Laos

Luang Prabang, Laos: Das mais belas cidades do Sudeste Asiático

~ Parte 1 – O Céu ~

Poucas cidades que eu já visitei no mundo são tão pitorescas quanto Luang Prabang, a antiga capital do Laos.

Às margens do Rio Mekong, bem no interior de colinas verdes deste país do Sudeste Asiático, temos fileiras de decorados e reluzentes templos budistas, um mais belo que o outro.

Seu nome significa “Imagem do Buda Real“, que está para o Laos como a imagem do Senhor do Bonfim está para a Bahia. Em outras palavras, é uma tradicional imagem sacra de grande reverência por parte da população e simbolismo histórico-cultural.

O Buda Real (Phra Bang) do Laos, imagem sacra de mais de mil anos e tida como o paládio do país.

Essa é uma imagem específica, fabricada no Sri Lanka no primeiro milênio d.C. e trazida à cidade (então chamada Muang Sua) em 1359. 

Ela é tida como o paládio do Laos. Como assim o “paládio”? É como se fosse o padroeiro, mas algo mais forte que isso.

O nome “paládio” vem da Grécia Antiga, quando algumas cidades protegidas por Palas Athena tinham consigo uma imagem da deusa como sua âncora de proteção. Dizia-se que a cidade não tombava enquanto a imagem permanecesse intacta.

Na história da Guerra de Tróia, por exemplo, o deus Apolo profetizara que a cidade não cairia enquanto seu paládio (uma imagem de Athena) permanecesse dentro das muralhas. (Na história, Odisseu e Diomedes carregam embora a estátua, permitindo assim a conquista de Tróia pelos gregos.) 

A palavra paládio daí viraria nome de jornal, teatro, ou qualquer entidade que (imodestamente) se assuma como alma-guardiã de um lugar.

A imagem tem o Buda fazendo o abhayamudra, o gesto (ou mudra, símbolo de mão) da palma aberta voltada para a frente, que é o mudra da dissipação do medo. Cada um simboliza uma coisa.

Budas em posturas diversas dentro do Wat May Suwannapumaham, templo de 1780 em Luang Prabang.

(Deixa eu contar um segredo pra vocês: foi de trocas culturais com a Ásia nos primeiros séculos d.C. que o Cristianismo pegou a ideia de retratar Jesus também fazendo símbolos com a mão. Alguns historiadores vão mais longe e sugerem que Jesus teria mesmo ido à Índia e conhecido o budismo durante seus anos de juventude não-abordados na Bíblia. Teria Jesus sido um mochileiro avant la lettre?)

A imagem chegou a ser roubada duas vezes pelos tailandeses nos séculos XVIII e XIX, mas foi trazida de volta por eles próprios após se arrependerem dos feitos. Dizem que começou a dar azar e causar muitos infortúnios pela Tailândia, aí eles a retornaram ao Laos. (De memória curta — que vocês podem ver não ser exclusividade dos brasileiros — fizeram-no duas vezes com o mesmo resultado e culminando no retorno.)

A imagem certamente não preveniu a dominação do Laos pelos franceses a partir de 1887, nem sua devastação sob os bombardeiros dos Estados Unidos quando a Guerra do Vietnã se espalhou pra cá (1962-1975). Seja qual for a leitura que você faça, todavia, do sociológico ao metafísico, a nação apesar dos trancos e barrancos segue em pé. 

No interior de um templo em Luang Prabang.

Luang Prabang já desde 1975 não é a capital, quando os comunistas vitoriosos sobre os EUA transferiram o governo — agora não mais monárquico, mas republicano, embora ditatorial — para Vientiane. Luang Prabang porém segue sendo a capital espiritual, histórica e cultural do Laos. Suas jeitosas ruazinhas preservam um ar quieto de cidade do interior.

Luang Prabang vista do alto, com seu aspecto mesmo de cidade do interior. É a capital histórica do Laos.

Suas palmeiras não negam, nem sua geografia: estamos aqui naquele clima quentinho fresco. Você nem sua, nem passa frio. Os dias são luminosamente calorosos e as noites e madrugadas solicitam uma jaqueta. Como no interior.

Na rua principal da cidade num fim de manhã.

