Laos

O povo no Laos: A “guerra secreta” e o centro UXO em Luang Prabang

~ Parte 3 – A Vida ~

Entre o Céu e a Terra, a vida. É assim que a cosmologia asiática ensina. Se no Ocidente as pessoas ainda têm dificuldade em compreender o “Deus é onipresente” das religiões abraâmicas e insistem em imaginá-lo como um senhor barbudo lá sentado, no Oriente a noção divina é muito mais universal e menos antropomórfica.

Desde antes de Confúcio e Lao-Tsé, já se pregava nestas partes da Ásia que a vida humana e tudo que existe se dá entre uma realidade material deste mundo e um “além” espiritual de forças que se conectam.

Sem me aprofundar aqui em teologia chinesa, que se mistura com o budismo nesta parte do Sudeste Asiático, ela serve para representar como vive o povo Lao entre sua devoção espiritualizada e suas necessidades materiais — aí inclusas a sua pobreza e penúria pós-bombardeio dos EUA (1962-1975).

O Laos é uma história de superação ainda em andamento.

UXO, a quem estiver aí curioso e a se perguntar, significa Unexploded Ordnance, traduzido normalmente como “munição não-detonada” em português. 

São milhões de bombas lançadas, ainda não-detonados e funcionais espalhadas pelos campos, matas e colinas no interior do Laos. Em média, 300 pessoas aqui ficam feridas todos os anos com esses artefatos, muitas delas grave ou fatalmente.

Comecemos um pouco por este pano de fundo, que você vê muito bem numa visita ao Centro UXO de Visitantes (UXO Visitor Centre) em Luang Prabang, antes de eu falar sobre como o povo no Laos tem se virado nos 30.

Esta visita ao centro UXO é uma coisa cívica — e humana, para vermos o que ocorre quando as pessoas abandonam a civilização e a humanidade.

Incontáveis restos de guerra lançados pelos EUA sobre o Laos durante a sua chamada “Guerra Secreta”, pois se sabia do combate contra o Vietnã, mas não também simultaneamente com o Laos nas fases finais do conflito (1962-1975). Isso se deveu à tentativa de evitar que Viet Congs transitassem aqui pelo vizinho, assim como de impedir a formação de um governo comunista oposicionista no Laos. (Não conseguiram.)
São milhões de bombas ainda perdidas porque cada cápsula dessas que vemos cair dos aviões bombardeiros contêm inúmeras dessas pelotas explosivas (às vezes aqui chamadas de “bombies”).

Se você vir no noticiário algo sobre “bombas de fragmentação” (cluster bombs) usadas na Síria ou em outras partes, saiba que se trata disso aí. Ficaram proibidas por lei internacional desde 2010 entre os mais de 120 países signatários da Convenção sobre Bombas de Fragmentação (Cluster Bombs Convention).

Porém, as que já foram lançadas continuam aí — e o Laos é o país mais contaminado por isso em todo o mundo —, e certos países continuam a fabricá-las e vendê-las a outros não-signatários. EUA e Reino Unido manufaturam estas bombas até hoje e as vendem, por exemplo, à Arábia Saudita, não-signatária, e que as usou recentemente contra os rebeldes no Iêmen em 2015.

À entrada do Centro UXO de Visitantes, em Luang Prabang.
O centro mostra passo a passo o trabalho que é localizar, isolar, e detonar cada uma dessas pelotas encontradas. Um trabalho caro e custoso para um país pobre e pouco assistido.

Há alguma assistência filantrópica internacional, mas muito limitada. E, é claro, ninguém responde legalmente pelo que fez.

Não são os 300 de Esparta, mas são todos os anos os 300 dos Laos de que poucos tomam conhecimento. “Michael, eles não ligam pra a gente“, teriam igualmente lhe dito se porventura o finado Michael Jackson tivesse vindo gravar seu clipe musical aqui em vez de no Brasil.

Queimaduras por acidentes com as munições não-explodidas. As crianças, às vezes inadvertidamente brincando com o que encontram, são das principais vítimas.
Agora comprem de volta as bombas“, diz a nota nesta barraca vendendo braceletes e outros utensílios feitos com o alumínio descascado das bombas lançadas aqui. No Mercado Noturno de Luang Prabang. (Que energia magnífica isso deve ter para você usar no braço.)

É duro, mas é preciso que se tome conhecimento de certas coisas. Eles, que já sofrem, não merecem a invisibilidade.

Você sai ali caminhando hoje por estes jardins tão esmerados, sob o clima tropical porém adequado com o frescor das colinas, e as vê no horizonte ainda verdes, bonitas embora proibitivas. (Não é lugar pra se sair andando e acampar, o Laos.)

Praça em Luang Prabang, com as colinas no horizonte e algumas bandeiras hasteadas. A bandeira do Laos é aquela azul e vermelha com um círculo branco no meio.
Monumento aqui perto ao finado presidente Souphanouvong (1909-1995), membro da família real laociana apelidado de “o Príncipe Vermelho”. Foi educado na Europa, com o Laos sob colonização francesa, dizem que falava 8 idiomas (inclusos aí latim e grego), e se tornou um líder da resistência do seu povo e apoiador de Ho Chi Minh aqui ao lado, no Vietnã. Liderou a expulsão dos franceses do Laos em 1953 e depois dos norte-americanos em 1975. Governou o Laos independente de 1975 a 1991.

