Alemanha

Heidelberg: Colinas, casos e castelo medieval na Alemanha

Quando se fala em “castelo medieval”, nós das Américas somos tão viciados em cultura de massa que caímos no conto do castelo de fadas — à là Disney. Aqueles das fábulas, entretanto, com suas torres pontudas e mui inspirados no Neuschwanstein alemão, são palácios idealizados no século XIX, quando já não se atacavam castelos como outrora.

Os autênticos castelos medievais são muito mais sóbrios, e a maioria deles na Europa hoje se encontra parcialmente em ruínas. A semelhança com os das histórias é se localizarem no alto, em colinas, onde sempre foi mais fácil defender-se e monitorar o panorama ao longe.

Aqui no sudeste da Alemanha (estado de Baden-Württenberg), não longe da famosa Floresta Negra, temos a joia Heidelberg — provavelmente a cidade mais bela e interessante a se visitar neste canto do país. E ela tem seu castelo, um de verdade, que eu vim conhecer na época do Natal.

Vista para Heidelberg no fim do outono, com seu castelo lá ao longe.
Às margens do Rio Neckar, e as colinas verdes atrás.
No Natal, o centro fica especialmente aconchegante. Acho que a Europa Central tem a melhor atmosfera natalina do mundo quando chega a época.

Não são muitos os turistas que vêm aqui, embora sua beleza seja bem conhecida na Alemanha. Heidelberg é particularmente famosa por sua universidade, do século XIV, e é considerada uma cidade estudantil.

Mas umas voltas por seu casario, ponte de pedra, uma pernada pela chamada Via do Filósofo pelas colinas com vista para a cidade na outra margem do rio, uma subida ao castelo… tudo isso agrada ao visitante. E ela é de fácil acesso, a apenas 78 Km de Frankfurt.

Eu vim aqui para um par de dias, aproveitando-me para reencontrar duas amigas. Sendo dezembro, o sol pouco abriu. É aquela época escura, quieta e fria, que torna o Natal ainda mais necessário com suas luzes, bebidas quentes, e calor humano. 

Feirinha de Natal cá embaixo, no centro da cidade, e o castelo lá no alto. (Eu sei que parece coisa de cinema, ou foto promocional de alguma brochura, mas é a realidade daqui.)

Desde o século V a.C., havia presença celta nesta região, aonde viriam legiões romanas nos idos do nascimento de Cristo. Em 40 d.C., os romanos construiriam um forte e se instalariam aqui até 260 d.C., quando então povos germânicos — não mais celtas — conquistaram estas terras. Permanecem aqui desde então.

O abraço ao Cristianismo se deu mais cedo aqui nestas terras ocidentais que no leste da Europa, então desde 863 já havia um Mosteiro de São Miguel. Novos mosteiros surgem, o castelo se erige, e a cidade é oficialmente fundada em 1196.

Heidelberg então fazia parte de um condado chamado Palatinado do Reno, que depois trocou de nome para Eleitorado do Palatinado — em referência ao seu conde ser um dos monarcas com direito de voto para escolher o sacro-imperador romano germânico. Em 1386, Conde Rupert I, “o ruivo”, fundaria aqui aquela que é a universidade mais antiga da Alemanha. Daí o pedigree educacional de Heidelberg.

Falando em Idade Média, a cidade tem um excelente Museu Alemão das Farmácias (Deutsches Apotheken Museum) em pleno castelo na colina. Vamos até lá?

O Castelo de Heidelberg com sua torre, a bandeira amarela e preta do estado de Baden-Wurttemberg, e a vista para o rio e as colinas.
A frente ganhou uma fachada neoclássica séculos mais tarde, como ocorreu com muitos castelos na Europa.
Num dos seus pátios, a placa para o Museu Alemão das Farmácias no interior. É um museu curioso e interessante de visitar, para quem gosta de antiguidades e de Idade Média.
Como era uma antiga apoteca, ou farmácia, com muitos frascos, instrumentos manuais de medição, e até um jacaré dependurado ali. A medicina sempre se misturou muito ao místico e também ao mágico.
Jesus Apotecário, quadro austríaco do século XVIII.

Os conhecimentos de saúde são compilados desde a Antiguidade na China, na Grécia, e na Pérsia, dentre outros. Inclusive, os nomes “medicina” e “médico” originalmente referiam-se às pessoas e coisas da Média, uma região que viria a ser incorporada pela Pérsia.

A primeira farmácia como tal surge, entretanto, em Bagdá em 774 d.C., durante a idade de ouro da civilização islâmica. Enquanto a Europa era pobre e caía no obscurantismo religioso, os árabes resgatavam os saberes greco-romanos e persas da Antiguidade, construíam sobre eles, e constituíam as primeiras farmácias no medievo.