Bancos onde se sentar, arbustos na calçada, e muitos templos margeando a rua com a característica arquitetura laociana — que tem suas leves distinções da vizinha tailandesa.

Embora esta seja hoje uma cidade turística, você não sente aquele peso de bafafá como em outros lugares. Ao menos não durante o dia.

Devidamente vestido com os ombros e joelhos cobertos para poder entrar nos templos, você pode dar uma agradável volta pela extensão de 1-2 Km destas rua centrais.

Ali estão os templos principais e mais belos da cidade, que eu mostro abaixo.

Templo Wat May Suwannapumaham, de 1780, com sua intrincada arquitetura. As cabeças de dragão representam poderosos espíritos guardiães. Resultam do sincretismo daqui, que facilmente mistura budismo com outros traços religiosos tradicionais.
A varanda do templo com seus detalhes cor de ouro (que, claro, não é ouro de verdade).
A frente, com gravuras alto-relevo de histórias budistas ou da região talhadas.
Vista para o interior do templo Wat May Suwannapumaham.
O altar com muitos Budas em várias posturas.
Por detrás do altar. Ali de pé você vê um Buda fazer o abhayamudra, o gesto da dissipação do medo. E mais perto aqui, a estátua escura, o Buda fazendo o mudra bhumisparsha, com a mão direita sobre a perna a apontar para baixo, para a terra, a testemunha da sua iluminação.
No pátio externo do templo, com algumas imagens e dizeres ali atrás. “Busque com sinceridade. “Um idealista é uma pessoa que ajuda as outras pessoas a serem prósperas.
E, por detrás da bougainville, o templo do antigo Palácio Real.
Visto de lado.

Como cheguei a comentar antes, o Laos chegou a ser um reino unificado com capital aqui durante a Idade Média, mas que depois se partiu em três e acabou conquistado pelos franceses. 

Em 1904, os franceses acharam bom reinstalar uma família real para servir de fachada e ajudar a domar a população. Construíram então um prédio moderno a servir de palácio. Como o Laos aboliu sua monarquia em 1975, esse é hoje um museu com peças históricas, inclusa aí a imagem do Buda Real (Phra Bang) a que me referi no início do post. Eles não permitem fotografia no interior, mas vale a visita.

O Museu do Palácio Real, em Luang Prabang.

Uma curiosidade é que a linhagem real laociana persiste — em Paris. Eu não resisto a perceber como fica “na cara” o subalternismo de certos governantes que, assim que depostos pelo povo, correm para se exilar na metrópole a quem serviam. A qual prontamente os acolhe, aviltando todo o discurso pró-democracia que gostam de adotar em público. (Os EUA aí competem com a França para saber quem abrigou o maior número de ditadores expelidos pelas nações que comandavam.)

O atual pretendente ao extinto trono do Laos, o senhor Soulivong Savang (nascido em 1963), volta e meia ensaia uns esforços internacionais para tentar reinstalar a monarquia no Laos, na esteira do respeito sacro mantido à monarquia na vizinha Tailândia. Não chegou a lugar nenhum ainda.

Os comunistas que governam o Laos, todavia, assim como aqueles do Vietnã, não se metem muito nas tradições religiosas da população. As duas coisas curiosamente convivem, budismo e comunismo por aqui.

Nesta ruazinha de interior, do centro histórico de Luang Prabang, com uma bandeira do Laos hasteada aqui.
Monges a passear. Você os vê em seus tradicionais robes laranja por toda parte.
Até uns carros de época você aqui encontra, como este Citroen francês de 1952.

Subindo novamente ao céu — digo, descendo mais adiante a rua, você encontra mais dos esplendorosos templos. 

