Tchéquia

A Catedral de São Vito, o Menino Jesus de Praga e outras igrejas na capital tcheca

Praga tem um sem-fim de igrejas, na Europa creio que só comparável a Roma. E “detalhe” que quase todas são vetustas, seculares, e uma mais linda que a outra. Seriam cartão-postal de destaque em outras cidades, mas aqui você as perde entre outras 10 também lindas.

Praga geralmente é visitada muito mais pela aura geral e ruas medievais (mostradas no post anterior) que por atrações específicas, mas suas igrejas são a exceção. Delas são as raras portas por onde os turistas em Praga entram. Em geral só abandonam as lindas ruas da capital tcheca para comer, comprar algo em alguma loja, ou visitar suas igrejas.

Se você gosta de visitar igrejas antigas quando viaja, vai se desorientar e pirar na batatinha aqui em Praga. Por isso, resolvi ajudar com este breve guia. Explico também a origem dessas igrejas na história mais recente de Praga, do medievo para cá.

Interior da barroca Basílica de São Tiago Maior, de 1702. (Em inglês, Basilica of St James the Greater, ou Kostel svatého Jakuba Většího em tcheco, caso você precise procurar). Fica no centro histórico.

Uma observação rápida — e importante — sobre as igrejas em Praga é que quase todas elas estão no miolo, escondidas por entre as ruelas do centro histórico, e frequentemente não se destacam por fora. (Às vezes mal há espaço para tirar foto do exterior). Muitas vezes, tudo o que você vê é uma portinhola casual, e quando entra é aquele esplendor.

Pelas ruelas do centro histórico de Praga.
A portinhola casual da Basílica de São Tiago, em Praga.

Dado esse aperitivo, vamos agora em sequência de chamativo, a começar pela catedral.

A Catedral de São Vito (santo siciliano martirizado em 303 d.C.) é dos maiores esplendores de beleza gótica da Europa. Ela lembra algo da catedral de Colônia, na Alemanha, e de outras autênticas imensidões de época, em pedra já escurecida pelos tempos.

Ela fica no pátio interno do chamado Castelo de Praga (que é na prática uma cidadela na colina), e foi erigida a partir de 1344, quando a capital tcheca — então sede do Reino da Boêmia —foi elevada a arquidiocese. 

Senhora olhando pra cima diante da imensidão da Catedral de São Vito em Praga.
É difícil tirar uma boa foto dela de frente.
O seu interior gótico.
A Catedral de São Vito por detrás, no amplo pátio interno da cidadela do Castelo de Praga.

Nesse próprio pátio, onde você vê a catedral por trás, está uma das igreja mais antigas da Tchéquia: a Basílica de São Jorge, fundada no ano 920. Essa edificação vermelha aí abaixo.

Basílica de São Jorge, uma das igrejas mais antigas de Praga. Ela foi fundada em 920, e mais tarde restaurada em 1142 após um incêndio. Essa fachada barroca vermelha foi adicionada depois, no século XVII.

Essa basílica hoje é mais um museu, com uma capela a Santa Ludmila e exibição de objetos históricos no interior. (Cobra ingresso). Santa Ludmila foi a avó de São Venceslau, rei tcheco morto pelo irmão após a festa de São Cosme no século X e considerado um dos primeiros a abraçar o cristianismo nestas terras. Ambos são dos mais venerados santos tchecos.

Fachada lateral neoclássica com imagem de São Jorge na basílica.

Vamos agora àquela que é talvez a referência mais famosa a esta cidade nos países latinos: o Menino Jesus de Praga

Imagem original do Menino Jesus de Praga.

Muitos brasileiros podem nem saber em que país fica Praga, alguns nem fazem ideia ao certo de que Praga é uma cidade, mas milhões já ouviram falar no Menino Jesus de Praga.

Não há uma “Igreja do Menino Jesus de Praga”; a imagem se encontra na Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa.

Trata-se de uma imagem do século XVI esculpida na Espanha e trazida a Praga como dote de casamento. À época, a nobreza europeia casava-se entre si independentemente de filiações regionais. Nacionalismo não existia; importante era que fossem famílias nobres e da mesma religião.

Este Reino da Boêmia fazia parte do Sacro-Império Romano Germânico, àquela época governado não mais aqui de Praga, mas de Viena pelos imperadores austríacos da Casa dos Habsburgo. Estes tinham vínculos com os monarcas espanhóis, e os casamentos se davam entre eles. A imagem mais tarde acabou doada à Ordem dos Carmelitas Descalços, que tinham um mosteiro aqui.

Você verá muitos grupos de italianos, além de brasileiros, aqui visitando o santuário. Não há uma “Igreja do Menino Jesus de Praga”; a imagem se encontra na Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa. Esta se encontra no chamado Lado Menor (Malá Strana) da cidade, numa longa rua (Karmelitská) acompanhada de uma série de lojinhas de souvenirs.

