Polônia

A Gdansk (Polônia) de hoje e o movimento “Solidariedade” de Lech Walesa

Gdansk por muitos séculos fez história, e continuou a fazê-la em décadas recentes. A magnífica cidade que comecei a mostrar no post anterior também foi palco de capítulos históricos contemporâneos de grande importância.

Aqui teve lugar o grande movimento Solidariedade (Solidarnosc em polonês), liderado pelo vencedor do prêmio Nobel da Paz Lech Walesa, um movimento operário que contribuiu para a redemocratização da Polônia e o fim da dominação soviética na Europa. 

Fala-se muito da queda do Muro de Berlim, evento mais simbólico, mas que esteve longe de ser o começo das transformações. As transformações na verdade tiveram início aqui na Polônia, meses antes. Vamos que eu lhes conto, e falo mais das minhas voltas por aqui.

Eu no Centro de Solidariedade Europeu, hoje um museu e biblioteca pública que funciona nas fábricas onde Lech Walesa liderou o movimento pela redemocratização nos anos 80.

Eu chegava novamente à Polônia para conhecer mais do país após já ter dado umas voltas aqui no passado, pelas suas cidades principais (Cracóvia e Varsóvia). Desta vez, eu começava pela cidade portuária de Gdansk, que já foi a Danzig dos alemães, e que trocou de mão muitas vezes na História, chegando até a ser uma “cidade livre” internacional por muitos anos. 

Estamos hoje diante de uma moderna cidade portuária polonesa de meio milhão de habitantes.

No post anterior eu dei o pano de fundo; contei como esta cidade à costa do Mar Báltico foi polonesa até 1793, quando então a Prússia germânica a tomou. Não houve mais Polônia por mais de um século, até 1918 com a formação de um estado nacional polonês. Milhões de pessoas foram deslocadas durante e após a Segunda Guerra (1939-1945); alemães derrotados fugindo para oeste, e poloneses outrora massacrados agora reocupando territórios alemães.

Quase todo mundo que mora em Gdansk hoje veio para cá após 1948, muitos deles expulsos de terras que eram polonesas e foram tomadas pela então União Soviética. (Aquelas são terras que atualmente pertencem à Lituânia ou à Ucrânia, e que ainda têm expressivas minorias polonesas remanescentes).

Estamos hoje diante de uma moderna cidade portuária polonesa de meio milhão de habitantes.

Do aeroporto de Gdansk você tem uma excelente conexão por metrô de superfície para a cidade. Faz parte da rede ferroviária desta região da Pomerânia, que embora no Brasil evoque Alemanha, é na verdade um nome polonês (de “po morze”, beira mar na língua polaca). É onde estamos.
A quem precisar de orientação geográfica.
A estação de trens em Gdansk (Gdansk Glowny em polonês), remontando o estilo do maneirismo holandês do século XVII que caracteriza tanto a arquitetura desta cidade. No post anterior eu mostrei por que. O maneirismo foi o estilo artístico intermediário que nos séculos XVI e XVII fez a ponte entre o renascentista e o barroco.
Praça da estação de trens de Gdansk. Os olhos de vocês darão logo no KFC e no McDonald’s, eu sei. (Quem imaginava este Leste Europeu ainda comunista, ficou lá atrás. O tempo passou.)
Já esta escultura é importante, representando as crianças levadas embora sem seus pais em 1938-1939. Talvez essa senhora na foto tenha sido uma delas. Naqueles anos que precederam a Segunda Guerra, já de alta atividade nazista incluso aqui na então Cidade Livre de Danzig, o Reino Unido organizou a evacuação de 10.000 crianças (quase todas de famílias judias) da Europa Central. Eram adotadas por famílias britânicas, mas sem seus pais, que queriam pelo menos salvar os filhos. Imaginem a sensação. De Gdansk foram 124 crianças — uma delas Frank Meisler, o escultor desta obra “O êxodo”, inaugurada por ele já idoso em 2009. (Você acha que sua vida é difícil?).

Muita solidariedade aqui em Gdansk.

Eu chegara num setembro, teoricamente ainda fim de verão, mas já com cara — e temperatura — de começo de outono. Uns 15 graus fresquinhos, que alternavam entre sol e chuvas, algumas mais passageiras que outras, como é característico aqui das costas do norte da Europa.

Instalei-me num albergue gerenciado por uma moça emigrante ucraniana, Olga. Deveria ter seus 38 anos. Alta, forte, aquele jeito de mulher que resolve tudo em casa — e bela, com seus cabelos escuros. Como são também as mulheres russas não-princesas, ela oscilava entre um grande calor humano e uns rompantes quando se enraivecia. (Um turista chinês tomou um esporro como poucos que eu já vi.) Por debaixo daquela rispidez sisuda das ruas, os ucranianos e russos frequentemente são passionais assim, para bem ou para mal.

