Inglaterra

O Museu Britânico de Londres em 20 fotos

O Museu Britânico em Londres tem uma das coleções mais ricas do mundo de objetos históricos. A grande maioria desses vieram de povos antigos, como os gregos, persas (do atual Irã), sumérios e outros. O Museu se imbróglia com frequência com aqueles países, como Egito e Grécia, que embora tenham mudado muito de lá pra cá querem seu legado de volta.

O Museu argumenta que preserva (e expõe) os artefatos para o bem da humanidade em geral. Fique do lado que quiser do debate. O mérito de que mais gosto do museu é que ele é completamente gratuito — como são os demais museus públicos em Londres. Por outro lado, trata-se claramente do grande baú de tesouros apanhados mundo afora durante o auge do imperialismo britânico. 

Eu já visitei o Museu duas vezes, e naturalmente isso não é suficiente para conhecer suas 8 milhões de peças. Cada vez que você volta, vê mais. É até melhor assim, ir deglutindo aos poucos.

Abaixo vão 20 fotos que o caracterizam, com alguns dos seus principais objetos — aqueles que, eu diria, você não pode deixar de ver. A seleção, como fiz com outros museus, é também subjetiva. Tenho certeza de que outras pessoas teriam outros objetos a apontar. Vai também do que mais me chamou a atenção. 

Deliciem-se.