A base mais estabelecida no medievo ocidental ainda era a de Cláudio Galeno (129-217 d.C.), médico pessoal do imperador romano Marco Aurélio, e que desenvolveu a Teoria dos Quatro Humores. Segundo ele compilou, a saúde humana é determinada pelo equilíbrio entre quatro fluidos corporais (sangue, fleuma, bile negra e bile amarela), que ele então associou a temperamentos (sanguíneo, fleumático, colérico, e melancólico). 

Os temperamentos foram associados a signos do zodíaco e aos quatro elementos da natureza, como você vê nesse diagrama antigo aqui no museu.
Os Quatro Apóstolos (1526), onde o pintor alemão Albrecht Dürer depois relacionaria os humores também aos seguidores de Cristo. (Se você está curioso, nessa associação João seria o melancólico, Pedro o sanguíneo, Paulo o colérico, e Marcos o fleumático. Sim, o pintor trocou Lucas por Paulo.)
Uma apoteca ou farmácia antiga, no Castelo de Heidelberg. Elas viriam a se tornar cada vez mais comuns na Europa, conforme os conhecimentos árabes eram trazidos por via da Espanha moura ou dos mercadores italianos.
A vista para Heidelberg lá embaixo, por entre a fortificação do castelo.
A pose do cidadão lá no alto.

Sobe-se até aqui num funicular, caso você esteja se perguntando. Já a quem gostaria de esticar as pernas, minha sugestão é percorrer a chamada Via do Filósofo (Philosopher’s Way, ou Philosophenweg em alemão) na outra margem do rio.

Nada puxado demais, só uma caminhada de 2,5 Km numa trilha com vista para a cidade. Você inicia próximo à Bismarckplatz e retorna ao rio pela ponte da cidade velha. Dizem que muitos pensadores ao longo dos séculos fizeram esse caminho para se inspirar no contato com a natureza.

A vista lá de cima para a cidade. Você logo sobe e faz o trajeto quase todo lá no alto.
A famosa Via do Filósofo (Philosophenweg) em Heidelberg, por onde caminhavam muitos pensadores para espairar. Ela certamente fica mais verdejante em outras estações do ano, mas mesmo em dezembro tem seu charme.
Todo prosa lá no alto.
O castelo e a cidade lá embaixo, na outra margem do Rio Neckar. Você segue até aquela ponte de pedra, a Ponte Velha (Alte Brücke).
Esta Ponte Antiga não é tão velha assim, data de 1788. Isso é porque ela substituiu pontes anteriores que aqui haviam. Dizem que esta é a nona.
Reparem nesta obra, feita já em 1788 pelo alemão Konrad Linck. Notem o castelo lá ao alto, e os portões da cidade.
Os portões de Heidelberg continuam de pé, e não mudaram tanto assim.

O centro histórico quase todo tem um aspecto barroco, como talvez você já note pela foto acima. Isso é em parte porque Heidelberg foi palco de guerras durante o século XVII, e a maioria dos prédios é posterior.

Já me referi em posts anteriores à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), entre católicos e protestantes na Europa. Foi um confronto que envolveu toda a Europa Central e mais o Reino da Suécia, que à época era poderoso e imperialista. Convertidos ao protestantismo, os suecos associaram-se aos holandeses e aos germânicos e tchecos protestantes para combater os germânicos católicos, liderados pelos Habsburgo da Áustria. 

O imperador em Viena decretou a nulidade das posses e títulos nobiliárquicos de Frederico V, que fugiu para Haia em 1622 para ser abrigado pelos Nassau.

O fumar da cobra foi porque Frederico V, um protestante e monarca deste Palatinado do Reno, aceitou o pedido dos protestantes da Boêmia (atual Tchéquia) para que se tornasse o seu rei. Os boêmios, já então governados desde Viena pelos Habsburgo, mandaram seu rei Habsburgo católico ir pastar. 

Frederico aceitou, se tornou Rei da Boêmia em 1619, mas naturalmente os Habsburgo não aceitaram isso calados. Frederico V passou a ser apelidado de “Rei do Inverno”, pois só reinaria na Boêmia por um inverno até 1620. A guerra estourou.

O imperador em Viena decretou a nulidade das posses e títulos nobiliárquicos de Frederico V, que fugiu para Haia em 1622 para ser abrigado pelos Nassau na Holanda. O Maurício de Nassau que viria ao Brasil era um adolescente à época. Os holandeses já haviam se tornado calvinistas.

