Polônia

Wroclaw (ou Breslávia), Polônia: A cidade de cinco reinos na Europa Central

Breslávia é aquela cidade de grande importância histórica, mas da qual poucos de nós estrangeiros já ouvimos falar. Atual quarta maior cidade da Polônia — e uma cidade pujante de 650.000 pessoas —, ela em diferentes momentos fez parte do Reino da Hungria, da Alemanha, da coroa da Áustria, e do tcheco Reino da Boêmia antes de pertencer aos poloneses. Essas várias nações deixaram suas marcas aqui, então de certa maneira Breslávia condensa bem a alma da Europa Central.

Localização de Breslávia (ou Wroclaw como a chamam os poloneses) na Europa Central. Fica na região da SIlésia.

Tudo começou com os tchecos boêmios — que, apesar de o nome ter ganho certas conotações de “boa vida” tanto em francês (La Bohème) quanto na “boemia aqui me tens de regresso” de Nelson Gonçalves, se refere originalmente à Região da Boêmia, onde fica Praga (capital da República Tcheca) e de onde vem o nome da tal cerveja.

Os tchecos engalfinhavam-se com os poloneses por esta região fronteiriça, a Silésia, já nos idos do século X. (Ela hoje voltou a estar parte na Polônia, parte na Tchéquia.) Em 985, o duque Mieszko I, que lhes apresentei no post anterior como o primeiro monarca polonês a se converter ao cristianismo, conquista a Silésia. Boleslau I, o bravo, aquele que mandava quebrar os dentes de quem comesse carne durante a quaresma, também viria a governar aqui em seguida.

Os mongóis chegaram até a Polônia. Atacaram Cracóvia e levaram os poloneses de Breslávia a abandonar a cidade — queimando tudo — antes que as hordas de Gênghis Khan chegassem.

Breslávia trocou de mãos, mas permaneceu sobretudo polonesa até a chegada dos mongóis em 1241. Sim, vocês aí acham que eu estou viajando, os mongóis chegaram até a Polônia. Atacaram Cracóvia e levaram os poloneses de Breslávia a abandonar a cidade — queimando tudo — antes que as hordas de Gênghis Khan chegassem aqui. 

Sendo nômades, os mongóis depois foram embora, só que quem repovoou este lugar às margens do Rio Oder a partir de 1300 foram os germânicos. O que os tchecos haviam chamado de Vratislava (não confundir com a Bratislava dos eslovacos), os germânicos chamavam em alemão de Breslau. Havia, no entanto, uma mistura de povos, como era comum naquele tempo antes da ideia de estados-nação.

Tal como já havia em Poznan, se construiu a catedral numa ilha fluvial (esta aqui no Rio Oder) e fez dali um espaço fortificado protegido pela geografia. Você pode visitar hoje essa Ilha da Catedral (Cathedral island, ou Ostrów Tumski em polonês) para ver a edificação gótica católica originalmente do século XIII.  

Imagine estas terras em tempos medievais, com a ilha da catedral no Rio Oder aqui na Europa Central.
O acesso se dá hoje por uma ponte curta que você cruza a pé. Naquele tempo, a geografia ajudava a proteger-se.
Acesso à Ilha da Catedral em Breslávia. Como outras pontes na Europa, esta está também repleta de cadeados postos por enamorados fazendo seus votos.
“Se você pode sonhá-lo, você pode fazê-lo.”
Esta é a parte mais antiga de Breslávia, com a catedral ali em vista.
A gótica catedral de Breslávia, feita de tijolos no século XIII.
A Catedral de São João Batista, de 1272.
O interior da catedral.

Aqui desde aqueles tempos medievais cruzavam-se duas importantes rotas comerciais europeias: a Via Régia e a Rota do Âmbar. Esta última, norte-sul, levava âmbar do Mar Báltico até Roma, enquanto a Via Régia ia de leste a oeste cruzando as principais cidades do norte europeu, como Paris, Frankfurt, Breslávia, Cracóvia e outras.

Lugar estratégico e cobiçado, esta cidade era. No século XIV, ela seria tomada novamente pelo rei tcheco da Boêmia, que um século depois a perderia para o poderoso Matthias Corvinus, Rei da Hungria. Breslávia era um pouco de “Quem vai ficar com Mary?”(filme de 1998 com Cameron Diaz) da Idade Média.

