos, e sobre a qual o Ocidente ainda pouco sabe. Alguns dos países daqui, muita gente nem sabe que existe.

Se você está se perguntando “onde é mesmo a Ásia Central?” e quer entender a região, estamos falando sobretudo dos “stão”, aquele grupo de países que sabemos estar lá, mas dos quais quase nada se sabe. Você pode ler detalhes na página da Ásia Central aqui no site.

Parque Nacional Ala Archa, Quirguistão.

Não há um entendimento único sobre o que é que conta como Ásia Central. Eu sigo o que a UNESCO aponta: que se trata de toda uma matriz cultural, com História compartilhada, e que abarca bem mais que os “stão” — como você vê no mapa abaixo. Casa com o que eu vi pessoalmente. 

Mesmo os “stão”, contudo, não são todos iguais. Os quirguizes e cazaques, com suas tradições nômades, vida de pastores e caçadores em yurts pelas estepes, assemelham-se mais aos parentes mongóis que aos uzbeques de tradição comercial e islâmica mais fortes, de cidades milenares onde reluzem em ladrilhos azuis minaretes altos e muralhas de barro e pedra que sobrevivem ao tempo. (Só não se veem mais os camelos, substituídos pelos motores, embora um ou outro apareça em Khiva para posar com turistas sob pagamento ao dono.) Há uma matriz cultural comum, mas também muita diversidade.

A Ásia Central, por onde passava a antiga Rota da Seda.

Eu combino minhas semanas pelos “stão” com minhas semanas na Mongólia para dar algumas dicas, fazer observações gerais e alguns alertas a quem quer conhecer esta região. Você pode ver também as dicas específicas, já postadas, nos links seguintes.

(Notem que eu ainda não visitei o Turcomenistão, nem o Afeganistão, nem o oeste da China, então elas não constam neste post. Essas áreas, entretanto, seguem sendo marginais para o turismo na Ásia Central, além de bem menos práticas de visitar. Serão integradas depois.) 

A Praça Registan em Samarcanda, Uzbequistão.

Abaixo vão as dicas e alertas, com algumas sugestões, a quem pensa em vir cá por essas terras. Primeiro, um balanço bem geral da minha estadia de algumas semanas na região.

  • O que mais gostou. De aprender sobre a riqueza cultural destes povos. Suas vestimentas coloridas, seu jeito algo aberto e despojado (contrastando com a formalidade reservada dos outros asiáticos mais a oriente), e descobrir a diversidade dessa gente sobre a qual eu nada ou quase nada conhecia. Adorei, e você se vier vai conhecer também dessa satisfação.
  • Visita obrigatória. As cidades de Bukhara e Samarcanda, no Uzbequistão. Não dá para vir e não as conhecer. Todo o mais agrega valor, mas essas duas são essenciais. 
  • O que não gostou. Dos preços dos passeios, desproporcionalmente altos (com a honrosa exceção da Mongólia). A Ásia Central é um lugar barato, onde cama em albergue custa 10 USD e você come bem por 5 USD. Os caras querem cobrar 60-150 USD por passeios bate-e-volta de meio dia ou um dia. Compare preços, e se puder arranje com quem dividir o carro para rachar os preços.
  • Queria ter visto mas não viu. Kashgar, no oeste da China, onde vive a minoria étnica  (túrquica) dos uigures.
  • Comes & bebes a experimentar. Leite de égua fermentado (airag em mongol, kumis no Cazaquistão e Quirguistão). É horrível, mas vale a experiência. No Cazaquistão, você encontra também shubat, o leite de camela. Mais na seção detalhada de Comes & Bebes abaixo.
  • Momento mais memorável da visita. Sentir-me um pensador medieval daqueles tempos das caravanas, ao estar debaixo dessas árvores sob o sol de Allah degustando algo saboroso, água jorrando na fonte, e pernas espraiadas ou cruzadas sobre o assento. Esses espaços (e sensações) você encontra muito em Samarcanda, Bukhara e Khiva, mas também nos arredores de Dushanbe ou nos restaurantes típicos em Almaty.
  • Alguma decepção. A má oferta de lembranças e produtos típicos. Há muito artesanato típico nesta cultura (tapetes, jarros, quadros…), mas como o turismo ainda é pequeno, você pouco os encontra. No Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão, você está quase restrito às lojas de aeroporto se quiser algo típico. As cidades turísticas do Uzbequistão têm oferta, mas o preços são desproporcionalmente altos. Portanto não espere a bonança-dos-sacoleiros que é sair às compras na Índia, no Sudeste Asiático, ou na Turquia. 
  • Maior surpresa. As diferenças entre os “stão”, que eu julgava serem todos muito semelhantes. Não são. (Sua diversidade se compara àquela da Europa: Espanha, Itália e França têm semelhanças, mas ninguém dirá que são todas a mesma coisa.)

Bukhara, Uzbequistão.

PRINCIPAIS DICAS

Visto & imigração. A maioria dos países da Ásia Central já se abriu ao turismo e está muito tranquila em relação a vistos e imigração. Turcomenistão e Afeganistão seguem sendo exceções, com vistos trabalhosos de obter.

Dos demais, para brasileiros ou portugueses só o Tajiquistão exige solicitação antecipada de visto, mas você o faz online num processo bastante simples. O Quirguistão já há tempos não exige visto; o Cazaquistão eliminou a necessidade de visto em 2016; e o Uzbequistão em 2019. A Mongólia é livre para brasileiros, e portugueses podem obter um visto na chegada (visa on arrival).

Cazaquistão e Tajiquistão trabalham com formulários de imigração a preencher no aeroporto antes de entrar na fila para ir ter com o oficial. O canhoto você retém e devolve no final, ao sair do país. Nos demais países nem isso, só os carimbos habituais de chegada e saída, e voilà!

Neste post eu dou os detalhes de como solicitar o visto tajique.

Garota de 4 anos a cavalgar nas estepes da Mongólia, num verão destes.

Clima, quando vir & melhor época. A principal época de turismo na Ásia Central é de abril a outubro. Toda a região tem um clima continental temperado, o que significa verões quentes (35-43ºC) e invernos muito rigorosos (-20, -30ºC). Em geral, é uma região seca onde pouco chove.

Escolher a melhor época depende de três fatores: (1) Qual parte da Ásia Central você quer visitar; (2) Sua tolerância ao frio ou ao calor; e (3) seu interesse por eventos culturais.

Mongólia e Cazaquistão, por estarem mais ao norte, têm verões mais toleráveis, quiçá até agradáveis se você gosta de sol e temperatura na casa dos 30 e algo. Junho a agosto (verão no hemisfério norte) é portanto uma boa época. Já mais a sul, no Quirguistão, Uzbequistão e Tajiquistão, os verões são tórridos e passam dos 40ºC. Eu sobrevivi, e não deixei de curtir a viagem por isso, mas não diria que é a época ideal. Maio/Junho ou Setembro me parecem mais adequados, com temperaturas mais amenas.

Você naturalmente não será o único a buscar essas épocas ideais. Ou seja, maio e setembro são os picos do turismo no Uzbequistão, por exemplo. Não me parece que seja nada pululante demais (para quem já esteve em países que recebem muito mais turistas, como na Europa), mas se você tem alergia àqueles grupos de turistas com guia, talvez queira evitar esses meses. 

Idosos em trajes típicos na abertura do Naadam, as olimpíadas anuais na Mongólia, em Ulaanbaatar.

Já se você busca experiências culturais, vale ficar ligado em certos eventos-chave e quiçá planejar a sua viagem em torno deles. Três exemplos importantes são o Naadam (as olimpíadas nômades) e o Golden Eagle Festival na Mongólia, o primeiro em julho e o segundo em outubro; e o Festival Melodias do Oriente (Sharq Taronalari) no fim de agosto em Samarcanda, no Uzbequistão. As datas exatas podem variar a cada ano, então vale a pena buscar esses eventos na internet no ano em que você for viajar.

A compra de ingressos para esses eventos nem sempre é a coisa mais clara do mundo, mas o método mais seguro é perguntar à sua acomodação. Especialmente as pousadas e albergues de família correspondem-se com você muito bem por e-mail, e geralmente estão mais que dispostos a ajudar.

Segurança. Eu às vezes acho curioso como as pessoas do Brasil — um dos países mais inseguros do mundo, líder em taxa de homicídios — muitas vezes têm receio de insegurança na Ásia. Qualquer desses países da Ásia Central (com exceção do Afeganistão, que está em guerra) é bem mais seguro que o Brasil. Inclusive, acho as cidades aqui mais seguras que algumas metrópoles europeias, como Barcelona ou Nápoles.

Olhe que lugar perigoso, com as senhoras e os jovens aqui na praça em Bishkek, Quirguistão.

Se sua preocupação é terrorismo, Paris e Bruxelas hoje em dia são muito mais arriscadas que a pacata Ásia Central. Passei um total de quase 2 meses viajando aqui e me senti inseguro um total de zero vezes. Tomam-se os cuidados básicos de sempre, mas o risco de incidentes contra turistas é mínimo.

Só tome cuidado com o trânsito no Uzbequistão, e fique de olho vivo com a polícia tajique, que é famosa por cobrar propina se você violar qualquer regra.

Idioma & trato com as pessoas. Dá pra se virar com inglês? Na questão linguística há duas realidades aqui: (1) os “stão”, que fizeram parte da União Soviética, onde cada um tem sua língua e todos falam o russo como segundo idioma; e (2) a Mongólia, onde a segunda língua é o inglês. A Mongólia nunca fez parte da União Soviética, e só os mais idosos sabem algo de russo, mas a língua de Tolstoy não é usada.

Na Mongólia, você se vira bem com inglês, especialmente na capital Ulaanbaatar. Já nos “stão”, inglês não o leva muito longe. Você sobrevive, nas acomodações há sempre um funcionário (às vezes o filho ou filha do dono) que fala inglês, mas não espere que motoristas ou atendentes de loja entendam inglês. Prepare-se para fazer mímica, apontar coisas no papel, números na calculadora, ou prepare um básico de russo, que vem muito a calhar.

Pôster com o alfabeto cirílico e crianças cazaques em Almaty.

Aprender a ler o alfabeto cirílico, usado não só no russo como também na maioria das línguas da região, provavelmente lhe custa apenas algumas horas e pode ser uma grande mão na roda. Permite-lhe perceber, por exemplo, que PECTOPAH se lê “restoran”, e de pronto entender do que se trata.

No mais, você verá que há tradições sociais bem distintas nesses países. A principal separação que vi foi entre o sul mais islamizado e o norte com suas raízes nômades xamanistas mais fortes. Os mongóis, cazaques e quirguizes são quase idênticos; falam línguas distintas, mas eles próprios dizem que de vista não sabem se distinguir uns dos outros. Na real, compartilham uma herança genética comum, e também são marcados por costumes sociais de muita equidade de gênero e pessoas despojadas.

Já o Uzbequistão e o Tajiquistão (como, imagino, também o Turcomenistão e o Afeganistão) são outros quinhentos. Muito mais islamizados, eles me lembram mais o Oriente Médio. As feições são bem menos mongolizadas; as pessoas são muito mais religiosas; homens e mulheres estão menos misturados na sociedade; e o trato me lembra mais a realidade das históricas cidades comerciais árabes, turcas ou persas. Lembram mais o Irã, o interior da Turquia, ou o mundo árabe. 

Senhoras com suas roupas e lenços coloridos no Uzbequistão.

Dinheiro do Cazaquistão, o tenge. É a moeda local mais útil na Ásia Central.

Câmbio & Moedas. Dólares americanos (USD) são claramente a moeda de melhor circulação nesta região do mundo. Euros são trocados com a mesma facilidade no Cazaquistão, mas menos nos outros. Ademais, no Quirguistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Mongólia, é habitual que os preços das acomodações e dos passeios turísticos lhe sejam cotados em dólares.

Portanto, a forma mais prática (e menos custosa com perdas nas transações) é pagar diretamente na moeda americana. A coisa é tão corriqueira que facilmente você encontra casas de câmbio com cotações quase idênticas do dólar para compra ou venda, com um spread até de menos de 1% entre compra e venda. Em Bishkek, por exemplo: 69,30 vs. 69,90. Sai quase elas por elas.

Eu cheguei até a trocar a moeda local de volta em dólares, porque a tinha em excesso. Você verá que os tenge do Cazaquistão são facilmente trocáveis nos demais países (embora não com a mesma cotação boa do dólar), mas não vá muito confiado em trocar moedas do Quirguistão no Uzbequistão, etc. O fato de eles serem vizinhos não significa que todas as moedas tenham fácil circulação pela região. A moeda desses países é melhor você usar toda antes de ir embora.

Nas transações na rua, entretanto, usa-se apenas moeda local. Se alguma loja aceitar pagamento de mercadoria em dólares, quase sempre será numa cotação desvantajosa para você — arredondado para a vantagem do vendedor. Pode fazer isso, sobretudo em loja de souvenirs se vier a calhar, mas se você fizer isso regularmente perderá dinheiro. Nos restaurantes e pela rua as pessoas esperarão ser pagas na moeda local. É diferente do Camboja ou de certas partes da América Latina onde o dólar circula corriqueiramente nas mãos do povão.

Cada país da Ásia Central tem sua moeda própria. As moedas do Quirguistão e do Uzbequistão têm o mesmo nome: som (os quirguizes leem “som” e os uzbeques falam “sum”). É um pouco como os “pesos” pelos países de colonização espanhola. Lembre que, apesar do nome igual, eles têm valores bem distintos — não os confunda. Somoni, Som, Sum, todos derivam seus nomes da Dinastia Samânida que governou esta região com muita prosperidade entre os idos de 800-1000 d.C. Já os cazaques optaram por Tengue, como o Tugrik mongol.

O melhor é vir com dinheiro em espécie. Não confie demais nos cartões. Comigo, alguns caixas automáticos funcionaram, já outros, não. Na Mongólia, meu cartão quase foi engolido. Só os estabelecimentos de maior porte aceitam pagamento em cartão; não é como no Brasil, onde partimos do princípio de que todo lugar aceita cartão. MasterCard, em especial, é muito pouco aceito no Uzbequistão e Tajiquistão; nesses países, só Visa.

Por outro lado, não exagere na dose: no Uzbequistão e no Tajiquistão há um limite de USD 2.000 que cada pessoa pode ter consigo sem declarar à alfândega. O hobby favorito da polícia é pegar turistas carregando acima desse valor, então não dê bobeira. 

Somoni, o dinheiro do Tajiquistão. Note que, curiosamente, um lado traz o valor escrito em inglês.

Custos & Acomodações. Quanto custa viajar pela Ásia Central? Relativamente pouco. O valor exato, naturalmente, dependerá do nível de conforto que você deseja. Todos esses países têm albergues dignos em suas cidades principais cobrando cerca de USD 10-15/noite, além de hotéis de linha mais caros. Há para todos os gostos. Nas cidades turísticas do Uzbequistão, em especial, há muitas pousadas e hotéis-butique bem elegantes e em conta (USD 50-60 o quarto).

Salão de café da manhã de um hotel-butique em Bukhara, Uzbequistão.

Custos de alimentação também dependem da sua expectativa. Kebabs e sanduíches na rua saem por USD 1-2, enquanto que uma refeição de garfo e faca se faz facilmente por USD 5. Daí pra cima há lugares mais requintados, é claro.

Você notará que o Quirguistão e o Tajiquistão são os países mais humildes da região. O Uzbequistão é mais segregado, pois há mais turismo; se você comer onde os uzbeques comem, sai aquele preço lá, mas hoje já há muitos outros lugares alvejando os turistas e com preço de turista. No Cazaquistão e na Mongólia as pessoas têm um nível econômico maior, então os preços sobem um pouco, mas não muito.   

Com USD 300/semana em acomodações simples você vive bem. O que mais pesa no orçamento são mesmo os passeios, que às vezes custam de USD 100 pra cima.

Voos, trens e outros transportes. Primeiro, chegar até a Ásia Central é mais fácil por grandes cidades, especialmente Almaty no Cazaquistão ou Tashkent no Uzbequistão. Há muitos voos relativamente baratos da Europa até elas — tanto quanto 200 euros por trecho se você comprar com antecipação. Se você for viajar a partir do Brasil, pode sair bem mais barato se você separadamente comprar voos de ida e volta para a Europa, e dentro desse período voos ida e volta a partir da Europa para a Ásia Central.

Trem de alta velocidade no Uzbequistão.

No caso especial da Mongólia, voos são particularmente salgados, e pode ser mais vantajoso combiná-la com uma viagem à Sibéria e entrar na Mongólia de trem, como discutirei mais abaixo na seção “Aonde ir“. 

Dentro da Ásia Central, você tem opções diferentes para se deslocar. No Uzbequistão e no Cazaquistão, há bons sistemas de trem que são a melhor opção para viagens domésticas. (Nestes posts eu expliquei como comprar passagens de trem no Cazaquistão e no Uzbequistão.) Quirguistão, Tajiquistão e Mongólia, por outro lado, dependem de ônibus povão ou, na maioria das vezes, transporte particular arranjado com sua acomodação.

Já para viajar entre um país e outro na região, o mais eficiente é ir de avião. Cruzar fronteira terrestre é se você tiver paciência e quiser aventura. Não que necessariamente dê algo errado; o normal é dar certo; mas é normal também demorar. Às vezes, de avião se chega mais rápido, embora custe um pouco mais.

A Air Astana é a principal companhia aérea na região; é muito fácil de reservar, e voei por ela diversas vezes sem problemas. A Somon Air, que tem alguns voos exclusivos ao Tajiquistão, também funciona, embora meu voo com ela tenha sofrido um atraso significativo. Mas as compras online se procedem sem problemas e o avião voa sem problemas — nada tema.

Por terra as coisas levam mais tempo, e o mais habitual são as vans lotação (eles aqui usam o termo russo marshrutka). Almaty-Bishkek é uma rota comum, e muita gente que vai à região de Pamir no Tajiquistão emenda com Osh, no Quirguistão.

A fronteira terrestre mais procurada é a de Samarcanda-Panjikent entre Uzbequistão e Tajiquistão, que reabriu em 2018 depois de muitos anos fechada. No entanto, não há trens nem transporte coletivo que a cruze: é preciso tomar um coletivo lotação ou táxi até um lado da fronteira, atravessar a pé, e tomar outro transporte equivalente do outro lado. Nada do outro mundo, factível, embora não tão simples quanto um trem de A a B. Ouço coisas boazinhas de Panjikent, embora não tenha ido lá. Eu optei pelo avião.

Página da companhia ferroviária do Uzbequistão. Neste post eu mostro como comprar passagens online.

Aonde ir, e quanto tempo em cada lugar? Vamos ao principal. Saber aonde ir na Ásia Central depende muito do seu interesse. São três os interesses principais que trazem turistas até aqui: (1) Conhecer as estepes e o estilo de vida tradicional nômade; (2) Ver as cidades históricas da Rota da Seda, com seus domos azuis e arquitetura típica; (3) Trilhar as montanhas e ver seus impressionantes lagos glaciais.

Três objetivos meritosos, mas que o levarão a lugares diferentes nesta região.

(1) Se você busca ver as estepes do centro da Ásia e conhecer de perto o estilo de vida tradicional dos nômades, a Mongólia é seu melhor destino. Ela merece uma visita dedicada, em que você vá a Ulaanbaatar (na prática a única cidade que existe no país) e de lá arrume um passeio que o leve por alguns dias pelo interior do país. Há muitos, como você pode conferir no post específico de dicas para a Mongólia. Cazaquistão e Quirguistão também oferecem algo de vida nômade, mas relativamente menos.

Estepes na Mongólia central.
Andando de camelo no Deserto de Gobi, sul da Mongólia. (Essa corcunda dele é super macia.)

(2) Já se o seu objetivo é conhecer as cidades históricas da famosa Rota da Seda, então o Uzbequistão é seu principal destino. Recomendo pelo menos uma semana no país — mais se você quiser um passo mais leve. Os detalhes de quantos dias em cada cidade você encontra no post de dicas para viajar no Uzbequistão.

A pitoresca cidade histórica de Khiva com seu grande minarete azul, no Uzbequistão.
Em Samarcanda, Uzbequistão.

(3) Por fim, para fazer trilhas longas ou curtas, andar por montanhas e ver impressionantes lagos, o Quirguistão e o Tajiquistão são os campeões com suas cordilheiras ligadas aos Himalaias. Pamir no Tajiquistão é um lugar emblemático para os aventureiros, e as Montanhas Fann, assim as Montanhas Tian Shan entre o Quirguistão, o Cazaquistão e a China, também têm seus lugares de honra. 

Mesmo quem não goza de tempo, interesse ou físico para fazer trilhas longas pode curtir caminhadas de um dia no Parque Nacional Ala Archa, nos arredores de Bishkek (Quirguistão), ou uma visita ao Grande Lago de Almaty, assim como a outros impressionantes lagos próximo dessa cidade cazaque.

Grande Lago de Almaty, Cazaquistão.
Na chamada Garganta do Ala Archa, Quirguistão.

Você precisará de pelo menos 1 mês para ver tudo numa viagem só. Acho que a Mongólia funciona melhor se combinada à Sibéria, na Rússia, e quem sabe até à China. Já os “stão” são mais próximos uns dos outros, e você pode combiná-los numa mesma viagem de algumas semanas se tiver tempo. 

Wi-fi funciona bem? Sim. Você verá mensagens de alguns anos atrás falando mal da internet na Ásia Central, mas a esta altura do campeonato as principais cidades todas já contam com wi-fi de qualidade, o suficiente até para fazer chamadas de vídeo sem problemas. Claro, varia um pouco de acomodação a acomodação, então vale a pena ver a pontuação específica para a qualidade do wi-fi se você reservá-las pelo Booking.com ou outra plataforma que mostre. O único lugar onde minha wi-fi foi meia-boca e só conectava quando queria foi em Khiva, também uma cidade pequena e remota.

No Tajiquistão, dizem que o ditador desliga a internet quando acontecem de ocorrer protestos populares, mas o normal é que funcione. Só que é fraca. Até pra carregar sites de notícias demora. (Talvez seja melhor em hoteis mais luxuosos que no meu hostel, mas por via das dúvidas melhor não esperar muito dela).

Já em lugares bem remotos, aí você provavelmente terá que contar com sinal do celular. Dá pra comprar chips locais sem dificuldade, e o sinal pega em praticamente todos os lugares mais ou menos urbanizados e em muito por onde os trens passam. Não nas montanhas, é claro. E na própria Khiva, eu vi gente suspendendo o telefone buscando sinal, igual alguns brasileiros fazem atrás de sinal da TIM.

Comes & Bebes Típicos. A Ásia Central é historicamente uma região de pastores nômades e alguns comerciantes; não é exatamente uma terra de agricultura nem grande diversidade de alimentos. Pode ser que muitas especiarias transitassem por aqui, mas pelo visto nunca caíram no gosto do povo local.

A comida centro-asiática é muita carne e coalhada — produtos animais. Aquela coisa “de raiz”: coalhada caseira e carne com gomos de gordura do jeito de antigamente. Acho que a principal diferença entre a dieta de hoje e a do tempo de Gênghis Khan é que atualmente há umas saladinhas de guarnição. Nunca vi se comer tanta carne; nem na América do Sul.

Eis algumas iguarias típicas da Ásia Central: 

  • Shashlik, espetinho de carne ou frango grelhado;
  • Lagman, uma sopa de carne de boi;
  • Manty nos “stão”, ou poze na Mongólia e na Sibéria, uns embrulhadinhos de carne moída fervida no sal (às vezes com cebola);
  • Plov (ou pilaf), um arroz refogado no óleo, com cenoura cortada e carne tipo charque;  

E, para beber, o mais característico é o leite de égua (airag em mongol; kumis no Cazaquistão e Quirguistão) ou leite de camela (shubat) fermentados. É tipo uma coalhada que você deixou do lado de fora da geladeira por uma semana até fermentar, então ganha um breve teor alcoólico. Os nativos adoram, mas tenha cuidado, seu estômago pode não gostar de grandes doses.

Eles aqui não têm tradição de café, diga-se de passagem. Tolere o café solúvel imitação do Nescafé e dê-se por satisfeito. O lance deles aqui é chá preto, por russa e britânica. 

Num supermercado no Cazaquistão, leites fermentados de camela e égua. Essa é a versão industrializada; na rua você às vezes encontra das versões caseiras mais “de raiz”.
Caso você queira algo menos pauleira, as frutas secas aqui são variadas e fascinantes.

Frutas secas são o que há nos mercados (ameixas, damascos, e tipos de uva-passa que você nunca experimentou no Natal). Experimente as opções, mas opte por comprar de trás, peça umas novas recém-tiradas do pacote, pois aquela exposta há milênios ali na banca quase sempre está cheia de poeira e seca até a morte. Eles costumam ter estoques bem mais frescos atrás da banca, mas alegremente vender-lhe-ão as coisas empoeiradas da banca se você não disser nada.

Compras. Há muita artesania típica na Ásia Central: tapetes, trabalhos em cerâmica, ornamentos em metal, tecidos, etc. Procura e acharás, mas tu às vezes terás que procurar bastante, e pode ser que aches o preço um tanto salgado. 

Na Mongólia, vá à State Department Store em Ulaanbaatar, hoje um shopping de múltiplos andares onde você acha produtos por preços aceitáveis.

No Uzbequistão, você verá produtos por toda parte, mas pechinche até não poder mais; os preços iniciais aqui, você notará, são um tanto altos. É um mercado essencialmente para turistas. Já o Cazaquistão, o Tajiquistão e o Quirguistão têm menos turismo, e suas lojas de souvenirs quase que estão restritas aos aeroportos. 

Lindas artesanias de cerâmica no Uzbequistão.
Tapetes à venda em Bukhara, Uzbequistão.

Não vale achar que tudo que eles dizem ser seda é de fato seda, hein? Esta já foi a Rota da Seda, mas aqui hoje em dia passa de tudo.


Se você ficou com alguma dúvida, quer algum toque, ou tem alguma pergunta que eu não respondi, é só pôr abaixo nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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