Os suecos conquistaram Heidelberg em favor dos protestantes em 1634, mas ela seria logo retomada pelas forças católicas do Sacro-Império — que contudo não conseguiu tomar o castelo na colina. Estavam a ponto de explodi-lo com pólvora, quando chegou a cavalaria francesa (então ao lado dos protestantes) acompanhada de 30 mil homens.

Frederico V, Eleitor Palatino (1596-1632).

Frederico V morreria em exílio em 1632, e somente após o fim da guerra em 1648 o seu filho conseguiria retomar suas posses, títulos e terras.

Aí veja o quiprocó que se iniciaria: escabriado, para se fortalecer esse cidadão achou de casar sua filha com o irmão do poderoso Luis XIV, da França. Casaram-se. Só que quando o filho homem —neto de Frederico V — morreu, o marido francês da irmã achou-se herdeiro destas terras. Ou melhor, Luis XIV achou-se herdeiro dessas terras.

O rei absolutista francês atacou Heidelberg por diversas vezes, ela que se tornou campo de batalha no que passou para a História como A Guerra dos Nove Anos (1688-1697). Moral da história: cuidado com quem você se associa nas horas de necessidade.

Heidelberg retornaria às mãos católicas, e o rei francês retornaria às suas terras. Os prussianos protestantes conquistariam a cidade e estas terras em 1850, mas aí religião já não ditava tanto: o nacionalismo estava em voga, e o que valia agora era o ideal de um país nacional chamado Alemanha, que se formaria em 1871.

Ruas do centro de Heidelberg, com seu aspecto do período barroco e tons pastéis típicos da Europa Central.
A praça principal de Heidelberg, chamada Praça do Mercado. Quem continua gótica e medieval, entretanto, é sua Catedral do Espírito Santo, edificada a partir de 1398.
Interior da gótica Catedral do Espírito Santo (1398) em Heidelberg.
Feirinha de Natal em Heidelberg, por entre seu casario. 1/3 da população aqui é católica, e por razões históricas o catolicismo permanece a religião mais presente na cidade, mas há muitos sem religião. O Natal na Alemanha, contudo, se tornou uma instituição supra-crença, amada por praticamente todos independentemente de filiação religiosa.
Enfeites e luzes de Natal no centro de Heidelberg em dezembro.
As casinhas tradicionais de madeira vendendo produtos típicos — e, hoje em dia, quase de tudo. Não podem faltar biscoitos de especiarias nem vinho quente (glühwein).
Muitas formas para os biscoito típicos do Natal pela Europa Central. Dos tradicionais de madeira aos atuais de metal.
Luzes e estrelas coloridas.
Durante o dia.

Dei umas boas voltas aí. Tomei uns quentões, e fui jantar com minhas amigas num restaurante mexicano (pois hoje o mundo é globalizado) que, no entanto, era bem mequetrefe (pois comidas continuam sendo melhor feitas nos seus lugares de origem).

Boa época de Natal para vocês. 

Nas feirinhas, com a vista para o castelo iluminado lá em cima.
Heidelberg. 
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Heidelberg: Colinas, casos e castelo medieval na Alemanha

  1. Magnifica essa belíssima cidade , com seu belo e tranquilo rio, com seus portões medievais, sua lindas ruelas, seu casario claro de telhadinhos vermelhos, sua vetustas e charmosas pontes, seu funicular, suas pracinhas aconchegantes, sua bela estação, sua charmosa avenida onde se reúnem as barraquinhas para as vistosas e lindas feirinhas de Natal. Cheia de luzes de cores, de alegria e festivas barraquinhas com gostosas guloseimas, castanhas assadas e o saboroso quentão . uma maravilha para os olhos o paladar e o espírito. Uma festa de luzes e cores. Uma delicia de cidade. E tudo isso sob o olhar iluminado do seu belíssimo e historico castelo Medieval, com a sua via dos Philosofos , seu interior interessante e a sua maravilhosa Pharmacia ou Apoteka, com tesouros da sabedoria e da ciências dos Muçulmanos que durante a Idade Media brilharam com a ciência,, adivinda de um Galeno ou de Arquimedes a que eles se dedicaram a aprimorar e tornar maior . Poesia ciencias e artes foram por eles desenvolvidas. Haverá tempo em que esses povos terao sua valor reconhecido pelo Ocidente.
    Data venia, o senhor está ótimo meu caro jovem amigo viajante. Perfeitamente integrado ao ambiente,
    E que interessante essa inclusão de Paulo entre os apóstolos e a confusao com Lucas e cia,. A bem da verdade que transparece nos escritos, nem Lucas nem Paulo foram apóstolos da 1a hora. Nao estavam entre os doze. Lucas fora discípulo de Paulo.
    Parabéns, meu jovem. Linda cidade. Apreciei conhece= la. Obrigada.

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