Suécia

Östersund, Suécia: Rumo ao norte do país no inverno

Passado o Natal, o inverno na Suécia normalmente se instala. Se os dias aqui já não ficam mais tão curtos, o frio por outro lado é maior. Estes meses, com a mudança climática global cada vez mais evidente, já não foi bem assim — ainda estamos com temperaturas outonais.

Eu resolvi visitar o norte semi-polar do país, e tomei um trem.


Prólogo: Luminosidade e temperatura não se acompanham

Ao contrário do que se comumente acredita, pouco neva na Europa durante o outono (23 set a 22 dez no hemisfério norte). Imaginamos na Escandinávia tudo sempre gelado, mas a realidade é outra. O frio só chega depois. No outono, a questão é que os dias ficam curtos, e a luminosidade é baixa (vide o meu post em Copenhague no Natal). Em Estocolmo, a capital sueca, ao começo de dezembro já se está com o raiar do dia às 8h e o anoitecer às 15h. 

Vai amanhecendo cada vez mais tarde e escurecendo cada vez cedo — até o Natal. A festa é o ponto de inflexão. A partir do dia 25 de dezembro, os dias passam a ficar mais longos. Daí essa data ser celebrada desde tempos imemoriais, muito antes de estar associada ao nascimento de Cristo. (Na primavera será o oposto: amanhecer às 4h e só escurece perto da meia-noite.)

O raiar do dia sobre uma paisagem de pinheiros sob a neve de janeiro, pouco ao norte de Estocolmo, às 9 da manhã.

Aos curiosos, tudo isso se deve à mudança de inclinação no eixo da Terra ao longo do ano, durante seu movimento de translação ao redor do sol. É o que causa as estações do ano com suas diferenças de temperaturas, assim como a diferença de luminosidade, sempre afetando mais os pólos que a zona tropical. (Sorry, terraplanistas.)

Peguei um Ita no Norte

Foi aí que eu me dirigi a Östersund, cidade a mais de 500 Km norte de Estocolmo. Meu destino final não seria outro se não o original Hotel de Gelo (de fato feito de gelo) no extremo norte da Suécia. Indo por terra, eu levaria uns dias para chegar até lá, parando e conhecendo as distantes cidades setentrionais da Suécia pelo caminho.

O Peguei um Ita no norte, que ficou mais popularizado com o samba-enredo campeão do Salgueiro (do refrão “Explode Coração…”), vem de uma canção de Dorival Caymmi, de 1945, após tomar uma das embarcações de cabotagem entre norte e sul do Brasil. Todas tinham nomes indígenas iniciados com Ita (Itapé, Itanajé…).

Na canção, Caymmi pegou “um ita no norte” e foi “pro rio morar”. Eu optei por um trem no norte, para ir para mais norte ainda. 

Aventuras em estrada de ferro rumo ao norte. A Companhia Ferroviária Sueca (SJ) pode não ter grandes luxos (e às vezes falhar na pontualidade), mas funciona relativamente bem e é confortável.
Condutoras. Vagão-restaurante é de lei na maioria dos trens suecos, e — como manda a louvável tradição nórdica — café é infinito, “free refill”. Você compra uma vez e pode recarregar tanto quanto aguentar quiser.
Paisagem invernal na Suécia em janeiro. (Parece Nárnia ainda nos tempos da Feiticeira Branca.)

Há trens noturnos onde você viaja deitado, mas por nada neste mundo eu desperdiçaria a chance de ver as paisagens nevadas viajando de dia. Ademais, eu amo viagem de trem. Adoro sentar-me ali na poltrona acompanhado de um livro e um café, vendo a paisagem mudar ao meu redor.

Vistas do trem, as árvores boreais cobertas de neve.
Igreja coberta de neve num vilarejo do interior.
Pôr-do-sol (às 3h da tarde) às margens do Lago Storsjön, no meio da Suécia. Estamos chegando a Östersund.

Se a montanha não vai a Maomé…

Se aqui o inverno e seu frio realmente normalmente só vêm mais tarde (se vierem), eu iria buscá-los mais ao norte. Estávamos aos -6ºC em Östersund. Sensação térmica de um pouco menos, devido ao vento que soprava o lago. 

A pedra rúnica de Frösö, a mais ao norte que há. Ela data de 1030-1050. Esses riscos no arredor da rocha não são desenhinhos, são palavras na escrita nórdica antiga.

Östersund, nesta região sueca de Jämtland, é uma modesta cidade de 50 mil pessoas, mas ainda grandinha se comparada às que eu veria mais ao norte. Ela data do século XVIII, portanto não há (quase) nada Viking aqui. A exceção é a pedra rúnica em pé mais ao norte que há, a runa de Frösö.

Há uma ilha no lago dedicada ao deus nórdico Freyr desde a antiguidade, daí o seu nome (Frösön) e o da runa. Ela data de algum ano entre 1030-1050.