Desde as convulsões políticas na Ucrânia em anos recentes, cerca de 1 milhão de ucranianos já vieram cá à vizinha Polônia. O movimento de populações parece irredutível nesta região da Europa.

Sabendo-me na Polônia, não me demorei a procurar — e encontrar — uma das guloseimas polonesas de que mais gosto: queijo da montanha defumado e coberto por geleia de cranberry. É uma guloseima de rua. O queijo lembra um provolone, mas é polonês. (Cranberry, sendo uma fruta temperada, quase não goza de tradução — ou existência — no Brasil. Chamam-se oxicocos ou arandos em português, mas no Brasil acabam sendo misturadas a sabores artificiais no que se convencionou aí chamar “frutas vermelhas”. Aqui na Polônia, e noutras partes da Europa, você encontra a verdadeira.

O excepcional queijo de ovelha defumado (oscypek), oriundo das montanhas da Polônia, coberto com compota de cranberry (digo, arandos). O contraste do salgado defumado com o doce fica uma delícia, mas aprecie com moderação.
Essas guloseimas normalmente são vendidas nas rua aqui na Polônia. O queijo é grelhado na chapa. Já aquelas rodelas ali são umas fritadas de batata (Placki Ziemniaczane em polonês). Proibitivamente gostosas.

Tem uns bons free walking tours (tours gratuitos a pé, à base de gorjeta), que recomendo muito aos que entendem bem inglês. Há, inclusive, mais de um: a Gdansk clássica (onde aprendi muito do que lhes expliquei no post anterior) e a Gdansk contemporânea, com sua história recente.

Foi no segundo deles que, com um guia ligeiramente corcunda e de olhar curioso, fomos explorar o que se passou aqui da metade do século XX para cá. Escreve-se o nome da cidade em polonês com um acento no n, Gdańsk (tive que localizar como escrever isso, pois meu teclado não queria), e soa algo como se fosse “Gdânhsk”. Esse guia o pronunciava com particular dedicação, como se fosse um feitiço que precisasse ser dito com máxima precisão.

Nosso guia com seu honroso guarda-chuva amarelo de guia. Estávamos numa igreja, uma das muitas que foram restauradas ou construídas pelos mui católicos poloneses. Ali uma imagem de São João Paulo II, o ex-papa.

Gdansk tem uma história curiosa de ter sido o início oficial da Segunda Guerra Mundial — o primeiro tiro —, assim como o início do fim da Guerra Fria.

Vamos aos fatos. 

Todo estudante de Ensino Médio aprende que a Segunda Guerra Mundial teve início com a invasão da Alemanha à Polônia em 1939. Pois o primeiro combate se deu aqui, quando um navio de guerra alemão que estava estacionado em visita de repente abriu fogo contra as guarnições polonesas da Cidade Livre de Danzig. Foi a primeira batalha da guerra, a Batalha de Westerplatte. Isso fica a alguns Km do centro, nos arredores da cidade, e hoje lá há um monumento.

Na cidade, você encontra um sinistro memorial aos funcionários dos Correios executados pelos alemães já em 1º de setembro de 1939. A parede onde eles deram as costas para o pelotão de fuzilamento segue em pé, e você pode pôr as mãos onde as deles estiveram. (Se você acha estes e outros memoriais soturnos na Polônia, deve-se ao tanto pelo que eles aqui já passaram.)

Dezenas de funcionários da estação polonesa de Correios na Cidade Livre de Danzig foram aqui executados em 1 de setembro de 1939, após resistirem por 15h no prédio à polícia de assalto alemã.
A parede ainda se encontra aqui com suas marcas. O então prédio dos Correios Poloneses na cidade é hoje um museu. (Dizem que não há muito pra ver dentro, mas este exterior é de acesso livre.)  

A Alemanha perderia, e perderia junto com a guerra uma grande parcela do seu território para a Polônia, como descrevi no post anterior. À época, a Cidade Livre de Danzig que voltava ao controle polonês — e a se chamar Gdansk como na era medieval — teve sua população praticamente toda substituída. Os alemães, que formavam 90% do povo aqui, fugiram ou foram expulsos com a derrota.

Os poloneses trazidos do interior do país, e de áreas de onde foram expulsos pela União Soviética na atual Ucrânia, não sabiam nada de pesca nem de embarcações.

