Suécia

Trens na Suécia e Luleå: Passeios quase polares no inverno

Eu sempre me fascinei com o Expresso Polar. Não necessariamente o filme de 2004, mas a noção de viajar de trem durante o inverno por áreas polares, ou quase polares. 

Acho que há algo romântico e mágico em estar dentro daquele grande veículo atravessando paisagens nevadas. Embora seja à Noruega que vão a maior parte dos turistas com esse interesse, aqui também a Suécia tem seu charme. 

Antes que me perguntem, reservar é a coisa mais fácil do mundo pela companhia estatal sueca SJ (no site sj.se, que tem versão em inglês). Você pode baixar o aplicativo deles também e carregar todos os seus bilhetes eletronicamente. Há bons vagões-restaurantes na maioria dos trens, e é tudo uma tranquilidade. Só reserve com antecedência de um mês ou mais para pegar os melhores preços.

Trem da SJ numa estação nevada no norte da Suécia, durante o inverno.
Eu acho um encanto, passar vendo esses pinheiros nevados do lado de fora.
O interior dos trens suecos é um sossego, e há bom espaço para as pernas.
Sim, é uma aventura invernal.
Eu chegava à remota cidade de Luleå, no meu caminho rumo ao Hotel de Gelo.

Após pernoitar na fria cidade de Östersund, com seu lago outrora dedicado ao deus nórdico Freyr, e passar na universitária cidade de Umeå, eu chegava à também universitária cidade de Luleå. Sim, você pode achar engraçados estes nomes das cidades suecas. 

Luleå fica ali, quase 1.000 Km a norte de Estocolmo.

E, sim, você também pode achar inusitado que haja cidades universitárias tão remotas. É que, segundo o bordão da Universidade de Tecnologia Luleå, “Grandes ideias crescem melhor abaixo de zero“.

Não sei se é verdade. Talvez algumas ideias.

Aqui já estamos na região sub-ártica da Suécia. Já é bem ao norte, 65ºN para ser exato. A essa latitude no hemisfério sul já estaríamos na ponta da Península Antártica, para além de Ushuaia e do fim da América do Sul. Mas, ao contrário do que alguns imaginam, não é sempre rigorosamente frio. No verão se tem aqui 20ºC.

Já no inverno…

-10ºC, rosto vermelho, e as pessoas a esquiar.
Um homem e sua criança indo às águas congeladas de Luleå, onde no inverno as pessoas praticam esqui.

Há vida no sub-ártico sueco.

E ela não é necessariamente como você imagina. Sim, faz bastante frio no inverno, isso você imaginou correto. Mas não ache que estamos numa comunidade esquimó.

Luleå tem até um centrinho aprazível, ainda que módico. Há prédios, shopping, ruas e restaurantes.

Olha, tem até gente andando de bicicleta. (Esse não é frouxo.)
Rua comercial com uma loja H&M ali.
Árvore de Natal no meio da rua. (Não me perguntem o que fazem com ela em outras épocas do ano. Como não dá para tirar e pôr, suponho que ela esteja ali fazendo exposição da sua figura o ano inteiro.)
Está vendo só? Este é um hotel.
Prédio de um banco, inaugurado em 1902.

Desde a chegada a ferrovia ao norte da Suécia no século XIX, estas vilas e cidadezinhas não são mais tão remotas assim. Verdade se diga, aqui fica um dos maiores centros siderúrgicos da Suécia — grande exportadora de aço —, assim como um porto e também a sede da força aérea, de quem o Brasil adquiriu os caças militares recentemente. Talvez certas ideias germinem bem abaixo de zero.

Noutra nota, é também destas bandas — um pouquinho mais ao sul de Luleå — que provém o queijo mais bem quisto da Suécia, o västerbotten. Procurem-no pelos supermercados de qualquer cidade sueca se vierem ao país e não se arrependerão. (O nome se refere ao leste do Golfo de Bótnia, a ponta norte do Mar Báltico onde a Suécia e a Finlândia têm sua fronteira terrestre. Veja no mapa acima.)

Há também uma igreja de época, neogótica de 1893, que contudo não pude admirar por dentro porque estava fechada.
Outras casas de época. Imagina como deve ser gostoso estar quentinho ali dentro?
Mas como eu não gosto de mentira, nem de meias-verdades, digo que a maior parte das ruas de Luleå é assim. Deram-me a impressão de que morar aqui deve ser quase um ascetismo.
As pessoas, contudo, se distraem, e até passeiam com seus cachorros. (Não me pergunte o que é essa geringonça com cara de posto de observação aí. Acho que é exatamente isso, para observar os banhistas quando tudo isso está líquido no verão. Isto aqui é uma reentrância de mar pelo continente.)
Tudo congela aqui neste pedaço de mar na costa de Luleå. As pessoas saem a passear e a andar de esqui. Esta é a Isbanan, ou estrada de gelo.

Mas o melhor mesmo de se viajar pela Suécia é que você sempre encontra um restaurante tailandês, ainda que seja numa remota cidade de 30 mil hab à beira do Círculo Polar Ártico.

Agradeçamos a cupido por unir tantas mulheres tailandesas aos homens suecos. É um fenômeno que ainda não foi suficientemente estudado, esse da crescente união de mulheres asiáticas com homens ocidentais. (Já ouvi de tudo, desde conversas sobre doçura, submissão, que as orientais seriam mais fogosas que as europeias, ou — da parte delas — que os homens ocidentais as tratam melhor.)

O que eu sei é que foi em Luleå que encontrei um dos melhores restaurantes tailandeses que já conheci na vida. (E olhe que eu já fui à Tailândia.) Certamente mérito de alguém divinamente hábil na cozinha. Passei o elogio à também asiática garçonete, que ficou lisonjeada.

Olha que lugar aconchegante. (Não preciso indicar o nome deste restaurante tailandês, porque certamente é o único da cidade.)
Coisa divinamente bem-temperada. A globalização pode ter seus reveses, sobretudo quando se abandona a cultura local por uma indústria de massa sem personalidade. Mas intercâmbios culturais genuínos eu respeito.
Quando saímos, caía a neve na noite de Luleå.
Árvore de Natal iluminada e a neve.

Se vier no verão, visite a antiga aldeia paroquial de Gammelstad. Eu, neste inverno, empolgado com a neve e aquecido pelo temperado caldo tailandês, chegaria finalmente ao original Hotel de Gelo no dia seguinte.

Na manhã seguinte, pronto para zarpar rumo ao norte.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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