Essa borda da pedra não se trata de decoração, mas de informação na escrita nórdica antiga. Talvez para a surpresa de alguns, ela diz o seguinte: 

Austmaðr, filho de Guðfastr, teve esta pedra levantada e esta ponte construída e cristianizou Jämtland. Ásbjörn construiu a ponte. Trjónn e Steinn cunharam estas runas.

À altura do ano 1000 d.C. os chefes Vikings já haviam se convertido, “meus caros” (como sempre terminava as frases minha portuguesa professora de filosofia há um tempo atrás, com seus óculos na mão). Isso desde Harald Bluetooth em 975 — esse que dá nome à conexão sem-fio entre aparelhos, daí o símbolo ser uma runa, por ele ter unido tribos diferentes. Muito sincretismo se manteve, como ainda hoje em certa medida, mas os líderes já eram (pelo menos nominalmente) mui cristãos.

Os escandinavos hoje são muito mais pacíficos que outrora. Garotas chegando aqui para esquiar.
O tempo passou, a ferrovia no século XIX chegou, e muito depois cheguei eu.
Em Östersund, enrolado, naquele precoce fim de tarde com o sol claro sobre a estação.

O sol nestas altas latitudes parece nunca ganhar os tons alaranjados que conhecemos nos trópicos, ou mesmo nas tardes do Mediterrâneo.  Sua luz aqui é sempre esse amarelo claro, quase branco.

Eu descansaria aqui uma noite antes de seguir ainda mais ao norte no dia seguinte. Rumei ao hotel e busquei aproveitar o resto que havia de luz solar.

Östersund tem poucas ruas, como talvez você imagine. É, no entanto, aconchegante à sua pequena maneira, com vias e árvores que ainda seguiam decoradas embora o Natal já tivesse passado.

Singela rua no centro de Östersund, com luzes e decoração de Natal.
Praça ao entardecer, e um pinheiro. (As árvores de Natal aqui são de verdade.)
O casario de madeira sob o inverno.
Pessoas na rua.
Os últimos momentos de luz do sol, no que seria o meado da tarde.
A bela prefeitura de Östersund, nestas terras gélidas.

O mais pitoresco aqui é o lago, um grande corpo d’água de superfície maior que a cidade de Belo Horizonte.

Há também um parque tradicional na cidade, o Jämtli, que mostra como era a vida aqui em outras eras (tipo o Parque Skansen em Estocolmo, com casas originais de época). Mas no inverno ele tem horas reduzidas de funcionamento. Deixo a sugestão a alguém que porventura venha a estas terras no verão, ou mesmo em dezembro, quando há feirinhas de Natal.

Numa breve caminhada contra o vento, dirigi-me à margem do lago gelado. Uma vista pitoresca se fazia, com luzes finais do sol no céu. Cá na Terra, patos se congregavam bonitos, acolhidos quietos sobre o gelo enquanto o vento movimentava a água gélida quase sem fazer ruído. Eu me sentia um expedicionário — ou talvez alguém beyond the Wall em Game of Thrones.

As árvores totalmente desfolhadas completavam a paisagem. Como que tivessem feito um “câmbio-desligo”, deixavam-nos ali só com os patos. Pedras de gelo já se formavam conforme o inverno se instalava.

Vista para o Lago Storsjön no inverno em Östersund, Suécia.
Patos congregados tranquilamente, com o pôr-do-sol no horizonte.
Árvores desfolhadas, e o sol boreal.
Por alguma razão, eu acho essas luzes aqui no norte um tanto distintas. Como se as auroras e os crepúsculos ganhassem tonalidades algo diferentes aqui, sobretudo no inverno.

Este era só o começo desta minha expedição rumo ao norte.


Um breve epílogo

Após viver tantas experiências, eu sempre digo que o mundo real é bem mais inusitado que a ficção.

O vento ali à beira do lago estava mordaz; retirar as luvas para fotografar era um suplício. Os dedos ardiam feito brasa — uma brasa fria, mas vermelha que ia ficando. 

Retirei-me de volta ao centro da cidade, 10 minutos dali. Como estamos hoje num mundo globalizado, deparei-me com um saboroso restaurante indiano aqui em plena Östersund. Já se foram os tempos em que eu estaria fadado a comer puro peixe salgado em conserva aqui no inverno.

O único indiano em vista ficava ao caixa, um homem com ar de artista incompreendido. De lá ele monitorava as mesas, e eu só o vi sair para ir tomar o pagamento das contas. Umas moças brancas — suponho que suecas — serviam os clientes. 

A comida estava boa, e o restaurante está recomendado. Foi onde eu vi algo que nunca dantes havia encontrado na vida: cardápio com a foto do gerente em pose na capa. De um indiano em Östersund. Mairon pelo mundo do século XXI. As andanças continuam.

Restaurante Indisk Gård.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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