1. O Museu Britânico. Criado em 1753 de uma coleção pessoal, ele expandiu-se vertiginosamente com o imperialismo inglês dos séculos XIX e XX. Artefatos históricos são sua especialidade.
2. O “falso afresco” egípcio Lagoa no Jardim, da Tumba de Nebamun, 1350 a.C. O nome se refere à falsa semelhança com os afrescos italianos, tamanha a vivacidade e cor desta ilustração egípcia milenar. Nebamun foi um burocrata enterrado na antiga Tebas, atual Luxor. Veio para cá após ser redescoberta no século XIX. (Aquela planta, a quem não reconhece, é a usada para fazer papiro.)
3. A Pedra de Roseta. Esta famosa rocha, inscrita em 196 a.C., apresenta um decreto do Faraó Ptolomeu V na forma hieroglífica, no egípcio demótico, e em grego. Ela foi portanto a chave para decifrar os hieróglifos egípcios na modernidade. Foi descoberta em 1799 em Roseta, uma cidade na foz do Nilo, daí seu nome.
4. O Cilindro de Ciro. Este objeto de argila do séc VI a.C. é um marco da civilização. Produto dos antigos persas, no período do rei Ciro, ele trata da conquista sobre a Babilônia e do respeito aos governados. Alguns o têm como a mais antiga Carta de Direitos Humanos e símbolo do respeito à diversidade de culturas e tolerância religiosa.
5. Cabeça de bronze de Ifé. Arte iorubá do séc XIV, descoberta em Ifé, na Nigéria, em 1938. Mostra as formas artísticas da África Ocidental medieval antes da chegada dos europeus. Em 35cm, parece mostrar a face de algum monarca da época. (O iorubá continua a ser a principal língua da Nigéria, a quem não sabe. Com cerca de 200 milhões de habitantes, é o país mais populoso da África.)
6. Serpente de duas cabeças. Alguns acreditam ela ter sido um dos presentes dados pelo imperador azteca Montezuma ao conquistador espanhol Hernán Cortés em 1519/1520. Feita de cedro recoberto com ladrilhos de turquesa, tem o símbolo serpentino da deidade mesoamericana Quetzalcóatl. As cobras, por trocarem de pele, simbolizavam o renascimento.
7. Portal com figuras assírias. Os lamassu, essas figuras divinas que misturam leão (ou touro), asas, e cabeças humanas eram guardiães protetores na antiga Suméria. Estas são do século VIII a.C. e vieram de Nimrud ou Nínive, no atual Iraque. São de uma majestade impressionante.
8. O Estandarte de Ur, uma peça de 2600 a.C., da antiga cidade suméria de Ur, na Mesopotâmia, atual Iraque. De um lado, mostra cenas de guerra; do outro, cenas de paz. Feita em madeira, com figuras em concha, pedra calcária, e lápis lazuli.
9. A Galeria do Iluminismo. A partir do século XVII, os europeus ficavam cada vez mais fascinados em redescobrir os mistérios e legado dos povos antigos. Aqui, uma nobre biblioteca de época dentro do Museu.
10. As Placas de Vindolanda. Foi eleita a peça favorita dos britânicos no Museu, por razões nacionais: tratam-se de cartas manuscritas na madeira por romanos que viviam aqui nas ilhas britânicas. Vindolanda foi um forte romano a sul da Muralha de Adriano (construída em 125 d.C. no atual norte da Inglaterra para separar as terras “civilizadas”, conquistadas pelos romanos, das áreas dos bárbaros mais ao norte. Foi a inspiração para a muralha de Game of Thrones.) As cartas tratam de coisas simples, como a de um escravo sobre as preparações para a Saturnália em dezembro, ou a da romana Claudia Severa convidando sua amiga Sulpicia Lepidina a uma festa de aniversário.
11. As Peças de Xadrez de Lewis. Esta é outra favorita dos britânicos, uma coleção de jogo de xadrez do século XII, com peças talhadas em osso de morsa. Acredita-se terem sido feitas por nórdicos já cristianizados, possivelmente em Trondheim, Noruega. Seu nome deriva da Baía de Lewis, Escócia, onde foram achadas. As peças são notáveis pelos detalhes das expressões das peças.
12. Figuras funerárias da Dinastia Tang, China. Peças decoradas de cerâmica que provêm da tumba do general Liu Tingxun, falecido em 728 d.C. No período da Dinastia Tang (618 e 907 d.C.), os chineses acreditavam que as figuras retratadas nas peças de cerâmica acompanhariam o morto no além. Aqui, guardiães. São trabalhos com grande fineza de detalhes.
13. Cágado de jade. Uma mostra da riqueza material dos indianos antes de serem colonizados e pilhados pelos britânicos. Peça de jade maciça — e em tamanho real — de um cágado indiano, da corte do imperador mogol Jahangir (1569-1627). (A Dinastia Mogol, não confundir com mongol, governou o norte da Índia antes da invasão do britânicos. Mais sobre ela neste post.)
14. Um dos braceletes aquemênidas de grifos dourados, Tesouro do Oxus. Os aquemênidas foram os persas antigos, dos idos de Ciro e Dario, que conquistaram a Ásia Central até a bacia do caudaloso Rio Oxus, que mostrei recentemente na minha viagem ao Uzbequistão. Fina joia com representação dessas figuras mitológicas que misturam leão e águia. (Imagine a elegância de alguém usando isso?)
15. Tábua do Dilúvio, em escrita cuneiforme. Não, não a hebraica, mas uma ainda mais antiga — onde o conto de Noé dos judeus possivelmente foi inspirado. Este é um fragmento com parte do épico Gilgamesh, dos antigos sumérios, o trecho onde Utnapishtim avisado pelos deuses de um grande dilúvio, constrói uma arca e se salva com seus parentes, animais, e artesãos de toda sorte. O clássico data de 1.800 a.C. (mais antigo portanto que o Velho Testamento). A tábua pertenceu à coleção do rei assírio Assurbanípal (690-627 a.C.), no seu palácio em Nínive, no atual Iraque.
16. Esculturas de mármore do Parthenon. Eis as peças mais controversas de todo o Museu Britânico, aqui trazidas pelo infame Lord Elgin, que as filou do célebre Parthenon em Atenas no princípio do século XIX. (Meu quase-xará Lord Byron, à época, classificou o ato como vandalismo e ladroagem.) A Grécia até hoje demanda a repatriação das peças. Há todo um hall; estas na foto são uma pequena parte.
17. Hoa Hakananai’a (1000-1600 d.C.). Um gigante moai da Ilha de Páscoa (Rapa Nui no idioma local polinésio desta ilha do Oceano pacífico que politicamente pertence ao Chile). Arte em lava vulcânica emblemática daquele povo, ela é outra peça controversa: os nativos a querem de volta. “Isso não é uma pedra“, disse em 2019 o presidente do Conselho de Anciãos de Rapa Nui, “Ela incorpora o espírito do nosso ancestral, quase como um avô.” (Você pode ler a matéria em inglês sobre isso aqui.)
18. O Jogo Real de Ur. Recente, agora de 2600 a.C., comum na antiga cidade-estado suméria de Ur e por todo o Oriente Médio na Antiguidade. Consistia em jogar dados, andar casas com suas peças, e chegar ao outro lado do tabuleiro antes do adversário. (Inovamos pouco de lá pra cá, nos últimos 4000 anos.)
19. Relevo da caça aos leões de Assurbanípal (645-635 a.C.). Sou contra a caça esportiva, mas naquele tempo ao menos havia animais em grande número — inclusive leões na Ásia, majestosos animais hoje limitados à África, que permanecem no oriente apenas como folclore e legado cultural. Assurbanípal foi o último dos grandes reis da Assíria, do século VII a.C. Os relevos estavam no seu palácio em Nínive, atual norte do Iraque.
20. Busto de Ramsés II. Em 7.5 toneladas de granito, uma imagem de 2.67m de um dos mais famosos faraós do Egito Antigo. Estima-se que tenha sido esculpida em 1270 a.C. Ramsés II reinou de 1297-1213 a.C. (Se você gosta de antiguidades egípcias, veja os posts da visita ao Egito.)

E você, qual a sua peça favorita?

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “O Museu Britânico de Londres em 20 fotos

  1. Sem palavras para descrever a emoção de ver essas belas e significativas peças nesse magnifico museu. Maravilhosas. Com certeza ha mesmo muito mais a ver. Adoro historia da arte . Maravilhosas demonstrações de beleza arte e cultura.
    Em que pese a apropriação indébita que de ha muito ja deveria ter sido devolvida aos seus legítimos donos, não se pode deixar de apreciar as magnificas peças.
    Gostei de tudo porem como adoro a cultura grega e a egipcia, ficarei com o busto de Ramsés II, o falso afresco da tumba de Nebamun e as peças furtadas do Párthenon.
    Grande abraço e parabéns pela postagem. magnifica.

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