Uma estupa budista entre os arbustos, um símbolo ancestral, presente também no hinduísmo, que significa a elevação rumo ao céu.
Aquele é o templo Wat Sensoukaram (ou “templo do patriarca”), construído em 1714.
Pátio com as estruturas em vermelho bordô e dourado do Wat Sensoukaram.
Visto de outro ângulo, com seus dragões de corrimão nas breves escadarias.
Mais adiante, com seus dragões verdes a reluzir sob o sol, talvez o mais belo dos templos de Luang Prabang, o Wat Xieng Thong (“Templo da Cidade Dourada”), completado em 1560.
Visto de baixo pra cima, com sua fronte decorada.
De longe, com as colinas verdes lá atrás. Entre nós aqui e as colinas lá, passa o Rio Mekong.
No fundo do pavilhão, uma simbólica árvore da vida.
Há vários pavilhões pequenos e grandes no Wat Xieng Thong. Aqui, Budas vários em diversas poses.
Entrada para o pavilhão principal.
Altar repleto de flores. (Essas flores amarelas e laranjas, que se tornaram popularíssimas na Índia e no Sudeste Asiático nos últimos séculos, são o nosso bom e velho cravo-de-defunto, chamada marigold em inglês. Como as pessoas hoje se alienaram da natureza e desaprenderam os nomes das plantas, os turistas ocidentais vêm aqui sem nem saber o que estão vendo: uma flor nativa das Américas.)
E, falando em Américas, essas palmeiras faziam eu me sentir em casa, neste país também tropical e bonito por natureza. E um pouco pelas mãos dos homens e mulheres também, como aqui este maravilhoso templo, ainda na área do Wat Xieng Thong.
Eu confesso que ficava quase hipnotizado com aquele brilhar verde do sol sob o céu azul e a arquitetura arrojada.
Porta talhada com uma figura feminina budista abraçando o animal. São talhos em madeira pintada de dourado.

Nas vizinhanças, ainda nesta descrição do “céu” em Luang Prabang, viam-se escolas primárias com as muitas crianças laocianas a brincar e escutar suas professoras. 

Crianças numa escola primária no centro de Luang Prabang. (O ensino antes era em francês, mas desde 1975 passou a ser na língua laociana. Eles, entretanto, ainda carecem de muitos materiais, já que é um país pobre.)

Como a vida trata de nos mostrar que riqueza e generosidade não são coisas correlatas, você pode assistir aos laocianos pobres ofertarem esmolas de comida aos monges mendicantes todas as manhãs. 

Digo de madrugada, antes do raiar do sol. Qualquer acomodação lhe indica o local e a hora. Turistas podem participar; eles só solicitam que não se tirem fotos com flash.

Ainda antes de amanhecer, monges passam na rua principal colhendo esmolas de comida.
As pessoas ali ofertando fazem orações e recebem bênçãos. É um ritual. Após as ofertas, você as vê ainda ali orando um tempo.

Não cheguei a participar, pois optei por assistir ao processo com atenção, e vi as senhoras com suas velas a por tantos de arroz cozido e outros alimentos nas tigelas dos monges que iam passando.

Fiz um pequeno vídeo abaixo com essa cerimônia matinal diária.

Você vê também alguns turistas ali ainda abrindo a boca de sono. Como eu não tenho dificuldade em acordar cedo, estava no pique e fui dali direto ao mercado conhecer um outro lado do Laos. Eu volto com isso no post seguinte, mostrando outros aspectos de Luang Prabang.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Luang Prabang, Laos: Das mais belas cidades do Sudeste Asiático

  1. Uuuuuuu. Que maravilha!… que é que é isso, pessoal… quanta beleza!… onde o senhor me encontrou tamanho conjunto de beleza numa cidade só, meu jovem amigo? Espetacular. Difícil de descrever tamanho esplendor e de escolher o templo mais bonito. Cada um de per si, vale um tesouro de tao belo. Que detalhes magníficos, que entalhes, que gosto soberbo nos tons e no colorido, nas formas e nas linhas, de todos os interiores e exteriores. Linda essa arquitetura. Um espetáculo. Belíssimas combinações de dourado com vermelhos, com amarelo, com azul, um verdadeiro primor. Amei. E que linda forma de contar histórias. Maravilhosas. Essa porta com entalhes dourados, graciosos e ricos, é uma maravilha. E o que dizer desse lindo céu azul, das flores belas dos jardins dos templos, e dessa magnifica e rica vegetação tropical. Uma festa para os olhos de quem ama a natureza e a cultura. Impressionante esta cidadezinha meio que perdida, em um pais tao pouco conhecido, de povo simples, pobre , mas de uma riqueza invejável de cultura e e manifestação religiosa. Parabéns pela escolha do lugar e pela linda postagem. Eia Ásia magnifica. Obrigada jovem viajante. Amei.

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