Após 100 anos sob a coroa boêmia e outros 100 anos sob a coroa húngara, no século XIV foi a vez dos austríacos da Casa dos Habsburgo dominarem a Silésia. Foi a época da Guerra dos Trinta Anos entre católicos e protestantes, que se seguiu à Reforma, e os austríacos forçosamente deram um jeito que a cidade permanecesse católica. Trouxeram franciscanos, jesuítas, e promoveram muito do que se tornou a cara da cidade.

A pitoresca antiga prefeitura de Breslávia, ainda na sua praça central, data sobretudo do século XVI quando a cidade fez parte do império da Áustria.

Recomendo visitar a Igreja Jesuíta do Mais Santo Nome de Jesus, estabelecida aqui por essa ordem entre 1689 e 1698. É um esplendor da arquitetura barroca em Breslávia.

A igreja jesuíta de Breslávia por fora.
Por dentro, ela é um esplendor de detalhes.
Este interior barroco data de 1722-1734.
Teto pintado da Igreja Jesuíta do Mais Santo Nome de Jesus. Breslávia, Polônia.

Foi também nessa época, precisamente em 1702, que se fundou a Universidade de Breslávia. Daqui saíram nada menos que nove pensadores laureados com prêmios Nobel, entre eles o físico Erwin Schrödinger — o do famoso “gato de Schrödinger“, para os curiosos por física quântica. 

Prédio da Universidade de Breslávia no centro da cidade. Ela data de 1702.
O espadachim nu, posto aí em 1904, é um dos grandes símbolos desse campus urbano da Universidade de Breslávia. (Não faltarão turistas tirando fotos.) Não se sabe ao certo qual sua tônica; à época, a igreja achou a obra algo imoral; dizem que é um apostador de perdeu tudo — até as roupas — nos jogos de cartas, exceto a sua espada.

Quando veio a década de 1740, foi a vez de os alemães tomarem Breslávia. Não existia “Alemanha” na época; estou me referindo portanto ao Reino da Prússia, aquele que um século mais tarde lideraria a Unificação Alemã. Ele aqui já estava no início de sua expansão, e numa vitória contra a Áustria tomou-lhe a Silésia e Breslávia em 1742.

Essa fase alemã da cidade se estenderia por mais de 200 anos, até o fim da Segunda Guerra Mundial. À altura de 1900, o censo indicava que 98% dos habitantes de Breslávia eram falantes de algum dialeto de alemão — seja de origem prussiana, austríaca, ou outra. Breslau era uma das seis maiores cidades de toda a Alemanha então.

Muito dessa arquitetura de outrora se preserva na praça central renovada após a guerra — inclusive edificações que as pessoas nem se dão conta de que são originalmente alemães.

A encantadora prefeitura antiga de Breslávia, na praça hoje repleta de estilos arquitetônicos distintos. Olhem lá cinza ao fundo, por exemplo.
“Nossa, esses comunistas, horríveis, com esses prédios feios no meio da praça”, é o que quase todo mundo pensa. Não vou falar que os prédios cinzentos comunistas são bonitos, mas este aqui não é um deles. Isso é modernismo alemão dos anos 30, um banco erigido antes da Segunda Guerra e que permaneceu de pé. (Pouca gente se dá conta, mas aqueles prédios comunistas retangulares são uma versão da arquitetura modernista cinzenta e retilínea que também se via no lado capitalista do mundo durante a primeira metade do século XX, como no Empire State Building em Nova Iorque. Isso tudo foi antes de Oscar Niemeyer pregar a partir dos anos 50 a virtude das curvas, em reação.)
Claro, há partes mais bonitas na praça principal, esta que — como noutros cantos da Europa — era historicamente a praça do mercado onde as pessoas se reuniam e onde a vida política e econômica da cidade se dava.
Hoje aqui as arquiteturas se misturam nessa colorida bagagem histórica da cidade.

Quando eu cheguei a Breslávia, era chuvosa tarde de outono. Tudo cinzento, poças d’água nessas ruas, e aquela chuva com cara de que não ia passar tão cedo.