(O engraçado é que o lugar ficou mais conhecido aqui entre os tchecos por seu nome em italiano traduzido errado, como “bambini di Praga” como se fosse no plural. Seria bambino, mas se você precisar pedir informação na rua ou perguntar a alguém, as pessoas o conhecem como bambini.)

A Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa fica nesta comprida rua, a Karmelitská, em referência à Ordem Carmelita. (Mas a igreja não é aquela grande lá no fundo, aquela é outra, que eu vou mostrar depois).
A Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa, às vezes informalmente conhecida como Santuário do Menino Jesus de Praga.
Seu interior. Ela foi construída em 1584, e está com a Ordem Carmelita desde 1624.
O Menino Jesus de Praga fica neste altar lateral. Você verá as pessoas o admirando e saberá qual é.

O Cristianismo em Praga tem uma história longeva, e mistura-se com a história do próprio país.

A atual Tchéquia, Reino da Boêmia na Idade Média, foi cristianizada nos idos do ano 900. Cheguei a contar algo no post anterior sobre as disputas e fratricídios naquele período, quando parte da nobreza havia abraçado a nova religião, mas muito do povo permanecia pré-cristão (ou pagão, como às vezes se diz, do latim paganus que queria dizer exatamente alguém rústico, de vilarejo, embora eu não goste do tom pejorativo dessa palavra).

Antes mesmo do gótico surgir, já se faziam igrejas romanescas, em estilo redondo que seguia os moldes de Roma e da arquitetura bizantina.

Esta, a Rotunda de São Martinho, no Parque Vysehrad, é nada menos que a edificação mais antiga de toda Praga. Data de 1100, de antes do início do gótico.

O Parque Vysehrad em Praga, a algumas poucas estações de metrô do centro histórico, e merece muito sua visita se você quiser passear pelas árvores ou visitar essa e outras igrejas seculares que há. Você desce na parada chamada Vysehrad.

Lá também se encontra a bela Basílica de São Pedro e São Paulo, construída já em estilo gótico a partir do século XIII. Para quem não sabe, é somente a partir dos séculos XII e XIII que o gótico surge como estilo dominante na Europa Ocidental, com seus arcos ogivais e catedrais imensas. Foi uma novidade, pois no primeiro milênio do Cristianismo se seguia a arquitetura circular romana clássica.

A vista para a grande Basílica de São Pedro e São Paulo, no Parque Vysehrad durante um inverno meu em Praga.
A entrada com suas arcadas góticas e pedras escurecidas pelo tempo.
O interior da grande basílica gótica.
Há uma riqueza imensa de afrescos aqui na Basílica de São Pedro e São Paulo, Parque Vysehrad.

Já na praça principal do centro histórico, a também gótica Igreja da Nossa Senhora em Tyn, construída na sua atual forma a partir do século XIV no lugar de uma basílica romanesca do século XI que havia ali.

Eu falei brevemente sobre ela no post anterior. Como essa igreja é circundada de outras edificações e quase impossível de fotografar do chão, trago-lhes uma foto aérea do site oficial da cidade de Praga.

Foto aérea do centro de Praga com a Igreja de Nossa Senhora de Tyn em destaque. Tyn era uma área adjacente onde mercadores estrangeiros pernoitavam. Eles patrocinaram a construção da igreja na Idade Média. (Foto do site oficial da cidade de Praga.)
Interior da Igreja de Nossa Senhora de Tyn. Dentre outros, aí está enterrado o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, que viveu em Praga.

Eu sei que a esta altura algumas pessoas podem já estar com dificuldade de tomar pé de todas essas igrejas, mas ainda há outras de destaque a mostrar.

Praga pode exalar muito do tempo medieval gótico, mas não somente.

A partir do século XV, muito mudou com a perda de poder político dos reis da Boêmia. Este reino foi conquistado e passou a ser governado à distância como parte de impérios maiores. Primeiro, pelos húngaros, e depois por muitos séculos ficariam sob a Áustria.

Concomitantemente, emergiram a arte renascentista e depois o barroco como estilos dominante. Praga tem também muito deles, como se vê nas igrejas destes séculos seguintes.

O aspecto típico de Europa Central em tantas ruas de Praga se deve aos séculos em que este Reino da Boêmia esteve sob a égide imperial da Áustria, por quase 400 anos entre 1526 e 1918.

Vamos ao pano de fundo histórico, só para contextualizar.

O protestantismo surgira com força aqui no século XV, antes mesmo da sua vertente germânica mais conhecida.

Antes de o alemão Martinho Lutero (1483-1546) publicar as suas teses contra o que via como abusos e impropriedades da Igreja Católica, o sacerdote tcheco Jan Hus — condenado por heresia a queimar na estaca em 1415 — já pregava em tcheco (em vez de latim) para alcançar um público maior, e atraía a fúria do clero com suas críticas à doutrina católica. Foi um dos predecessores do sacerdote alemão.