O Laos hoje não é uma democracia, mas é soberano. Como a China e o Vietnã, tem um sistema político de partido único. Em verdade, nunca houve democracia nestes países — passaram de ditaduras estrangeiras a ditaduras nacionais. Economicamente, tem mudado muito, com taxas de crescimento anual acima dos 5-6% desde 1990.

As ruas de Luang Prabang fora do miolo histórico. Senhoras vendedoras à calçada, e caminhotes que fazem as vezes de táxi-lotação.
Os laocianos, como é típico do Sudeste Asiático, também adoram uma moto (e nem sempre usam capacete).
Uma coisa curiosa é a permanência dessas patisserias ocidentalizadas (de qualidade duvidosa), como aqui com estas tortas coloridas — e o cachorro ali deitado pra o povo pensar que ele está morto. Estava mui vivo.
Há também umas influências francesas até hoje na comida asiática daqui, como isso de peixe do Rio Mekong cozido com ervas provençais (provençal ali virou “proving sal”, mas abafa o caso.)
Aos curiosos para o lado das comidas, eis aqui um prato de peixe com molhos regionais e, é claro, do arroz grudadinho asiático.
Fica melhor com a pimenta moída tirada assim da vasilha plástica.
Vista para o pacato Rio Mekong enquanto almoçava, aqui neste interiorano Laos.

A pousada onde nos instalamos todo este tempo em Luang Prabang parecia uma casa de montanha, em madeira lustrosa e janelas que davam para as colinas, bem no centro.

Lá, Bill, um ágil rapaz laociano que dormia no trabalho — e cujo nome original nunca nos foi dado — fazia tudo. Ele lembrava um pouco o Mestre dos Magos, de Caverna do Dragão: ajudava você com algo e, antes que você lhe fizesse a segunda pergunta de esclarecimento, ele desaparecia e só reaparecia quando dava na telha. Era uma coisa meio misteriosa, Bill. 

Não sei a que etnia ele pertencia. Aqui no Laos, não há apenas o povo etnicamente Lao, mas várias outras etnias minoritárias com suas próprias línguas e tradições, como os Hmong e os Akha. 

Você pode aprender mais sobre essa diversidade de vida aqui do Laos no Centro de Artes Tradicionais & Etnologia (Traditional Arts & Ethnology Centre) em Luang Prabang. 

Os Hmong são uma minoria étnica (de 5 milhões de pessoas ao todo) espalhada através das fronteiras na China, no Vietnã, e no Laos. Falam seu próprio idioma e têm suas próprias tradições.
Já os Akha, um grupo menor de cerca de 400 mil pessoas, originam-se das áreas montanhosas fronteiriças entre Myanmar, a Tailândia, e o Laos. (Cheguei a mostrar meu encontro com alguns deles na minha viagem ao norte da Tailândia aqui.)
Adereços tradicionais de mulheres Akha.

Lugar culturalmente muito rico, esta região.

E assim segue o Laos, e assim seguia eu encerrando minha estadia por aqui e preparando-me para zarpar ao Camboja, o último a visitar destes países da antiga Indochina.

Eu deixo vocês por ora com um videozinho de música de rua feito durante o Mercado Noturno de Luang Prabang que mostrei no post anterior. Até o Camboja!

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “O povo no Laos: A “guerra secreta” e o centro UXO em Luang Prabang

  1. Nossa, meu jovem amigo viajante, é de cortar o coração, como diziam os antigos da minha família, essa realidade desse povo marcado, machucado, explorado, mas guerreiro, corajoso e ao mesmo tempo dócil e simples desse SE asiático e em particular ai do Laos aonde o senhor esteve.
    Muito triste ver a penúria, o abandono, as necessidades básicas afetadas, o ter que viver do que for possível, para sobreviver, e saber que quem perpetrou tamanho genocídio e provocou situação tao caótica e sub-humana nada sofreu nem ressarciu nenhum pais nem nenhum povo a quem agrediu. Triste realidade.
    E o pior, constatar que ainda se encontram sob ameaça de destruição, morte e mutilação com os restos que o agressor não se deu ao trabalho de retirar. Um horror!… Ou o mundo não tem conhecimento ou não esta nem ai . Difícil situação. Entretanto gostei da criatividade e da estratégia de devolução através do comercio de compra e venda dos artefatos já beneficiados.
    É… viajar é muito bom e dá para ver a vida como se dá na ” concretude da pratica” como gosta de dizer uma cientista da qual sou amiga.
    Pois é. Mas vale saber como vivem as pessoas nesses mundos mais afastados do Ocidente. E saber dessas historias que a Historia oficial não conta.
    Valeu jovem viajante.
    Apesar dos pesares, uma bela região e um povo que merece a admiração.

  2. Esqueci de falar que apesar de tudo eles ainda tem espirito criativo e bom gosto. Belos jardins e linda praça. Sao provas de que a esperança de tempos melhores ainda existe nos corações desse povo simpático e risonho.
    E não se pode esquecer essa natureza prodigiosa, as belas colinas, o céu azul, a vegetação tropical de um verde magnifico e esse belo, famoso e histórico rio Mekong. Emocionante vê-lo correr pelas terras do SE asiático. Ainda gostaria de vê-lo mostrar os não menos famosos Yang Tzê Kyang, o rio Azul, e o Hoang Ho, o rio Amarelo. Sao históricos também. Acho que ficam do lado da China.
    By the way, a comilança parece estar uma gostosura. Deu água na boca. Huuuuummmmmm

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