Cheguei ao albergue feito um pinto molhado — com mochilas ainda por cima — depois de andar alguns quilômetros que o separavam da “estação” rodoviária. Entre aspas porque, na prática, é um estacionamento onde os ônibus acontecem de sair e chegar. A Polônia tem beleza, mas esse lado logístico é, digamos, às vezes um tanto precário.

A “rodoviária” de Breslávia, na Polônia. (Isso debaixo de chuva fica lindo. Você compra a passagem naquelas casinholas à direita do ônibus branco, e depois espera o seu transporte ao léu.)
Trafeguei por ruas assim no meu caminho no primeiro dia.
Quando eu cheguei a Breslávia, atrevendo-me a uma selfie antes de a chuva apertar. Eu nessa altura não sabia ainda, mas chegaria ensopado.
Lugares simples, casario sóbrio na maior parte das ruas modernas de Breslávia. A bola andou desde a Segunda Guerra até cá, e a Polônia — pelo menos desde 1700 — não é dos países mais ricos do mundo.

Meu albergue era simpático, com grandes janelas por onde ver a chuva cair. Foi sorte que eu aqui permaneci alguns dias e, depois, a chuva passou. Ainda ficava aquele ar nubloso e melado de outono, todavia. Vocês podem notar que a maioria das fotos têm o céu cinzento.

Quando o sol abriu, ao fim daquele dia, encontrei Ágata, uma polonesa amiga de um amigo meu. Ele foi logo alertando que ela não fazia o biotipo supostamente típico polonês, de moças aloiradas com cara de boneco. Ágata tinha aquele físico de ciclista, alta de seus quase 1,80m, esguia, cabelos pretos com o breu caídos sobre as costas, e aquele olhar algo divertido de gente que topa fazer umas maluquices na vida.

Este lugar pode ter sido 98% germânico há 100 anos atrás, mas hoje é povoado quase que exclusivamente por poloneses trazidos para cá após a Segunda Guerra. O germanismo aqui hoje se limita à matéria inanimada, além de seus elementos na cultura comum da Europa Central. 

Estátua de Aleksander Fredro, um poeta e ensaísta polonês do século XIX, quando esta cidade era alemã. Ele, entretanto, não era daqui; sua estátua veio parar em Breslávia por outras razões.

Essa estátua não foi posta originalmente em Breslávia. Ela, como outras, simboliza as mudanças de território pelas quais a Polônia passou. A imagem do poeta ficava em Lviv, atual Ucrânia, cidade que foi polonesa antes da Segunda Guerra Mundial. Os poloneses perderam-na para a União Soviética em 1940 e ganharam esta aqui dos alemães derrotados.

O homenageado sendo polonês, a estátua foi trazida para cá. Ele representa o romantismo polonês com toques de nacionalismo, naquele século XIX em que os poloneses viveram sem terra própria, sob governos estrangeiros. Hoje estão aqui donos da cidade e a chamam de Wroclaw (que se lê vrótsuav em polonês).

Parte dos protestos contra o regime autoritário polonês foi pintar gnomos com chapéu laranja e palavras críticas pela cidade. A moda se espalhou, e hoje eles estão por toda parte em Breslávia.

Houve outras novidades, todavia. Uma delas são os gnomos que você hoje encontra por toda a cidade. (Calma, não saí a fazer maluquices com Ágata e comecei a ver gnomos.) Durante o período comunista, surgiu nos anos 80 um movimento chamado Alternativa Laranja filiado ao Solidariedade de Lech Walesa. Eu sei, laranja com política não nos evoca coisa boa no Brasil, mas aqui simbolizou um caminho do meio, nem o vermelho comunista nem o amarelo da igreja. (Para quem não sabe, a bandeira do Vaticano tem amarelo, e essa é a cor mais tradicional dos bispos cristãos desde os tempos de Constantinopla.)

Parte dos protestos contra o regime autoritário polonês foi pintar gnomos com chapéu laranja e palavras críticas pela cidade. A moda se espalhou, e hoje eles estão por toda parte em Breslávia. Viraram uma cultura pop da cidade, até com mapas e aplicativos para turistas dispostos a localizar todos que há. (Boa sorte. Dizem que já há mais de 350.)