O curioso é que os poloneses trazidos do interior do país, e de áreas de onde foram expulsos pela União Soviética na atual Ucrânia, não sabiam nada de pesca nem de embarcações. Suas famílias não eram de marujos, então eles aqui ficaram atrapalhados. Foram se dedicar a outras coisas, como as grandes fábricas que o novo governo polonês comunista erigiria. Construiu-se já em 1946 um estaleiro que seria palco de importantes movimentações. 

Sob patrocínio da União Soviética, Gdansk tornou-se um importante pólo de indústria naval. A vida aqui seguia o ritmo que também tinha no restante do bloco comunista.

As pessoas idosas, crescidas durante o regime comunista, aqui seguem especialmente habituadas às suas cantinas que seguem em atividade pelo país, como na Rússia.
Estes lugares são ótima opção se você quiser algo autêntico e barato. São comidas polonesas do dia-dia, nada requintado: sopas cremosas, saladas, frango empanado, batatas com cogumelos, essas coisas. Pelo equivalente a 2-4 euros você faz uma refeição, a depender de quantas coisas pedir.
Tem o pequeno detalhe de que o cardápio do dia na parede está todo em polonês apenas, mas você pode tentar se expressar à moça que toma os pedidos no caixa. (Como dizia a minha professora de química, que tinha dificuldade de rolar o R e acabava falando com um sotaque meio francês: “Virrem-se“.)
Essas cantinas são chamadas de “bar de leite” aqui na Polônia (bar mleczny em polonês ou milk bar em inglês). Não espere encontrar álcool. Eles surgiram ainda no século XIX como cantinas de laticínios, mas expandiram-se como lugares econômicos onde os pobres e operários podiam fazer uma refeição nutritiva. Têm hoje um quê de legado comunista mas seguem muito populares, incluso entre os jovens. Não se surpreenda com as filas à hora do almoço.

Em 1970, houve greve e manifestações de rua contra o aumento dos preços e a inabilidade da população em pagá-los. (Você acha que protesto por aumento de tarifa é coisa de hoje?) Os manifestantes foram reprimidos, e 42 morreram. Daí nasceria uma ideia e prática que viriam a ter forte ressonância com o Brasil: a ocupação de fábricas como protestos durante regimes autoritários.

Saindo nas ruas nós ficamos vulneráveis e o movimento acaba em poucas horas, e há mais riscos de confrontos“, observou um sindicalista polonês na época. Quando novas greves e protestos eclodiram em 1980, queriam-se evitar os conflitos com a polícia ou com a milícia comunista que haviam ocorrido uma década atrás. Agora o protesto era parar as fábricas-chave para o regime, como faziam os sindicalistas brasileiros no ABC paulista durante a ditadura. Em Gdansk, você ainda hoje encontra, como registro histórico, as demandas dos operários escritas à mão numa placa de madeira à entrada do estaleiro que hoje é um museu.

A lista de demanda dos grevistas poloneses ante sua ditadura. Incluía maiores direitos políticos assim como melhoria de salários. A placa de madeira segue como registro histórico no antigo estaleiro de Gdansk, hoje um recomendado museu.

Em 1980, era fundado com sucesso o movimento Solidariedade (Solidarnosc em polonês), o primeiro sindicato livre no Bloco Comunista. Breve, quase 10 milhões de operários Polônia afora associariam-se a ele. O líder era Lech Walesa, um mero eletricista. Correspondia-se com Luiz Inácio da Silva no Brasil, o torneiro mecânico.  

Esse cidadão é Lech Walesa, na época, quando do registro do Solidariedade perante a Suprema Corte polonesa. Quando todos os sindicatos e uniões de trabalhadores eram na Polônia dominados pelo Partido Comunista, o Solidariedade surgia como primeiro sindicato independente em todo o bloco liderado pela União Soviética.

Em 1981, a resposta a essas liberdades civis foi um golpe militar dentro da própria ditadura comunista polonesa, que levou ao endurecimento e aplicação de lei marcial nas ruas. O Solidariedade virou uma organização clandestina, apoiada aqui e ali por outros críticos ao regime comunista polonês, como vossa santidade Karol Wojtyla, já Papa João Paulo II desde 1978 em Roma. 

João Paulo II em 1979, na sua primeira visita à Polônia após se tornar papa.
Em 1983, em reconhecimento à sua liderança popular por maiores direitos — e certamente também para amparar os que sofriam repressão militar na Polônia —, Lech Walesa foi então laureado com o Prêmio Nobel da Paz. O eletricista líder sindical foi tomado de surpresa. No museu do antigo estaleiro de Gdansk há vídeos de quando lhe deram a notícia na ocasião.