Jan Hus (1372-1415), reitor da Universidade Carolina em Praga e teólogo tcheco que deflagrou a chamada Reforma Boêmia. Foi excomungado por heresia e queimado na fogueira após criticar a doutrina católica.

A audácia de Jan Hus levou às chamadas Guerras Hussitas no século XV, quando seus muitos seguidores tchecos seriam atacados por cruzados católicos conclamados pelo papa a acabar com aquela heresia.

Os vizinhos alemães eram à época ainda mui católicos. E após vários ataques teutônicos, quem viu no chamado papal uma oportunidade foi o rei húngaro Matthias Corvinus, que invadiu a Boêmia para recatequizá-la e passou a ser rei da Hungria & da Boêmia a partir de 1469.

Os húngaros dali a uns anos, em 1526, sofreriam uma derrota amarga diante dos turcos otomanos noutro front. Com a morte do rei, vieram então os Habsburgo da Áustria a dominar estas boêmias terras. Seria o início de um longo período de dominação de quase quatro séculos.

Veio a Contrarreforma, o movimento católico em reação às reformas protestantes, quando surgiu a Ordem Jesuíta e tantas outras. A Igreja do São Salvador, dos jesuítas, bem diante da Ponte Carlos, é exemplo dessa época. Foi erguida entre 1578-1581.

A Igreja do São Salvador (1581), da Ordem Jesuíta, é aquela à direita. Na esquerda é a Igreja de São Francisco de Assis, barroca, inaugurada um século mais tarde em 1688.

Guerras se dariam na Europa entre católicos e protestantes, mais notavelmente a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).

Na Boêmia, o Protestantismo hussita conservava força entre os tchecos. Todavia, milhares destes protestantes boêmios foram derrotadas pesadamente pelos exércitos católicos sob liderança dos Habsburgo na Batalha da Montanha Branca (1620). Viria assim uma retomada forçosa do catolicismo imposto de fora pelos austríacos.

Agora, o “Rei da Boêmia” era um Habsburgo lá em Viena, e os austríacos alterariam bastante a cara de Praga. Foi nesse período que o Castelo de Praga abandonou seu aspecto de castelo medieval e passou a se parecer mais com a estrutura dos palácios vienenses.

Loreta é um belo convento de fachada barroca construído a partir de 1628 nas proximidades do Castelo de Praga. Seus arquitetos foram italianos, e seu nome advém precisamente da basílica na cidade de Loreto, na Itália. É um lugar singelo.

Imperava à época na Europa o mote latim Cuius regio, eius religio. Ou seja, de quem for o domínio de uma região, que se siga a sua religião, do governante, exclusivamente. Ao povo, as batatas.

Os países europeus nos séculos XVII e XVIII passaram a ter apenas uma religião aceitável. E o monarca agora sendo um austríaco católico, a religião única e oficial era o catolicismo.

É nessa época que se constroem as duas Igrejas de São Nicolau que há em Praga, uma na praça principal do centro histórico (completada em 1737), e a outra no chamado Lado Menor (Malá Strana), do outro lado do rio (de 1755). Ambas são belas em estilo barroco, como era próprio da época.

A Igreja de São Nicolau (1755) na praça do mercado no Lado Menor, com sua arquitetura barroca de época.
A outra Igreja de São Nicolau (1737), na praça principal do centro histórico de Praga.

É em grande parte devido a essa imposição estrangeira do catolicismo, e supressão do protestantismo nativo, que você hoje encontra tantas igrejas em Praga mas os tchecos são quase todos ateus, agnósticos ou espiritualistas sem grandes amores pelo cristianismo institucionalizado. (Apenas 16% dos tchecos declaram “acreditar em Deus” no sentido bíblico, a menor porcentagem em toda a Europa.)

Há ainda hoje uma Igreja Hussita tchecoslovaca, eu inclusive já trabalhei com pessoas dela, mas eles são uma pequena minoria. A Tchecoslovávia surgiria como país independente em 1918, após o fim da Primeira Guerra Mundial e a dissolução do império austro-húngaro. Em 1993, Tchéquia e Eslováquia se separariam pacificamente. 

Muitos supõem terem sido os 40 anos de comunismo que criaram o ateísmo tcheco, mas vide aí a hiper-católica Polônia e a também muito religiosa Rússia provando que essa tese é falsa. Os 400 anos de imposição estrangeira, em vez de um abraço identitário da população àquela religião, parecem ter tido um efeito 10x maior.

Os tchecos seguem hoje seu caminho — o que lhes der na telha, do catolicismo tradicional, ao materialismo, ao espiritualismo New Age da casa de chá. Quase metade da população tcheca se diz espiritualista sem filiação religiosa específica.

E Praga segue aí, com todo este legado que os tchecos e outros construíram. O que você encontra hoje são evidências dessa História.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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