Gnomo numa rua do centro de Breslávia.
Em banda.
Numa varanda de restaurante. Estão por toda parte. (Se você vier procurá-los, em inglês eles às vezes são chamados de dwarves, anões. É que em inglês essa palavra é usada apenas para esses anões da fantasia, não pessoas com nanismo. Em português, contudo, estão mais para gnomos, como são os gnomos de jardim.)
Eles são encontrados especialmente no centro, como neste aqui que era a zona dos açougueiros na Idade Média — meu guia de “free walking tour” fez-nos imaginar o sangue correndo por essa vala —, mas que hoje é local de lojas de souvenir.
A praça central no miolo histórico de Breslávia à tardinha.
A magnífica prefeitura da cidade ao anoitecer. Ela acompanha os gnomos com esse arroubo de arquitetura que parece pertencer a alguma fábula.

Demos umas voltas, Ágata e eu, e fomos jantar com uns amigos dela. Esse era o meu dia final em Breslávia — Wroclaw — e na Polônia, ao menos desta vez. Pretendo voltar. 

Deixo vocês com algumas imagens da cidade à noite. Eu aqui rumava agora a um país vizinho deste vizinhança centro-europeia.

A Universidade de Breslávia, iluminada à margem do Rio Oder.
Esta rua com prédio da universidade de 1700, tempos sob domínio austríaco, faz mesmo parecer que você está em Viena, na Áustria.
A praça principal de Breslávia à noite.
As barracas de flores sempre abertas, 24h, como é costume na Polônia. “Porque nunca se sabe quando alguém pode precisar de uma flor”, explicaram-me aqui.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Wroclaw (ou Breslávia), Polônia: A cidade de cinco reinos na Europa Central

  1. Ihhhhh que cidadezinha linda. Cada uma com sua beleza própria e todas muito charmosinhas. Que belo e cativante país, meu amigo viajante. E que história de interesses vários na região….. que troca de mãos … hahah. Coitado do povo que não conseguia saber a quem pertencia haha. E nós do lado de cá de nada sabíamos. Mundão, esse
    Amei essa foto de abertura. Lindo estilo e belo jogo de cores: teto verde, telhadinhos vermelhos, tijolinhos cor de telha, paredes amarelas e vermelhas, o verde das arvorezinhas, as barraquinhas e cafés coloridos… Uma delicia para os olhos.
    Adorei a Boêmia, La Bohème e a boemia hahaha , vida mansa, inclusive a cerveja que aqui no Brasil o povo gosta.
    Muito interessante essa proteção com barreiras naturais. Adoro cidades com pontes e rios. Acho românticas.
    Essa parte mais antiga é bela. Nossa, que bela, essa catedral. Que fachada magnifica…Uaauu.. Lindo e rico interior. Belissima mistura de estilos. Essa nave central é uma maravilha. Muito bonita. Gostei muito. Eita Prefeitura bonita. Parece de chocolate com pimenta verde haha fofinha. Parece mesmo saída de um conto de fadas. Que espetáculo… E a Igreja dos Jesuítas não fica para trás. Impressionantes os detalhes e riqueza do seu interior. Uma beleza !..
    Engraçados esses gnomos. Aqui são conhecidos. Mas não com essa conotação de critica. Com uma conotação mágica.
    Não tenho nenhuma simpatia por essas construções modernistas que foram seguidas pelos soviéticos. Sem graça. Arte pobre. Os estadunidenses que me desculpem mas também ao meu ver são paupérrimos em arte, em particular arquitetônica. Acho a arquitetura deles pobre e sem graça. Sou mais as curvas de Niemeyer hahaha. São graciosas.
    Coitado do senhor, meu jovem amigo viajante. Haja percalços; mas fazem parte do show diria um cantante brasileiro.
    Linda a cidade iluminada e as luzes refletindo nas águas do belo rio. . Muito bonita. E bem merecidas as luzes iluminando a casa das luzes do saber. Amei esse estilo da Universidade. Tem cara de lugar cheio de saberes. O estilo é parecido com outras da Europa.
    Bela postagem, bela região, lindo país. Valeu viajante.

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