Em 1989, a Polônia é o primeiro país a começar a quebrar a cortina de ferro que havia caído sobre a Europa do leste e central. Em junho, eleições semi-livres elegem dezenas de candidatos do Solidariedade ao congresso. Breve as peças do dominó foram se derrubando. O exemplo polonês seria seguido, como na Hungria, antes mesmo da queda do Muro de Berlim (em novembro), evento mais famoso, mas que não foi exatamente o início da mudança.

Aqui, embora o chefe de estado continuasse a ser um general, sua posição já não era mais sustentável. Breve, Lech Walesa seria eleito então o novo presidente da Polônia, em 1990.

Você hoje pode ver e conhecer detalhes de todo este legado civil polonês no excelente museu do estaleiro de Gdansk, o Centro de Solidariedade Europeu. A visita está recomendadíssima.

Há um outro museu muito bem quisto na cidade, este sobre a Segunda Guerra Mundial, mas dizem que aqui o governo nacionalista-populista anda fazendo revisionismo histórico para entortar alguns fatos, como esconder que houve colaboracionistas poloneses. Não me consta que tenham posto as mãos no museu sobre o Solidariedade (ainda). 

(No Brasil, em 2013, o ex-deputado Paulinho da Força, hoje condenado por improbidade administrativa e com os direitos políticos cassados, fundou um partido homônimo, presidido por ele, chamado também de “Solidariedade”. A indigna referência foi inspirada no digno movimento polonês.)

O histórico estaleiro de Gdansk é hoje um museu, o Centro Europeu de Solidariedade, inaugurado em 2014. Vale muito a pena visitar.
A entrada continua recebendo suas flores e homenagens aos que sofreram na repressão — e, sobretudo, aos que ajudaram a combater o autoritarismo.
O museu contém bastante sobre a vida da Polônia no pós-guerra e durante a Guerra Fria.
Como era uma sala polonesa na época, durante os anos 1970.
Lech Walesa, com seu arquetípico bigode, se tornaria o primeiro presidente eleito pelo voto popular na Polônia (1990-1995). Ele, no entanto, parece ter enfiado os pés pelas mãos na política e se empolgado um tanto demais com as reformas de abertura de mercado típicas dos anos 90. Perdeu a reeleição em 1995, e desde então deixou de envolver-se tanto na política.
O antigo estaleiro de Gdansk é hoje o Centro Europeu de Solidariedade, que contém um museu e mais todo esse espaço de saber, com biblioteca etc.

Eu, por meu turno, daria minhas voltas por entre essas instalações industriais e as mais pitorescas ruas antigas de Gdansk, por entre os prédios de diversos momentos desta sua longa história.

Reencontrei um amigo polonês morando aqui, e fiz amizade com uma trupe de jovens mochileiros (10 anos mais novos que eu, pra eu começar a me sentir um mochileiro velho) no albergue. Um rapaz belga, um alemão, e uma garota alemã maratonista profissional e mais alta que eu — todos ainda a realizar suas primeiras viagens internacionais. Fomos comer uns pierogis (lê-se pierógui”), uns bolinhos de massa com recheio típicos na Polônia. 

À luz de velas naquela noite do outono que se aproximava, trocamos histórias. Eu tinha muitas a contar, mas tinha muitas ainda também a experimentar. Breve, tocaria meu barco. Minha próxima parada aqui na Polônia era Torun, a histórica cidade de Nicolau Copérnico. Veja vocês lá. 

Pierogis à luz de velas, estes bolinhos de massa com recheios variados, típicos da culinária polonesa. (São um pouco como as empanadas sul-americanas: você encontra de diversas qualidades, alguns mais bem feitos que outros.)
Caminhos em Gdansk.
Caso não tenha ainda ficado claro: venham conhecê-la.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “A Gdansk (Polônia) de hoje e o movimento “Solidariedade” de Lech Walesa

  1. Maravilha. Adorei. Adorei essa Gdansk mais moderna que já me era mais conhecida. Acompanhamos aqui no Brasil essa epopeia do Lech e ele era um herói aqui. Seus esforços para democratizar as relações trabalhistas e abrir o cinturão de ferro da URSS chegavam a todos os recantos e balançavam a cortina de ferro. Com razão acho que a queda da cortina de ferro começou com ele. Eramos solidários com ele, até porque padecíamos aqui com a ditadura militar que podava tudo e a todos aterrorizava. Famosa a resistência dele e, ao meu ver, merecido o Nobel. E ele era carismático, falava bem e simpático. Contava com a adesão e simpatia do Ocidente e de muitos da própria Europa do Leste. Pena que não conseguiu como governante, realizar tudo que pensava de bom para os trabalhadores poloneses mas sua atuação foi histórica. Grande líder.
    Adorei a postagem. Obrigada, viajante. que venha mais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *